Morro do Moreno: Desde 1535
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A Chegada de Frei Pedro Palácios

Prainha, início do século XX

Já existia a igreja do Rosário, em Vila Velha, quando, no outono de 1558, ali chegou um irmão leigo franciscano cuja fama de santidade se afirmara, desde a travessia marítima. Foi o primeiro franciscano que pisou no solo capixaba, onde os jesuítas exerciam o seu ministério, desde 1551.

Natural de Medina do Rio Seco, perto de Salamanca, província que se tornaria o ponto irradiante do culto de Nossa Senhora da Penha de França, Pedro Palácios, de certo, conhecia o ocorrido com Simon Vela. Seria o prosélito da Virgem, na Terra de Santa Cruz.

De origem nobre espanhola, trocara o solar dos Palácios pelo rigor monástico, no mosteiro de São José dos Reformados, em Castela. Passara daí para o de Arrábida, em Portugal, à instância de um parente próximo, talvez seu irmão, o Pe. Dr. Paulo Palácios, pregador e esmoler da Rainha Da. Catarina da Áustria, esposa de Dom João III. Serviu de enfermeiro, no Real Hospital de Lisboa, até viajar para o Brasil.

Nas Maravilhas da Penha, lemos que, no convento de Arrábida, o religioso tivera um sonho místico: — um anjo, descendo do Céu sobre uma porção de indivíduos quase a se afogarem em um pêgo, salvara-os, agarrando-os pelos cabelos. Ninguém pereceu. Jamais, porém Pedro Palácios, em sua humildade, pensara que aí estivesse o símbolo da missão que lhe confiaria a Providência. Mas, desembarcado na vilazinha do Espírito Santo, observou logo o desleixo, a sordidez e o vicio, denunciados pelas feições e aparência dos moradores. Recordou-se daquela visão alegórica. Dirigiu-se imediatamente à igreja do Rosário, a fim de agradecer a Deus tê-lo conduzido à gloriosa missão de, com a palavra e o exemplo, desvendar aquele povo o luminoso caminho da salvação. Isso porque, pior do que o paganismo do silvícola, se lhe deparava a desmoralização dos civilizados!

Confortado pelo fervor da prece, procurou logo um lugar onde colocasse um quadro da Virgem, que trouxera da Europa. Tratava-se de um painel de procedência castelhana (7), segundo o pintor Edson Mota, que o restaurou, em 1944.

Corre uma versão de que Pedro Palácios não conseguiu abrigo na Vila. Acolheu-se numa caverna, à pequena distância do lugar destinado pela Providência para o cenário do seu apostolado. Tal assertiva, porém, discorda dos registros históricos e da própria situação do lugar, perto da Vila e junto à praia, no ponto de desembarque. Fácil, de certo, seria encontrar-se o recém-chegado. A gruta, aliás, não comportava duas pessoas e dois animais — o religioso, um preto velho, um gato e um cão. É muito pequena.

De acordo com as pesquisas de Frei Basílio Rower, coordenadas em Páginas da História Franciscana no Brasil, os historiadores da Ordem localizam o ponto em que o religioso foi encontrado, no "Campinho, ao pé do penhasco" e "numa cabana feita de ramagens". Existia, aliás, nesse ponto, uma cabana, para o vigia da barra. E existia, também, uma gruta. Diz Jaboatão que "os moradores de Vila Velha tiveram o pensamento de subirem a um alto morro; e, na Serrania dos Penedos, que ali, ao pé da Vila, se levanta, sobre um empinado Monte e no mais alto deles, como simples Pomba, que para se segurar do caçador vai fazer o ninho, nas aberturas da Pedra, chamada pela voz do seu destino, acharam a Frei Pedro, em uma das daquela Penha mui descansado". (35. Novo Orbe Ser. Bras. L. Ante-Primeiro).

Descobriram-no, portanto, ali os moradores da Vila e convidaram-no a descer. Obsequiosos, como ainda o são os capixabas, se lhe ofereceram para o que desejasse. Indicando, porém, as palmeiras, no pico rochoso, Frei Pedro lhe disse que "já achara o que desejava".

Êmulo dos anacoretas enaltecidos pelos escritores sacros, viu, naquele encantado píncaro do Novo Mundo, um paraíso ideal para a meditação e o recolhimento, — a vida entre o Céu e a Terra. Melhor resolveria assim o plano da grande obra que lhe confiara a SS. Virgem. Isolou-se, por isso, dos moradores da Vila; embrenhou-se na espessura da floresta. Segundo Machado de Oliveira, foi o primeiro eremita do Brasil. Dividia o tempo, entre aquela morada silvestre e a gruta, na base do monte.

Índios e portugueses voltaram-se, então, extasiados, perante os seus ensinamentos, e, sugestionados ainda pela narrativa dos viajantes, sobre as suas virtudes. Interessaram-se pela singular personagem, envolta já, doravante, para eles, na auréola da santidade.

Tudo nos orienta à conclusão de que o religioso trazia o seu plano elaborado. Descobriu uma gruta, ao pé do monte, em Vila Velha. Enquanto não desenvolvesse o seu objetivo, poderia ali repousar, nas visitas ao povoado. Para o quadro da Virgem, construiu um nicho, ou passo, num bloco de granito, junto àquela morada dos povos primitivos. Nos dias chuvosos, refugiava-se na gruta, que se tornaria famosa, no futuro. Residia, porém, no alto do Monte.

 

Diz Gomes Neto que o pavilhão era forrado de tafetá carmesim e revestido de cortinas de oleado verde, protetoras das intempéries. Nas horas de prece ou de visitas, suspendiam-se, dos lados e na frente. À noite, ali se reuniam os prosélitos de Pedro Palácios, atentos às suas instruções.

Confirma-se, de certo, uma versão antiquíssima, descrita aliás, sob atraente forma literária, pelo autor acima referido. Pedro Palácios tivera, ainda na Europa, a seguinte notícia: — Existiam, no cimo de um monte, na Capitania do Espírito Santo, duas palmeiras, índices de um lugar incomparável para uma ermida de Nossa Senhora, palmeiras que, no dizer de Gomes Neto, "estavam expostas, de dia e de noite, ao ar violento, agitadas pelas asas da ventania, tremendo como o caniço nos brejos, mas, não cedendo o lugar que somente deveria pertencer a um altar". (8)

Deslumbrado pelo cenário que se lhe apresentava, na terra exuberante e linda, onde o luso implantara a força, contra o domínio natural do silvícola indefeso, rude, sincero e, por isso mesmo, revoltado contra o esbulho do seu direito, Pedro Palácios, parece, sentiu-se arrebatado pelo extraordinário projeto de erigir, naquele cimo escalvado, um trono do qual se irradiasse a proteção da Virgem sobre o novo rincão beijado pela ternura das vagas cerúleas do Atlântico.

E a lenda, sempre de par com a História, saturando-a de poesia, revela-nos o paralelismo dos marcos seguidos, na formação dos santuários de Nossa Senhora, nos penhascos do Brasil, de Portugal e outros países. No Rio de Janeiro, encontramos a Penha de Irajá; Lourdes tem a gruta de Massabielle, famosa pelas visões de Bernadette; Fátima, em Portugal, atrai peregrinos, ansiosos das bênçãos inefáveis dá Virgem; Salamanca já foi referida, em linhas atrás. No "Tratados da Terra e Gente do Brasil", Fernão Cardim escreve que a Ermida das Palmeiras lembra a de Nossa Senhora da Penha de Sintra, existente sobre uma rocha (9) . Por isso, concordamos com o autor de "As Maravilhas da Penha": — Perante as lendas do painel e da imagem, em vulto de Nossa Senhora da Penha, dos milagres e da edificação dos conventos pelos religiosos de Santo Antônio, na Espanha, em Portugal e nesta Capitania, parece ler-se uma só e mesma coisa, com a diferença das datas, sendo a da Espanha a mais antiga.

Prossigamos, porém, no registro lendário.

Pedro Palácios descia, diariamente, para o desempenho do seu apostolado, — difundir os ensinamentos da sua religião, batizar, confortar as almas, etc. Um dia, os habitantes de Vila Velha sentiram sua falta. Procuraram-no. Os latidos do cãozinho denunciaram sua presença, no monte, em plena floresta. Vencendo, então, o emaranhado agreste dos cipós, na espessura da ramagem, seus amigos subiram a encosta. Descobriram-no em sindicâncias. Afirmava que o painel de Nossa Senhora desaparecera. Finalmente, após acuradas pesquisas, foi o precioso registro localizado, entre as palmeiras, no cimo rochoso.

Reconduziram-no, cuidadosos, ao pavilhão, junto à gruta.

Temos, porém, aqui, apenas outra lenda.

Devoto fervoroso de São Francisco, Pedro Palácios construiu, numa clareira, ou chapada, ao pé do rochedo, a capelinha dedicada ao Santo Fundador da sua Ordem. Para esse novo oratório, levou o quadro de Nossa Senhora e a imagem do Pobrezinho de Assis. Com o tempo, o lugar recebeu o nome de Campinho e, agora, sofreu as conseqüências do progresso que o transformou em praça de automóveis, calçada de paralelepípedos, novidade que lhe tirou o encanto de sua verdura sempre nova, como pedestal destacado e belo de um rochedo incomparável.

E desse alcantil predestinado para as glórias da Virgem Poderosa, descia, diariamente, o piedoso varão, a fim de reunir o povo, junto ao nicho, onde colocava o painel, rezava o Terço e ensinava a doutrina cristã.

Vivia de esmolas. Dormia sobre uma tábua, na capelinha de São Francisco, repousando a cabeça nos degraus do altar. E, quando se ausentava desse retiro de prece e penitência, deixava, para os seus companheiros, o cão e o gatinho, tantos montículos de farinha quantos os dias de sua peregrinação apostólica. Obedeciam-lhe os animais e comiam uma ração diária, sendo a última, no regresso do asceta.

"Com as armas da: Cruz e um bordão de peregrino, percorreu grandes distâncias, matas espessas e os esconderijos das tribos acossadas pela força dos colonizadores. Conquistou, assim, pela mansidão e coragem, a simpatia dos silvícolas revoltados contra os intrusos. E, sempre mediador entre os seus protegidos e os colonos portugueses, que os escravizavam, Palácios sofria, diante do resultado dos seus esforços, a seu ver, insignificantes, em comparação ao que desejava realizar". É o que nos relata Machado de Oliveira.

Aos domingos e, dias santificados. Frei Pedro Palácios assistia à Santa Missa, na Vila, confessava-se e comungava.

Continuemos, porém, o registro singelo da tradição semelhante à de Bemposta, em Portugal, quando a imagem de Nossa Senhora desaparecia da ermida do Espírito Santo. Outras vezes, a segunda e a terceira, o painel trasladou-se para o rochedo e foi encontrado entre as palmeiras.

Esse fato reduz-se, porém à continuação da lenda, referida, atrás.

Cumpre-nos, ao certo, ponderar que os cronistas da Ordem, como Frei Apolinário e Jaboatão, citados em "Páginas de História Franciscana no Brasil", não se referem ao desaparecimento do quadro, como sinal, para a construção da ermida. Tudo se realizou, em conseqüência da fervorosa devoção que Pedro Palácios dedicava à SS. Virgem. O religioso cumpria um programa formulado ainda na Europa, conforme descrevemos em capítulos anteriores.

O fato de trazer o painel, diariamente, para o nicho e reconduzi-lo à capelinha de São Francisco deu origem à lenda.

 

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

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