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A Chave do Futuro - Por: Fernando Achiamé

Chave da época do Império no Brasil

O conceito de patrimônio cultural ampliou-se bastante nos últimos anos, devido, em parte, ao fato de os homens terem aumentado em muito o conhecimento sobre si mesmo e sobre o mundo que os rodeia. Cresce entre nós a consciência de que a terra é finita e de que todos estamos num único barco. Patrimônio cultural, agora, abrange o meio ambiente, a técnica e os artefatos. Ou seja, o caju, o modo como se fabrica o vinho de caju e esta própria bebida.

É fácil justificar a natureza e o meio ambiente como pertencentes ao primeiro conjunto de elementos considerados como patrimônio cultural. Sem as pedras, depois de cortadas e aparelhadas, não poderíamos construir novos espaços. Sem o ferro e a madeira não faríamos navios que, por sua vez, necessitam do elemento líquido natural para navegar. Itaipu é, em certo sentido, um enorme templo erigido em honra a uma deusa – a água – suprema protagonista daquele agenciamento, porque fez a hidrelétrica funcionar e lhe dá sentido. Se a água move moinhos, a terra, no dizer de um poeta, “me acompanha aonde vou”. A terra fornece matrizes para a montagem de diversos cenários. O homem sempre esteve presente em cenários: nas montanhas onde mora, nas planícies onde planta, nos teatros de guerra, nas campanhas onde campeia, nos morros, praias e desertos. Somos irremediavelmente marcados pelo mundo físico que nos rodeia. Diferentes das paisagens pintadas, que devemos contemplar com certo distanciamento físico, as paisagens naturais impedem uma atitude diferenciada de nossa parte, por estarmos dentro delas. É certo que o barro vem do chão e do barro os seres humanos procedem e para ele retornam. Mas nesse meio tempo, utilizam-no para criar muitos artefatos. Sem o barro, como fazer as cidades, as xícaras, as cerâmicas e algumas peças de computador? Também através dos insetos e animais nos humanizamos. Uma borboleta não nos alimenta o corpo, mas, a contemplação de seu voo e a meditação sobre isso, nos tornam mais humanos. Do boi tudo se aproveita, até o berro, reproduzido em cantigas e aboios que compõem as criações sonoras dos vaqueiros. Destas carnes bovinas são feitos homens de barrigas satisfeitas para contemplar orquídeas, construir máquinas ou criar Monalisas. Também a atual capacidade dos humanos de destruir o meio ambiente faz com que a conservação ou o desaparecimento de elementos naturais sejam alternativas colocadas para uma opção humana. E, deste modo, carregada de valores culturais.

Existe outro grupo de elementos pertencentes ao patrimônio cultural e que, por sua natureza, são intangíveis. Compreendem os sabedores e quereres, muito do que vai por dentro de nossas cabeças. Saber fazer uma moqueca capixaba, tornar um amontoado de papéis em arquivo inteligível, esculpir pios de caça, conduzir grandes caminhões ou abstrair-se nas altas cogitações matemáticas ou filosóficas constituem nosso patrimônio. Você planeja o trânsito, eu curo doenças, eles jogam tênis e todos nós vivemos. De forma semelhante os quereres se traduzem através de gestos e atitudes específicas, socialmente determinadas. As maneiras que utilizamos hoje para namorar são diferentes das que os habitantes destas terras usavam há mil anos. Lá e cá bons e maus jogos há.

O outro grupo de elementos pertencentes ao patrimônio cultural engloba os artefatos. Vale dizer, o resultado da inter-relação entre a natureza e o saber fazer. Artefatos são todos os objetos criados pelo conhecimento humano: as pirâmides, os talheres, os foguetes, as igrejas, as imagens dentro destas igrejas, as pinturas sobre estas imagens, as tintas usadas nas pinturas, os ingredientes formadores das tintas. Não só objetos de exceção: a espada do herói, a caneta, a princesa, a bengala do literato. Ou produzidos para a elite: mobiliário de época, pratarias, comendas, baixelas. Não só construções de pedra e cal: fortalezas, igrejas, palácios. Mas também a panela de barro, a casinha de pau-a-pique, o monjolo, o conjunto habitacional, os livros didáticos, os discos de bossa nova. Ou objetos que possuem utilidade comunitária: a concha acústica, uma ladeira, um viaduto, um jardim, um embarcadouro. Ainda mais se estes objetos estiverem investidos de uma carga efetiva e sentimental comum a todos, como em geral acontece com registros fotográficos e sonoros dos aglomerados urbanos.

Tudo isso constitui nosso patrimônio cultural e sabemos que o Estado do Espírito Santo é, neste aspecto, muito rico. A palavra patrimônio tem como radical ‘pater’, nome latino. É uma herança, portanto, que deve ser dignificada, enriquecida e transmitida àqueles que vierem depois de nós.

De nada adianta preservar todo este imenso acervo cultural se não lhe damos uma utilidade e uma destinação socialmente adequadas. Não se pode ficar somente na instância do registro, da mera acumulação de dados. Há que criticá-los com metodologia correta e adequada. E isto só pode ser feito por profissionais da História.

Para o Espírito Santo quatro séculos e meio, contados a partir da colonização portuguesa, representam muito tempo em termos de quantidade. Mas são muito pouco em termos de qualidade: nossa História sempre foi marginal. Demais, nas mãos dos leigos ela vem sendo mal pesquisada, mal reconstituída, mal escrita, pessimamente divulgada, com as poucas exceções de sempre. Infelizmente, a História é desconsiderada em nosso país e em nosso Estado. Só encontra muita difusão aquela História oficiosa, para promover heróis e mitos, para ser papagaiada nos três graus de nosso ensino. E distorcer fatos, e omitir processos e encadeamentos e falsear situações de casualidade. História decaída, rolando na boca de todos que a utilizam com objetivos mesquinhos. Ao contrário do que ocorre com a História verdadeira, sempre torpedeada, pois liberta e confere sentido aos acontecimentos humanos. Porque nossa vida individual é breve, mas nossa História coletiva é longa, permanente.

Confundem-se muito História e memória. Esta é, ultimamente, bastante cultuada por ser estática e acumulativa. Aquela é, em geral, boicotada por possuir um caráter dinâmico e crítico, que costuma ser evitado. Não devemos nos restringir à jurisdição da memória, mas necessitamos ultrapassá-la e chegar à História. Em certo sentido a antiguidade já tinha caminhado esta questão. As filhas de Zeus e de Titânide Mnemósine (símbolo da memória) eram as musas, Deusas que presidiam as artes liberais. Uma das musas era chamada pelos gregos de Clio e, posteriormente, os romanos a escolheram para representar a História. A memória serve de base, origem e matriz para a História, criação posterior e mais elaborada.

Em toda a atuação dos departamentos, divisões, institutos, conselhos, arquivos, bibliotecas, museus, instituições públicas e privadas e pessoas que se dedicam à preservação do Patrimônio Cultural espírito-santense, a História – e não a memória – deveria ser enfatizada. E quantos profissionais da História existem nestes locais? Poucos, pouquíssimos e ilegais, de vez que essa profissão nem é reconhecida por lei, em nosso país corporativista. E, sem que os historiadores correlacionem e deem conta dos diversos componentes do Patrimônio Cultural, – que mantém entre si forte travejamento – a nossa História corre o risco de continuar a ser uma estória mal contada.

A memória é seletiva, pois, guardar tudo é o mesmo que nada guardar. Mas a História utiliza essa seleção e julga. Pertence, portanto, ao tempo em que é realizada. Cada época escreve sua História que, em constante refazer, é reescrita mais adiante utilizando os mesmos dados e documentos com outros métodos, outras ideologias e enfoques. Para um tempo novo haverá uma nova História. Só através dela é que abriremos o futuro.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 35, ano 1984
Autor: Fernando Achiamé
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2013 

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