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A guerra do sete dias – Por José Costa

Demorei um pouco a entender por que senti tão repentino arrepio ao dar de cara com a imagem do cansaço pregada na face do moço esguio, olhar esquivo, rosto coberto por um brilho de louça esmaltada por um suor oleoso: estava ali, semivivo, noite alta, o meu próprio retrato em uma fase pesada de minha iniciação no jornalismo.

O moço mantinha pendurada na camisa de gola aberta, à guisa de gravata, uma tripa fina de pano sujo, que nascia disforme no pescoço e descia além do umbigo. A roupa era um bagaço e seu ar trazia um toque sonâmbulo. Ele estava ali mas não estava; uma parte de sua alma o mantinha de pé, a outra prostrada, submissa à exaustão.

Muito embora seu silêncio soturno e o ar de torpor — parecia vagando em um mundo outro —, a gente sentia que ele tinha ainda muita coisa a fazer noite adentro e nem lhe ocorria sustar a tarefa.

Viajei num raio ao passado e desci no jornal 7 Dias, onde conheci o estoicismo. Aprendi para o resto da vida que a gente terá tido sempre razão por insistir na busca de objetivos esvaecidos.

Cada edição era uma história, um desafio, uma prova de obstáculos, longa estrada cheia de sustos na qual só não existia sinal de "pare".

No fundo da ampla redação, um verdadeiro alçapão abria-se para precária escada íngreme que mergulhava na oficina feita de óleo, graxa, sujas prateleiras, clichês usados, máquinas, ferramentas, estopas encharcadas de sujeira, restos negros de tudo de ferro e metal, além de resmas amarronzadas de papel. Suportes mancais, correias dentadas, polias, tudo o mais parecia regido pelos fantasmas tenebrosos que escapavam das máquinas e dos cantos sombrios.

Era aí, nesse mundo assemelhado à sucata de um submarino imerso, carcaça abandonada desligada da vida, que a gente praticava o jornalismo dos tempos heróicos, sumindo no entardecer das sextas-feiras, e ressurgindo ao sol somente nas manhãs dos domingos.

A impressora era uma barulhenta rotoplana: operava a cada rodada duas páginas postas em longo papel retangular, assentado com precisão pelo artífice, e as folhas gravadas nasciam dos beijos frígidos, mecânicos, da chapa gráfica.

Bem que nós começávamos animados, já que algumas folhas haviam sido rodadas com matérias mais frias, imploradas aos pés de jornalistas e colaboradores, e estavam ali abertas, como iscas enganosas incumbidas de nos convencer de que imprimir as demais páginas seria uma tarefa permitida à energia terrena e ao limitado engenho de homens comuns.

A capa e a contracapa eram impressas em três ou quatro cores, se me lembro. Isso hoje é tarefa para um apertar de botão, mas naqueles tempos pós-Gutenberg cada cor era uma rodada. Assim, uma chapa tinha que se ajustar precisamente à anterior. Madrugada alta, as novas provas geravam pesadas expectativas e, quando o impressor examinava a folha contra a luz, ele reeditava o suspense eletrizante do médico que contempla severo a chapa de raios X.

Após cometer infindáveis dissabores, a máquina, como essas pessoas ranhetas que se aprazem em atazanar o semelhante, inventava de empacar amuada e não havia quem a fizesse trabalhar . E estávamos nós, eu e os gráficos, deitados sobre seu dorso de ferro mal-iluminado, mais magos que mecânicos, implorando ao negro monstro paralisado que ponto misterioso lhe deveríamos tocar para que voltasse a nos sorrir.

Muitas vezes tínhamos que aguardar, caindo de sono, a chegada do mecânico. As vozes nas madrugadas de suor, calor e cansaço não são vozes, são apenas sons dispersos que vazam os silêncios, porque, às vezes, ninguém tem mais força para a proeza de tocar uma frase completa até o fim. Eram amuos que a gente até entendia, mas ninguém sabia em que bocas eles nasciam.

Quando, finalmente, a última rodada da velha impressora cuspia as derradeiras páginas, a única festa possível era o silêncio e nossa certeza de que valeu a pena.

Eu galgava pesadamente a escada da redação e desabava de sono no sofá. Os operários, com seus trastes, caíam sobre as resmas onde, esgotados, ressonavam.

O patrão reclamava porque amassava o papel...

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: José Costa
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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