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A Iluminação de Vitória no Século XIX – Por Elmo Elton

Vitória fins do Século XIX Rua João Clímaco Acervo José Luiz Pizzol

A antiga vila de Vitória, pela Lei de 17 de março de 1823, portanto seis meses após a proclamação da Independência do Brasil, foi elevada à categoria de cidade. O primeiro presidente provincial do Espírito Santo, o bacharel Ignacio Accioli de Vasconcellos, se demorou no cargo de 24 de fevereiro de 1824 a 23 de novembro de 1829, o que representou uma exceção, visto que seus sucessores pouco ou nada aqui se fixavam, sendo que Manoel Antônio Gaivão, que o substituiu, permaneceu apenas cinco dias na Província.

O Espírito Santo vivia em estado de quase total penúria, minguadíssimos os recursos de sua população, como minguada qualquer ajuda que porventura lhe chegasse da Metrópole, de forma que, assim, se atrofiou, tempo afora, social e economicamente.

Vitória, até princípio deste século, era cidade de feição tipicamente colonial, portuguesa, na sua arquitetura e arruamento. As construções, medíocres, não se diferenciavam, as ruas tortuosas, estreitíssimas, muitas delas nem chegando a cinco metros de largura, todas seguindo a topografia do terreno. Mesmo assim, Saint-Hilaire, quando de sua viagem ao Espírito Santo, em 1818, a descreve com certa generosidade: — "As ruas de Vitória são calçadas, porém, o são mal, têm pouca largura, não oferecendo nenhuma regularidade. Entretanto, não se vê, aqui, casas abandonadas, semi-abandonadas, como na maioria das cidades de Minas Gerais. Entregues à agricultura, ou a um comércio regularmente estabelecido, os habitantes da Vila de Vitória não são sujeitos aos mesmos reveses dos cavadores de ouro, e não têm razão de abandonar sua terra natal. Eles têm o cuidado de bem preparar e embelezar as suas casas. Um número considerável dentre elas tem um ou dois andares. Algumas de janelas, e de lindas varandas, trabalhadas na Europa. Não possui, por assim dizer, nenhuma praça pública, posto que aquela existente defronte do palácio é muito pequena e é com muita condescendência que se dá o nome de praça à encruzilhada enlameada, que se prolonga da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia até à praia". Dois anos antes, isto é, em 1816, um outro botânico, o príncipe Maximiliano de Wied Newwied, estivera no Espírito Santo, percorrendo-lhe toda a faixa litorânea, fixando, em desenhos primorosos, aspectos da natureza espírito-santense, como, também, registrando costumes do povo da região, assim se referindo à cidade de Vitória: — "A cidade de Nossa Senhora da Vitória é um lugar limpo e bonito, com bons edifícios, construídos no velho estilo português, com balcões e rótulas de madeira, ruas calçadas, uma Câmara razoavelmente grande e o convento dos jesuítas ocupado pelo governador que tem à sua disposição uma companhia de tropa regular".

O certo, porém, é que, até 1847, as ruas de Vitória, à noite, não tinham iluminação, apenas iluminados o Palácio do Governo, a Cadeia Pública e o Quartel, daí que a cidade, às escuras, favorecia não só a fuga de escravo como de ladrões e assassinos, razão por que a Assembléia, a 19 de fevereiro daquele ano, firmou contrato com Manoel Teixeira Mala para a iluminação da cidadezinha, ocasião em que quarenta lampiões foram distribuídos pelas diversas praças e ruas, pagando-se a seus acendedores a importância de 4$550, por mês, pela mudança de combustível.

O presidente Sebastião Machado Nunes, quando da abertura da sessão ordinária da Assembléia Legislativa, a 25 de maio de 1854, assim se expressava referindo-se à iluminação de Vitória:

"O serviço de iluminação é feito atualmente por administração. O seu estado é péssimo, e procurando conhecer o motivo, soube que consiste principalmente na má qualidade do azeite empregado, que é simplesmente o de baga, o que não presta à iluminação ainda mesmo sofrível. Ordenei, portanto, que se empregue uma mistura dele com o azeite de sebo. Há 52 lampiões, número insuficiente para poder ser a cidade convenientemente iluminada. Infelizmente o contrato não pode ir além desse número. Tem-se procurado do melhor modo possível distribuí-los por toda a cidade, sendo encarregado da fiscalização o atual delegado de polícia, capitão Tito Lívio da Silva, e o inspetor das obras públicas, Augusto Manoel Parlon, que têm geralmente agradado. O contratante é obrigado a acender os lampiões às 6 horas da tarde. Mas deveria acendê-los às 5,30 pois às 6 horas é noite fechada. Bem como devia ser ele obrigado a acender lampiões nas noites chuvosas, ainda que sejam de lua, como também pelas luas novas só deveriam deixar de ser acesos os lampiões depois do 5º dia de lua. Além do mais, não há, aqui, instrumento próprio que por ele se possa saber se a intensidade de luz é igual a oito velas de espermacete... E a administrarão tem o pleno direito de exigir tudo isso, já que dispende, com a iluminação, 800.000 réis anuais (...)".

Os acendedores de lampiões, então encontráveis em todas as capitais do Brasil, ficaram imortalizados neste soneto de Jorge de Lima:

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

Lá vem o acendedor de lampiões da rua,

esse mesmo que vem, invariavelmente,

parodiar o sol e associar-se à lua,

quando a sombra da noite enegrece o poente.

 

Um, dois, três lampiões acende e continua

outros mais a acender, imperturbavelmente,

à medida que a noite aos poucos se acentua

e a palidez da lua apenas se pressente.

 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita!

Ele que doura a noite e ilumina a cidade

talvez não tenha luz na choupana em que habita.

 

Tanta gente também nos outros insinua

crenças, religião, amor, felicidade

como esse acendedor de lampiões da rua!

 

Em 1864, pelo contrato firmado com os comerciantes Adrião Nunes Pereira e Francisco Rodrigues Pereira, em virtude da Lei nº 30, de 14 de dezembro do mesmo ano, lampiões de querosene substituiriam os de azeite de peixe e mamona. Dita Lei, porém, não fora executada a contento, visto que, pela Lei nº 28, de 27 de julho de 1867 autorizava-se novo contrato com o referido Adrião Nunes Pereira, para a instalação de 100 lampiões, o que, parece, não foi também cumprido, tanto que, só a 19 de maio de 1869, recebe a cidade esse novo tipo de iluminação, isto é, a querosene, graças a contrato firmado com o empresário Manoel Pinto Neto. Reclamou a imprensa fossem colocados apenas 100 lampiões, pedindo se elevasse o número para cento e cinqüenta.

As fachadas dos prédios assobradados da cidade ostentavam luminárias, suspensas em arandelas de ferro, com arabescos, sendo que, nos varandins, colocavam "pinhas" de opalina ou cristal, não só como simples ornatos, mas, também, para que a luz refletida nelas propiciasse maior luminosidade, sobretudo nas noites escuras. No interior das casas usavam lamparinas, lampiões, toucheiros e velas, cujos pavios eram aparados por espivitadeiras, muitas delas de prata lavrada.

Quando da anunciada visita de Dom Pedro II ao Espírito Santo, em 1860, a Câmara expediu, meses antes, um edital expressando que o povo deveria manifestar "todo o seu regozijo por tão faustoso motivo, iluminar as frentes de suas casas, por três dias consecutivos". Os vitorienses atenderam ao edital, tanto que, quando da recepção ao Imperador, as crônicas da época registraram que, na cidade, "tem havido iluminação geral" (...) "não vimos uma só casa, por mais humilde e pobre que fosse, que não estivesse iluminada".

As festas religiosas, mormente as procissões de São Benedito, que saíam, duas vezes por ano, e sempre ao anoitecer, eram motivo para que a cidade se iluminasse melhor.

Noticiando a realização de uma dessas festas, assim se expressou O Correio da Vitória, em edição de 21 de maio de 1872: — "A iluminação exterior esteve ontem deslumbrante: — compõe-se de lanternas de vidro de variadas cores, com luzes de querosene".

A Lei nº 20, de novembro de 1872, autorizava a contratação de firma para a iluminação a gás da cidade, sendo que tal melhoramento só ocorreu em 1878, após edital publicado na Gazeta da Vitória, a 5 de janeiro, com a divulgação das condições exigidas para esse tipo de iluminação; nos domicílios, custando 0,20 réis, à hora, o bico de sete velas. A iluminação a gás, no ano seguinte, estendeu-se pelas ruas da cidade. Chamava-se Domingos ou Manuel da Costa Madeira a pessoa contratada para efetuar o serviço. O gasômetro, instalado na rua Cristóvão Colombo, apresentava defeitos repetidos, paralisando, assim, o fornecimento a que se propunha, o que colocava os usuários em pé de guerra contra o dono da empresa.

Os relatórios assinados pelos presidentes provinciais, todos com passagem meteórica na administração do Espírito Santo, não deixavam de registrar o problema de iluminação de Vitória, conforme se lê, por exemplo, no de Herculano Marcos Inglez de Souza, com data de 8 de dezembro e impresso na Tipografia do Horizonte, à rua Conde D'Eu, nº 12:

"É feita a gás a iluminação pública desta Capital, a cargo do empresário Domingos da Costa Madeira, que mostra os melhores desejos de bem cumprir as cláusulas de seu contrato com a Província, porém refere o Inspetor das Obras Provinciais, sob cuja fiscalização está esse ramo de serviço público, que este não atinge ao fim que dele se devia esperar à vista da enorme despesa que a província faz.

Há muitas irregularidades, que só poderiam sanar com a inovação do "contrato, porquanto o primeiro celebrado em 1877 poucas garantias dá à província. Na verdade tem havido benevolência para com a empresa, que está constantemente alegando a falta de pagamento das mensalidades, e por isso não tem sido o mesmo contrato rescindido, porque a empresa nunca cumpriu com a cláusula, que aceitou, de ajardinar uma das praças da capital.

Informa o empresário que o estabelecimento em que se acha situada a fábrica do gás dispõe das acomodações precisas em ordem a poderem livremente funcionar os dois gasômetros: um de 9600 pés cúbicos, e outro de 5400, dos autores Works e Falgent, e de todo o material indispensável ao mister da iluminação.

A área ocupada pelo estabelecimento é de 28 metros de frente e 120 de comprimento.

O consumo de carvão diariamente é de 1500 quilos, e o número de lampiões da iluminação pública da capital consta de 225, além de 84 casas particulares, inclusive a cadeia, quartel da Companhia de Infantaria, Biblioteca Pública e Estação Telegráfica.

O rendimento mensal da empresa é de 2:625$000 réis, sendo 2:025$000 a contribuição paga pela província e 600$000 réis o rendimento do consumo particular.

Alega o empresário que não tem sido observada a cláusula 23ª de seu contrato, isentando do pagamento dos direitos de importação o material existente na fábrica e de outros que possam ser importados para aquele fim.

Chamo, pois, a particular atenção para este ramo de serviço público, que consome uma não pequena parte das rendas da província".

Inglez de Souza, escritor e jurista, pertenceu à Academia Brasileira de Letras e foi membro do Supremo Tribunal Federal, tendo exercido a presidência do Espírito Santo apenas por nove meses.

A 11 de fevereiro de 1893, o engenheiro Arthur Tompson, através de contrato, encarregou-se da iluminação da cidade, a querosene, com a instalação de 150 lampiões belgas, visto a interrupção definitiva do fornecimento de gás.

A 21 de maio de 1896, inaugurou-se o Teatro Melpômene, com iluminação elétrica própria, uma novidade para a cidade.

A iluminação pública a eletricidade foi inaugurada, em Vitória, a 25 de setembro de 1909, sabendo-se, entretanto, que, a 19 de maio de 1908, o presidente Henrique Coutinho a instalara no Palácio do Governo.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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