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A Região situada entre a Vila de Almeida e o Rio Doce - Por Saint-Hilaire

Saint-Hilaire foi um botânico, naturalista e viajante francês que esteve no Espírito Santo em 1818

Saindo de Vila Nova, atravessei o Rio dos Reis Magos numa piroga que o capitão-mor havia requisitado e que pertencia aos índios.

Como esta região só mantém, por terra, poucas comunicações com o norte do Brasil, a travessia do rio não tem sido taxada pelo fisco.

O caminho de Vila Nova à Aldeia Velha corta quase sempre bosques que margeiam o mar. E assim é toda a região que percorri; mas, um pouco para o oeste, notam-se elevações do terreno.

Embora a estação estivesse adiantada (16 de outubro) havia ainda extrema seca e não encontrei, durante toda a viagem, qualquer planta florescendo, nesse ano, os colonos queixaram-se com amargura da falta das chuvas, o que atrasou todas as suas plantações.

Passei sucessivamente diante de grande número de cabanas habitadas por índios e, depois de haver percorrido três léguas, detive-me na Aldeia Velha. Esse lugarejo se compõe de choupanas construídas, na maioria, na foz do Rio da Aldeia Velha e em sua margem meridional. Faz parte da paróquia de Vila Nova, ou Almeida, e é povoado por indígenas civilizados, que vivem da pesca e do produto de algumas terras cultivadas. O Rio da Aldeia Velha é formado pela junção de dois regatos, um menos considerável que vem de sudoeste e tem o nome de Piriquimerim, o outro que vem do noroeste e se chama Piriquiaçu. 

Na embocadura, o Rio da Aldeia Velha pode ter a mesma largura do Sena na Ponte Nova e, não tendo sua profundidade nesse lugar menos de 8 a 14 palmos, conforme as marés, deixa passar embarcações bem consideráveis.

De tempo em tempo, chegam barcos de São Mateus, da Vila da Vitória, de Campos, por vezes mesmo da Bahia e do Rio de Janeiro, e se carregam com farinha de milho e mandioca, mas em pequena quantidade.

De Aldeia Velha se exporta ainda, para o Rio de Janeiro, o pau-amarelo, de tatajiba. Antes da chegada de D. João VI ao Brasil, a exportação dessa madeira de tinturaria era aqui inteiramente negligenciada, mas, na época da minha viagem, tinham vindo arrancar as raízes depois de haver cortado todas as árvores.

Do Rio da Aldeia Velha também sai um artigo importante de comércio, a cal, feita com ostras que se tiram das caieiras vizinhas da Vila de Piriquiaçu, situada à margem do Rio do mesmo nome, a três léguas da povoação de Aldeia Velha. Essa cal vale aqui 4000 réis (25 francos), na média de 50 alqueires (10 hectolitros) e se revende por 8000 réis na Vila da Vitória e por um dobro (80 francos) e mesmo um dobro e meio (120 francos) em Campos. Os demais artigos são comprados dos índios por 3 ou 4 negociantes portugueses estabelecidos na região e por outros que vêm de fora com barcas.

Por ocasião de minha viagem, o feijão valia na Vila Nova, e provavelmente em todo o distrito, 5 patacas (10 francos) por alqueire (o alqueire do Rio de Janeiro é de 40 litros); o algodão, 3 patacas por arroba; a farinha, 2 tostões (1 franco e 25) por quarta (a quarta do Rio de Janeiro é de 10 litros); as tábuas, de 20 a 25 palmos de comprimento por 1 de largura, meia pataca (1 franco) quando eram de madeira ordinária e uma e meia patacas quando de madeira própria para marcenaria.

Instalou-se na Aldeia Velha um posto militar com 4 índios, que se revezavam de 8 em 8 horas.

Além disso, na povoação há um capitão de milícia, português, que, sem estar agregado a nenhuma companhia em particular, é encarregado de velar e manter a ordem e de despachar os papéis exigidos deles aos patrões dos barcos.

Este capitão, que se intitula Capitão da Barra, não recebe ordens de ninguém que não o governador.

O capitão da barra Manuel Francisco da Silva Guimarães habitava, na embocadura do Rio da Aldeia Velha, uma casa coberta de telhas e me recebeu com muita hospitalidade. Viera do Porto para o Brasil sem qualquer fortuna; à força de trabalho e atividade, juntou algum dinheiro, comerciando; e tinha alma bastante superior para não fazer mistério de sua origem.

Deixando a Aldeia Velha, atravessei o rio numa piroga que me forneceu o Capitão Manuel Francisco e que era conduzida por índios; chegado à margem setentrional do Rio da Aldeia Velha, continuei minha rota, passando por um bosque; depois, cheguei a uma praia fértil em Fucus e percorri-a até o Quartel de Riacho. A vegetação que margeia esta região não difere da que eu havia observado em muitos lugares do litoral e apresenta geralmente uma camada rasteira muito igual de feijão da praia (Sophora littoralis Neuw Schrad), de aroeiras (Schinus theribintifolius Radd) e de bromélias. Naquele dia, não encontrei viajante algum nem vi qualquer habitação.

Às pessoas que me serviram devo atribuir os maiores desgostos que experimentei durante minhas viagens. Sabe Deus tudo quanto me fez sofrer o estado do pobre Prégent, desde o momento em que começou a perder a saúde, até o da sua morte. Durante muito tempo tive motivos para louvar o Almocreve Manuel da Costa; mas, entre o povoado de Aldeia Velha e o Quartel de Riacho, ele me declarou que, tendo uma pequena altercação com meu criado, deixar-me-ia no Rio Doce. Creio que ele ficaria muito incomodado se eu o tivesse levado a sério, mas só via dificuldades para mim mesmo caso este homem me deixasse, com minhas coleções e minha bagagem, numa região deserta, onde ninguém conhecia o serviço de tropas. Esforcei-me, portanto, para acalmar o Manuel da Costa e consegui sair bem sucedido. Detive-me num posto militar (Quartel de Riacho) que fica na embocadura do rio chamado Riacho e se destina a proteger, contra os botocudos, os viajantes e alguns índios civilizados estabelecidos neste distrito.

Compõe-se o posto de 4 pedestres e um comandante, que, apesar de nomeado pelo governador, não passa de simples pedestre, com soldo não maior que o dos outros. Este destacamento ocupa uma grande cabana isolada, onde se acolhem os viajantes; passei a noite ali.

Saindo de Riacho, encontrei, a meia légua de sua embocadura, vastas pastagens e um lugarejo habitado por índios civilizados, que cultivavam a terra e criavam gado.

Depois do lugarejo de que acabo de falar e que se chama Campos do Riacho (pastagens do Riacho) o rio do mesmo nome passa a chamar-se Rio da Lagoa; e se subíssemos ainda mais por ele, chegaríamos a um posto militar de índios, onde começa um caminho que leva à Vila de Linhares, situada à margem do Rio Doce. Eu teria podido seguir essa estrada, mas, como os botocudos aí aparecem de tempo em tempo tornando-a perigosa, achei melhor continuar a costear o mar. Quando eu estava no posto militar de Riacho, vi uma piroga chegar do Oceano à embocadura do rio. Era conduzida por índios que tinham ousadamente embarcado na Vila da Vitória e que, sem demora, se puseram a subir o rio para ir a Campos do Riacho. Nesse distrito, os índios civilizados fazem violas para seu uso com a madeira do jenipapeiro e uma outra madeira, branca e extremamente leve, denominada tajibibuia. Vi um desses instrumentos e fiquei admirado do capricho com que ele havia sido trabalhado.

No dia em que dormi no quartel de Riacho, a chuva começou a cair. Fazia vento sul, coisa extraordinária nesta estação, provocando extremo frio.

No dia seguinte, deixei o quartel do Riacho e passei o rio numa piroga que me forneceu o comandante do posto. Neste dia fui forçado a fazer caminho duas vezes mais que ordinariamente, porque, desde Riacho até a embocadura do Rio Doce, onde cheguei à tarde, não se acha água doce, nem casas. Acompanha-se constantemente, uma praia arenosa, marginada de florestas, onde crescem, misturados, mas em grupos, os quiriris (Allagoptera pumila Neuw Schrad) , ananases e diversos arbustos, entre os quais uma Rubiácea perfumosa (Gardenia richardii Var. p. rugosissima N2 e, sobretudo, a Clusia rosea ("Flora Bras" med. Lin") cujas folhas largas são vermelha no fundo e brancas nas extremidades. Lá se encontram ainda em abundância a Remzrea marítima Aub 3, Ciperácea de folhas duras e espinhosas e uma Composta (Vernomia rufogrisea N. 1), que tem o aspecto e a cor cinzenta dos nossos salgueiros pequenos das altas montanhas. Mas, embora esta praia ofereça algumas plantas curiosas, não é menos verdade que é de monotonia fatigante. A falta de água afasta inteiramente os pássaros e os insetos e ali apenas percebemos vestígios de alguns quadrúpedes, os de tatu, de tamanduá e de um cabrito. O tempo sombrio, o vento frio e violento do sul e a agitação das águas do mar aliavam-se ainda à tristeza peculiar a esta região deserta. Durante toda a jornada, o sol ficou coberto pelas nuvens; não sofri mais dos nervos, o que me havia acontecido raramente desde o início de minha viagem, porém, uma profunda melancolia acabou por me vencer; pensei na minha família, da qual havia muito tempo não recebia notícias, e negros pensamentos vieram preocupar-me.

O aspecto do Quartel da Regência, que era o fim desta longa marcha, não me alegrou. É uma grande cabana isolada, construída no meio da areia, pouco aquém da embocadura do Rio Doce e de onde se descortina o mar. Aí se escuta, sem cessar, o estrondo das ondas; para o oeste, a vista é limitada por florestas imensas, e para o norte vislumbra-se, entre as brenhas, o rio, cuja margem norte é também coberta de matas.

A caserna de Regência fora construída por um destacamento de pedestres destinado a proteger a foz do rio. Esse destacamento se compõe de cinco homens, incluído o comandante, que aqui, como em Riacho, é um simples soldado.

A administração mantém, junto do posto de Regência, muitas pirogas, de que se servem os pedestres para trazer as ordens do Governador da Província ou de seus delegados. Nessas pirogas é que se transpõe o rio, quando se vai, por terra, do Espírito Santo à Província da Bahia.

Pagavam-se, então, 160 réis (1 franco) por pessoa e outro tanto pelos cavalos; os soldados do posto fazem o trabalho de remadores e repartem entre si o produto do transporte. As pessoas que querem ir a Linhares são obrigadas a esperar que venham pirogas dessa vila ou que a ela se enviem alguns pedestres. Aos viajantes munidos de recomendações ou ordens do governador são fornecidos, para subir o rio, soldados e pirogas. Os postos, muito próximos, que se acham entre Vila Nova e o Rio Doce, fazem parte da primeira divisão militar do Espírito Santo, comandada por um alferes com moradia em Linhares. O estabelecimento desses postos data do governo de Antônio Pires da Silva Pontes Leme e, por conseguinte, não é muito antigo.

Antes dessa época, toda comunicação por terra entre Vila Nova e a embocadura do Rio Doce, ou, se quiser, entre as Províncias de Porto Seguro e da Bahia, devia ser impossível. É preciso, então, reconhecer que a administração de Pontes Leme, em geral tão cruel, foi, sob esse ponto de vista, útil a esta região.

 

Fonte: Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce ano 1974
Autor: Auguste de Saint-Hilaire
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2015

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