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A Sala dos Milagres - Por Frei Venâncio Willeke O. F. M.

Sala dos Milagres que foi reinaugurada em 1952, no Convento da Penha

Cada centro de peregrinações possui a sua capela ou a sala de "inflas". Os ex-votos aí expostos à apreciação dos romeiros contam e ilustram graças atribuídas à intercessão de N. Sra. da Penha. Fotografias, muletas, guras de madeiras ou de cera, representando órgãos ou partes do corpo humano, testemunham a cura de moléstias ou a solução de problemas da vida cotidiana, quando os recursos à ciência e à medicina saíram infrutí- feros. A lacônica dedicatória feita à Santa milagrosa encerra cada vez uma história comprida de sofrimentos com a promessa de levar o "milagre" ao santuário, em sinal de eterna gratidão.

Os ex-votos que atestam graças de ordem espiritual e material confundem-se fraternalmente porque uns e outros conduzem a alma agraciada por Maria a Jesus. Não há dúvida que os favores espirituais oferecem maior dificuldade de explicação e interpretação simbólica, aparecendo por isso em número menor, na casa dos "milagres".

Há uma espécie de ex-votos que pede uma interpretação minuciosa porque provavelmente é a mais antiga remontando ao tempo de Frei Pedro Palácios, e recordando as fainas missionárias do ermitão franciscano entre os Aimorés. Trata-se das tranças de cabelo oferecidas à Padroeira do Espírito Santo. Vejamos o histórico deste uso genuinamente brasileiro.

A exemplo de outros missionários, o nosso ermitão-catequista Frei Palácios explicava aos silvícolas as verdades fundamentais da religião católica, recomendando a um tempo a prática dos costumes cristãos e a abolição dos usos pagãos incompatíveis com os princípios cristãos, tais como a antropofagia, a poligamia, a embriaguez, os cultos pagãos etc.

Observando, porém, costumes que não contrariassem propriamente a doutrina ou a moral cristã, o franciscano tolerava-os, procurando assimilá-los aos poucos. Foi este o caso do culto aos antepassados, mui popular entre os índios e paulatinamente transformado na devoção cristã para com as almas do purgatório, até hoje uma das mais populares do País. Daí a aceitação geral já em tempo de Frei Vicente do Salvador, conforme atesta a sua "História do Brasil" (1).

Assim como os nossos missionários ainda hoje observam entre os índios da Amazônica, o corte do cabelo em sinal de luto, também Frei Palácios terá descoberto este belo costume que por sua vez se baseia na crença primitiva de ser o cabelo considerado símbolo ou mesmo sede da saúde e da fertilidade, provavelmente em virtude de seu rápido crescimento (2). Também aqui se deu a assimilação ou cristianização de um uso, graças  à condescendência compreensiva do ermitão-missionário, sobrevivendo como ex-voto até os nossos dias.

Partindo do conceito da fertilidade simbolizada pelo cabelo é que casais imploram à Senhora da Penha a prole desejada, se esta lhes faltar além do prazo normal. E desde já, prometem à Mãe de Deus o sacrifício das tranças de seu primogênito, em sinal de reconhecimento. Uma vez atendido o voto, ficará a criança sete anos ou mais tempo sem cortar o cabelo, ainda que seja menino, até que num belo dia de romaria será sacrificado à Nossa Senhora, no próprio santuário. Talvez não haja outro ex-voto tão expressivo e repleto de simbolismo como as tranças expostas sala dos milagres.

Dispensando longas considerações sobre esse modo aparentemente ingênuo de honrar à Senhora da Penha, desejamos apenas ressaltar que o sacrifício do cabelo constitui uma viva recordação do apóstolo catequético de Frei Palácios e das sábias assimilações de costumes indígenas. Destarte, o missionário franciscano contribuiu para a conservação de usos significativos até o dia de hoje, nos permitem penetrar na alma dos nossos silvícolas e interpretar-lhes o modo concreto de raciocinar, além do raro e profundo simbolismo que encerram.

A sala dos milagres constitui um verdadeiro escrínio de costumes multisseculares, porque é através dos ex-votos que fala a alma cristã e ingênua do povo, expressando-se na linguagem concreta do simbolismo primitivo, que Frei Pedro Palácios preservou da brusca extinção e fomentou embora talvez inconscientemente, pela fundação da Penha Sagrada.

Notas:

1. Salvador pág. 334.

2. Confirma Frei Plácido Toelle, OFM, há mais de 50 anos missionário entre os índios Mundurucu, que os conceitos expostos acima continuam também entre aquela tribo.

 

Fonte: Antologia do Convento da Penha, ano 1974
Autor do livro: Frei Venâncio Willeke O. F. M.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

Convento da Penha

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