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A Rainha da Selva Brasileira – Por Maria Stella de Novaes

A Rainha da Selva Brasileira - Cattleya labiata Warneri

Em tempos remotos, quando os animais predominavam na superfície da terra, e as plantas formavam o seu revestimento, o esplendor das matas cobria-a, em extensões infinitas, e flores mimosas e multicores saturavam, de alegria e perfume, as clareiras, vicejavam em campinas, encostas, praias e brenhas. Era o preparo do mundo, para receber o homem, — obra-prima da Criação.

Resolveram as flores, então, eleger sua rainha, segundo a sutileza da fragrância, o cetinado das pétalas, o atrativo aos insetos e o simbolismo, na vida. Triunfou, no prélio, a rosa que, apenas desabrochada, irradia beleza, embalsama o ar de perfume, e recebe o orvalho... Despetala-se! ... E tem a defesa dos acúleos.

Símbolo do amor?!...

Não resistia, porém, aos vendavais, ao granizo e demais inclemências do tempo. Era uma flor, para os jardins e a cidade, enquanto, na floresta, as árvores esbeltas, fortes, gigantescas, que dariam ao homem o córtex, a madeira, as essências e outros materiais, e conforto, para a luta e os empreendimentos da vida, estavam enlaçadas de cipós floridos, cobertas de cachos de todas as cores, de bromeliáceas e outras maravilhas silvestres; reclamavam igualmente sua eleita, que superasse a outra, em colorido, forma, resistência, perfume e simbolismo! ...

Já vimos que o homem não havia ainda penetrado na selva, povoada, então, de seres misteriosos que, posteriormente, deveriam figurar nos relatos e nas crendices dos índios, e servir de tema, para as estórias das avózinhas: curupira, saci, anhangá, fadas, anões, etc.

Estavam as árvores, em cogitações. Concordaram, finalmente, em pedir o auxílio do colibri, na realização do pleito floral. Enamorado sincero das flores e seu visitante fiel, para beijá-las e cariciá-las, diariamente, recomendava-se perito, na escolha.

Constava o programa silvícola de uma grande festa, que reunisse os cantores da mata, seus amigos, em todas as horas, e os insetos, suas jóias, seus vigilantes e comensais.

Logo, a gema plumosa, o mais gracioso e belo, entre os pássaros, foi... largou-se, intrépido, pela Natureza. Sem repouso. Esticava o bico, apurava a vista, num voar de rapidez impressionante! ... Admirou bromeliáceas, aráceas, passifloras, — que o encantariam, mais tarde, pelo simbolismo da Paixão de Cristo! Crucíferas?... Não; lembravam o sofrimento, igualmente! As buganvílias deixaram-no extasiado, pela força do colorido; mas, não eram flores, própriamente ditas e... tinham espinhos. Ipês e sapucaias, quaresmeiras, cactos, manacás e muitas outras árvores, plantas médias e rasteiras ostentavam suas inflorescências soberbas, no cromatismo. Nenhuma, porém, se distinguia, pelos dados genealógicos e predicados especiais.

Voou, voou a jóia dos pássaros, — o colibri, até que perdeu a faculdade comum aos seus irmãos de andar nos ramos e no solo. Tornou-se uma ave que só se locomove, com as asas. Vive deslumbrado, em torno das flores, ávido de sorver-lhes o néctar! De beijá-las e admirá-las!

E, assim, depois de percorrer clareiras, campinas, escarpas, margens de rios e lagos, de conhecer e apreciar a variedade e a opulência do reino vegetal, pousou, exausto, no recesso da folhagem de um mulembá. Ignorava-lhe a futura fama de árvore assombrada, em cuja sombra, — dizem, — reúnem -se, à noite, sacis, curupiras e outros gênios misteriosos, árvore que seria preferida, para os candomblés dos antigos escravos, os camucites e os conchavos com o espírito das trevas.

Veio a noite e cobriu-o com o seu manto de estrelas. Tudo era beleza, desde o luar, que prateava a folhagem, até o ciciar da brisa e o arrulho das aves, nos seus ninhos. Era a VIDA! — VIDA! ... murmurou, expansivo, o colibri. — "Vida! somente poderei apreciar-te, gozar-te, SENTIR-TE, se encontrar a flor dos meus sonhos!..." Avança a noite. Cai o silêncio, no infinito da Natureza. Dorme o colibri. E sonha: uma fada linda, incomparável parece tocá-lo, muito levemente, com o seu condão de ouro e pedras reluzentes, enquanto lhe esparge, na fina plumagem, tênue poeira de ouro e prata. Enlevado e ainda mais belo, vê-se o colibri guiado a uma região incógnita, alterosa, pujante, com as maravilhas das praias e o serpentear vigoroso dos rios, a placidez dos lagos e a pureza constante do firmamento.

— "Aqui, amigo, lhe diz a fada, — será um lugar de ventura e riqueza, decantado pelos escritores e poetas, fixado pelos artistas, enaltecido pelos sociólogos e historiadores. Será o preferido de muitos povos; que buscaram a Paz e a Fortuna. Será chamado a nova Terra de Canaã, a Terra Prometida, no conjunto imenso de outra terra, que será a Terra Brasileira. Encontrarás, aqui, dentre as "filhas do ar e da luz" a magnificência do que idealizas".

Desperto, enlevado, feliz e revigorado, em suas esperanças, alou-se o colibri, certo de encontrar a flor soberana. E, nessa faina sincera e nobre, reconheceu que, de fato, existiam "filhas do ar e da luz", flores singulares, entre as numerosas flores. Não se prendiam à terra, nem se apoderavam da seiva nutritiva dos seus hospedeiros e protetores, como o temido mata-pau e outros parasitas. Antes, coroavam as árvores, com a beleza dos seus cachos floridos; revestiam os troncos de cores variegadas; tapetizavam o solo e as rochas; ocultavam-se nas grotas, sempre fiéis, porém, à presença do ar e da luz. Alguém as chamaria de "Flores da Sombra". Elas, entretanto, denunciavam sempre a entrada dos raios solares, no seio das matas, quando não preferiam grimpar nos ramos expostos aos beijos diretos e à carícia do vento. Jamais temiam os tufões e as centelhas atmosféricas. Tinham, assim, o valor requerido, para, no seu clã, dominar como soberanas.

A fim de participar-lhes a ventura do encontro e organizar festiva excursão, para o reconhecimento, regressou o mensageiro ao reino dos animais alados. E foi, pelo caminho, fazendo os convites: — canário, pintassilgo, rola, cotovia, carriça, melro, lira, gaturamo, patativa..., toda a plumosa orquestra!... A manta, com as suas tenazes. O pirilampo e a jiquitiranabóia, que deviam iluminar o caminho, à noite. A piéride, conhecedora do aroma das flores. A carocha. O besouro, para zumbir, no cortejo e tirar-lhe a monotonia. A cigarra, com o seu realejo, dar-lhe-ia um tom poético, de par com a orquestra dos pássaros. O fasmo, vigoroso guarda contra as aranhas. A vespa e a abelha, com os seus infinitos enxames, que amedrontassem os bichos das florestas.

Puxada pelos vigorosos papagaios e o seu brilhante séquito de araras, periquitos e demais trepadores, organizou-se a marcha triunfal. Essa dianteira faria estrondosa algazarra, enquanto aos coborés, que sabem olhar de soslaio, cumpria prevenir o bando contra os gaviões, sempre traidores.

Uma revoada impressionante e bela, feliz, porque ainda livre dos impiedosos caçadores.

Assim constituída e antes que o Sol incendiasse a Terra, partiu a pomposa comitiva, no esplendor de uma aurora de verão. Compunha um quadro magnífico e deslumbrante. Buscava, entre os primores da selva que, no futuro, se chamaria espírito-santense, "as filhas do ar e da luz".

Foi.

E, ao despertar sublime da Natureza, penetrou no íntimo da floresta virgem, tropical, onde vicejavam miltônias, oncídios, bifrenárias, encíclicas, epidendros, aspásias e centenas de outras orquídeas..., que atraíam insetos e perfumavam a mata, que ornamentavam. Então o colibri, sempre impávido, no seu vôo contínuo, ébrio de beleza e fragrância, alçou-se, como eletrizado, à ramagem de um jacarandá batido pelos primeiros raios solares, e quedou-se deslumbrado, perante a magnificência de um conjunto róseo-cerúleo-nacarado da Cattleya labiata Warneri, que recobria os ramos e o tronco da árvore. Deslumbrado, aturdido da luz e da beleza, caiu o pássaro no labelo cetinado e olente! E a flor, que resiste ao vento, à chuva, ao Sol, ao orvalho..., guardou-lhe, instintiva e docemente, o repouso, como recompensa da sua eleição de RAINHA DA SELVA, porque somente uma soberana poderia dominar o vigor da flora capixaba e conchegar, no seu regaço, a jóia da fauna brasileira!

 

"Esta lenda foi escrita de acordo com relatos de tiradores de orquídeas."

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2016

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