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A Glória da Negra - Por Mário Gurgel

Mário Gurgel, em seu escritório de advocacia

Quando a negra passou, na manhã daquele dia, ereta e perfumada, no seu amplo vestido de noiva, a caminho do altar, um sussurro de admiração e entusiasmo embalou a multidão. Parecia reviver na hora da sua felicidade, a descrição luminosa da poetisa: "a noiva era preta, pedaço de noite; o véu era branco, retalho de núvem... E tanto o preto ao branco ali se confundia, que ninguém sabe onde terminava a noite, e onde começava o dia. . ."

Os convivas estavam hipnotizados pela sua simpatia e pelo magnetismo da sua personalidade. Ela sorria aos que a olhavam, olhos doces e mansos como luzes misteriosas, passos leves e graciosos, ternura e confusão a impulsioná-la para a beleza do ato. O altar não fora ornamentado para as suas bodas, mas ela, antes que a felizarda, desfilaria naquele mundo de lírios e de avencas. Aos seus sentidos despertos chegaria aquele eflúvio de perfumes.

Na assistência enchapelada, à espera de outro casal, ela divisava olhares conhecidos e sorrisos amigos que se comoveram ante a grandiosidade da sua humilde cerimônia de casamento. Pobre e proletária, não tinha cantores para a sua festa. Não tinha aquela profusão de lâmpadas e de círios, não tinha fotógrafos. Quando o sacerdote iniciou a bênção nupcial, alguém do coro, impregnado de emoção e de solidariedade, cortou o espaço do templo imenso e respeitável, com o timbre de ouro de uma Ave Maria... A negra volveu o olhar tranquilo para o alto, na direção dos sons magníficos que a faziam vibrar, e, indiferente, numa fração de segundo, aos pormenores da solenidade, despejou um agradecimento silencioso e indefinível. As mãos de todos, nuas e enluvadas, se comprimiram. Arrepios sacudiam fisionomias intraduzíveis. Máscaras inexpressivas tomaram acentos humanos e nobres. Todos se sentiram sob o domínio daquele diálogo de almas irmanadas pela eloquência, no silêncio daquela hora. As lâmpadas se acenderam, os altares ficaram ofuscantes e majestosos, clarões refulgentes riscaram o interior da nave. Os negros todos se exaltaram no sucesso daquela sua irmã de sangue.

Longe, em outras terras, a civilização estabeleceu conceitos de liberdade e de igualdade. O Direito das Gentes fez uma entidade para policiar comunidades e Nações. Lá mesmo, segundo as notícias, os negros e os seus descendentes estão acuados como feras, repelidos como párias, isolados como réprobos. Lutam e sofrem pelo privilégio de respirar o mesmo ar, banhar-se nos mesmos mares, alimentar-se nas mesmas dependências. Dois grandes Presidentes, visionários de uma fraternidade democrática, sucumbiram. Foram vítimas dos seus anseios, e afogados no oceano de ódio que o sectarismo criou para favorecer seus próprios desígnios. A libertação dos escravos e a igualdade de direitos custaram duas vidas preciosas. Foram danificadas pelos povos que se autorizam ditar normas de conduta comunitária para as organizações políticas dos Continentes irmãos. Igrejas foram bombardeadas, homens e mulheres linchados, jovens sequestrados e desaparecidos.

Os negros, porém, venceram. E ela, negra e jovem, naquele momento de ventura, está sorridente e tranquila. Ignora que na sua esplêndida figura de moça brasileira, está homenageada a vitória da princesa de sangue europeu que libertou seu povo. Parece não saber que está também, simbolizando a própria glória de toda a sua raça perseguida e invencível.

(O Diário de 11/07/64)

 

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2019

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