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A Pata - Por Adelpho Monjardim

Acervo e comentários de Fábio Pirajá: Postal do Saldanha da Gama na chegada do Navio Escola Almirante Saldanha a Victoria nos 33 anos de fundação do Clube Saldanha da Gama e no 4 Centenário da Colonização do Solo Espírito-Santense - 23/05/1935

Os pescadores do Porto das Pedreiras, da Capixaba de antanho, contavam que à beira-mar, lá para as bandas do Penedo, nas ruínas do antigo Forte de São João, morava a feiticeira Maria Guaíbira ou Maria Bacurinha, como a apelidara o vulgo.

Preta, entrada em anos, gorduchona e balofa, costumava esmolar de dia, mas nas noites de sextas-feiras ali se entregava a encantamentos e bruxedos. Pelo repulsivo aspecto, descabelada e suja, arrimada a nodoso bordão, tornara-se o pavor da criançada. O andar trôpego, a tatear, como se fora cega, em nada a ajudava. Atormentada pelos moleques, vivia da caridade pública, embora dissessem que amealhara muito dinheiro.

A fama de feiticeira serviu para que a deixassem em paz no seu refúgio. Além dela ninguém mais nas ruínas do Forte. À noite ninguém ousava passar por ali.

Os pescadores, que às horas mortas singravam as águas fronteiras ao Forte, diziam ouvir gemidos e lamentações que se escapavam das ruínas e viam clarões como se fogueiras ardessem entre elas. Segundo eles eram os demônios que habitavam com a Maria Guaíbira. Dos seus bruxedos o principal era transformar-se em pata, o que fazia às sextas-feiras, se dia de lua cheia.

Contava o pescador Zé Palavra, que certa noite, insone, foi sentar-se à porta da sua casa, vis-à-vis com a prainha que a maré baixa descobrira. Era muito tarde, para lá da meia-noite. Cachimbava, pensando no pesqueiro que descobrira na Baixa Grande, quando foi atraído por forte rufiar de asas. Talvez uma águia não fizesse tanto barulho. Surpreso, viu das bandas do Penedo vir voando enorme pássaro branco. Era uma pata, como jamais vira outra igual. — Meu Deus! Que será?! Exclamou apavorado, pondo-se de pé. Cruzando sobre a sua cabeça, quase a roçar-lhe as asas, viu que a bicha tinha cara de gente. Tamanho o susto que o coração lhe martelava o peito como se fora uma bigorna. O sangue refluíra para os pés e sentiu a cabeça oca e as pernas bambas. Incapaz de um movimento, quedou à mercê do estranho ser, que ao passar por sobre a sua cabeça soltou diabólica e estridente gargalhada.

Tão grande fora o susto que Zé Palavra adoeceu e nunca mais voltou a ser o mesmo homem. Diziam todos ter sido arte de Maria Guaíbira, a quem certa vez maltratara.

Era crença geral que a pata trazia sempre desgraça. E com que medo os pescadores passavam pelas ruínas do Forte, estrategicamente colocado no estreito canal do Penedo, passagem única e obrigatória. Coisas assombrosas ali se passavam, diziam eles.

Desencantar a bruxa era necessidade imperiosa, mas a coragem? Para desencantá-la só a surpreendendo no momento exato da metamorfose, às sextas-feiras de plenilúnio. Todavia o impasse continuava. Qual seria o valente capaz de surpreendê-la no misterioso antro? À luz noturna as ruínas desencorajavam aos mais audazes.

Entretanto o Destino costuma ser caprichoso. Por uma noite de lua cheia, um forasteiro, vindo não se sabe de onde, passava pelas imediações do Forte. Desconhecia a cidade, portanto desprevenido de corpo e de alma. Trôpego, as pernas pediam descanso. Frio e cortante o vento sul castigava-o impiedosamente. Maltrapilho, mal apessoado, quem lhe daria pousada? Avistando as ruínas não pensou duas vezes. Surgiam elas como um oásis para o beduíno. Ao forasteiro não importava a hora. Resoluto encaminhou-se para elas. Galgando os escombros alcançou a escadaria que levava à antiga praça de guerra. Com cuidado desceu os mal conservados degraus até alto e vistoso capinzal, que batido pelo vento ondulava ao luar com reflexos prateados. As ameias, abertas na muralha, sobre o mar, mantinham a postos os enferrujados canhões.

Aquelas bocas, que outrora vomitavam fogo, serviam de refúgio às aves marinhas. Era ali a parte central, o núcleo do velho bastião. Algumas paredes resistiam ao tempo, limosas, porém eretas. Rompendo através do capinzal o forasteiro encaminhou-se para onde lhe parecia ouvir ruídos. Não se enganara. Murmúrios de reza tornaram-se mais nítidos. Estranha luz se escoava pelas fendas das paredes, fugazes como relâmpagos. Curioso aproximou-se. Achava-se na parte nobre, no corpo principal da antiga fortificação. Em uma reentrância da muralha, em forma de arco, rasgava-se a boca de um túnel, provavelmente a entrada para o paiol de pólvora. Dali partiam os intermitentes relâmpagos. Os murmúrios tornavam-se mais perceptíveis. Alguém rezava. A curiosidade, superando o medo, impeliu-o para frente. Logo à entrada tropeçou numas bolas de ferro espalhadas pelo chão. Curioso esgueirou-se até o fim do túnel. O que viu estarreceu-o. Imobilizou-o o terror. As pernas não obedeciam mais ao comando. Diante dele abria-se amplo salão circular, completamente fechado. Carcomido oratório, colocado ao centro, ostentava a imagem de São Cipriano, ao lado de uma lamparina de azeite. Por detrás do oratório a fantasmagórica luz. No centro do salão, em uma poça de lama, enorme e escuro corpanzil de mulher, completamente nu, rebolcava-se murmurando palavras de uma oração diabólica. Anestesiados pelo medo os olhos do forasteiro não se despregavam da espantosa cena. Os murmúrios continuavam a chegar aos seus ouvidos. Por artes infernais se reduzia o negro corpanzil, cobrindo-se de penas brancas como se fora uma ave. Apenas a cabeça conservava-se humana. Estava assistindo a um dos fabulosos mistérios da magia negra. Apavorou-se, pois sabia que ao assistir o maléfico rito estava correndo perigo de vida.

Já emplumada, ao sacudir as penas para expelir a lama, a bruxa percebeu o intruso. Tenebrosa reação. Um grito, um urro de abalar montanhas sacudiu as grossas paredes, enquanto à vista da fortuita testemunha realizava-se a espantosa inversão. O longo processo do encantamento voltava à primitiva forma. Maria Guaíbira tornara a se reincorporar. Erguendo-se do lamaçal em que se espojara, raivosa, instintos à solta, avançou para aquele que quebrara o seu encanto. Contraídas pelo ódio as suas feições eram uma máscara hedionda. Num impulso instintivo o forasteiro desenferrujou as pernas e, em desabalada carreira, retrocedeu sobre os próprios passos, buscando a salvação num longo mergulho nas águas da baía.

Desde então desapareceu a Guaíbira e com ela o encantamento. A pata não mais assombrou os pescadores do Porto das Pedreiras.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, setembro/2015

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