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A Mata de Fradinhos - Hegner Araújo

A mata de Fradinhos, foto de Samira Gasparini - Fonte:SITE PMV

A ilha é pequena, mas consegue ostentar uma variedade razoável de paisagens.

Mar, praias, pedras morros, matas e manguezais se juntam e se separam para produzir um dos recantos mais aprazíveis do litoral brasileiro. Deles nasce uma ilha que, seguramente, encantou portugueses e dos demais europeus que a conheceram nos séculos XVI, XVII e XVIII.

Mais esperto do que os outros, Duarte Lemos tomou possa da ilha, que acabou abrigando os demais habitantes da capitania, mercê de suas águas excelentes e das facilidades de defesa que oferecia aos ataques dos gentios e dos pilhadores franceses, ingleses e holandeses.

A “ilha do mel” estava fadada a ser o centro da capitania, capital da província e do Estado. Não teria como fugir da atração que exercia e exerce sobre os viajantes e do seu próprio determinismo geográfico.

Pena que o mar e os manguezais, também enamorados da ilha, nela penetrassem tão fundo, obrigando o branco e se pendurar nos morros e nas pedras, limitando bastante o crescimento e o desenvolvimento da cidade.

A solução simplista e possível foi aplicada e vem sendo aplicada há quatro séculos e meio: abertura de canais, aterros, enrocamentos, dragagens, tudo para tomar do mar a área destinada a criar terrenos mais firmes e mais planos, capazes de dar à cidade um aspecto mais moderno e limpo.

São quinhentos anos de agressões e, não raro, absurdos. Nem assim conseguiram tornar a ilha feia ou desagradável. Vitória resistiu teimosa e hoje resplandece airosa, exibindo o azul do céu e do mar, tão luminoso, que consegue encobrir as feridas abertas nas pedras que contornam a baía.

A ilha é tinhosa, atrevida, resistente...

Nela os piratas dos primeiros anos pouco ou nada conseguiram, e, se os recentes piratas do urbanismo burro e da especulação imobiliária tiveram maior sucesso na sua atividade predadora, tampouco foram capazes de diminuir e aniquilar sua beleza. A recuperação veio sempre rápida e eficiente.

Vitória é como a menina-moça, capaz de exibir graça, beleza e sensualidade, qualquer que seja a linha da moda decretada pelos assexuados costureiros que criam as roupas femininas. Ela foi uma graça com as saias longas e as mangas bufantes dos três primeiros séculos e continua bela e atraente com as micro-saias e mini-blusas deste final de milênio.

A minha intenção não é, tão-somente, exaltar a fibra desta ilha-fênix e sim mostrar, para aqueles que não a conhecem muito bem, um dos aspectos paisagístico mais antigo e turisticamente menos explorado de Vitória.

Pretendo descrever, se para tanto me for concedido “engenho e arte”, a beleza do morro coberto pela Mata Atlântica, que fica ao fundo do bairro Fradinhos, mata essa que nada mais é do que a continuação daquela encantadora vegetação que o capixaba contempla quando, do centro da cidade, volve seus olhos para a Fonte Grande e o “morro da Televisão”.

Na revista Veja de 04/10/95 – Páginas Amarelas – o respeitado arquiteto americano Allan Jacobs, especialista em planejamento urbano, diz que “Uma cidade deveria ter lugares mágicos, onde fosse possível viver fantasias e escapar da mundanidade do dia-a-dia de viver e trabalhar...”

Vitória tem esse lugar, o bairro de Fradinhos e suas fontes e matinhas.

Fradinhos é uma “ilha” dentro da ilha maior. Encravado num gostoso recanto, fora das trilhas que movimentaram e aumentaram a cidade, cresceu devagar e tranqüilamente, fugindo ao padrão de crescimento febril e desordenado dos outros bairros. Foi escolhido como local de repouso pelos frades franciscanos e adotado pelos Monjardins, Varejões, Bastos e Schneiders como local de moradia e investimento para o futuro.

É uma vila na contramão da cidade, sem prédios de apartamentos, com casas e enormes quintais, mangueiras, cajazeiras, cajueiros, caramboleiras, goiabeiras, frutas silvestres, que a fazem cheirar a sítio ou fazenda. Nela se chega por uma única via e tudo convida ao sossego, à calma e à meditação.

Servido por duas linhas de ônibus, protegido por uma guarita que abriga permanentemente alguns PMs , tem uma escola municipal e, pelo menos, três locais destinados a atividades espíritas, oferecendo a maior concentração de centros espíritas por metro quadrado do Espírito Santo.

É possível, passando por Fradinhos, atingir as torres de TV, as ruas Graciano Neves e Sete de Setembro, Santo Antônio, Caratoíra e ilha das Caieiras. É possível, repito, desde que o trajeto seja feito a pé, subindo e descendo morros, passando por trilhas estreitas que serpenteiam dentro da mata. A pretendida estrada para carros, iniciada quando era prefeito o médico José Moraes, foi barrada pela enérgica atuação da comunidade do bairro, impedindo assim uma terrível agressão ao eco-sistema local.

Os dois ônibus urbanos que, de Maruípe ou da cidade, atingem o bairro, fazem seu ponto final numa plácida pracinha, aberta na parte alta, onde estão as casas mais novas, bordejando o morro, no limite da área edificável.

Da praça deve-se subir pela rua Zemínio de Oliveira, dobrar à direita no fim da referida rua, alcançando a rua Teotônio Vilela (as placas lá estão sem “TH” e sem os dois “LL”). Na parte mais alta da rua que tem o nome do bravo e saudoso senador, dobrar à esquerda e entrar no que se chama pretensiosamente de rua Antônio Della Antonio (na verdade uns dez metros de pavimentação, com uma casa à direita). Quando acabar o “blocrete” é bom dar uma parada, respirar fundo para sentir que o ar mudou e se preparar para o impacto da subida e da beleza do lugar.

Deixe junto com o carro as preocupações e os problemas, curta a paisagem, suba devagar e olhando os dois lados da subida; você pode ficar encantado. Se não olhar para trás vai se sentir como se tivesse entrado numa máquina do tempo. Os ruídos urbanos vão sendo substituídos pelos pios, cantos e trinados dos pássaros. Os pardais, rolinhas e bem-te-vis da cidade são substituídos pelos sanhaços, gaviões, cambaxirras, peixes-fritos, juritis, anus brancos e pretos e, acreditem, pelos pios e passos apressados dos rasteiros e espertos nhambus, que ainda trilham as matas e as capoeiras do lugar.

Agora você está entrando numa reserva florestal, área de preservação, um pequeno santuário ecológico apesar das depredações de anos e anos. O caminho se afina e se enrosca pelo morro até atingir o início da mata mais compacta, marcada por duas imponentes árvores gêmeas, que do lado esquerdo da subida guardam em sua secular imobilidade a história do morro.

As folhas das duas grandes árvores me levam a pensar que são jequitibás, mas os troncos excessivamente curtos e esgalhados desmentem meu pensamento. A dúvida não chega a assaltar quem contempla as duas irmãs; elas lá estão imponentes, vetustas, cobertas de musgos, parasitas, bromélias, formando uma parte da moldura que circundam a mata, a qual prossegue galgando o morro por, pelo menos, mais um quilômetro.

Já dentro do túnel verde, a Mata Atlântica, mesmo diminuída em sua pujança original, mostra a variedade e o encanto das suas espécies vegetais. Cipós, arbustos, liquens e árvores se entrelaçam harmoniosamente, fornecendo um espetáculo raro para quem nasceu e vive em cidades.

O cheiro penetra de pau d’alho denuncia a presença na mata dessa enorme e frondosa árvore; a subida se acentua e num aclive mais forte o túnel se abre em Y, rareando as árvores do lado esquerdo e continuando um túnel sombreado de árvores na subida mais penosa, do lado direito.

O braço direito, mais umbroso e fechado, prossegue em direção ao morro da TV. O braço esquerdo leva a um pequeno vale, mais pobre de árvores, cheio de matacões de granito, do meio dos quais surge um filete de água cristalina, cuja perenidade garante o abastecimento de água potável aos habitantes das poucas casas que aparecem entre os pastos e bananeiras do morro vizinho.

As lavadeiras e os apanhadores de água chamam a “biquinha” de Fonte Grande. Nós, velhos moradores de Vitória, sabemos que a verdadeira Fonte Grande está no outro lado da vertente, correndo em direção ao mar da baía, descendo o morro entre as ruas Sete e Graciano Neves.

No outro braço do Y, aquele que abriga a mata mais fechada, também aparece um pequeno córrego, que se junta ao outro dentro da mata, para formar o riacho que desce do Fradinhos em direção a Jucutuquara.

Esse segundo vale é o que merece mais atenção e exploração do caminhante. A subida se acentua, as árvores crescem de volume e altura e a mata vai ficando mais fechada e mais verde. Se as grandes árvores feitas de madeira-de-lei desapareceram, restam ainda árvores grandes e imponentes que escaparam dos machados e serras.

Do mesmo modo que o carioca pode ter a ventura de se embrenhar nas matas do Alto da Boa Vista, dentro da área urbana do Rio de Janeiro, o capixaba e os turistas podem ter a oportunidade de conhecer um pedaço da Mata Atlântica sem precisar sair da ilha de Vitória.

Quem quiser, como eu, a emoção que é olhar e trilhar a mata de Fradinhos, pode ter acesso a ela, também, pelas trilhas da Gruta da Onça, da Fonte Grande e da estrada que vai do contorno de Vitória até o paliteiro das torres que ficam no alto do morro.

Recomendo porém que a subida seja feita por Fradinhos. O bairro é único; limpo, tranqüilo, gracioso. A subida permite que você veja o outro lado da pedra dos Dois Olhos, aprecie o mar dividido pelo morro de Gurigica, tendo à direita o porto do Tubarão e, à esquerda, a linha de Camburi, cortada pelos edifícios da Mata da Praia.

Espero tê-lo convencido, caro e paciente leitor, de que vale a pena o esforço de subir o morro, suar a camisa, para tomar um mergulho de ozônio, um colírio do verde, um festival de silêncio, quebrado tão-somente pelos pássaros canoros.

Você que caminha com freqüência na orla marítima, experimente fazê-lo uma vez nas trilhas de Fradinhos. Você que não é afeito aos exercícios físicos, está na hora de iniciá-los. Venha para Fradinhos, venha sem a ânsia e a sofreguidão dos iniciantes. Suba cada dia um pouco, curta a paisagem, aumente diariamente o percurso, até atingir a mata e então duvido que você não sinta o mesmo que eu sinto cada vez que nela caminho.

Deixe que a magia da mata, o murmúrio das águas, o canto dos pássaros, o cheiro das folhas e flores o envolvam totalmente, mostrando que em verdade “esta ilha é uma delícia”.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 1995, Paisagens
Autor: Hegner Araújo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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Nosso primeiro ecologista

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Maximiliano Salloker, filho de um médico da região de Laibach, Ludowig Salloker e de Cristina Salloker. Em 1891, Maximiliano veio para o Brasil, particularmente para o Espírito Santo, instalando-se na colônia alemã de Santa Isabel

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