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A Festa da Penha

Tela de Mariae Rabelo. Foto: Valter Monteiro/ 2008

A primeira Festa da Penha - como já se disse - foi realizada ainda em vida de Frei Pedro Palácios, que a promoveu. Escolheu ele a segunda-feira depois da dominga de Pascoela, dia consagrado, então, à devoção franciscana de Nossa Senhora dos Prazeres.

Daquele dia 30 de abril de 1570 até hoje, quase sem interrupção, festeja o povo, com intensa e devota alegria, o seu Dia da Penha.

"Começou [diz Gomes Neto (Maravilhas, p. 130)] por uma missa cantada, sem muito aparato, mas com manifesto entusiasmo religioso. Os sucessores de frei Pedro de Palácios elevaram a festividade ao apogeu do brilhantismo. No tempo da guardiania de frei João Valadares foi festa e banquete; porque avultavam as oferendas ou donativos, e as esmolas. O guardião antigamente tinha servos unicamente empregados em pedir esmolas para a Senhora, os quais viajavam até às províncias limítrofes. De todas as partes afluíam romeiros trazendo-lhes as suas ofertas; e os síndicos nomeados em diferentes municípios da província, e de fora remetiam-lhes pingues esmolas. [...]

"Nesta província esta Senhora era tão venerada, que no dia da sua festa notada era a família rica, ou pobre da cidade, e dos arredores, que lá não fosse, ainda que só para aspirar um átomo do perfume da Santa; pois era considerado quase um pecado faltar a esta reunião dos fiéis. Para este fim pela lei provincial n. 7 de 12 de novembro de 1844 o dia de sua festividade foi declarado de grande gala, e como tal feriado para todas as repartições públicas. A capital pois ficava quase deserta: entretanto na Vila Velha o povo formigava na praça, nas ruas, na praia, e na ladeira da Penha. As poucas, e exíguas casas faziam o milagre de hospedar toda esta população provisória de romeiros, devotos, visitantes, curiosos, tafuis, e pandilheiros. Alguns proprietários cediam-lhes as moradas; outros recebiam dez, vinte, e trinta mil réis de aluguel por dia!"

A respeito de hospedagem de romeiros, publicava a Gazeta da Vitória, edição de 25 de abril de 1878, este anúncio, alusivo à festa da Penha, embora nesse ano não tivesse havido a tradicional festividade (cf. o aviso do Síndico da cidade de Campos, Belarmino G. da Gama, no mesmo jornal). Diz assim o anúncio do hotel da Vila Velha:

"Festa da Penha. Alugam-se excelentes cômodos mobiliados para os romeiros da festa na vila do Espírito Santo. Trata-se no hotel da mesma vila com A. P. Queiroz."

"Das cidades de Campos e de S. João da Barra [prossegue Gomes Neto (Maravilhas, p. 131)] além da multidão dos romeiros, que vinham por terra, como os peregrinos em caravanas, as pessoas abastadas fretavam pequenas barcas a vapor para transportá-las e as famílias, trazendo bandas de música. Duas partes destes artistas eram filhos-famílias, ou fiéis que vinham cumprir o voto de tocar, ou cantar no coro, no grandioso dia de festa titular."

Sabe-se, também, que os escravos da Penha tinham igualmente a sua banda de música "para solenizar as festas e acompanhar as procissões, que, a princípio, se faziam em redor do Santuário".

Consistia a festa titular "em duas noites e um dia de pompas religiosas e horas de exercícios piedosos, funções santas. Começava pelas vésperas solenes: seguia-se no outro dia a festa aparatosa e pública com sermão etc. [...]

"Findas as cerimônias do altar, começavam as do banquete. O guardião descia com gravidade ao patamar próximo à casa [dos romeiros], onde uma ampla mesa servida com profusão e variedade de iguarias, doces, e vinhos finos, provocavam os sentidos olfativos e gustativos. Ali o prelado esperava o povo, e convidava indistintamente a todas as pessoas para o regalo. À noite com Te Deum encerrava-se a solenidade religiosa.

"Desde a véspera iluminavam-se a igreja e o convento interior e exteriormente. Acendiam-se fogueiras em alguns pontos do Campinho, ou sítio das casas dos romeiros; e colocavam-se lampiões, e vasos de barro com luzes na ladeira de distância em distância. [...] Ninguém por mais pobre que fosse deixava de pôr luminária na frontaria de sua casa."

O Correio da Vitória, edição de 20 de fevereiro de 1856, divulga um anúncio-programa da Festa da Penha, então levada a efeito com grande esplendor e aparato: "A pomposa Festa de Nossa Senhora da Penha em seu Convento este ano de 1856. - O guardião do convento de N. S. da Penha participa ao respeitável público, que se acha reedificado o mesmo convento faltando tão-somente dourar-se o corpo da igreja e que, tendo de fazer-se a mudança da veneranda Imagem para o seu próprio altar, tem de haver o seguinte: No sábado da Aleluia principiarão as novenas como é de costume, e no sábado seguinte haverá a véspera da mudança do que acima falamos sendo orador o Rev. vigário de Carapina; no domingo terá lugar a referida mudança depois do que se celebrará missa cantada, sendo orador ao evangelho o Rev. Dr. João Clímaco d'Alvarenga Range!. À noite haverá a véspera da festa costumada, sendo orador o Rev. padre mestre João Luís da Fraga Loureiro; concluída a véspera, haverá um lindo variado fogo artificial de composição do Sr. Luís Ribeiro das Chagas. Na Segunda-feira, terá lugar a decantada festa da veneranda Imagem, que no dia antecedente subirá a seu elegante e magnífico altar, sendo orador ao evangelho o Rev. Sr. Inácio Rodrigues Bermudês. À noite haverá Te-Déum, sendo orador o Rev. prior do Carmo Frei Antônio de N. S. das Neves; na terça-feira pretende o mesmo guardião que se celebre uma missa cantada em que ele mesmo será orador, por todos os devotos que contribuíram com suas esmolas para a reedificação do mesmo convento e reparo da igreja. À noite, em ação de graças ao Todo-Poderoso por haver inspirado tantas emoções de piedade para se levar a efeito a obra que o mesmo convento demandava, se celebrará um solene Te-Déum Laudamus, em que será orador o Rev. padre Joaquim de N. S. da Penha Carvalho. Em todos estes atos oficiará a música do Sr. professor Baltazar."

Na edição de 5 de abril daquele ano, o mesmo jornal capixaba relata o que foi a festa, salientando, entre outros relevos, que "o concurso do povo foi extraordinário, apesar de não se ter realizado a vinda dos romeiros da cidade de Campos, que se anunciara, e de outros lugares da província", e concluindo que: "Foram 3 dias de entusiasmo os que nos proporcionara a festividade da Penha! Nada faltou para se tornarem dignos de nossas recordações! A imagem, o templo, a música, os oradores, e as mesas aparatosas com que foram servidos os convidados, tudo concorreu para o realce de tão pomposa festa a que assistiram o Exmo. presidente da província, Dr. chefe de polícia e as pessoas que o acompanharam." 

 

Autor: Guilherme Santos Neves
Fonte: História Popular do Convento da Penha - 3ª edição, 2008 

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