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A Matriz de Santa Cruz – Por Levy da Rocha

Igreja de Santa Cruz - Obra Auguste François Biard

Aldeia Velha, fundada pelo jesuíta Afonso Braz, em 1556, a três quilômetros acima da foz do rio Santa Cruz, foi governada pelo cacique Maracaiá-Guaçu, ou Grande Gato, que se incorporou à expedição de Mem de Sá para a expulsão dos franceses da Guanabara.

A aldeia teria sido apelidada pelos seus habitantes tupiniquins, de Huuassu, ou Rio Caudaloso e, ao que parece, foi o primeiro ponto da costa brasileira onde, a 26 de fevereiro de 1557, aportou o barco que trouxe o francês Jean de Lèry para servir a Villegaignon.

Em 1790, afirmava o Capitão-mór Ignácio João Mongeardino haver fundado uma povoação de trinta casais "que hoje se acha em aumento de duzentas almas" naquele então distrito, pertencente a Guarapari.

Contudo, na segunda década do século XIX, segundo depoimento de viajantes estrangeiros, aquela aldeia cristianizada possuía menos de uma dezena de cabanas cobertas de sapé: não passava de um aldeamento de índios, os quais se ocupavam do embarque de cal de conchas; madeiras e de algumas roças de milho ou mandioca, disputando o domínio do terreno cultivável com as formigas cabeçudas.

Uma lei provincial de 1837, elevou o povoado a Freguesia, passando ela a fazer parte do termo de Nova Almeida.

Igreja, mesmo, não devia existir, ainda, naquele povoado de índios mansos. Salvo, alguma pequena capela de taipa.

No ano seguinte, o presidente da província capixaba autorizava, por outra lei, a contratar a conclusão da Igreja, com um construtor ou mesmo com um administrador de obra, o que consta não ter sido levado a cabo.

A Matriz foi começada em 1841, num mutirão de devotos. Seus esteios e paredes eram de madeiramento fraco e ruim e a obra ficou por ser concluída, faltando, em 1843, o assoalho do coro; a capela-mór e um campanário.

Em 1844, a Igreja Matriz ainda se achava em obras: faltava forrar a capela-mór, fazer o retábulo e o altar e assoalhar o coro, bem como estava por ser feito o campanário, sendo os sinos pendentes nas janelas do coro.

Em 1848, por Lei Provincial nº 2, a Freguesia foi elevada a Vila e o seu nome mudado oficialmente para Santa Cruz.

No ano seguinte, eram concluídos o telhado da Igreja, e pregadas tábuas fingindo janelas, nas tribunas laterais, que vinham sendo forradas com panos, faltando-lhes segurança. Ficou por concluir o campanário, sob o qual devia ser feito o batistério.

Em 1852, a Matriz da Freguesia precisava se livrar de muitas goteiras do telhado e ver substituídas duas tábuas apodrecidas do assoalho.

Em 1855, parecia estar terminada, não necessitando de reparo algum, conforme considerações do seu vigário Santos Ribeiro, que era também deputado provincial. Mas, aquele templo precisava de um cuidado constante de conservação. Era muito necessário — advertia o vigário — "murar-se o lugar que serve de cemitério, assim como dar-se-lhe os cômodos que o tornem suficiente para somente nele serem sepultados os cadáveres das pessoas que faleceram, a fim de cessarem as inumações dentro da igreja..." Além de pequena, aquela casa de orações tinha poucas sepulturas.

Nesse ano, precisamente no dia 14 de janeiro, era ali sepultado, na Igreja Matriz, o francês João Theodore Descourtilz, primoroso desenhista de pássaros, o qual falecera no dia anterior, numa cabana do aldeamento do Riacho, envenenado pelas preparações arseniacais que empregava na conservação das suas coleções de história natural.

Decorridos dois anos, isto é, em 1857, Francisco Antunes de Sequeira que deixara a cadeira de Retórica do Liceu da Vitória para ser provisionado vigário da Vila de Santa Cruz, sua terra natal, oficiava ao vice-presidente, Barão de Itapemirim, comunicando que o frontispício da Igreja Matriz da Freguesia reclamava um pronto reparo, sob ameaça de ruir. Solicitava a verba de duzentos mil réis para os consertos. Sugeria que as paredes, arruinadas de tempos em tempos, por serem construídas de adobe, e as fracas madeiras sujeitas à corrupção do cupim, fossem substituídas por outras de pedra e cal. No mesmo ano, voltava o vigário a lembrar ao Barão de Itapemirim que "a Igreja, ou antes o armazém que serve de Matriz, pois não tem, ao menos exteriormente, caráter algum de templo”, com os esteios estragados, não apresentava condições de sustentar, por muito tempo, o “informe pavimento". E dizia: "— É um verdadeiro castelo, formado sobre colunas a ar."

O assoalho, cheio de fojos, constituía grande perigo aos incautos. Acontecera que o sacristão, distraindo-se, ao pisar, quase fora vítima de fraturar uma perna.

Auxiliado pelo Governo, Assembléia Provincial e povo, depois de haver consultado (conforme recomendara o Presidente) a opinião das pessoas mais sensatas da Freguesia a respeito do local escolhido para a nova Igreja Matriz, o vigário Antunes de Sequeira começou, a 9 de maio de 1857, a construção de novo templo. Pagava aos operários engajados, a diária de dois mil réis, além da comida, e como a verba arrecadada pelos exportadores de jacarandá foi pequena, a obra ficou paralisada, após concluir-se, em cinco meses, a ereção do frontispício, no estilo gótico-romano. E por muito tempo assim permaneceu.

Dois anos decorridos, registravam-se os testemunhos do pintor francês François Biard e do Imperador D. Pedro II, os quais visitaram a Vila de Santa Cruz, respectivamente, em fins de 59 e começos de 60. Ambos, tiveram o mesmo logro dos viajantes que chegavam a cavalo, pela estrada do sul: ao longe, avistaram a grande fachada, caiada de branco, mas só bem de perto puderam discernir que o corpo daquele templo se constituía de um casebre de palha, encoberto, ao fundo...

Numa outra comunicação, o vigário Santos Ribeiro lembrava que junto à velha Matriz havia um cemitério necessitando de ser murado. Na lei orçamentária referente aos anos de 1841 e 1842, fora destinada a quantia de cem mil réis ao referido muro que não se fez por faltar o dinheiro. Por isso, mantinha-se uma cerca de madeiras. “Quanto àquela “carunchosa casa de oração” — dizia o sacerdote: Mandei cobrir a sua frente para evitar a queda do coro e dum quintal da nave, já bem arruinados”.

É curioso lembrar a anotação de D. Pedro II no seu caderninho de bolso referente ao velho templo: "A Igreja não merece menção — lugar ao lado fechado para enterrar".

E é estranho que não houvessem chamado a atenção do Imperador sobre o sepultamento do naturalista Descourtilz naquela Igreja. Tratava-se do autor de um rico livro, ilustrado a cores, de pássaros brasileiros, impresso na Alemanha (1854-56) às expensas da Imperatriz D. Teresa Cristina e de um ex-funcionário do Museu Fluminense comissionado naquela fatídica viagem ao Espírito Santo.

O templo ainda resistiu ao forte temporal com chuvas de pedras que caiu sobre a Vila, a 2 de julho de 1860, ficando com uma parede em ruivas e o telhado bem esburacado. O vigário mostrava-se, então, muito apreensivo com o dilema, ao comunicar ao Presidente Souza Carvalho: "Lembro a V. Excia que se não prosseguir a obra da nova Matriz e se não cuidar dos reparos da velha, em um ano ficaremos sem uma e outra, em grave prejuízo dos interesses espirituais de nossos paroquianos".

No mês de maio do ano seguinte, deplorava o vigário o estado do cemitério público, cujo terreno servia de despejos da população e de pasto aos animais soltos pela Vila. E relatava, em 1862, que a nova Matriz achava-se quase pronta, enquanto uma das paredes do velho templo estivera por desabar, com as últimas chuvas de leste.

Só em setembro de 1868, quando o velho templo, já muito destelhado, com o reboco das paredes caído e o assoalho na maior petição de miséria, todo podre, foi que se retirou o Santíssimo Sacramento e se abandonou em definitivo tal casa de orações.

Como arremate da história, transcrevo os versos de Francisco Antunes de Sequeira, presbítero secular, ex-vigário da vara e da Paróquia de N. S. da Penha da Vila de Santa Cruz, cavaleiro da Ordem de Cristo e etc., do livro: A Província do Espírito Santo (poemeto descrito em oito cantos), Espírito Santo (poemeto descritivo em oito cantos), Vitória, 1884:

"Tem Paço da Câmara e igreja,

Que não pôde jamais ser construída,

Cujo frontispício ao longe alveja;

O magnata dali fez preferida

Câmara e cadeia que sobeja

Bom castigo à gente fratricida.

Não pude conseguir, como vigário,

Mudar a triste sorte, seu fadário".

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

História do ES

Robério Martins

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Robério foi o responsável pela morte de dois fidalgos portugueses, que como ele, aqui chegaram em 23 de maio de 1535, junto com Vasco Fernandes Coutinho

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