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A Arquitetura do Convento da Penha, pela voz de um técnico americano

3º B.C na Festa da Penha, 20 de abril de 1944

No final de 1946, esteve em visita ao Convento, o Dr. Robert C. Smith, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América do Norte. Veio devidamente credenciado pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Trata-se de um especializado em assuntos históricos, pesquisador emérito e profundo conhecedor internacional de relíquias históricas e arquitetônicas.

Por insistência minha, através de André Carloni, Delegado da Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no Espírito Santo, obtive do Dr. Smith as impressões que se seguem:

"O convento de Nossa Senhora da Penha de Vila Velha do Espírito Santo, além da beleza da incomparável situação, tem especial importância pelos três seguintes elementos.

Primeiro, o Alpendre, que, avançando, projeta ao espaço, por assim dizer, a sobriedade das linhas retas e formas sólidas das paredes da fachada. É um exemplo raríssimo de elemento outrora comum na arquitetura colonial do nordeste do Brasil. Abundam os alpendres nos quadros seiscentistas, que um holandês errante, Frans Post, pintou de igrejas de conventos e capelas de aldeias de índios, isoladas na verdura da várzea pernambucana. Velhas plantas e antigos desenhos mostram alpendres, agora desaparecidos, que possuíam algumas importantes igrejas sobreviventes na Bahia. O próprio Colégio dos Jesuítas, de Salvador, e o seminário de Belém, de Cachoeira, antigamente os tinham. Encontram-se, hoje em dia, alpendres do tipo clássico do da Penha só em capelas afastadas das ondas reformadoras dos centros metropolitanos, capelas de nomes bonitos, Nossa Senhora da Escada, de Salvador, Santo Antônio dos Velasques, da ilha de Itaparica, São José do Genipapo, no interior da Bahia. Firmemente construído de vigas largas e vetustas sobre toscas colunas brancas, e intimamente ligado com os copiares de residências coloniais e com as varandas superiores dos pátios franciscanos da mesma região, oferecendo promessa de abrigo contra chuva e sol e convite para conversa e demora, o alpendre implantava uma nota doméstica na arquitetura religiosa da época. Neste sentido, o exemplar da Penha do Espírito Santo é bem colocado servindo de acessão não à própria igreja, mas à residência dos padres que a ladeia.

Raro também, entre os monumentos coloniais do litoral brasileiro, que obedecem quase sem exceção ao padrão limitado da construção contemporânea portuguesa, é o caprichoso perfil dos telhados e da chaminé do Convento de Nossa Senhora da Penha. Evocam, para quem conhece a península ibérica, os vestígios árabes que ainda marcam os horizontes das velhas povoações andaluzas e alentejanas. No Brasil, quase não se conhece a fantasia destas linhas. Fora da Penha, apenas se encontram em algumas torres, miniaturas mouriscas, como a da Ajuda de Cachoeira na Bahia.

O terceiro elemento, bem mais pessoal do que os outros, talvez seja o mais importante. Refiro-me aos enfeites dum rococó popular que ornam a talha do interior da igreja do convento e os estuques do portal, que, verdadeira capa de missal antigo, encerra a longa escadaria que desce do monte. Artistas de Vitória, no século XVIII, variavam o conhecido vocabulário decorativo, que veio de Portugal, separando volutas, estrelas, flores e conchas. São os mesmos motivos que os mestres da Bahia e do Rio, mais cuidadosos com as fórmulas aprovadas de Lisboa, costumavam integrar em complicadas unidades de gosto francês. Isolavam-nos os artífices capixabas, nas suas composições reduzidas e simplificadas da Penha e do Rosário, para lhes dar um novo sentido, mais direto e mais expressivo do temperamento do povo, criando uma pitoresca variante de origem local, do que ainda trazem reminiscências os mastros pintados, nos adros de igrejas do Espírito Santo. Assim o Convento da Penha, dominando o seu penedo, como uma galeota as ondas do mar, não é somente uma preciosa relíquia de alguns característicos pouco comuns no que resta da arquitetura antiga brasileira. Tem também o cunho da sua própria personalidade. A expressão desta personalidade, uma vez reconhecida e admitida, justificará a inclusão da Penha, e de outros monumentos vizinhos, dentro da produção de uma escola de arquitetura regional. Falar-se-á, então, de um estilo do Espírito Santo, como já se pode falar das escolas coloniais da Bahia, de Pernambuco e de Minas Gerais."

Que meditem bem os que estudam a arquitetura de nossas construções antigas e históricas sobre o que diz o Dr. Robert C. Smith a quem tenho o prazer de conhecer pessoalmente e de testemunhar o quão profunda foram as suas impressões acerca do Convento da Penha. Aos estudiosos do futuro, o Espírito Santo oferece muita coisa antiga e, em matéria de igrejas e conventos, desde os Conventos da Penha e São Francisco, até as antiqüíssimas igrejas de Araçatiba, Nova Almeida, Anchieta, São Mateus, Muribeca, Santa Luzia, Vila Velha, ruínas de Belém, igreja e ruínas de Guarapari e outras.

 

Fonte: O Convento da Penha, um templo histórico, tradicional e famoso 1534 a 1951
Autor: Norbertino Bahiense
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2017

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