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A Penha do meu tempo – Por Areobaldo Lellis Horta

Convento da Penha em 1960, ainda mostrando detalhes da senzala

Foi em minha segunda infância que conheci o Convento da Penha.

Encontrava-se, então, o grande templo entregue a frei João do Amor Divino Costa, alto, de robustez física, apesar de seus cabelos brancos. Só aparecia nas proximidades da festa da Virgem, permanecendo alguns dias em Vila Velha, em sua casa da Praça Matriz, para seguir para o Rio, de onde voltava no ano seguinte, e na mesma época. Frei João era um homem insinuante, de maneiras atenciosas, subindo sempre a pé as extensas ladeiras que, ainda hoje levam o povo ao majestoso monumento histórico, berço da civilização capixaba. Nunca subia sozinho, ora acompanhado de fiéis, com os quais ia palestrando e contando histórias, para amenizar a viagem, ora com o velho Santos, síndico do Convento e o João Ramires, encarregado de cuidar do templo em sua ausência e que lhe ajudava os ofícios religiosos, como sacristão. Metido em sua samarra, tendo à cabeça um chapéu de coco, acinzentado, pachorrentamente ia galgando o morro, para fazer um descanso maior no "Bom Jesus".

Sabe o leitor o que era o "Bom Jesus"?

Segundo os dados históricos, o frade Custódio Afonso, que substituiu Pedro Palácios, após sua morte, fez levantar nova ermida no local onde o fundador do convento houvera feito a sua última casinha de moradia, ao sopé da rocha viva, em cujo cimo erguera a "Ermida das Palmeiras", nela colocando o painel da Virgem, mais tarde substituído pela respectiva imagem. Para aquela ermida fora transferida de Vitória a imagem de São Francisco, cujo culto se desenvolveu de maneira tal que o santo se tornou um êmulo da Virgem, na esfera dos atos milagrosos. Divididos assim os fiéis, voltou a imagem do santo à Capital. Fora, ali, então, colocada a imagem de Jesus, recordando uma das passagens evangélicas, que nos fala da subida do Cristo ao Calvário, passagem em que é descrita a queda do Nazareno, durante aquele trajeto, sob o peso do madeiro, no qual seria crucificado. A imagem era do tamanho natural: Jesus com um dos joelhos fincado ao solo, tendo sobre o ombro esquerdo, grande cruz.

Tal era o "Bom Jesus".

Naquela época da nossa infância, o Convento era diariamente aberto à visitação dos fiéis, quer pela porta principal da igreja, quer pela que dava entrada direta ao convento. Ao aproximar-se desta porta, o visitante se defrontava com o painel, cuja fotografia era distribuída fartamente, em papel a que chamavam "registro de Nossa Senhora", ou em pequenas medalhas, uma e outra a troco de um pequeno óbolo.

Era o Convento, deste modo, aberto à visitação dos fiéis, que se espalhavam pelos vários e longos corredores, até ao andar inferior, percorrendo as celas sem que lhes fossem oferecidos quaisquer embaraços. Pelas paredes do corredor do seu andar superior, numerosas promessas se espalhavam, representadas por vários objetos, como quadros, lembrando os motivos das mesmas, cabeças, pernas, braços, mãos e pés de cera, muletas de pau, tudo em cumprimento ou prometido à Virgem nos momentos angustiados da vida dos doadores. Na esplanada, até onde chegam hoje os automóveis, dando para o lado de Piratininga, via-se a senzala, em ruínas, composta de pequeno número de casebres, quase destelhados uns, outros de paredes fendidas e atacadas pela hera. Dessa senzala, existem vestígios, facilitando assim a sua reconstrução, de vez que o majestoso templo é um monumento histórico a cuja existência não podemos ser indiferentes. Outra reconstrução que se impõe, pelas mesmas razões, é a da ermida do "Bom Jesus", levantada em substituição à casinha feita por Pedro Palácios para sua moradia, ao lado direito da senzala, de cujo local a separava o extenso muro, que avança até o portão, que dá passagem para a esplanada referida.

Ao término da última ladeira, existia, em começo de ruína, a "Casa do Jogo", antigo refeitório, atualmente reformada. Esse prédio fora edificado para servir aos forasteiros, que ali se reuniam, para fazer refeições, entregando-se ao jogo. Daí o nome de "Casa do Jogo".

Na semana anterior à festa da Penha, numerosas famílias de Vitória se dirigiam para Vila Velha, localizando-se nas casas dos amigos, emprestando à localidade, intensa vida. De diversos pontos do interior era grande a romaria, ficando na capital os que não encontravam pouso em Vila Velha. No dia da festa, além das três lanchas da empresa Neto e das duas da Vasco Coutinho, que faziam a carreira entre aquela localidade e Vitória, outras embarcações trafegavam, no transporte de romeiros, entre elas o "União" e o "São Fidélis", navios empregados no serviço marítimo de cabotagem. Nesse dia, não havia horários, saindo as embarcações, assim que estivessem lotadas.

Éramos proprietários em Vila Velha, sendo a nossa casa a segunda à direita, de quem entra na localidade, aliás o desembarque no cais, desaparecida com as demais no mesmo lado na administração Antonio Ataíde, para dar lugar à avenida que se estende à margem do mar até o cais. Ali estávamos amiúde, às vezes passando longos meses, emendando o verão com o outono, quantia não permanecíamos durante as quatro estações.

Certa vez, às primeiras horas da noite, a população foi despertada pelo bater dos sinos do Convento, organizando-se logo uma caravana, tendo a frente João Ramires, subindo-se a montanha, alguns armados de revólver, outros de bengala. Alcançada a igreja, pela porta do corredor, viu-se, trepado no altar, de braços abertos para a imagem da Virgem, um homem, de olhos estatelados, sem que houvesse tocado em coisa alguma. Retirado, desceu com ele a caravana, sendo o protagonista daquela cena recolhido à cadeia, anexa que era, ao edifício do governo municipal e depois removido para Vitória. Tratava-se, segundo se soube, de um doente mental. De outra feita, à noite, foi vista intensa claridade do lado direito do Convento, constituindo-se outra caravana que, com celebridade, subiu as extensas ladeiras. Tratava-se de um grupo de romeiros italianos que fizeram do adro uma fogueira. a fim de espantar qualquer animal que viesse das densas matas da montanha. Sem ter onde pousar, aqueles fiéis chegados à tarde, subiram logo, ali se concentrando para, cedo, no dia imediato, visitar o templo e pagar suas promessas.

Todos os anos, passava a semana da Penha em nossa residência, a família do major José Carlos da Silva, da mesma maneira que outras casas acolhiam famílias de suas relações. As mocinhas, idas de Vitória, aproveitavam as manhãs, para os banhos de mar, grupos nas Timbebas, outros em Piratininga, próximo à Fortaleza que ali jazia silenciosa e abandonada. Era o ponto escolhido para os banhistas que preferiam aquela praia de alto mar, quase sempre de águas agitadas à calmaria das Timbebas. Várias pedras ali existiam, algumas unidas, formando grutas por onde as ondas se espraiavam nas marés cheias. Naquela época não escandalizavam os maiôs, nem os banhistas faziam as suas seções de helioterapia, porque o que tinha valor eram os elementos da água salgada para retemperar as energias.

Na véspera de uma dessas festas, um grupo de mocinhas foi ao banho em Piratininga, pela manhã, dele fazendo parte a senhorita Maroquinhas Silva. Levara ela um par de brincos de brilhantes, presente de aniversário de seus pais. Em dado momento, sentiu falta de umas das jóias quando dentro da água. Desolada, após infrutíferas batidas, veio para a Vila na companhia das amiguinhas, guardando reserva sobre o ocorrido, escondendo o mesmo dos pais. Porém, fizeram uma promessa. Se o brinco fosse encontrado na manhã seguinte, ela subiria descalça ao Convento, assistindo assim à missa solene. Na manhã seguinte, Maroquinhas com duas ou três amigas seguiu para Piratininga e, ao aproximar-se de uma das grutas formadas pelas pedras, viu refulgindo no fundo, banhando-se ao espraiar-se das ondas, que ali entravam e saíam, a sua ansiada jóia. Às nove horas, ao sair bem vestida e descalça, com as companheiras para o pagamento da promessa, foi que os pais souberam do caso, que ela, satisfeita, foi relatando, para explicar aos que subiam àquela hora, as longas calçadas, a razão de ser do seu vestuário.

* * * * *

Quando na presidência da República, o Sr. Artur Benardes fizera uma promessa à Senhora da Penha, por motivo de enfermidade em pessoa da família. Certo domingo, a Capital foi sacudida pela manhã, com a notícia que ancorara em frente à Vila Velha um navio do Loyde, trazendo a seu bordo o chefe da nação e uma pequena comitiva. A missa, segundo se dizia, havia sido protelada à espera do Sr. Benardes, que desejava ouvi-la. Tudo feito, o nosso ilustre visitante veio até Vitória, na companhia do presidente Avidos, em visita à nossa cidade. Após percorrê-la, embarcou o senhor Benardes, pois o navio viera esperá-lo em nosso porto. No dia seguinte, a imprensa carioca noticiou a viagem, adiantando que o sacerdote encarregado do Convento havia presenteado o Sr Artur Benardes com o painel da virgem. A notícia sensacional espalhou-se, e um imediato movimento irrompeu no seio da população, a fim de fazer voltar ao Convento o que Pedro Palácios, na sua imorredoura obra de civilização, nos havia legado. Neste propósito, foi feito um longo telegrama ao chefe da Nação, solicitando a devolução do painel à Penha, e justificando as razões dessa atitude.

Tudo, entretanto, não passara de uma tempestade em um copo d'água.

O despacho, colocado na Alfaiataria Resemine para receber assinaturas, não foi enviado, por ter sido restabelecida em tempo, a verdade sobre o caso.

Não fora o painel presenteado ao Sr. Benardes, mas um registro do mesmo, em ponto grande, tendo apenas se verificado um engano da parte dos jornais cariocas, ao divulgar a notícia. Serviu, contudo, o fato, para revelar o carinho com que os capixabas olham para tudo quanto lhes diz respeito, sobretudo aos documentos históricos da natureza daquele painel que é a expressão viva do início de nossa evolução social e cristã.

 

Antes do mais

 

O presente trabalho, com o qual concorro ao prêmio "Cidade de Vitória", instituído pela Lei Municipal n°. 20, de 8 de setembro de 1946, é um modesto subsídio ao estudo do desenvolvimento da nossa Capital, em suas condições urbanísticas, métodos educacionais de ordem cultural e social, de costumes e tradições ao tempo de minha infância e juventude.

Se valores intelectuais do passado, como padre Antunes de Siqueira, Daemon, Afonso Cláudio e outros de idênticos assuntos se ocuparam para o conhecimento dos vindouros, o fizeram em relação às mesmas épocas de sua juventude. Deixaram, por isto, uma solução de continuidade compreendendo as duas últimas décadas do século dezenove e a primeira do século vinte. É essa lacuna, que pretendo preencher despretensiosamente, com o que a memória me conservou daquela fase de minha vida. Procurando realizá-lo, não posso fugir ao dever de uma homenagem ao berço da nossa evolução - Vila Velha — onde passei parte da minha meninice e à qual a Vitória está presa por uma série de caras circunstâncias, homenagem representada nas crônicas que dão corpo a este trabalho pelo que a seu respeito escrevi.

Vitória, junho de 1951.

O AUTOR

 

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurélio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho/ junho/2020

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