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A Juventude de Maria Lindenberg - Texto de Lia Neiva

Maria Lindenberg e a amiga Madalena, Manon. Com o uniforme do Carmo, segurando os cadernos. Maria ainda segura um pandeiro usado nas aulas de Educação Física

Minha adolescência foi passada aqui em Vitória. Fui ao Rio algumas vezes visitar Nietta, hospedando-me com suas colegas do Sacre Coeur. Depois, passei a ficar na Tijuca, em casa de um irmão de mamãe apelidado de Nhonhô. A viagem para o Rio era um acontecimento. Ia-se de navio ou de trem. Eu era despachada ora em um, ora em outro. Literalmente despachada, pois mamãe escolhia uma família conhecida, de viagem para a capital da República, e me entregava aos seus cuidados. Eu ia de enxoval novo, toda arrumada para causar o melhor dos efeitos.

Mario já cursava a famosa Escala Politécnica do largo de São Francisco para a qual ingressara sem qualquer preparatório. Quem o mantinha, em uma pensão do bairro do Catete, era Eugênio, que continuava à frente da venda.

Vaidoso e muito arrumadinho, Mario sempre procurava fazer bela figura. Como não lhe sobrava dinheiro para mandar passar as calças, ele as colocava cuidadosamente embaixo do colchão, todas as noites. O resultado era ótimo. Pela manhã, elas estavam esticadas e vincadas, e ele, satisfeito com a própria engenhosidade.

Na Politécnica, ele fez boas amizades inclusive com um rapaz chamado Sílvio Mello Leitão, filho de um pediatra e também famoso cientista da Fiocruz, Cindido Mello Leitão, o mais prestigiado aracnologista do mundo. Havia uma sala com seu nome no Museu de História Natural de Londres. Os laços entre Mario e Sílvio se estreitaram a ponto de meu irmão ser convidado a frequentar sua casa. A mãe de Sílvio aprovou a convivência com o rapaz do Espírito Santo, sempre tão correto e estudioso, na esperança de que o seu exemplo modificasse ou melhorasse o comportamento de seu filho, um farrista bonitão e rico. Nas visitas à casa de d. Sílvia, Mario falava muito na família, principalmente em Nietta, que havia falecido justamente naquele ano. Seus olhos azuis se marejavam de lágrimas com a lembrança.

D. Sílvia, impressionada comi o carinho que ele demonstrava pelos seus, procurou saber mais sobre os Pacheco Queiróz, o que não lhe foi difícil, pois era amiga dos capixabas Tavares Bastos. Pelo telefone, ela soube que os dois clãs se conheciam e recebeu ótimas referências de Mario. Foi o suficiente para convidá-lo a morar em sua casa, evitando, desse modo, que voltasse ao catete no último bonde da noite. Meu irmão ficou radiante com a mudança para a Rua General Glicério, nas Laranjeiras, e escreveu dizendo que passara a morar em casa de uma senhora muito boa sem, contudo, dar maiores detalhes. Mamãe imaginou que ele houvesse simplesmente mudado de pensão. Eu acho que essa omissão foi uma esperteza de Mario para que Eugênio continuasse a lhe enviar o dinheiro da hospedagem. Nunca lhe perguntei a respeito e tenho muita vontade de tirar o fato a limpo. Quem sabe, agora, ele me conta?

Desconhecendo a verdade, mamãe não agradecia a esplendida acolhida dispensada ao filho. Nenhuma carta aos Mello Leitão. D. Sílvia estranhava o indelicado silêncio, uma incompreensível falta de atenção de uma família da qual recebera tantos elogios. Numa dessas coincidências que só o destino explica, uma prima-irmã de Carlos, Stelinha Novaes, emérita cientista versada em História Natural, interessada em parasitas e beija-flores, foi ao Rio tomar aulas com o Dr. Mello Leitão. Conversa vai, conversa vem, D. Sílvia ficou sabendo que um primo da moça havia sido casado com uma irmã de Mario, a irmã que falecera. Stelinha contou-lhe sobre nós, preenchendo as lacunas que faltavam. Durante o encontro, D. Sílvia mencionou a irmã caçula de Mario. A que gostava de piano e da qual ele falava maravilhas; no final, pediu a Stelinha que, em Vitória, entregasse, à mocinha, uma partitura de Taí, a música de Carmen Miranda, grande sucesso do momento. Estelinha cumpriu a incumbência e, só então, nós ficamos sabendo que a nova pensão de Mario era, na verdade, uma bela residência de propriedade de uma conceituada família. Eu fiquei radiante com o presente e toquei sem parar a marchinha que dizia: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, oh, meu bem, não faz assim comigo não, você quer, você quer machucar meu coração." Eu escrevi uma carta de agradecimento à D. Sílvia e logo recebi sua resposta. Uma assídua correspondência se estabeleceu entre nós. Doutor Leitão, homem sisudo e extremamente circunspeto, que só demonstrava interesse por seu trabalho, achou graça nas minhas cartas bastante corretas e, como também gostava de escrever, passou a lê-las. Das leituras, nasceu um interesse pela jovem missivista. Um dia, ele me escreveu, eu respondi, e uma outra troca de cartas se iniciou; às vezes, nós nos comunicávamos em versos.

Com o tempo, ele se tomou de amores por mim a ponto de, mais tarde, dar meu nome a um dos insetos que estudava. Assim, em uma gaveta de um armário, no Museu de História Natural da Fiocruz, existe um aracnídeo chamado Maria Queiróz, ou Queirolíngio, ou Marilíngia, tanto faz. Essa homenagem me envaidece até hoje, pois sou a única Queiróz nomeada para a posteridade.

O fim daquele ano chegou e, com ele, as férias. Como era de praxe, quinze dias foram destinados a uma temporada no Rio, no bairro da Tijuca, em casa de meus tios Nhonhô e Ilnah. Eu, já com 15 anos, informei os Mello Leitão da minha próxima viagem e combinamos um encontro. Mamãe, como sempre, entregou-me a uma família conhecida, que ia viajar de navio. Na chegada ao Rio, debruçada na amurada do barco, eu espiava a faina da atracação, ao mesmo tempo em que olhava, empolgada, a multidão no cais aguardando o desembarque dos passageiros. De repente, vi Mario. Com ele estava uma senhora alta, de chapéu de abas largas, elegantíssima, segurando uma espécie canudo. Conversando com os dois, um senhor de aparência muito distinta. Não vi meus parentes maternos. Sem muito esforço, compreendi que os desconhecidos ao lado de Mario eram os meus novos amigos, D. Sílvia e doutor Leitão, que me deram efusivos abraços tão logo desembarquei. Ela percebeu, de imediato, o meu estrabismo e, como me confidenciou mais tarde, concluiu comovida: "Como Maria gosta da irmã para não se dar conta de que ela é vesga." E prometeu a si mesma consertar o meu olho virado para fora. Ninguém percebia que eu não enxergava com aquela visão. A falta da visão não me fazia feia, mas o estrabismo me dava uma aparência estranha. Naquela ocasião, eu desconhecia que Mario lhes descrevera uma irmã linda. Seus relatos foram destorcidos por seu amor a mim.

Depois dos abraços de boas-vindas, D. Sílvia deu-me o canudo que, para meu deleite, estava cheio de bombons; bombons de vários feitios. O canudo — como vim a saber mais tarde — era, simplesmente, uma cornucópia da famosa Confeitaria Colombo, repleta de finíssimo chocolate. Foi uma agradável coincidência, pois ela nem imaginava que um dos meus maiores prazeres era — e continua sendo — comer chocolate. Minha alegria foi tanta que saltei e pulei. Do cais, fomos de carro para a Tijuca. Meus tios me esperavam em casa, como ficara acertado entre eles e os Mello Leitão. Ao nos despedimos, D. Sílvia pediu para que eu almoçasse em sua casa no dia seguinte. Titia concordou; ninguém se opunha àquela mulher de personalidade marcante. Apesar de gostar de minha prima Lourdes, nada me ficou daquela ocasião em família; só me recordo do belo automóvel me levando, no dia seguinte, para o almoço nas Laranjeiras. Doutor leitão dirigindo, e eu orgulhosa de estar ao lado de um cientista tão importante. Só nós dois naquele carro lindo, subindo uma ladeira sinuosa e atravessando um túnel que parecia não ter fim. Era a Rua Alice. Em meio a uma conversa animada, eu o chamei de doutor Mello; ele me interrompeu e explicou: "Não me chame de Mello; chame-me de Leitão. É como prefiro."

Entusiasmada, eu matraqueei o caminho inteiro, enquanto ele ria, achando muita graça. Uma sensação desconhecida me invadia. Uma tranquilidade, um bem-estar, uma espécie de paz. Senti que a vida, como a conhecia, ia terminar e que algo bem diferente esperava por mim. Pressenti que rejeições e reprovações não fariam mais parte do meu cotidiano e que muito amor e aflição estavam a caminho. Quando o doutor Leitão exclamou: "Chegamos!", fiquei boquiaberta com o tamanho da casa. Meu espanto continuou quando entrei. Tudo era maravilhoso. Havia tapetes por toda parte; tapetes altos e fofos nos quais meus pés afundavam. Tapetes e quadros, e objetos, e móveis lindíssimos como eu nunca vira. O escritório me deslumbrou. Era em estilo Império — na época eu não sabia — , com um belo sofá que depois me foi dado de presente. Senti-me como em um castelo de contos de fada. D. Silvia me esperava com um abraço e, naquele instante, ficou estabelecido que, dali em diante, eles seriam tia Sílvia e tio Leitão para mim. Passei uma tarde maravilhosa. Encantei-me com um jardim dentro de casa; era envidraçado e chamava-se jardim de inverno. Achei o máximo. Do lado de fora, estendia-se um belo gramado com canteiros floridos e um enorme pé de abacate circundado por um banco onde, anos mais tarde, recebi o primeiro beijo de Carlos. O tempo passou sem que notássemos; nossas conversas foram tantas que não couberam nas horas daquele dia, e tia Sílvia, então, determinou que o meu lugar era ali com eles. Aquela casa deveria ser a minha casa pelo tempo que eu quisesse. E o meu coração se alegrou como nunca e, para não contrariá-lo, decidi permanecer com a minha nova família até o final das férias. Tio Leitão voltou à Tijuca, explicou a situação ao irmão de mamãe e retornou com a minha mala.

Naquela noite, dormi feito uma princesa.

Tia Sílvia estava determinada a consertar meu estrabismo e logo marcou uma consulta com o Dr. Gabriel de Andrade, um conceituado oftalmologista. Ele explicou que o meu problema era causado pelo que chamou de estrabismo divergente, um desvio difícil de corrigir. A operação foi realizada, porém o resultado não foi o que se esperava: meu olho continuou torto; dessa vez virado para o nariz. Parece que o médico exagerou nos cortes. Anos mais tarde, eu o procurei e, repetindo suas próprias palavras, as incisões feitas, na operação, haviam sido muito liberais. Eu prefiro defini-Ias em termos mais contundentes. Apesar do insucesso, a estética do olho operado melhorou; voltado para dentro, ele tinha uma aparência menos desagradável do que quando estava virado para fora; além disso, eu ganhei um pouco mais de controle sobre ele. É evidente que fiquei frustrada, porquanto sonhara com um resultado maravilhoso. É muito triste uma adolescente ter um defeito tão visível. O meu estrabismo era realmente muito acentuado e me causava um verdadeiro horror. Como prova, há uma fotografia tirada pelo médico antes da operação; nela, vê-se que eu absolutamente não exagero.

As férias acabaram, e o meu último ano de colégio ia começar. Tia Sílvia me trouxe à Vitória e agradeceu à mamãe por me ter deixado com ela. Viemos de navio e nos divertimos bastante. Ela se hospedou em nossa casa, num quarto preparado especialmente para a ocasião, cama nova inclusive. Ficou conosco por quase um mês, comendo aquelas comidinhas gostosas que Dindinha, a mãe de Maria Pequena, cozinhava como ninguém. Mesmo sendo uma senhora de sociedade, partilhou, muito feliz, de nossa vida simples, adorando tudo: a cidade, a família, e minhas amigas: Jacy Saade, Magdalena Vianna e Abigail Gomes, apelidada de Bio. Esta estudara um  ano no Sacre Coeur e já era sua conhecida. Tia Sílvia estreitou seus laços com Carlos que, no Rio, também frequentava a General Glicério para estar comigo e com Mario. Aqui, os dois ficaram amigos, pois ele sempre aparecia para nos levar a passear. Eu estava inteiramente apaixonada por tia Sílvia e, ela, por mim. Tio Leitão também me amava com loucura. Eu era a filha que eles nunca tiveram. Quando fiz 16 anos, ele me presenteou com um anel de pérola e um cartão onde escreveu:

"Minha filhinha do coração leva-te este cartão um grande abraço por teus 16 anos, abraço em que se resumem os milhões de beijos que te mando. Junto com este segue uma insignificante lembrança, mas eu procurei uma jóia que fosse delicadinha como és, refletindo a tua simplicidade. E como és sempre a mesma e sempre alegre, preferi uma pérola, sem arestas, refletindo de igual modo na curva regular de sua forma, a luz do sol e o lume de teus olhos. A pérola é sem arestas como você, e seu brilho é igual ao lume dos seus olhos." Muito lindo e poético. E continuava: "Rezei muito por ti, para que fosses bem nas peripécias da prova de História Natural. Como o primeiro volume que recebi foi logo reservado para minha filhinha, isso me trouxe sorte, e nesses três meses, disse meu editor; já se venderam mais de cinco mil exemplares. Se eu fosse a Vitória, não tenhas receio que me repartisse porque Mariantonietta é uma só. Ainda ontem fui ouvir missa em intenção da tua felicidade. E no dia 6 irei a Basílica de Santa Terezinha a rezar por ti. Lembranças à dona Menininha, a Eugênio e ao Dr. Carlos. Beijos, beijos, muitos beijos do Leitão".

Para os Mello Leitão, ninguém era tão bonita, tão inteligente, tão educada e tão perspicaz quanto eu. Foi um amor imensurável. Também conquistei a amizade de seus filhos. Os dois rapazes, Silvio e Aluysio, me amavam. Infelizmente já faleceram. A mulher de Sílvio, Regina, sempre me disse: "Maria, Sílvio é tão apegado a você e a Carlos que, para mim, vocês são meus cunhados, tanto que, em nossas comemorações de Natal, vocês estão sempre presentes, junto com meus irmãos e suas famílias."

A estada de tia Sílvia conosco foi um sucesso, e ela se ligou muito a Darcy, a ponto de ser convidada para madrinha de Maria Helena, sua primeira filha. Nossos passeios com Carlos eram recheados de conversas entre os dois. Eu quase não participava. Conhecendo os locais visitados, achava melhor cochilar deitada no banco de trás do carro. Sentimos um vazio quando foi embora. Mamãe nunca teve ciúme dessa tia postiça, achando mesmo que, por combinarmos tanto, o meu lugar era ao seu lado. Uma atitude fantástica.

No carnaval, tia Sílvia retornou. Foi uma volta providencial, pois sendo uma pessoa alegre, neutralizou o mau humor de mamãe, sempre muito brava comigo. Quando eu chegava em casa com o boletim da escola, orgulhosa das notas altas que me haviam garantido o primeiro ou segundo lugar da turma, ela olhava e reprovava: "Não tem dez! Por que você não traz dez?"

Eu ficava com muita raiva e estudava com mais afinco e quando lhe mostrava o boletim seguinte cheio de dez, ela comentava: "Ah, dez, hem! Não sei como você tira essa nota! Não vejo você estudar..." Sua intenção era boa; ela queria o melhor para mim, porém agia da maneira errada. Nunca um elogio; jamais uma palavra de incentivo. E, para completar, não me dava crédito e não tinha um pingo de confiança em mim, achando sempre que eu ia enganá-la, namorar escondido e fazer bobagens. Eu me enraivecia com essa injustiça, já que o meu comportamento sempre foi correto. Tia Sílvia me via com outros olhos e me estimulava. Ela acreditava em mim e sabia que eu sempre falava a verdade. Eu não mentia então e não minto agora. Tenho aversão à falsidade, seja de que jeito for. Como qualquer pessoa normal, eu gosto de elogios e, quanto mais os recebo, mais procuro corresponder àquele bom juízo.

Por tudo isso, a presença de tia Sílvia, naquele carnaval, levantou o meu astral e aumentou, ainda mais, a minha disposição de brincar. Eu adorava ir aos bailes e lá estava ela me apoiando. Minhas amigas e eu fundamos um bloco muito elegante chamado Coquetel de Risos. Nós dançávamos em grupo, pulando e cantando até quase a exaustão. Naquela época, usar fantasias era uma exigência dos clubes, e as nossas eram muito caprichadas, variando a cada ano. Vestimentas decentes e com muito pano, é lógico. Não havia pernas de fora. Uma das meninas era ótima costureira e se encarregava de cortar todas as ciganas, ou tirolesas, ou princesas das czardas, ou o que quer que fosse. Nós a ajudávamos no que podíamos. Depois, cada qual apanhava a sua fantasia e a costurava. Tia Sílvia acompanhou os preparativos e adorou participar do nosso carnaval.

Eu gostava muito de flertar, tanto na Praça Costa Pereira, junto ao Teatro Carlos Gomes, quanto nos bailes carnavalescos. Começava dançando com minhas amigas e terminava sambando com algum rapaz simpático. Nada de agarramentos ou de beijos; apenas mão na mão e sorrisos. Eu sabia flertar e tinha muitos admiradores. Eugênio me acompanhava às festas e não me perdia de vista um só instante. Era um irmão zeloso e precavido, mas sua vigilância era totalmente inútil, pois eu era bastante inocente; aos 15 anos, ainda me distraía jogando diabolô com minha vizinha e amiga Lindinha. Eu era uma exímia jogadora e sempre conseguia atirar o carretel para o ar e apará-lo no barbante sem deixá-lo cair.

A rotina anual começava depois da folia de Momo. A minha consistia em estudar e, naquele ano, meu objetivo primeiro era terminar o curso de professora normalista. As saudades de tia Silvia só se abrandavam com a chegada de suas longas cartas cujo começo era sempre: "Minha filhinha do coração". Depois, ela contava as novidades e terminava falando do presente enviado pelo correio: ora uma blusinha, ora um tricô.

Tio Leitão também me escrevia e sempre mencionava uma determinada palavra que eu pronunciara errado logo na primeira vez em que me hospedei com eles. A palavra era peripécias. Na ocasião, ele marotamente perguntara, acentuando a sílaba errada: "Maria, qual é o certo: perípcias ou peripecías." Eu, muito aflita, escolhera a primeira opção. Ele me corrigira, e uma brincadeira teve início. Sempre que o assunto dava margem, ele repetia a pergunta capciosa. Nós tivemos uma convivência maravilhosa. É com muito carinho que guardo toda a nossa correspondência. Leio e releio as suas cartas, deixando a saudade entrar. É como retroceder no tempo; reviver a juventude e me aproximar ainda mais daqueles que nunca deixaram o meu coração.

Os Mello Leitão me viam como uma verdadeira filha, e esse amor estampava-se em grandes e em pequenas coisas. Contentes de me terem em casa, eles prepararam um quarto para mim. A linda sala de vestir de tia Sílvia, anexa ao seu dormitório, foi desmanchada e transformada para me acomodar. Lá, eu dormi até o casamento, bem pertinho dos que considerava como pais adotivos. Os meninos tinham o quarto deles do outro lado do corredor. Quando fiquei mais velha, compreendi a razão desses cuidados e me comovi com tamanha prova de carinho.

Eu adorava o dia-a-dia escolar, e o Carmo era um ótimo colégio. Nietta, terminado o curso do Sacre Coeur, também estudou lá, formando-se em professora. Havia, em minha turma, uma divertida confraria chamada Bloco dos Lecos, composta por algumas alunas muito chegadas. Dela, faziam parte, além de mim, grandes companheiras como Magdalena — aquela que se sentava ao meu lado desde o primeiro ano de escola —, Jacy, Bio, Eurídice e Ivani Jael, minha futura comadre, mãe de Bety Osório. Desse grupo, só Magdalena e eu gostávamos de estudar. Bio era malandra e vivia copiando todas as respostas que podia. Nos dias de prova, ficávamos uma em cada carteira, e ela, atrás de mim, espetava-me o bumbum com a caneta tinteiro — aquela antiga bem pontuda que se mergulhava na tinta — e, sem a menor cerimônia, sussurrava: "Passa a cola; passa a cola." Eu obedecia porque Bio era fogo. Não satisfeita, ela ainda dizia: "Agora, empurre a prova bem para o lado direito que eu quero conferir". Além de não estudar, ela era desconfiada e queria ter certeza de que eu estava dando a cola certa. Bio era uma pessoa incrível: esperta, engraçada, confiável e, às vezes, completamente alucinada e absurda. Dava respostas inesperadas como no dia em que apanhamos os pés-de-moleque no refeitório. Foi-nos irresistível passar por eles sem surrupiá-los. Todas avançamos para as maiores que estavam em cima. Todas, menos Bio. Alguém estranhou aquele comportamento sóbrio, e ela respondeu: "Eu, hein, apanhar as de cima que estão sujas de moscas! Eu quero as de baixo, bem limpinhas."

Nós adorávamos ir ao cinema e éramos frequentadoras assíduas das matinês. Porém, como não podia deixar de ser, Bio sempre aprontava ora dizendo que estava sendo devorada por dezenas de ávidos mosquitos, ora que nojentas baratas subiam nos seus sapatos. Para grandes problemas, grandes remédios, e ela resolveu a questão acendendo uma espiral contra insetos bem debaixo do seu assento, obrigando-me a assistir aos filmes em meio a uma fumaça malcheirosa. Era uma criatura irresistível. Tornou-se minha comadre e uma amiga muito próxima com quem convivi até a sua morte em 2001.

Voltando ao assunto provas, eu não me importava que copiassem as minhas respostas, porém nunca pedi cola, nem a levei escrita em pedacinhos de papel. Achava errado e, mesmo que não achasse, simplesmente não tinha coragem de enganar os professores. Pensava que era mais seguro estudar. Magdalena concordava e se dedicava aos estudos tanto quanto eu. Nós éramos ótimas alunas e nos alternávamos no primeiro lugar da classe. Não havia competição entre nós; não havia ciúme. Nossa convivência era sadia e se alicerçava em uma sólida amizade, tornada ainda mais querida depois do episódio da seborréia. Foi minha querida Madaglena quem diariamente passava lá por casa, chamando-me para o colégio e quem continuou partilhando a carteira comigo até o nosso último dia no Carmo.

Nós trocávamos confidencias sem qualquer receio. Quando ela decidiu romper com um namoro de muitos anos, disse-lhe que o fizesse lá em casa, na sala de visitas, enquanto eu esperaria na sala de jantar, pronta para defendê-la caso o rapaz se tornasse violento. Meu auxílio não foi necessário, pois o pobre rejeitado só fez chorar.

Almoçar e estudar no hotel de propriedade de dona Alice, mãe de Magdalena, era um grande programa. Ele ficava na Praça Oito e era muito bem frequentado. Eu me regalava comendo os deliciosos bifes servidos aos hóspedes. Um dia, durante o almoço, Magdalena disse: "Minha irmã Dulcinha teve uma filha ontem. Vamos ver a Nenen?" Nós fomos correndo, e eu conheci Maria Alice Pessoa, que me faz boa companhia até hoje e que está comigo pelo menos uma vez por semana.

Magdalena escreveu sobre mim, no caderninho do colégio do Carmo. Foi muito lisonjeira, e sua descrição mostra que ela me via por uma ótica especial:

"Ela é uma interessante, mimosa, encantadora, loirinha, morena. Seus cabelos de cor dourada, levemente encaracolados, são cortados à Sue Caras (uma artista do cinema americano). É uma pequena do século XX, que aprecia o jazz, o fox estonteante e os pequenos bonitinhos e moreninhos. A sua tez possui a cor amorenada das brasileiras, encantadoras. Os seus olhos castanhos claros, quase verdes, são um pouquinho estrábicos, o que lhe dá mais graça, irradia uma luz travessa, que prende e encanta. Seu narizinho que ela se esforça por tornar arrebitado, é encantador como tudo que lhe pertence. Sua boquinha mimosa, quando se abre num sorriso, dá idéia dum botão avermelhado, abrindo-se aos raios acariciadores do sol, que podem ser representados pelos seus cabelos encaracolados, deixando entrever a corola, que são os seus alvos e bem cuidados dentinhos. Suas mãozinhas gorduchas fabricadas por fadas cuidadosas, dão impressão de duas rosas colhidas no jardim de alguma princesa persa. É mingon, possui o andar e a graça de uma borboleta dos bosques floridos no tempo primaveril. Seu pezinho de fada desliza mansamente borboleteando, levando num vôo leve o seu corpo mimoso de bailarina. Para terminar, é a encarnação de uma loira colombina com a alma agitada de uma pequena do século XX. De uma lourinha estonteante de graça perturbaste. Manon, 1930".

Apesar desses elogios, a beldade era ela. Dona de lindos olhos azuis, fazia um tipo ao mesmo tempo delicado e atrevido, que conquistava corações. Casou-se com um rapaz da sociedade do Rio, da família Gabizzo, muito ciumento e possessivo que só lhe permitia ir à minha casa. Infelizmente, ela morreu muito cedo, logo depois de comemorarmos vinte e cinco anos de formadas. Um tumor no cérebro levou-a em poucos meses. Eu a amava e amo até hoje.

As freiras do Carmo eram muito afáveis e gostavam particularmente de mim. As meninas diziam que eu era peixinho delas, gíria da época significando queridinha. Elas nos proporcionavam piqueniques no morro da Penha e nos levavam ao Convento para rezarmos a novena de Nossa Senhora. Era um tempo de pouca malícia, e nossos prazeres de adolescente se constituíam de coisas simples, algumas vezes até infantis. Formávamos um grupo unido e alegre. Nunca fizemos rodinhas para contar anedotas e falar de sexo, mas, para não faltar com a verdade, houve um incidente picante no qual fui a personagem principal. Um dia, ao me encontrar com as meninas, notei um certo clima no ar e uma delas me disse: "Maria, imagine você, que, lá no viaduto, há um homem mostrando tudo." Minha reação foi inesperada e imediata: "Onde? Eu quero ver! Eu quero ver!". E corri desabalada, mas não encontrei o indecente. Fiquei muito decepcionada e voltei desgostosa em meio aos gracejos e risotas das meninas. Eu deveria ter desconfiado que estava sendo vítima de uma brincadeira, porquanto elas se mostraram muito desinteressadas, enfatizando o fato com um pudor exagerado, gritando: "Ah, que coisa horrível" "Eu não quero ver" "Deus me livre, é muito chocante." Esse deslize foi uma exceção, a única vez em que saímos do sério.

Nosso último ano de colégio transcorreu divertido e triste ao mesmo tempo. Havia uma saudade antecipada das alegrias e brincadeiras que ficariam para trás. Eu chorava todas as vezes que ensaiávamos o hino de despedida a ser cantado na festa de formatura. Formatura de professora normalista. Por mim, as aulas continuariam para sempre. Eu gostava das freiras, das colegas e dos professores leigos. O de literatura, Ciro Vieira da Cunha, era o meu preferido. Nós dois nos achávamos, mutuamente, o máximo.

Alguém, não me lembro quem, conseguiu emprestado um caminhão para nos levar a Vila Velha, em um derradeiro piquenique. Fomos todas na carroceria, cantando a plenos pulmões. Cada qual levou o seu farnel, pois o passeio seria longo. Subimos a pé o morro da Penha, fomos ao convento, assistimos missa, rezamos contritas e descemos mortas de fome. Sentamos e pegamos as merendas. Grade surpresa: todas só tínhamos levado uma latinha de goiabada. Apenas Jacy desembrulhou uma apetitosa galinha assada com farofa. Coitadinha, nem sentiu o gosto do almoço; mãos sôfregas avançaram rápidas, e a cobiçada matula acabou em um instante. Foi uma perversidade.

O último ano de um curso é muito especial. É tempo de juntar lembranças que nos acompanharão pelo resto da vida. Assim, em 1933, eu preparei um questionário para ser respondido por minhas colegas de classe. Vinte delas concordaram entusiasmadas. Bio se recusou; não me recordo por que razão. Algumas das perguntas são bobas e refletem bem o pensamento romântico e ingênuo das moças da época, mas, na ocasião, elas nos pareceram bastante sérias; outras são válidas até hoje. Cada uma das meninas escolheu um número, indicando a sua vez de responder. A ordem das respostas foi religiosamente seguida. Assim, a de número um é sempre de Jacy; a de número três, de Magdalena. Eu, como a dona da ideia, não me senti obrigada a responder.

— Que nome desejaria possuir?

Estou contente com o meu, apesar de quase toda mulher de soldado ser minha xará. (Adelina Mendonça)

— Se não fosse o que é, o que desejaria ser?

Passaria debaixo do arco-íris para ser homem. (Jacy)

Queria ser Maria Montessori. (Delfina Dias Sales)

 - Gostaria de viver em outra época?

No tempo em que as esquinas falavam, para saber os segredos dos namorados. (Maria Martins)

Em 1980 porque nessa época estará tudo muito mais adiantado que hoje. (Magdalena)

Sim! Na época em que os animais falavam, para ler uma entrevista com o King Kong. (Ivany Jahel)

No ano 2000, para ver o homem que dormiu cem anos. (Elza Ferraz)

Sim! Na época em que os homens falassem a verdade. (Delfina Dias Sales)

Sim, 1990, porque até lá não se sentirá calor, as roupas terão desaparecido. (Adelina Mendes)

- Tem algum ideal? Qual?

Dar uma surra de pinhão no Claudionor. (Elza F)

Morar no Rio de Janeiro. (Elza Alves)

- Já teve alguma grande alegria?

Não! Mas espero ter daqui a três meses se não for reprovada. (Jacy)

Já, quando soube que a Prefeitura tinha suspendido a carrocinha. (Ivany Jahel)

- Está cansada de viver?

Eu hein, Rosa! Só Urso! Estou com medo de morrer... (Delfina Dias)

De estudar sim; de viver, não. (Carmem Busatto)

- Que acha do flerte, gosta dele?

Delicioso passatempo. (Jacy)

- E do namoro?

Como já sou veterana no assunto, respondo com autoridade: é do outro mundo. (Magdalena)

- Como define a saudade?

Saudades são os restos mortais da felicidade de quem viveu. (Gioconda Mathias)

A saudade é um filme que se desenrola sempre no nosso pensamento. (Eurídice Ferraz)

Saudade... sombra esguia duma felicidade que vai longe... (Maria José Albuquerque)

É um lenitivo um pouco doce que nos fica de algum momento alegre. (Arlette Cypreste)

O questionário terminava assim:

"Você gosta de poesia? Escreva aqui a que você mais gosta."

Foi uma pergunta proposital, porque eu adorava poemas e fiquei com uma bela coleção; uma coletânea diversificada, escolhida dentre os poetas que tínhamos estudado. Uma amiga, Lindinha (Almerinda Dangremon), distinguiu-se por escrever um soneto da portuguesa Virginia Vitorino, uma poetisa que eu adorava:

"Ama-se uma vez só. Mais de um amor

De nada serve e nada o justifica.

Um só amor, absolve, santifica.

Quem ama uma só vez, ama melhor.

 

Qualquer pessoa, seja lá quem for,

Se a uma outra pessoa se dedica,

Só com essa ternura será rica,

E a qualquer outra julgará pior.

 

Há dois amores! Qual é o verdadeiro?

Se há segundo, o que é feito do primeiro?

Esta contradição quem foi que a fez?

 

Quem ama assim, julga, talvez, que amou;

Mas pode acreditar que se enganou

Ou da primeira, ou da segunda vez."

 

Bonito, não é? Antigamente as poesias tinham rima. Não havia isso de verso livre.

Também tenho registrado um poema bem especial que narra uma história de amor e separação e que nos impressionava muito:

 

Caneta de ouro (Paulo Setúbal)

"Um dia ela me mandou como lembrança

trazendo o perfume de sua áurea trança

um fino anel de seu cabelo loiro.

E eu, retribuindo ao mimo perfumado

mandei-lhe com trêfego recado

Num fino estojo, uma caneta de ouro.

 

Um mês após, daquelas mãos de arminho

Eu recebia um doce bilhetinho

Com isto apenas: "Paulo, meu tesouro"

Faço anos hoje. Vem. Não há convite".

E de noite, ao meu lado, ela me disse:

"- Olha, escrevi-te só para usar a caneta de ouro".

 

Depois... brigamos. Como um sonho

Desfez-se aquele amor lindo e risonho

Que eu julgara imorredouro

Dos mimos de outrora, ao devolvê-los

Guardei comigo o anel de seus cabelos

e ela guardou minha caneta de ouro.

 

Depois... Depois.... casou-se. No momento

No instante emocional do casamento

Eu, sufocado, mal contive o choro

Ao ver esta cruel, que me consome

Ir escrevendo trêmula o seu nome

tendo entre os dedos a caneta de ouro".

 

Há um outro soneto, copiado por mim mesma nas últimas páginas de meu questionário e que sei de cor até hoje. Ele continua a me emocionar pelo significado que passou a ter para mim nesses últimos anos.

Os Cisnes (Julio Salusse)

 

“A vida, manso lago azul algumas

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente

Um lago azul sem ondas, sem espumas,

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas

Matinais, rompe um sol vermelho e quente,

Nós dois vagamos indolentemente,

Como dois cisnes de alvacentas plumas.

 

Um dia um cisne morrerá, por certo:

Quando chegar esse momento incerto,

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne!”.

 

É com muito carinho que guardo esse caderno escrito com minhas velhas amigas. Amigas queridas, a maioria das quais já se foi. Muitas vezes, desenrolo o filme da nossa juventude e me deixo levar por uma suave nostalgia. A partir da formatura, a vida dispersou a maioria de nós, mas, por felicidade, manteve Magdalena, Jacy, Bio, lvani e Euridice junto a mim.

Carlos, já, então, deputado no Rio, escreveu-me uma carta prometendo que estaria em Vitória para a minha formatura. No alto da página estava escrito: "Querida tia Maria." Era assim que ele me chamava, imitando as filhas. Disse-me que sentia muitas saudades delas; que vivia muito só em seu quarto de hotel na cidade; que gostava de ir à casa de tia Sílvia, conversar em família e ver Mario, que continuava morando com ela. Aliás, meu irmão só saiu de lá quando foi estudar nos Estados Unidos. Darcy, volta e meia, também comparecia, assim como o irmão de Carlos, José Sinval (Nego), que era militar. A General Glicério aglutinava alguns dos Queiróz e dos Lindenberg.

Como havia sido prometido, Carlos foi à Vitória para a festa no Carmo. Ele sempre perguntara que presente eu desejava para celebrar a ocasião e, como eu, envergonhada, não me decidia, ele propôs o anel de professora. Adorei a ideia. A entrega dos diplomas foi uma solenidade bonita, com muito choro, abraços e promessas de amor eterno.

Com o término dos estudos, chegou o tempo de pensar no futuro, tempo de expectativas e de decisões. Cada uma de nós procurava o seu rumo. O meu, há muito me parecia traçado: afinal, formara-me como professora, e alunos não faltavam. Porém, o destino me reservava um caminho diferente, no qual só havia uma passagem meteórica pelo magistério: uma participação em um Congresso de Educação, em Fortaleza. Aconteceu assim: tio Leitão, representante do Rio, falou-me sobre o evento e, percebendo a minha animação, ofereceu-me os bilhetes de ida e volta ao Ceará numa viagem de navio e o custeio de toda a minha estada. Carlos conseguiu que eu fosse incluída na comitiva do Espírito Santo, sem ônus para o estado. Nosso delegado era o meu amado professor de literatura, Ciro Vieira da Cunha. Assim, eu fui ao congresso, subi ao palco, fiz um discurso preparado por ele, recebi muitos aplausos, desci e encerrei a minha carreira de mestra. Logo depois, tia Sílvia, que nos acompanhava, convidou-me para morar no Rio em sua casa, nas Laranjeiras.

No navio de ida, conheci Georgina de Albuquerque, uma grande pintora, que resolveu fazer o meu retrato a crayon. O trabalho foi colocado entre as páginas de um livro de tia Sílvia para não amassar e, na confusão da viagem, lá ficou esquecido. Nunca mais o vi. Uma pena!

De volta do Ceará, com a bênção de mamãe, ins-talei-me em definitivo na casa da família que eu tanto amava, iniciando uma vida muito diferente de qualquer um dos meus sonhos.

Minha fada-madrinha logo providenciou professores de francês, de violão e de música para mim. Ela me queria bem armada para frequentar a sociedade. Eu já tinha desistido de estudar piano, para grande desgosto de mamãe, que dera uma fortuna por ele, exatamente 10 contos de reis, incluindo o frete da Alemanha. Caríssimo. Durante vários anos, ele ornamentou minha sala. Eu tocava muito raramente e só tinha como platéia a minha cadela boxer Rosete; ela se deitava quietinha e parecia apreciar os concertos. Carlos não se interessava por música. e a sua falta de incentivo contribuiu para fazer, do piano, um móvel dispensável e ele se foi. O violão também não foi um sucesso. Tia Sílvia enfeitou-o com fitas coloridas, dando-lhe um ar cigano, e contratou Paulo Tapajós como professor. Apesar de todo o meu esforço e boa vontade, só consegui aprender a me acompanhar. Apenas tia Sílvia se deliciava com o meu canto e pedia: "Toque aquela que diz: Maria, o teu nome principia na palma da minha mão..." ou então: "Ouve esta canção que eu fiz pensando em ti, é uma revelação, Nancy..." Que maravilha é o amor! Ela, de olhos fechados, enlevada, e eu arranhando as cordas. Assim como aconteceria com Carlos anos depois, tio Leitão desaparecia quando eu me preparava para tocar. A mais bem sucedida das tentativas de tia Sílvia para me fazer trilhar os caminhos da arte foi resultado da paciência de sua irmã Altair, cantora lírica amadora. Com ela, eu aprendi o que sei sobre música. Minha vida no Rio era bastante agitada, quase sempre acompanhando tia Sílvia em seus compromissos sociais, íamos, também, a muitos cinemas. Éramos fãs das românticas e açucaradas películas americanas. Conhecemos Tyrone Power, o astro americano que era o meu grande ídolo na época. Numa recepção no Parque Lage, ela me cutuca e diz: "Maria, repare naquele bonitão. É parecidíssimo com o artista de Alexandre, o Grande, o filme da semana passada. Será que é ele?" Era. As grã-finas faziam questão de convidar todos os artistas de passagem pelo Rio. Eu fiquei alucinada. Portei-me como uma verdadeira macaca de auditório, seguindo-o pelo salão, rodeando-o o tempo inteiro e ouvindo embevecida tudo o que ele dizia, apesar de não entender uma única palavra de inglês. Ele era maravilhoso, lindíssimo, um dos mais bonitos homens que já vi. Estar a seu lado foi uma emoção indescritível para alguém da minha idade.

Tyrone não foi a única personalidade que conheci. Graças à tia Sílvia, estive com Getúlio Vargas, o homem que dirigia o Brasil. Aconteceu de modo bem natural. Lutero, seu filho mais velho, havia sido colega de Darcy, no Colégio Militar, e estudava Medicina na turma de Aluysio. Ele frequentava a General Calcário, quase todas as semanas, para estar com os amigos. Essa convivência nos levou ao Palácio Guanabara, onde a família Vargas morava. Lá, nós assistimos a várias sessões de cinema em companhia de D. Darci e de Alzirinha, mulher e filha de Getúlio. Carlos, quando deputado, enviava, para tio leitão e para D. Darci, alguns quilos de Capitania, um ótimo café aqui do Espírito Santo. A primeira dama brasileira era muito gentil e agradecia delicadamente. Depois dessa época, nunca mais estive com Getúlio, porém vi Lutero nas ocasiões em que veio a Vitória. Sempre que o assunto era pertinente, eu comentava o meu convívio com os Vargas, mas algumas amigas não acreditavam em minhas histórias, achando que era pura invencionice. Uma vez, a mulher de um ex-sócio de Carlos, sabedora de que Lutero vinha a Vitória, comentou: "Maria, com certeza, a primeira coisa que ele vai fazer é perguntar por você." Foi uma observação mordaz. A faladeira se arrependeu porque o filho de Getúlio apareceu em nossa casa da praia para conhecer Carlos Fernando, que era pequenininho. Como se dizia antigamente, "Eu me lavei em água de rosas, e ela ficou com cara de tacho". Doce final para um comentário tão ácido!

 

Coordenação geral e pesquisa: Nietta Lindenberg Monte
Texto: Lia Neiva
Transcrição de fitas: Líris Ramos
Projeto e Edição Gráfica: Sandra Medeiros
Editoração Eletrônica: Shan, Gustavo Senna e Renata Machado
Fotos: Arquivo de família
Tratamento das fotos: Luiz Fernando Martinho
Fonte: Parabéns pra você – texto: Lia Neiva, Vitória/ES, 2008
Autora: Maria Lindenberg
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2020

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