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A Origem do Culto de Nossa Senhora da Penha

Nossa Senhora da Penha

Alteado no cimo rochoso de um monte, na barra da belíssima Baía de Vitória, o Santuário da Penha atesta a quantos o contemplam, de passagem aérea ou marítima, a pujança da Fé palpitante no povo capixaba; sua devoção característica; seu refúgio, nas horas lancinantes da miséria, da viuvez, da orfandade, e finalmente, em todos os revezes da existência.

Dali, do rochedo incomparável, jorra o lenitivo das bênçãos sobre a humanidade que, ansiosa de luz e conforto, se volta para a Virgem Imaculada.

Naquela ânfora da Paz, imersas na prece, revigoram-se as almas, como deliciadas pelo orvalho do Céu. Por isso, nos momentos felizes da sua História, o povo capixaba exclama: — "Nossa Senhora da Penha!" Nas horas amarguradas, confiante e esperançoso, invoca: — "Nossa Senhora da Penha! "Motivo esse, talvez, por que Jaboatão dizia ser Pena a forma exata do termo e, relacionando-o com o latim Poena, concluía pela invocação — Nossa Senhora da Amargura, da Mágua, etc. Entretanto, numa pesquisa da origem secular dessa devoção, encontramo-la no Puy, no antiquíssimo templo da Notre Dame de France, a quem Luís XIII consagrou sua Pátria. Puy significa montanha, eminência; vem de puisch ou puech, na língua dos primeiros povoadores do lugar. (29) Penha provém do étimo céltico pen — pena, penasco. Sob a influência castelhana (peña), firmou-se penha, na língua portuguesa. (1)

Até o Século VI, o nome Puy era conferido somente à montanha. Hoje, a cidade estende-se, em anfiteatro, na vertente meridional do Monte Anis, no conjunto basáltico de Corneille. Conta-nos a História que, desde o tempo dos gauleses, venerava-se nesse monte uma pedra maravilhosa, que ainda existe, no alto das escadas do templo. Chamavam-na Pedra das Febres, e se lhe atribuíam curas milagrosas, operadas pela Virgem Maria, que, posteriormente, ali apareceu. Então, o bispo de Voisy, decidiu-se a mandar construir um santuário.

No píncaro de um dyke, em Corneille, ergue-se, desde 1860, enorme estátua da Virgem Maria, em bronze dos canhões tomados, pelos franceses, na guerra da Criméia (1854). Resultou de 213 canhões russos. É obra do escultor Bonnas-sieux.

Puy foi sempre um centro de peregrinações célebres. A Romée, — Isabel, mãe de Joana d'Arc, por exemplo, fez uma romaria, a fim de colocar, sob a proteção de Nossa Senhora da Penha de França, a missão de sua filha quando essa deixou Domremy. Luís XIII, o Marechal Petain e outras figuras notáveis da História empreenderam romagens ao santuário famoso. Perante a imagem da Virgem, Carlos Mágno colocava o cétro e a coroa, quando viajava; repousava ou guerreava.

Como veremos, adiante, a devoção a Nossa Senhora da Penha (do Puy), originada na França, divulgou-se, na Espanha, transpôs a fronteira e penetrou em Portugal. Chegou, assim, ao Brasil.

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Desejosa de conhecer, em seu princípio, esse culto, que nos vem dos primeiros anos da colonização, no Espírito Santo, procuramos suas fontes, seus documentos e, de pesquisa em pesquisa, chegamos à história, à geografia da Espanha e aos seus tempos lendários das famosas jornadas cristãs.

Numa gruta natural, na Serra de França, havia uma imagem da Virgem Maria. Sua existência, de época remota, fora revelada ao monge Simon Vela, na França, mediante uma visão mística. Depois de muito peregrinar, Simon chegou ao lugar indicado e certificou-se do fato. Romarias e milagres começaram a atrair curiosos e devotos. Surgiu, assim, naturalmente, a invocação — Nossa Senhora da Penha (Peña) de França, já conhecida tradicionalmente, conforme veremos adiante e nos referimos, no princípio deste capítulo.

— Mas, — dirá o leitor, — que seria uma Serra de França, na Espanha?

Trata-se de uma pequena serra paralela à grande cordilheira, que separa as províncias de Salamanca e Cáceres. Liga-se à mesma, por uma espécie de istmo chamada Passagem dos Lobos. Dela se origina um rio o Rio de França, que atravessa a cordilheira, entre Penedo e Sotosserrano; penetra a Estremadura e lança-se no Tejo.

Na Serra de França, distinguem-se dois montes: — o da Penha (Peña), no Oriente, e o de Hastiala, no Ocidente. O primeiro parece mais elevado e é mais escarpado. (1720 m). Dizem que é uma admirável atalaia, de onde se descortina deslumbrante panorama que atinge a Serra da Estréia, em Portugal, a Estremadura, os montes de Asila, toda a Salamanca e outras localidades da Espanha. Sua silhueta é original e imponente: — ergue-se para o Infinito! Mesmo em fotografia, como o observamos, desperta uma impressão singular, parecendo destinado mesmo a um pedestal para a estátua da Virgem.

Quanto ao apelativo-Serra de França, divergem os historiadores para explicá-lo. Uns recorrem à lenda. Segundo o Pe. Matêo Vasco, por exemplo, a designação — de França, remonta à batalha de Guadelete (26-7-711), focalizada aliás, por Alexandre Herculano, em "Eurico, o Presbítero". Ao ver que Dom Rodrigo desaparecera, após oito dias de combate contra Tarik, chefe guerreiro árabe, a guarda real de Toledo retirou-se, aos poucos, seguida, de perto, pelos vencedores. Dom Rodrigo, assim vencido, conseguiu fugir, à rédea solta. Inutilizado, porém, o cavalo, continuou, a pé, sua jornada disfarçado com as vestes de um pastor caridoso, que o acolhera. Chegou a Portugal ou Galisa; entrou num convento, e terminou seus dias santamente. Figura, nos romances populares e lendas cavalheirescas da Península:—

Nos campos de Guadelete,

acabado se era o dia,

c'o dia, a grande batalha,

c'o a batalha, a monarquia.

 

Os anáfiles dos mouros

ressoam brava alegria;

Dom Rodrigo, Rei dos Godos

à rédea solta, fugia. (9)

 

São as duas primeiras quadras, da "Xácara de Nossa Senhora de Nazareth", escrita por Antônio Feliciano de Castilho, e na qual o poeta luso narra todo o episódio da fuga misteriosa de Ruderico, ou Dom Rodrigo, seu encontro com o pastor, a peregrinação em Portugal, a origem do templo e conseqüente devoção a Nossa Senhora de Nazareth, etc.

De certo, uma Serra de França e a Meseta del Francês, na Espanha devem ter uma explicação. Conforme as pesquisas de Dom Estevão Garibay, douto em antiguidade e que, segundo o Pe. Colunga, passara dias recolhido, na Penha de França, para escrever a crônica dos Reis Católicos, nas investidas dos mouros, por motivos diversos ou, de modo especial, incitados pela Fé, a colaborarem com os espanhóis, contra os infiéis, ali se refugiaram pessoas importantes da França. Construíram defesas, na referida serra, principalmente baluartes de pedra seca, dos quais ainda existem vestígios.

Em "El culto mariano em España", Frei Augusto Sanches Peres (Madrid, 1943), conta-nos que uns cavalheiros franceses vieram à Espanha, alistar-se na bandeira de Carlos Magno, contra os mouros, e levantaram fortes, no Monte da Penha. Sitiados pelos muçulmanos, os franceses, depois de esconderem uma imagem de Nossa Senhora, que veneravam, lançaram-se violentamente contra os agressores. As baixas foram imensas, de ambas as partes, ficando os cristãos dizimados, no lugar denominado logo Monsagro (Mons Sacer), monte sagrado, porque, ao chegar à França a notícia dolorosa, um bispo dirigiu-se ao lugar e o benzeu, sob a denominação de Monte Sacro. A imagem permaneceu oculta, porque morreram todos os que sabiam do seu refúgio.

Um santo bispo, chamado Hilário, morreu nessa derrota, num lugar próximo da Penha de França e que recebeu, por isso, o nome de Sepúlcro de Hilário, hoje, aldeia Sepulcrário, corruptela da primeira designação.

Presume-se que as imagens encontradas, na Serra de França, teriam sido postas e ocultadas ali, a seu conselho, ou noutras campanhas, como, por exemplo, em 1173, quando, transpondo a fronteira portuguesa, os árabes atacaram Cidade-Rodrigo. Seus habitantes refugiaram-se, então, nas cavernas da Serra de França, levando suas preciosidades e suas imagens, que ali ficaram abrigadas, contra a profanação dos infiéis. Conservaram-se, portanto, veladas, nos anfratos e grutas, até que foram, providencialmente, descobertas.

Tudo confirma a referência de Musa, relatando ao cahfa Walid a guerra na Espanha, quando regressou a Damasco (715): — "Os godos são leões, nos castelos; águias, a cavalo; a pé, mulheres. Sabem aproveitar as ocasiões, mas quando vencidos, refugiam-se nas suas montanhas, como cabras".

Existe ainda a tradição de que o lugar serviu de cenário às lutas do próprio Carlos Mágno, contra os mouros. E o lendário Rolando, sobrinho do famoso Imperador, figura, por isso, nas poesias sobre a Penha de França. Esta parece a versão mais aceitável. Segundo o sábio jesuíta Pe. Camilo Torrend, Carlos Mágno era devoto de Nossa Senhora do Puy. Nós já nos referimos às peregrinações do mesmo Imperador ao histórico santuário. Teria concorrido para a divulgação do culto de Notre Dame de France, na Espanha.

Correm outras opiniões, acerca do nome — Serra de França, como, por exemplo, a existência de uma colônia francesa, cujo caudilho Dom Giral Bernal se distinguiu, entre os povoadores de Salamanca.

Outrossim, na restauração de Toledo por Afonso VI (1085), os franceses formaram um terço de sua população, porque auxiliaram os castelhanos a reconquistar a cidade. Estavam, portanto, bem relacionados com o lugar. Aliás, se, no Brasil, existem Mar de Espanha. Nova Friburgo, Nova Hamburgo, etc., não podemos nos admirar de uma Serra de França, na Espanha. 

 

NOTAS

(1) - Elpídio Pimentel - Diário da Manhã. 28/04/1919

(9) - Fernão Cardim - Tratados da Terra e da Gente do Brasil.

(29) - Larousse - Grand Dictionnaire.

Fonte: O Relicário de um povo – O Santuário de Nossa Senhora da Penha, 2ª edição, 1958
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

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