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A Festa Do Divino – Por Areobaldo Lellis Horta

Igreja de Nossa Senhora da Ajuda - Araçatiba em Viana

Foi na povoação de Jacarandá, município de Viana, hoje Jabaeté, que vi pela primeira vez uma bandeira do Divino Espírito Santo. Tinha eu onze anos, e fora até lá a fim de passar as férias escolares na residência do negociante Antônio Ataíde dos Santos, em companhia de um dos seus filhos, de nome José, meu colega de classe na escola. O povoado dava a impressão de ter sofrido um bombardeio, pois regular era o número de casas em ruína, lembrando haver sido um centro de atividade, ao tempo da escravatura, decaído ao sopro demolidor da Lei Áurea. Em uma de suas ruínas havia peças de maquinismos desmontados, consumindo-se à ação impenitente do tempo. Só a "Casa Grande", prédio de dois andares, de largas acomodações, mas inabitado, resistia à afronta das intempéries, como se fora marco indestrutível de uma era de trabalho e progresso, que não mais voltaria. A povoação ficava, - e deve ainda existir — à margem direita do rio do mesmo nome, sendo que, naquela ocasião, descendo com o José, em canoa, as águas mansas do Jacarandá, conheci a lagoa Mateus Pinto, à sua margem esquerda e, não sei por quê, assim denominada. Jamais ouvira falar naquela lagoa e, nem mesmo na geografia do professor Amâncio Pereira existira qualquer referência à mesma.

Já havia uma semana de minha vilegiatura por ali, quando, certa tarde, apareceu na venda do Sr. Santos, certo homem anunciando que o "DIVINO vinha aí", devendo chegar ao povoado na manhã seguinte. O negociante era a figura de maior prestígio daquelas paragens, profundamente católico, tanto que não se almoçava nem se jantava naquela casa, sem o "Louvado Seja Deus"; "louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", seguindo da resposta de todos: - "Para sempre sejam louvados".

Cedo o Sr. Antônio dos Santos mandou abrir a "Casa Grande", que, pelos modos, lhe pertencia, a fim de dar ali acolhida ao Divino.

Seriam dez da manhã , quando começamos a ouvir o toque do tambor, enquanto pessoas diversas passavam em direção ao ponto, de onde vinha o som. O negociante preparou-se e mandou que os filhos fizessem o mesmo, inclusive eu, seu hóspede. Era o DIVINO, com seus componentes e aderentes. Instantes depois a população estava em reboliço, com sua chegada e entrada na residência do comerciante. Sua sala de visitas ficou repleta; toda a família presente, à exceção de uma menina, que ardia em febre, acamada.

Em alguns dos nossos municípios, era tradição, meses antes da festa do Divino Espírito Santo, alguns festeiros percorrerem o interior dos municípios vizinhos, na coleta de esmolas, para as despesas com a festa. A comissão dos festeiros, que visitou naquele dezembro, Jacarandá, era de Vila Velha e compunha-se de um tamborista, dois violonistas, um porta-bandeira e um repentista incumbido de improvisar os versos, a serem cantados ao som dos violinos e do tambor, em cada residência que se chegava. A bandeira do Divino trazia no alto a pomba do Espírito Santo e, logo abaixo, grande quantidade de fitas de variadas cores, para a distribuição pelos crentes da medida da pombinha. Assim, pegava-se da fita, e nela se envolvia o pássaro, ficando a ponta na cabeça, passando a fita pela cauda e voltando à cabeça, para então se cortar. Era a medida.

Na sala tirou o repentista o verso em honra do negociante, sendo depois a bandeira levada ao quarto da enferma, onde foi tirado novo verso, sempre uma quadra. O acompanhamento era grande, de pessoas que seguiam a comissão, vindas dos pontos mais próximos, por onde passaram os festeiros. Estes foram acomodados na "Casa Grande". Traziam eles muitas esmolas, inclusive uma novilha, dádiva recebida ao entrar no município de Jacarandá. Durante três dias permaneceram eles na povoação, andando de casa em casa, cantando as trovas improvisadas e recolhendo esmolas.

Havia lá um preto velho, de nome Sabino, que tinha sempre o prazer de contar com ufania, que, quando o imperador Dom Pedro Segundo visitou nossa Província, até Jacarandá, ao ter S.M. de desembarcar da canoa em que atravessava o rio, ele, Sabino se agachara a fim de servir de degrau para que o soberano galgasse o barranco e pisasse terra firme. O velho era portador de eczema em uma das pernas e, ao receber em sua casa a visita dos festeiros, mostrou-lhes, pedindo que tirassem verso para que se visse curado. O repentista cantou então, essa quadra:

 

"Meu Divino Espírito Santo,

Divino da minha vida,

Dai a cura a este homem,

Que está cheio de ferida".

 

Durante os dias que os festeiros permaneceram em Jacarandá, eu e o José Atado não deixamos de acompanhá-los em todas as visitas, indo até parte da estrada, com outras pessoas da localidade, quando se dirigiram para a Pedra da Mulata, caminho do então município de Viana.

Assisti por várias vezes, em minha meninice, às festas do Divino em Vitória e na vizinha Vila Velha. Em nossa capital, a festividade consistia em missa solene, celebrada no Convento de São Francisco, sempre com grande concorrência de fiéis. Após a cerimônia religiosa, o celebrante, conservando-se de pé frente ao altar-mor, distribuía o chamado "Pão do Divino". Por ele benzido, e que, segundo a crença corrente, possuía o poder de conservar a abastança a fartura nos lares, onde as famílias os guardavam até o ano seguinte, quando era substituído pelo novo. Seco e duro, era o velho queimado, e o pó espalhado aos ares. O pão era conservado no depósito da farinha de mandioca. Tornou-se ele uma tradição entre nós, que só muito tarde se desapareceu.

Em Vila Velha, a festividade obedecia a outro ritual. A mesa administrativa fazia sair, em tempo apropriado, a BANDEIRA DO DIVINO, para percorrer o território municipal e o das cidades vizinhas, na coleta de esmolas, conforme acima descrito, ao tempo em que elegia os dois principais festejos, denominados "imperador" e "imperatriz" do DIVINO. Desta forma, um cavalheiro e uma senhora eram os eleitos, mas, sempre representados por um casal de menores no dia da festa. Erguia-se uma espécie de tronco ao lado direito do altar-mor, para que nele tomassem assento o "imperador" e "imperatriz". Ambos, assim, assistiam à missa solene, o menino trajando um terno de casaca, conservando na mão esquerda a respectiva cartola; a menina vestida de noiva, tendo à cabeça diadema ou leve coroa, em sua condição de soberana improvisada. Após a missa, fazia-se, pelo vigário - naquela época o padre Antunes de Siqueira - distribuição do pão tradicional, que, como em Vitória, tinha a forma e tamanho do atual pão cilindro ou provença, como outros o chamam.

À tarde, a procissão do DIVINO ESPÍRITO SANTO percorria as ruas de Vila Velha, tomando parte na mesma a pequena imperatriz e o pequeno imperador, em lugar de destaque, dentro de um quadrado, composto de varas roliças e pintadas de vermelho em cada qual dos ângulos segurava um menino. Ao entrar da procissão, era cantado o Te Deum, realizando-se à noite o leilão de prendas, que variavam entre doces e frutas até aves domésticas e novilhos.

Durante o período em que residi em Vila Velha, os imperadores e as imperatrizes foram representados pelo filho mais moço do velho Quitiba - Zico - e a menina Maria, filha do negociante Manuel Xavier. Era desta maneira que se festejava, naquele tempo, o Divino, relembrando a descida do Espírito Santo sobre Jesus, no dia de seu batismo às margens do Jordão.

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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