Morro do Moreno: Desde 1535
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4º Centenário do ES no Senado Federal

Jerônimo Monteiro

Discurso proferido pelo Dr. Jerônimo Monteiro no Senado Federal, em 22 de maio de 1935, em homenagem ao IV Centenário da Colonização do Espírito Santense.

"Ao subir hoje a esta Casa do Parlamento brasileiro, não era meu propósito ocupar a tribuna e a atenção preciosa do Senado Federal. Véspera, porém, de solene data para o Estado que represento, solene a ponto de deslocar meus passos para partilhar dos festejos daquele povo, não me caberia, não me sentiria bem, deixar de trazer à apreciação do Senado Federal a efeméride culminante de uma história de quatro séculos.

Rezam, de fato, os escritos, já se inteiraram 400 anos, naquele dia religioso, domingo do Espírito Santo, - 23 de maio de 1535 – aportavam a uma enseada magnífica, aos baixios do litoral pinturesco que forma hoje o pórtico da baía de Vitória, Vasco Coutinho e sua comitiva, algumas dezenas de homens, alguns fidalgos, alguns artistas, gente portuguesa. Entenderam surpreender um rio e o batizaram pelo dia, - rio do Espírito Santo. O nome que ficou cresceu, alastrou-se, envolveu o setor local, firmou-se; - é hoje o Estado do Espírito Santo.

Não fora, porem, desde os alvores daquele surgimento histórico, não fora sem lutas e sem revezes e, desde ali, a criação do Espírito Santo. Narram, ainda os autores: - selvagens ocupantes e molestados reagiram a flechadas com energia. Foi, de fato uma luta armada, a que não eram ausentes duas bocas de artilharia da época, que se batizou a primeira célula do povoamento civilizador do meu Estado.

Aquele lugarejo, que escolheu os primeiros elementos desbravadores de além-mar, cedeu, depois, lugar de primazia, na população que se formava a uma formosa ilha que lá se ergue, mais para o fundo da baía. Ocupada, por efeito ainda de luta com os aborígenes, ganhou ocasionalmente o nome do êxito da batalha. Tal é Vitória, a capital do Espírito Santo.

É aquelas primeiras orlas de terra, a antiga Vila do Espírito Santo, que, pela primeira vez, os povoadores aviam pisado, ressurge, hoje, na comemoração dos contemporâneos. E, assim, antiga de 400 anos a atual cidade de Vila Velha, que ficou marcando para as gerações seguintes os primórdios do povoamento daquele solo.

Se aqueles feitos relatados prenunciavam a formação forte e heróica da vida que ali se localizava, não os desmentiram os fatos sucessivos, em que a história consigna a intervenção decisiva e desassombrada da fibra capixaba. Ressaltam dos contatos vários com hostes estrangeiras, que tentaram entrada pelas enseadas oceânicas. A História guarda episódios excepcionais, em que o Espírito Santo, já sob o domínio de Portugal, sincronizou sempre pelo espírito de unificação territorial.

A História realça, ainda, à frente daqueles antepassados, o símbolo de uma conquista social que hoje empolga; o governo de uma mulher, D. Luíza Grinalda, que assumiu o poder por morte de Vasco Coutinho.

Outra heroína, não menos festejada em nossas capitais, Maria Ortiz, que a jato de água fervente, à falta de outra arma, repeliu, verdadeira guerra branca, audazes invasores holandeses.

Ao lado da conquista material o povo antigo do Espírito Santo ambientou também a catequese espiritual de seus gentios. Lá ficaram os nomes de Anchieta, Pedro Palácios e tantos outros, proeminente de tal forma aquela figura do antigo provincial dos jesuítas, que lhe guardou o nome o município mais perto beneficiado pelos seus passos evangelizadores.

Se por muitos característicos e fatalidades peculiares, o Espírito Santo compareceu sempre coerente, por todas as épocas e pelos os séculos que se sucederam, com a inspiração que parece ter conduzido os passos preparatórios da nacionalidade de hoje, não falhou,também, eficaz e condigna, a sua atuação nos instantes máximos, norteadores da evolução até ao Brasil que somos hoje.
Não falhou, repito, desde o crepitar de idéias e de propaganda cívica que, de hábito, se alastra a todo sentimento da coletividade, repontando aqui e acolá em inquietudes e anseios inequívocos de uma grande causa.

Tais foram os movimentos em que, também, se avantajou o Espírito Santo, pela independência pátria, pela abolição da escravidão, pela republicanização do pais.

Domingos Martins, espírito-santense, foi grande mártir nacional, pela independência da Pátria, na campanha de 1817; Afonso Cláudio, brilhante expressão da cultura capixaba, foi o primeiro governador daquele Estado no regime republicano.

Assim é, Sr. Presidente, que o Espírito Santo, unidade, por si, expressiva, dentro da Federação de hoje, vibrou sempre em eco, senão em precursor, de todas as emoções que perpassaram pela união brasileira.

Assim, pois todo o Brasil estará amanhã de olhos atentos para a data de nascimento daquela célula, historicamente expressiva.

Expressiva, digo, porque é mesmo uma síntese perfeita da Nação inteira. E, aqui, muito de propósito, não declaro os fatos menos remotos de sua existência. Contemporâneos que somos, portanto, na paisagem, seria, por isto mesmo, muito deturpada a perspectiva de quem desenhasse a história de tão perto.

Mas, pra frente, poderemos, talvez, fixar o olhar; o porvir nos mostra, ainda, aquela síntese magnífica que falava a pouco.

Síntese geograficamente, praias extensas, enseadas esperançosas, portos por aparelhar, uma faixa baixa, terrenos acidentados, um largo caudal serpenteando zonas menos exploradas, qual Amazonas por suas terras. Síntese economicamente, - grandes riquezas cafeeiras, policultura em embrião, zonas e climas vários, vegetação ao norte por explorar, sérios problemas viários, um parque industrial em formação, e, por fim, uma lenda – em torno da passagem da Itabira.

Síntese, ainda, espiritualmente, - pela formação mental dos seus filhos – aos postos de governo ascendem homens fortes, de honestidade inatacável, de intenção e capacidade privilegiadas; na esfera cultural ombreia-se com os destacados de outros centros; mesmas crenças, mesmos rumos, mesmas preocupações pátrias; na esfera social compreende-se o sentido da reforma universal, propagam-se a educação e a assistência, reduzem-se os desníveis que separam classes.

Assim é que, Sr. Presidente, em homenagem ao que o Espírito Santo representa, e que eu considero um símbolo expressivo da individualidade pátria, solicito a V. Exa. que consulte à Casa se aprova o lançamento em ata de um voto de congratulações pela data de amanhã e a apresentação das felicitações do Senado da República ao povo e ao Estado do Espírito Santo, dirigindo-se, para tanto, a Mesa desta Casa ao digno Sr. Governador Capitão Punaro Bley."

Fonte: INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO ESPÍRITO SANTO
Pesquisa de: Walter de Aguiar Filho

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