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A Igreja de São Tiago e a lenda do tesouro dos Jesuítas

1911 - Igreja de São Tiago que foi incorporada ao Palácio Anchieta em reforma - Vitória

Igreja de São Tiago (no local onde fica hoje o Palácio Anchieta) é aquela em que Manuel da Nóbrega entrou com o governador-geral Tomé de Souza e entoou o hino Veni Creator Spiritus, em 1552. E a mesma que tocou os sinos, em alvoroço, quando Maria Ortiz atirou água fervente sobre o almirante holandês Heyn, em 1626. Essa igreja, que se engalanou para o Te Deum em honra a Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, em 1860, vem acompanhando toda a História do Espírito Santo.

Em 1666 ameaçava ruir e teve de ser inteiramente remodelada, chegando a parecer uma nova construção.

Em 1727, o teto foi renovado e as paredes escoradas. Em 1796, sobreveio o incêndio que destruiu tudo, até a imagem de São Tiago, quase do tamanho de um homem e fundida em metal. Alguns historiadores dizem que a imagem era de prata. O palácio, ex-igreja, sofreu remodelações no governo Jerônimo Monteiro (1908/1912). Novas reformas ocorreram no governo João Punaro Bley (1930/1943).

Em 1939, um novo incêndio, devastador, atingiu o velho prédio. Na tarde de 29 de outubro, o fogo irrompeu e a população, assustada, correu ao local onde as chamas cresciam, destruindo tudo. Faltou água para o combate às labaredas. O prejuízo foi total: só ficaram as paredes externas. Arquivos, processos, documentos históricos e direitos pessoais dos funcionários, de contratantes e de um sem-número de pessoas ligadas à marcha de negócios públicos por tantas formas diferentes, foram destruídos.

Couberam ao engenheiro civil Cícero Moraes, então diretor de Obras Civis, os primeiros serviços de reconstrução. Cícero Moraes foi chamado depois para a defesa do Espírito Santo contra as investidas de Minas Gerais ao seu patrimônio territorial, e a função de reconstrução do velho edifício passou à responsabilidade do engenheiro Hermes Curry Carneiro. Os serviços de restauração foram atacados com vigor. E quando João Punaro Bley passou a interventoria a Jones dos Santos Neves, em 21 de janeiro de 1943, já não havia vestígios de obras em andamento no Palácio do Governo.

Um edifício como o Palácio Anchieta devia apresentar-se cheio de lendas, com os fantasmas dos jesuítas passeando à meia-noite pelos corredores e as esporas dos capitães-mores tinindo nas lajes, alta madrugada. Ouvimos muitas dessas lendas quando percorríamos aldeias européias e visitávamos velhos palácios, igrejas e museus. Mas, entre a saída forçada dos jesuítas e a entrada turbulenta dos capitães-mores, não houve intervalo para que a imaginação popular pudesse criar os seus duendes e assombrar os crédulos. Apenas sucedia que uma população, na sua maioria pobre e inculta, em face dos jesuítas instruídos e poderosos, julgava muito ricos os padres catequistas. Dessa maneira, formou-se a lenda dos tesouro enterrados, ocultos por ocasião da expulsão dos jesuítas.

E tais riquezas enchiam a imaginação ingênua e atiçavam a ambição de alguns aventureiros ousados. Assim é que a história do tesouro atravessou os séculos. A notícia, já por sua vez antiqüíssima, nos é contada por Saint Hilaire:

"Quando os jesuítas se retiraram da província do Espírito Santo, deixaram toda a prataria das suas igrejas, mas não fora achado numerário nos seus conventos. Eis um fato que me foi narrado por uma cura que me pareceu ser um homem honesto e verdadeiro. Esse eclesiasta cavava perto de um edifício, quando um índio velho veio dizer-lhe, com mistério, que não devia cavar mais porque ali havia coisas escondidas. O cura fez então esse homem entrar na sua casa, deu-lhe aguardente e o incitou a falar. E o índio acabou por dizer-lhe que, se cavasse num certo lugar que designou de modo preciso e que o padre me indicou, acharia uma chave, segundo o conhecimento que tinha da localidade. O cura julgou que a descoberta de algum tesouro escondido pelos jesuítas traria à região perseguidores; fez parar as escavações e repôs as coisas no estado primitivo. O índio velho, que sem dúvida estava ligado ao segredo por algum juramento, arrependendo-se de ter sido infiel, desapareceu para sempre" (Segunda Viagem ao Interior do Brasil - pag. 98 ).

A história da perfuração das galerias, ou melhor, dos túneis, começou ninguém sabe quando. Certamente, antes daquele cura de Saint Hilaire. Mas só se desenvolveu e popularizou depois do governo Jerônimo Monteiro.

O primeiro túnel tinha de ser, naturalmente, para o "porto dos padres", mais ou menos no cruzamento das atuais avenida Florentino Avidos e rua General Osório. Era a ligação imperativa da "casa dos padres ao porto dos padres". Depois os exorcismos (ou outra perfuratriz) abriram o segundo túnel, esse para o cais de São Francisco e mais outro no rumo do Carmo.

Lendas são tão agradáveis de contar e de ouvir.

Esses túneis fantásticos, vez por outra, acendem a imaginação de muitos capixabas.

O Palácio Anchieta, antiga Igreja de São Tiago, guarda séculos de história inscritos num só monumento e resumidos numa só imagem. 

 

Fonte: Jornal A Gazeta, A Saga do Espírito Santo – Das Caravelas ao século XXI – 19/08/1999
Pesquisa e texto: Neida Lúcia Moraes
Edição e revisão: José Irmo Goring
Projeto Gráfico: Edson Maltez Heringer
Diagramação: Sebastião Vargas
Supervisão de arte: Ivan Alves
Ilustrações: Genildo Ronchi
Digitação: Joana D’Arc Cruz    
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2016

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