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A imprensa de ontem e de hoje – Por Ormando Moraes

Boletim da Indústria Gráfica, nº 68 ANO IV - Setembro, 1955

As novas gerações que hoje desfrutam de uma imprensa escrita muito avançada tecnologicamente, precisa e minuciosa, e, dentro de pouco tempo, poderão dispor do jornal online, dentro de casa, não fazem a menor idéia do que era em tempos bem recentes, em que a conheci, usei bastante e com ela colaborei.

Na década de 20, de meus cinco aos quinze anos, residi em duas localidades muito modestas, carentes de meios de transporte e de comunicação com centros mais civilizados: Barra de Itabapoana, na foz do rio do mesmo nome, que nos separa do Estado do Rio, e Muniz Freire, na região serrana do Espírito Santo.

Para levar a mala do Correio, com cartas e jornais, a Barra de Itabapoana, uma vez por semana, um desprendido estafeta saía de Barra de Itapemirim e percorria, a pé e descalço, cerca de cinqüenta quilômetros pela praia, como o Padre Anchieta. Com destino a Muniz Freire, duas vezes por semana, as malas de Correio não exigiam tanto sacrifício, pois iam no lombo de burros das famosas tropas.

Naquele tempo nós recebíamos os jornais aos montes, principalmente o Diário da Manhã, desta capital, e eu já me interessava em primeiro lugar pelas notícias sofre futebol e sobre guerras, mas, devido aos atrasos, era duro pôr sua leitura em dia. Recordo, principalmente, do minucioso noticiário telegráfico, vindo através do cabo submarino da Western, com agência ali perto do Glória, que atingia o primor de fornecer ao Diário da Manhã, para publicação no dia seguinte, todo o desenrolar das principais partidas de futebol, inclusive as de que participava o excrete capixaba.

A partir de 1930, passei a residir em Cachoeiro de Itapemirim, onde se podia ter jornais do Rio e de Vitória diariamente, levados pelos trens da E.F. Leopoldina. Às 10 horas, o noturno do Rio, e às 15 horas, o expresso de Vitória eram aguardados por muita gente interessada em comprar e ler jornais do mesmo dia. Era um privilégio.

Em Cachoeiro, além de outros, havia naquela época o Correio do Sul, fundado por Armando Braga e tendo Newton Braga como seu redator-chefe. O jornal era composto a mão (catando milho, como se dizia), pelo saudoso tipógrafo Helio Ramos e impresso em primitiva impressora manual, que exigia enorme esforço físico, mas, mesmo assim, saía com regularidade, duas vezes por semana. No Correio do Sul, iniciei minha experiência jornalística e cheguei a me responsabilizar anonimamente por sua seção esportiva, além de colaborar com crônicas e artigos.

Naquela época e até os anos 70, Cachoeiro teve vário outros jornais muito bons, mas, curiosamente, nenhum deles diário, a saber: — O Clarim, do professor Ávila Junior, O Arauto de Hélcio Cordeiro, A Época, de Newton Meireles e Deusdedit Baptista, Sete Dias, de Joel Pinto, O Momento, de Aylton Bermudes e Virgílio Milanez, Folha da Cidade, da família Herkenhof A Vanguarda, de Deolindo Tavares Costa, e Jornal Capixaba, de Ito Coelho, além de outros.

Quando vim tentar a vida no magistério desta capital, em 1935, aqui já circulavam o Diário da Manhã e A Gazeta, além de pequenos jornais alternativos, como o dos integralistas, a revista Vida Capichaba, assim mesmo, com "eh", a Revista de Educação e a Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, fundada em 1916 e até hoje circulando duas vezes por ano.

Por influência e bastante benevolência de Ciro Vieira da Cunha, poeta, jornalista e professor, que gostava muito de proteger os jovens, figurei como colaborador de algumas dessas publicações com artigos sobre educação e ensino.

De volta a Cachoeiro em 1938, onde residi até 1973, além das principais profissões de professor e bancário, não consegui abandonar o vício de escrever e juntei-me a Newton Braga, no jornalzinho A Época, do Partido Socialista, na Rádio Cachoeiro de Itapemirim, que foi de nossa propriedade e na publicação de alguma revistas sobre municípios do sul do Estado.

Novamente em Vitória, a partir de 1973, fui acolhido por A Tribuna, com a publicação de uma série de crônicas, a seguir transformadas em livro, e mantive em A Gazeta a publicação de um artigo toda segunda-feira durante cerca de dez anos e, agora, mesmo sem regularidade e mais espaçadamente, ainda apareço como colaborador.

Faço estas referências não por exibição, mas pela honra de ter sido um dos mais assíduos colaboradores de jornais do Espírito Santo, mesmo sem ser jornalista profissional.

Mas o maior destaque que desejo fazer, já esboçado no início deste "escrito", é o extraordinário avanço tecnológico da imprensa. As notícias nacionais e internacionais vêm via telex-Embratel e passam por todas as etapas necessárias, só entrando a mão humana na impressão. O computador derrubou compositores, digitadores, linotipistas e revisores, só não conseguindo derrubar o jornalista.

Diante desses avanços tecnológicos, que nos proporcionam uma imprensa ágil e muito bem feita, já existindo até o jornal on line, vale a pena relembrar o que era no século passado e até boa parte deste.

Os antigos jornais desta capital e do interior, não raro efêmeros, eram pouco noticiosos, às vezes literários, ou puramente políticos, ou humorísticos, divulgavam bastante idéias e opiniões, raramente eram diários e não tinham o sentido empresarial de hoje.

No Arquivo Público Estadual e em excelente trabalho de pesquisa de Heráclito Amâncio Pereira, publicado no número IV, 1925, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico, obtivemos longa relação de jornais existentes nesta capital e no interior, de 1849 até os anos 20 deste século.

Nosso primeiro jornal foi Correio da Vitória, fundado em 1849 e funcionando até 1872. A seguir tivemos A Regeneração, O Tempo, O Monarchista, Jornal da Victoria, O Espirito-Santense, Gazeta do Commercio, Opinião Liberal, Provincia do Espirito Santo, o Liberal, O Meteoro, O Estado do Espirito Santo, O Pharol, O Federalista, O Commercio do Espirito Santo, L'Imigrato (da colônia italiana), Polyanthéa, Honra ao Merito, O Prestigio, O Olho, O Progresso, O Sport, O Estado, O Sabe Tudo (humorístico), A Senda, Folha do Povo, Diario do Povo, A Tribuna de Victoria (de 1913 a 1914), O Fallador (humorístico) e O Labor.

Mais tarde, além dos grandes jornais hoje existentes, tivemos O Diário da Manhã, órgão oficial do governo, e, entre os anos 40 e 50, Folha Capixaba, Folha do Povo e O Diário.

Enquanto isto, no interior, a partir de 1850 e até o início deste século, existiram os seguintes jornais: O Cachoeirano, Sul do Espirito Santo, Alcantil, O Momento, Lutador, Nossa Folha, O Progresso, A Opinião, A Folha Azul, A Bomba (humorístico), o Jornalzinho, O Martello e O Espoleta (humorístico), de Cachoeiro de Itapemirim; O Norte do Espirito Santo e O Aymorés, de São Mateus; O Leolpoldinense e O Imparcial, de Santa Leopoldina; A Regeneração e a A Tribuna, de Anchieta; O Progresso, A Evolução e A Luz, de São Pedro de Itabapoana; A Serra, da cidade do mesmo nome; O Muquyense, A Ordem e o Municipio, de Muqui; Gazeta Alegrense, A Verdade e O Alegrense, de Alegre, onde também funcionou, de 1967 a 1991, o jornal Mensagem, do poeta Evandro Moreira; A Flexa, de Castelo; Correio de Guandu, de Afonso Cláudio; A Ordem e Folha do Sul, de Calçado; Voz do Povo, de Mimoso do Sul; O Espirito Santo, de Muniz Freire; O Povo, de Santa Teresa; O Liberal, de Guaçuí; Gazeta de Itapemirim, O Operario, O Constitucional, A Revolta, O Caboclo e Sentinela do Sul, de Itapemirim; Voz do Povo, de Mimoso do Sul; Correio do Norte e A Noticia, de Colatina; e Novo Horizonte, de Cariacica.

Atualmente, existem os seguintes jornais no interior de nosso Estado: Arauto, Sete Dias, O Brado, Notícias do Sul, Correio do Estado, Mirante, A Boca (humorístico), de Cachoeiro de Itapemirim; A Folha de Alegre; Mimoso do Sul - Jornal; Canela Verde e Jornal de Vila Velha; Correio Popular, de Cariacica; O Colatinense, Folha do Norte e Nova Geração, de Colatina; O Pioneiro e Folha de Linhares; Tribuna do Cricaré, de São Mateus; e O Espírito Santo, de Guaçuí.

Como se observa, diminuiu muito o número de jornais no interior e nenhum deles é diário, porque os grandes órgãos de imprensa desta capital, do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte, com as atuais facilidades de transporte, chegam rapidamente a quase todas as localidades de nosso Estado.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Ormando Moraes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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