Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

A maior tentação do poeta é ser poeta (para Otinho)

Otinho com suas poesias acompanhado do amigo Violão

Não existem os poetas, diz-se. Serão eles algum invento do vento, alguma espécie de sabedoria de Deus, que terá criado o poeta sem semelhança de qualquer outro ser, nem dele mesmo. Um poeta não quer ser deus, ele o é por natureza, concebido como uma árvore, uma montanha, podendo ser, ainda, um punhado de terra, o sal do mar, a pedra do rio. Pode ser nada do que supomos.

Poetas são exímios jogadores de esperteza. A palavra é sua peça de xadrez, seu dominó. Ao contrário dos que blasfemam, o poeta não é nuvem, nem inútil. O poeta tem corpo, é coisa sólida, pois seu poema é o corpo, mesmo quando morto, e seu poema é a alma de quem o lê. Tendo um corpo, portanto, o poeta tem a seu favor a física: o corpo é sempre parte do mundo. Pois que poetas e outros seres vivem nessa suposição de que existe harmonia entre o corpo e o mundo.

Nunca se saberá se Otinho leu Platão. O gênio antigo também nunca conheceu Otinho e sua obra de abstração poética. Os dois devem-se um aperto de mão e alguma conversa. Falha do tempo. Segundo Platão, “Toda criação ou passagem do não-ser para o ser, é poesia ou fabricação”. Diante da teoria platônica, Otinho teria a comentar que se trata de coisa sem importância. À sua maneira, diante da barbearia do Jorcel Garcia, sob o testemunho das palmeiras da praça Costa pereira, Otinho definiria essa questão citando sua própria verdade: “Eu sou Otinho, poeta da cidade, quem não me conhece?” Em outras palavras, como se perguntasse, “quem é esse tal de Platão?”

De que forma se julgarão os loucos e os ingênuos? (Se é que lhes cabe julgamento.) Por se tratar de um ser inacabado, o homem venera o ato do julgamento, entregando sua alma ao desconhecimento e à estranheza. Esta é a forma que encontrou para se valorizar e eximir-se diante dos outros homens.

Louco ou ingênuo, quem era Otinho?

É assim que se diz dos poetas. Dos poetas como Otinho, sem editora, sem livros para mostrar, sem noite de autógrafos. Ironizou os críticos, não lhes permitindo a oportunidade de ler o que escrevia. Privilégio de Rosinha ou de algum íntimo amigo que lhe pagasse o cafezinho.

Diga, você aí, um poema de Otinho! Digo eu um deles: “Quando minha rosa desabrocha, a alma do poeta Otinho vai pra Beira-Mar... é lá que Vitória é linda!”

Poeta único, personagem de si mesmo, não era louco nem ingênuo, como queriam os que mal o conheceram, os mesmo que vêem nos poetas uma praga abstrata. Nem louco e nem ingênuo, leitor. Porque não há ingenuidade no amor, menos ainda no poema que o descreve. Quanto à loucura, essa é a paisagem do mundo. O que há é a coragem interior de criar, apesar do desespero da nossa própria dificuldade em criar.

Com o repouso do coração de Otinho, diminuíram os bons ruídos da cidade, Otinho serenizou-se. Poetas não morrem; serenizam. Calaram-se o compromisso e a ansiedade de Otinho. Nunca mais ter que preencher aqueles papéis todos que carregava, amarfanhados, rabiscados, segredados. Carregava mais papéis do que podiam suas pequenas mãos. Mas na cabeça tudo podia, o poeta Otinho, cuja sabedoria nos persegue pelas ruas da cidade. Esse poeta das calçadas, praças e escadarias, o passo sempre apressado, pronto para algum lance da alma. Quando via um pássaro, uma mulher bonita, e até quando via nada. Parava, olhava em direção ao céu, abstraía-se, escrevia, guardava, rasgava, declamava e se ia rua afora como um Bashô ocidental. Se ia pelas ruas de Vitória, um cafezinho aqui, outro ali.

OS: Caro Otinho, deste poeta aprendiz para o poeta que conheci nos desvãos desta ilha, permita este poema filho do outono e da madrugada:

 

Faço-me de tolo

Só sei que versos eu os faço.

Faço versos para mim

E para minha amada

Que os entende e os aguarda.

Sabe ela e sei eu

Que os versos que faço

Faço-os de mim.

Quem me vê, só o gesto vê.

 

Vitória, maio de 1996.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Marien Calixte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

Variedades

Capitania logo procura  as esmeraldas

Capitania logo procura as esmeraldas

Vasco Fernandes Coutinho trouxe na comitiva um espanhol entendido em mineração. As expedições subiam os rios Doce, São Mateus e Mucuri, ao Norte

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Fim da era dos chafarizes - Por Celso Caus

Primeira década do século XX – Captação das águas na cabeceira do Rio Duas Bocas e construção do primeiro reservatório da capital

Ver Artigo
Uma mensagem de Natal

A Mamãe Noel de Vila Velha me traz de volta o sentido de Natal, ao colocar uma roupa vermelha e um gorro vermelho e se transformar em puro encantamento

Ver Artigo
Cachaça Thimotina - Agroturismo Cultural

Fundada em 1915, por Francisco Thimóteo Dias, a Thimotina é considerada entre os apreciadores, uma das cachaças de maior qualidade do Brasil

Ver Artigo
Presidente Castello Branco na Assembleia Legislativa do ES (1964)

Adalberto Simão Nader, discursa: "o honroso título de “Cidadão Espírito-Santense” que vos foi concedido, por iniciativa do nobre deputado Setembrino Pelissari, nos oferece a oportunidade 

Ver Artigo
Em busca de uma resposta - Partido Comunista e as outras esquerdas

O partido acreditava em seu Comitê Central; este, em Luís Carlos Prestes; o Cavaleiro da Esperança confiava em Jango. No final das contas, todos ficaram a reboque de João Goulart

Ver Artigo