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A História do Morro do Moreno – Por Seu Dedê

Morro do Moreno: Posto Semafórico - Capa do Livro: Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno

O sítio natural conhecido como Morro do Moreno foi palco de vários eventos importantes da história do Espírito Santo e, mais particularmente, de Vila Velha. O que se denomina de Morro do Moreno compreende, na verdade, o morro propriamente dito, a Praia do Ribeiro, a Ponta do Tagano, a Praia de Santa Luzia, a Praia da Caiçara, a Praia do Chavão e a Pedra da Caiçara. Daí seguindo até o Rio da Costa e indo por ele à Barrinha.

O morro recebeu seu nome graças a um dos colonos que aqui chegou com o donatário Vasco Fernandes Coutinho. Assim que se aproximou da costa capixaba o donatário, segundo atesta Varnhagen, procurou o porto seguro já conhecido dos navegadores. Desta forma, ele lançou âncora na enseada da "Prainha". O donatário, segundo Lamego, teve de enfrentar os índios Goitacás.

Por fim, conseguir erguer uma povoação ao sopé do monte que seria ocupado pelo colono João Moreno, de quem se derivou o nome posteriormente designado ao monte. Este fato, por si só, já atesta a importância deste sitio natural.

O Morro do Moreno esteve relacionado a vários momentos da história do Espírito Santo. Desde o início da colonização de nosso solo, serviu de posto de observação avançado, assegurando a defesa da Vila do Espírito Santo, mais tarde Vila de Vitória, aos ataques de corsários estrangeiros. Posteriormente, desempenhou o papel de posto de observação visual semafórico, que informava a bandeira e a procedência dos navios que se aproximavam da Baía de Vitória.

No topo do morro havia uma casinha rústica para abrigo do vigia (sinaleiro) e um mastro na forma dos existente nas embarcações da época, onde o vigia hasteava bandeiras, transmitindo as informações sobre a chegada de navios ao se aproximarem da barra da baía ao vigia do morro da Atalaia (na praia de Capuaba). A mensagem era repetida e passada para a capitania dos portos, que providenciava uma lancha vermelha conhecida como lancha da Praticagem, levando a bordo um prático para conduzir em segurança o navio ao cais do Porto de Vitória.

Quando o semáforo do Morro do Moreno hasteava suas bandeirolas, os moradores sabiam que algum navio se aproximava da barra e que dentro em breve poderia ser visto da Prainha.

Tive oportunidade de conhecer dois dos sinaleiros do Morro do Moreno; o Nico Araújo e o Clementino Barcelos e por falar em Clementino me vem à memória um fato narrado por Dona Maria da Gloria de Freitas Duarte no seu livro "Vila Velha de Outrora". Conta: "A 17 de abril de 1910 o Cometa Halley passaria bem próximo à terra, o que causou certo pânico em alguns moradores de Vila Velha. O cometa apareceu na madrugada do dia aprazado e neste momento estava no alto do Moreno o Arnaldo, irmão de Clementino Barcelos. Maria da Gloria assim descreve: "Na madrugada de 17 de abril de 1910, foi visto pela primeira vez o Cometa de HALLEY. Estava Arnaldo no Moreno e foi um dos primeiros que viram. Levou aparecendo todas as madrugadas, durante um mês, a leste: no dia, digo, na noite de 19 de maio, esperava-se a passagem pela Terra, o que não foi observado, pois a noite se achava chuvosa, mas na noite de 20 de maio, apareceu a oeste, deixando de ser visto pela madrugada e sim à noite, durante muitas vezes, até que desapareceu".

Na época da Segunda Guerra Mundial, após o torpedeamento de navios mercantes brasileiros por submarinos estrangeiros, foi deslocado de São Paulo para Vila Velha um Grupo Intendente de Artilharia (GIA). Este Grupo, durante o período da guerra, manteve pelotões acampados no alto do Moreno, na Ucharia, na Barra do Jucu, na Ponta da Fruta e em Guarapari, a fim de observar a presença de inimigos no nosso litoral.

Vários acidentes importantes marcaram o morro do Moreno. Na década de 30, um avião do Correio Aéreo, que transportava malote para o 3° BC (hoje 38° BI), realizava vôo rasante visando deixar cair o malote, quando colidiu com o cabo de aço de uma linha telegráfica, que ligava o Moreno ao Morro da Penha. O avião, pilotado pelo tenente Hildegardo, colidiu com este cabo, caindo sobre um pavilhão do 3° BC, felizmente sem vítimas. Depois disto, o cabo foi retirado. Em 1977 (ou 1978), a pá de um helicóptero que sobrevoava o Sítio do Ribeiro colidiu com o rochedo do Moreno, caindo seus destroços no mar, sendo a nave posteriormente resgatada. Neste acidente também não houve vítima.

Hoje, muitos pontos do sítio do Morro do Moreno estão fechados ao público. Uma gruta na Barrinha (Piratininga), ao pé do Moreno, conhecido pelas crianças de antanho como Gruta dos Morcegos ou da Caveira, hoje está ocupada por uma seita religiosa. Estão fechadas ao público: a Biquinha*, a ponta do Tagano, a Praia de Santa Luzia (área particular), o Farol da Barra ou de Santa Luzia (cuja história é importante), o Chavão (ponta de pescaria artesanal), a Praia da Caiçara (residência oficial do governo) e parte da Pedra da Caiçara (Clube Libanês etc), e outros.

Na encosta do Morro do Moreno, afastado uns 10 metros do mar, existe uma fonte d’água doce conhecida como Biquinha, onde os moradores de Vila Velha iam coletar o líquido. A Biquinha, de fácil acesso, está localizada no pesqueiro conhecido como Pedrinhas, que era o preferido de idosos e crianças pela abundância de peixes e fartura de água. A ocupação do Morro do Moreno precisa ser urgentemente revista, porque é local privilegiado da Grande Vitória para prática das diversas modalidades de esportes radicais. É fundamental que possamos preservar este notável sítio natural, de tanta importância para a nossa história e para a vida de nossa cidade.

 

Nota 1: O autor era carinhosamente conhecido por Seu Dedê

Nota 2; Ilustração do Posto Semafórico - Artista: Denilson Coelho 

Nota 3: Capa do Livro: Krikati, Tio Clê e o Morro do Moreno, 2014 - Autor: Walter de Aguiar Filho

 

 

Fonte: Memória do Menino... e de sua Vila Velha – Casa da Memória Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha-ES, 2014.
Autor: Edward Athayde D’ Alcântara
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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