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A visão do negro na literatura do Espírito Santo – Por Francisco Aurélio Ribeiro

Mário Gurgel

Em 1995, comemoram-se os 300 anos da morte de Zumbi, líder negro da Insurreição de Palmares, Alagoas, que comandou, durante muitos anos, a resistência contra a escravidão dos negros, no Brasil.

Registra-se a presença dos negros, no Espírito Santo, desde o século XVI. Maria Stella de Novaes cita documento de 1550, em que aparecem listados 12 escravos na arrematação dos bens de um feitor da Capitania do Espírito Santo(1).

Secundo Cleber Maciel, em 1887, um ano antes da Lei Áurea, que libertou oficialmente, os escravos no Brasil, havia 13.382 escravos no Espírito Santo(2). Em 1871, o Relatório do Presidente da Província apontava um população de 18.760 escravos e 51.825 livres(3). Calcula-se atualmente, em 65% a população de pretos e mestiços, no Espírito Santo, o que daria mais de 1 milhão e 600 mil pessoas, de acordo com o censo de 1991.(4)

Apesar dessa grande população de raça negra, a literatura do Espírito Santo registra, timidamente, a presença do negro como personagem, tema, e mesmo escritor, o que não é muito diferente do restante da literatura brasileira. Apenas Castro Alves, no século passado, se consagra com seus poemas dedicados a causa abolicionista. O primeiro escritor negro imortalizado pela literatura é o simbolista catarinense João da Cruz e Sousa (1861-1898) cuja vida é um exemplo do sofrimento e discriminações sofridas pelos descendentes de escravos, embora sua literatura seja, ideologicamente, uma visão do branco, do dominador. Antes dele, Luis Gama (1830-1882), filho de escrava, tornou-se líder abolicionista utilizando versos satíricos para denunciar a escravidão negra no Brasil. Depois dele, Lima Barreto (1881-1922), de descendência negra, faz uma prosa significativa, em que defende o mulato na sociedade discriminatória pós-abolição da primeira República.

Afonso Claudio de Freitas Rosa (1859-1934), formado em Direito pela Faculdade do Recife, recebeu influência de Tobias Barreto e Silvio Romero, tornando-se abolicionista e republicano. No Espírito Santo, liderou a campanha contra a escravidão negra, tornando-se o primeiro presidente do Estado do Espírito Santo, aos trinta anos de idade. Aos 25 anos, em 1884, publicou uma monografia intitulada Insurreição do Queimado, Episódio da História da Província do Espírito Santo, que inaugura uma série de estudos sobre o Espírito Santo. Nessa obra, relata os fatos ocorridos em 1849, em Queimados, na Serra, quando negros se rebelaram, apoiados pelo padre italiano frei Gregório, enquanto construíam uma igreja dedicada a São José. Três lideres negros, Elisiário, João e Chico Prego, foram presos, além de mais 35 acusados. Destes, 05 foram condenados à forca, 06 absolvidos e 25, condenados a açoites. Chico Prego e João foram enforcados. Os outros três fugiram, mas sucumbiram poucos anos depois da fuga, "no isolamento das montanhas vitimados simultaneamente pela tuberculose e pela anemia."(5)

O mesmo episódio da resistência negra e de sua luta pela libertação, recuperado por Afonso Cláudio para a memória do Espírito Santo, é retomado por Luiz Guilherme Santos Neves, em 1977, sob a forma de teatro. Em Queimados, documento cênico, o autor reconstitui o episódio da Insurreição de Queimados, colocando em cena seus principais líderes, frei Gregório, suas prisões e julgamento. O autor aproveita, ainda do folclore capixaba, o jongo e cantigas populares. A obra é concluída com um poema de louvação à coragem da raça negra, escrito por Reinaldo Santos Neves:

 

Que fizeram do negro,

do negro que ousou e se atreveu?

Que fizeram dele,

que a voz ousou levantar

num brado de guerra?

Que fizeram dele,

que se atreveu a sonhar

com a esperança de liberdade

da impossível liberdade?

 

Pois foi isso que dele fizeram

seus ofendidos senhores,

em nome do rei,

e em nome de Deus;

Da ponta da negra corda,

na forca foi pendurado

o negro corpo do negro.

 

Nos ombros do negro montou o carrasco,

e ali cavalgou em mortal galope.

E o corpo negro balançou doído

para o prazer dos olhos do povo branco.

Depois foi descido à terra

e com o porrete o carrasco esmagou

o que aqui e ali sobrava ainda de vida,

da negra e desgraçada vida.

E seu sangue escorreu pelo chão,

para ser lambido pelos cães vadios,

E seu pobre e maldito corpo,

desfeito em postas, denegrido,

apodreceu na ponta dolorosa

de cinco estacas.

 

Mas seu coração

que toda vida vivera

ajoelhado em seu peito,

mordido de medo

e comido de vergonha,

seu coração se levantou em seu peito

e morreu de pé:

redimido enfim,

abençoado enfim,

e finalmente livre,

finalmente e para sempre

livre(6).

 

Benedita Torreão da Sangria Desatada é o romance escrito por João Felício dos Santos (1911-1993), baseado em personagem apenas citada por Afonso Cláudio. Ao tomar conhecimento de Queimados, documento cênico, de Luiz Guilherme Santos Neves, João Felício se interessa pelo tema da Insurreição de Queimados e começa a pesquisar-lhe os fatos. Lê o texto de Afonso Cláudio e assim escreve a Reinaldo Santos Neves, em 21/01/1980: "Alegria! Chico Prego da Sangria Desatada! Que nome para um romance! Já imaginou o escravo de Ana Maria, mais o Elisiário, o João da Viúva, o Domingos Corcunda e seus cento e muitos companheiros, inclusive aquela formosa negra anônima, de peitos e tutano, apenas mencionada em um ofício do chefe de policia e que, por força, havia de se chamar Benedita Torreão".(7)

Pois não é Chico Prego, um dos lideres da Insurreição de Queimados, o personagem principal desse romance de João Felício dos Santos, já consagrado antes por suas pesquisas e romances históricos, mas Benedita Torreão, a negra anônima citada por Afonso Cláudio. João Felício constrói a história de Benedita, nascida na Nigéria. "terra mobica dos negros ketos" trazida como escrava, ainda menina, para Salvador, com o nome africano de Korowe. Vendida para uma roda de farinha, no Recôncavo, passa a chamar-se Madalena, sendo deflorada por seu patrão, Inácio Torreão. Mais tarde foge com Crescêncio, para Salvador. Este transforma-se em Elesbão e foge. Madalena em Maria do Carmo, mais tarde, Benedita. Fugindo sempre, Benedita é acolhida por Mané Soledade, em São José do Queimado, com quem passa a viver. Com ele, aprendeu a abortar as negras, para que seus filhos não fossem escravos, e as receitas de curas de mil mazelas. Daí, o sobrenome ''de Sangria Desatada".

João Felício é um narrador de mão-cheia. A linguagem de sua narração é florida, coloquial, informal, às vezes plena de regionalismos africanos, para dar o colorido adequado às falas de seus personagens. Acompanhar a vida de Benedita Torreão, desde a infância, e seu projeto ideológico, depois de velha, de acabar com a escravidão negra, exterminando as crianças ainda no ventre da mãe, é uma aventura emocionante de reconstituição da memória negra e de seu sofrimento como escravos dos brancos. "Pra que foi que eu nasci?", pergunta Benedita ao companheiro ao ver a corda que lhe enforcara os companheiros (p.246), mas ninguém lhe pode responder Benedita Torreão da Sangria Desatada é um dos mais fortes personagens da literatura brasileira, defensora de sua raça e da liberdade de seu povo. Ler sua história é recuperar, pelo imaginário de João Felício, a luta de uma mulher, heroína anônima da História, que na Literatura ousa colocar em primeiro plano, numa tentativa de valorizar a vida e a luta contra as injustiças sociais e as discriminações.

Renato Pacheco, em Reino não conquistado(8), romance publicado em 1984, reconstrói, ficcionalmente, a formação da classe burguesa, em Vitória,no século passado, centrando os fatos na figura de Dª Mariana Castro Pereira, filha de Joseph Koster, um inglês, personagem-narrador da primeira parte, "O manuscrito de Joseph Koster", e de uma escrava africana, Manjengbasa. Nesta primeira parte do romance, Renato Pacheco ficcionaliza, com propriedade, a vida de Nossa Senhora da Vitória, na primeira metade do séc. XIX, e a importância do escravo negro como mão-de-obra, em suas várias funções:

 

"Maria Victória teria uma mandinga que me curasse: porém

Maria Victória está morta e bem morta". (p. 13)

"Um escravo que fazia biscates se acercou, tão logo minha

bagagem foi desembaraçada, e tornou-me a seu cargo": (p. 15)

 

"O Governador queria comprar um escravo e, com as restrições ao tráfico, recentemente decretadas pelo Congresso de Viena, estava tendo dificuldade. Conversando com o capitão Sterne, comandante de um navio inglês que arribara no porto, em virtude de um temporal, conduzindo, segundo seu manifesto, farinha para a Corte, ele riu e disse-me que facilmente arranjaria quantos escravos eu quisesse. E que por coincidência trazia escondido no porão de seu barco um casal de ótimos escravos.

- Ás vezes, disse, trago d' África até 900 homens, a despeito da proibição... É ótimo negócio...

Fiquei estarrecido, pois sinceramente ignorava que o tráfico continuava sob a bandeira inglesa! Mas para apressar a decisão do Governador, comprei-lhe o casal de escravos, que Ihe doei, informando-o que fora um presente de um compatriota residente em Campos de Goitacazes.(p. 29)

Assim vai o romance de Renato Pacheco, construindo a história de Joseph Koster, comerciante negreiro, que se apaixona pela sua escrava Maria Vitória, ou Manjengbasa, que morre de febre amarela, depois de ter-lhe dado uma filha, Mariana, que leva para a Inglaterra. Após 35 anos, esta volta para Vitória. Casa-se com Salvador Gonçalves Pereira, em 1852, e viria a ter os filhos: João, o primeiro Bispo do Espírito Santo, e Sebastião, gêmeo de Geralda que morreria um ano depois, e viria a ser Presidente do Estado do Espírito Santo.

Baseando-se na vida de Afonso Cláudio, Renato Pacheco reconstitui a campanha abolicionista em Vitória, e as reuniões "quase sediciosas" com os "arautos" das ideias libertárias da "Sociedade Emancipadora Domingos Martins". Na página 75-76 de sua obra, descreve o dia posterior ao da libertação dos escravos no Brasil, 14/05/1888, e a reação de Dª Mariana e a sua escrava Dodona, amante do filho Sebastião. É interessante o diálogo travado entre estes dois, que revela o preconceito do branco contra o negro base da formação cultural do povo brasileiro:

"- Madrinha disse que estou livre...

- É, a Princesa Isabel assinou a tal da Lei Áurea...

- Quer dizer que eu sou igual às outras mulheres...

- É mais ou menos isto.

E, num sussurro:

- Quer dizer que eu posso casar com você...

 

Sebastião tomou um susto com o pensamento que viera à cabeça de sua amante, porém, matreiro, contemporizou:

- Pode, pode sim. Mas antes de me casar, tenho que completar meus estudos ..."(p. 75-76)

O século XIX não registrou nenhum escritor da raça negra no Espírito Santo, que se destacasse na história literária, e sua memória só pode ser melhor recuperada pelo imaginário dos historiadores e literatos deste século, como Renato Pacheco e Luiz Guilherme Santos Neves, que reviveram, em suas obras, aquele tempo e seus personagens. Romances como A nau decapitada e As chamas na missa, ambos de Luiz Guilherme Santos Neves, ficcionalizam o papel do negro na sociedade brasileira dos séculos XIX e XVIII, respectivamente. No primeiro, os negros são objeto de tráfico e judiação por parte de Boncarneiro, conforme descrito no capítulo XXXII, intitulado "Um espetáculo torpe e contristador": "... o contramestre contraiu o repulsivo costume, cheio de extrema perversidade, de fazer subir do porão ao convés os negros cativos, recolhidos em Piúma com cordas e grilhões, aos quais obrigava, debaixo de ameaças e açoites e cutelo, a introduzirem o dedo no anus do gato".(9)

Em As chamas na missa, o preto Candinho, "banto, nagô ou congo", ganhou fama de ser "bruxo feiticeiro". Por isso, foi intimado pelo "Santo Oficio", ordenando o visitador que se procedesse à prisão de Candinho, "negro que te quero negro". Não conseguindo prendê-lo, depois de três tentativas, mandou o visitador que ateassem fogo na casa de Candinho, narrando o meirinho que "viu desenhar-se no ar, dentro da nuvem de açafrão, após o desaparecimento da casa, a grande mão aleijada de Candinho, com seus dois únicos dedos inteiros erguidos para cima, à feição de cornos..."(10)

Após a abolição dos escravos, em 1888, muito pouco mudou na situação do negro, no Brasil. Nara Saletto, em tese apresentada na UFF, assim afirma: "A integração da população pobre, nascida livre ou liberta, ao mercado de trabalho, parecia difícil aos olhos dos contemporâneos, no sudeste. Essa dificuldade era interpretada tendo como referência o mito da indolência da população pobre, que datava do período colonial, e o racismo, tão influente no pensamento da época". Ou, ainda: "Dez anos depois, a abolição engrossaria a população pobre, com cerca de 13 mil escravos libertados, (no Espírito Santo), e, simultaneamente colocaria a demanda dos trabalhadores para substituí-los".(11)

Mais à frente, ela comprova que, em 1930, em Vitória, brancos aparecem como quase exclusividade em algumas profissões bem situadas na hierarquia social: profissionais liberais, professores e religiosos, funcionários públicos e comerciantes, enquanto pardos e pretos eram reservados às profissões inferiores: artesãos, trabalhadores especializados (pedreiros, sapateiros, padeiros, etc.), lavradores, operários e trabalhadores em transportes. Estes, estivadores, marítimos, remadores, canoeiros, carregadores, eram os principais ofícios dos negros. O mesmo constata em Cachoeiro de ltapemirim, nos censos de 1930 e 1935."(12)

A literatura feita no Espírito Santo, até a década de 80 do século XX era exclusivamente produto cultural dos homens brancos e burgueses. Por isso, muito pouca referência é feita ao negro. Às vezes se encontra algum poema saudosista, idealista, conto este de Collares Junior (1894-1970), em que o negro é retratado submisso, conformado com sua sina, embora indague, timidamente, as contradições sociais:

 

MÃE NEGRA

Por entre os filhos nus, a negra moça

permanecia

pela noite a dentro vigilante.

Não pensava nem sofria nem lançava

imprecações contra ninguém.

Esperava apenas que,

naquela noite alegre

em que muitas crianças aguardavam

seu Papá Noel,

morresse-lhe, afinal

o sétimo rebento da geração.

- Será que a vida é mesmo assim?

(...)

- Nessa madrugada

havia mais uma criança morta no mocambo,

e uma negra moça,

de olhar parado,

interrogando,

no espaço e no tempo,

o seu destino e o destino de seu povo.

E havia música por toda a parte,

e por toda parte

a palavra sempre repetida

de amor e de fraternidade.(13)

 

Às vezes, o poeta se trai, ou assume-se, revelando, claramente, uma posição machista e preconceituosa em relação à mulher negra. Comprove-se com o poema "Mulatinha", de Almeida Cousin (1897-1992):

 

Mulatinha já foi negra

na fazenda de café.

Mulatinha virou branca.

Que doçura que ela é.

 

Mulatinha era mucama.

Tomou surra de Sinhá.

Sinhô pôs ela na cama.

Não podia se queixá.

 

Mulatinha tem nos olhos

mundos, mundos, que perdeu:

mares, noites e desertos...

mas de tudo se esqueceu.

 

Mulatinha era negrinha.

Deu mulatos. Ficou só.

Os filhos da mulatinha

de mãe negra não têm dó.

Mulatinha já foi negra

na fazenda de café.

Mulatinha virou branca.

Que doçura que ela é!(14)

 

Os dois poemas citados podem se enquadrar numa visão estereotipada do negro ou naquilo que Guerreiro Ramos, sociólogo afro-brasileiro, afirma "...se formou entre nós uma literatura, principalmente de caráter poético, que explora os motivos negros em termos reacionários, embora seus autores sejam animados das melhores intenções."(15)

Também é do mesmo tipo o poema "Sinhá Fortunata" de Luiz Simões Jesus (1916). Observa-se, a partir do primeiro verso, que o autor, para valorizar as qualidades de sua "mãe preta", caracteriza-a como... "branquinha":

Que preta branquinha.

Sinhá Fortunata,

a minha mãe preta...

Magrinha, bondosa,

dengosa e amiga,

a minha negrinha,

a branca pretinha,

Sinhá Fortunata...

 

Desperto no mundo,

aportando à vida,

dos seus negros seios,

dos seios da noite,

bebi a brancura

do leite do dia,

do leite da vida.

(...)

 

Quantos seios sem sombras,

todos feitos do dia,

não podem verter

a brancura do leite

que cedo bebi,

nos seios de noite

de minha pretinha,

Sinhá Fortunata...(16)

 

Destaquei os elementos relacionados à cor branca, ou a ela associados (dia x noite), para que se possa observar o preconceito, ou a marca ideológica presente no poema. A velha negra, que serviu de ama-de-leite ao autor, e, valorizada por suas qualidades "brancas", ou a negação de sua negritude.

Somente a partir dos anos 80, começou a surgir uma literatura feita por descendentes de negros, como Valdo Motta, Adilson Vilaça, Marcos Tavares, Anselmo Gonçalves, Ivan Castilho, ou comprometida com as classes populares e/ou discriminadas, como as de Hermógenes L. Fonseca, Fernando Tatagiba, Lacy Ribeiro, ou mesmo panfletária como os Cadernos de Poesias publicados pelo Centro de Estudos da Cultura Negra - ES, na década de 80, e os poemas de Maciel de Aguiar.

Dentre os escritores descendentes de negros, os melhores são Valdo Motta, na poesia e Adilson Vilaça, na prosa. O primeiro já foi analisado no capítulo anterior, como representante da poesia feita pelo jovem homossexual. O segundo é um dos melhores escritores da atualidade, com cinco livros publicados: A possível fuga de Ana dos Arcos, contos, FCAA, 1984; Esperidião e Outras criaturas, contos, Ímã, 1987;Purpurina e outras desfolias, contos. SPDC/UFES, 1992;Trapos, contos, Ímã, 1992 e Albergue dos querubins, romance, SPDC/UFES. 1995.

Desde a sua primeira obra, A possível fuga de Ana dos Arcos. Adilson Vilaça determinou a prioridade de seu enfoque/olhar ficcional sobre os marginalizados, discriminados social e economicamente, loucos, doentes e crianças. A presença do negro, em sua obra, é uma consequência direta de sua opção, visto que, na sociedade brasileira, eles estiveram sempre à margem do poder. No primeiro conto, "A primeira noite", os parceiros do crime são um com "cara de Kung-fu" e o outro, "um crioulo com jeito de mestre-sala"(p.14); "A procissão foi subindo, subindo, subindo num alvoroço de risos negros”(p.15); e o personagem principal, preso por arrombamento e "Ademilson Nascimento dos Santos, ex-vendedor de amendoim torrado, procedente de Colatina, sem parentesco na Grande Vitória, preto, porém com todos os dentes, vinte anos com cara de 15 (quinze)"(p 16).

Invertendo o preconceito, o personagem-narrador do conto, “Identidade para os gatos pardos", afirma:

"Não gosto de mulher branca, cortei (...) Não gosto de pirão sem sal, gozei”(p.19).

Em oposição a ele, seu parceiro de crime, negro também, Paulinho, "vê numa branquela... tudo que uma crioula não tem ... Cabelos esvoaçantes, lindos, pernas lindas, sorrisos com todos os dentes, a pele macia, nariz que não é aquela barraca, mãos que são uma graça"(p.23). E arremata: "E toda crioula é puta. Puta preta. Fedorenta". E o diálogo continua, com todos os chavões de discriminação contra a raça negra destilados pela boca preconceituosa do próprio negro, colonizados pelos valores do branco racista: "Se eu gostasse de preto comprava um falante da Telest para minha caxanga, (p 20) "E se eu gostasse de preto andava com urubu debaixo do braço" "Mulher branca é como algodão e preta é como um carvão".(p.20-21)

No terceiro conto, "Boca do forno", o narrador, um camelô, rememora seu passado, em que seu pai foi assassinado num bar, quando tinha cinco anos, por um policial, cujo chefe dizia: "Preto não nasce, aparece"(p.25). No tumulto da praça, em que o camelô apresenta seus produtos e Emanuel tenta roubar José da Silva Santos, e é morto pela população, Vitorio da Conceição, doqueiro, é suspeito apenas por ser preto.(p.29)

Em "Dalva e Rubens melodia, subproletariamor", o amor entre Rubens, mulato e Dalva, negra, pode se complicar pois ela está grávida, provavelmente de Charles, que "só vê preto, é triste" e se mata, "de solidão e tédio".(p.35)

E assim, sucessivamente, os contos de Adilson Vilaça são uma denúncia social da discriminação entre os marginalizados de toda sorte na sociedade brasileira, em que os negros, não por acaso, são maioria. (Pesquisa recentemente publicada na Folha de São Paulo em 25/06/95 comprova o "Racismo cordial" do povo brasileiro, em que 87% da população de não-negros brasileiros revelam algum tipo de preconceito contra os negros; a maioria da População se considera "morena" e apenas 39% se diz branca; a maioria dos negros está trabalhando, mas metade recebe até dois salários-mínimos: metade dos negros pesquisados diz que "negro bom é negro de alma branca").

As outras obras de Adilson Vilaça vão diluindo, um pouco, a agressividade da realidade denunciada em A possível fuga de Ana dos Arcos, tornando-se mais líricas, em que explora com mais frequência o discurso mítico, mágico ou onírico. Em sua tentativa de resgatar o passado e a identidade do povo capixaba, faz em seu primeiro romance, Albergue dos Querubins, uma alegoria da colonização, do poder e da história.

Em Albergue dos Querubins, Adilson Vilaça pretendeu construir uma “fábula do Espírito Santo" e se assume como "mestiço da extinção crenaque, do banzo africano e do exílio espanhol” p.(310). Dentre os personagens centrais de sua ficção da etnia capixaba está Baltazar, saxofonista negro, que se une a Akieluz, descendente de nobres portugueses e depois a origem italiana, com quem vai para a Itália e África. Lá, redescobre suas raízes, “a música que o perseguia”, (p.300) De periférico a secundário, o personagem negro, na obra de Adilson Vilaça, passa a principal e sujeito da história.(17)

Outros escritores descendentes de negros descrevem personagens negros, apenas esporadicamente: "O coveiro, negro e lindo como a morte"... (CASTILHO, Ivan de L. O deus do trovão. Vitória: FCAA, PMG, 1988, p.40)

"...os ladrões passavam, negros, embora aparentemente pardos, visto que ao luar."(TAVARES, Marcos. No escuro, armados Vitória: FCAA, Rio de Janeiro: Anima, 1987, p.41).

Anselmo Gonçalves, poeta vila-velhense com um único livro publicado. Noturnos, e já falecido, após uma vida tumultuada e sofrida, relembra emTradições serranas, a devoção a S. Benedito, padroeiro dos negros:

Quanta lembrança, quanta, na madeira entalha

o negro, retratando o negro e enleado

A praça está soberba e nobre e o padre atalha

levando a procissão num passo ralentado.

(GONÇALVES, Anselmo. Noturnos. Vitória, 1985, p. 37).

 

Outros escritores como Fernando Tatagiba e Lacy Ribeiro optaram pelo enfoque do marginal, em suas criações literárias. Não há, no entanto, no primeiro deles, uma explicitação da cor de seus personagens marginalizados. Estão todos unidos pela miséria, brancos, pretos e amarelos. A segunda já faz algumas referências à cor (negra) de seus personagens: "O bêbado entra na avenida, de punhos cerrados, esmurrando o espaço escuro. Sua silhueta negra lembrava um espantalho ou uma árvore morta, chamuscada pelas queimadas" (RIBEIRO, Lacy. Avenida República. Diário na madrugada, Rio de Janeiro: Cátedra, 1987, p.29)

"Luanda, a linda Luanda, transforma-se, de repente, na mais feia das morenas, fraquejada, despudorada e malcheirosa, traidora e revolucionária.

Porque a negralha chora tanto?”(RIBEIRO, Lacy. Contos de réis, Rio de Janeiro: Cátedra, 1986, p.11)

"E Jonathan sabia que as mulheres o achavam um mulato sarará muito esquisito"(RIBEIRO, Lacy. Contos bastardos. São Paulo: Massao Ohno, 1991, p.123)

 

Elmo Elton e Hermógenes Lima Fonseca foram estudiosos e retratistas literários da cultura popular. O primeiro, em seus Tipos populares de Vitória (Vitória: FCAA, 1985), registra os seguintes personagens da Vitória de sua infância, muitos da raça negra: Chupa: "Desdentado, tinha boca de chupa-ovo. Preto. Galanteador”(p. 15). Grapuá:"Tipo alto, mulato, maltrapilho, de calças sempre arregaçadas, mostrando as canelas finas"(p. 20-21). Violão: "Orgulhava-se de haver nascido na capital paulista, exatamente na rua do Lava-pés. Mulato"(p.22). Grela: "Era mulato, xingador, sendo alvo constante da zombaria não só de colegas do curtume (...) enfim, da população inteira de Vitória"(p. 23). Otinho: "...o tipo mais popular de Vitória"(p.25). Macaca fêmea: "Era de estatura mediana, negro retinto, muito magro, maltrapilho, de dentadura falha(p.28-29). Mané Cocô: "Manoel de Oliveira Dias, preto, ainda moço de rígida musculatura, era "carregador de cocô(p.30). Cândido Marola: "Era preto e forte. Ganhava seu dinheirinho no trapiche de Vitória" (p. 32). Dona Domingas: "Magra, negra, feia, desdentada, embodocada, lenta nos gestos e no andar, voz grave, parecendo de homem”(p. 34) Tem uma estátua, de Carlo Crepaz, escultor italiano, ao lado da escadaria do Palácio Anchieta. Bebé chorão: "Mulato, balofo, cara inchada de alcoólatra, de olhos sempre remelentos” (p. 37). Sadona Piriquita: "Negra retinta, um nadinha de gente..."(p.37) Maria Guaibira ou Maria Bacuri: "Preta, gordona, benzedeira e feiticeira".(p. 42) Professor Felix: "Professor concursado, negro retinto, muito falante, exibia discutível erudição".(p. 43) Pedro Furão: " típico homem do povo, preto, alto, muito simpático e falante...” (p. 16). Elmo Elton cita vários outros personagens populares, geralmente negros, ou seus descendentes como: Aquino Peidoré, Exu, Sapo Seco, Américo Rosa, Cambão, Toco de Caminho, dentre outros. Mais do que preconceito, os adjetivos utilizados por Elmo Elton com relação aos negros, revelam carinho e sensibilidade por aqueles personagens do povo. No entanto, denunciam também a situação de miséria e marginalidade em que iam aquelas pessoas, de raça negra, após a libertação dos escravos.

Outro pesquisador do folclore, costumes e tipos populares é Hermogenes Lima Fonseca. Em seu Curubitos (Vitória: IHGES, 1992), registra vários desses personagens descendentes de negros como em "Adubando dá". "Maria D'água Boa", "Zé Pembeiro". Este é assim descrito: "Nego trabalhador. Bom de eito. Na enxada, no machado, na pá, tudo era com ele. Bom de guela, bom de cantoria, bom camarada, nego de risada solta. Para completar sua felicidade, Zé Pembeiro engraçou-se de uma companheira de serviço. Mulatinha jeitosa, boa de trabalho, dentadura bonita e ria quando Zé Pembeiro ria".(18)

Diferente de Elmo Elton que recordava os personagens (negros) de sua infância pelos defeitos ou "anomalias". Hermógenes Fonseca reconstitui os seus pela simpatia, as alegrias, o linguajar colorido e característico dos habitantes de sua Conceição da Barra, município do norte do Espírito Santo, com grandes influências da raça negra. Hermógenes é também um legitimo e ardoroso defensor e divulgador das tradições folclóricas de sua terra, como o Ticumbi e o Alardo, de tradição negra.

A partir da década de 80, o Centro de Estudos da Cultura Negra-ES (CECUN) começou a editar Cadernos de Poesia de poetas negros ou comprometidos com a causa libertária dos negros. O nº 6 foi editado em 1988, ano em que se comemora, no Brasil, o Centenário da Abolição dos Escravos. Na década de 90, não foram mais editados. Os poemas, em sua maioria, são panfletários, esteticamente mal construídos, mas são, em primeiro lugar, testemunho da opressão, discriminação e desigualdade social dos negros na sociedade brasileira. Alguns exemplos:

 

PRECONCEITO

Ainda ressoa o grito

De vitória retumbante

O negro não é mais escravo

Eis o grito triunfante ...

Cadeias foram rompidas

Do agrilhão e da dor

As nações foram unidas

Pelos laços do amor...

(Jucélia da Penha Coutinho)(19)

 

Mesmo ideologicamente, o poema acima reflete uma visão equivocada e ingênua da questão histórica da abolição dos escravos e da situação social do negro posterior a ela. Outros mostram o negro como herói, suportando os sofrimentos da escravidão, mas reconciliando-se com o sonho, o amor, ou uma mulher.

 

HOLOCAUSTO

Violentam-me a alma,

Cegam meus olhos.

E quanto mais me batem,

mais ignoro o negro.

Nego que dói, que sofro,

Que a lança me vara o corpo

E traz consigo o coração"

(Emílio Fernandes Rocha)(20)

 

Outros assumem a passividade como comportamento, a aceitação da discriminação e se comparam a Deus, também injustiçado pelos homens:

 

A COR QUE DÓI

 

Quando me chamam

de negro,

eu não choro

e nem ligo,

Sorrio

mostrando

meus alvos dentes.

(...)

Me chamam de tudo

e eu fico mudo: 

(...)

Eu tenho

os olhos vermelhos,

carapinhos cabelos

e a alma branca

dos meus...

Eu sou raça

detestada,

ovelha negra

desgarrada

de um rebanho

de ateus"

(Alcimar Nunes)(21)

 

Outros são panfletários, questionando as leis dos brancos, reivindicando verdadeiros direitos para a raça negra:

 

QUEM PRECISA DA LEI ÁUREA?

- 13 de maio de 1888

Fica abolida a escravidão no Brasil

Pelas mãos de Isabel, "A Redentora"

O povo Negro cantou, dançou e sorriu.

 

- Liberdade?

Sem terra, sem trabalho, Discriminado?

Pela sociedade escurraçado?

- Liberdade?

Liberdade eu tive um dia e me roubaram

Na África Mãe, me humilharam, Me escravizaram.

 

- Quem precisa de Lei Áurea?

Pois livres fomos um dia

no quilombo dos Palmares

Símbolo de lutas e rebeldias.(22)

 

Todos os poetas citados são capixabas, negros, embora a obra citada seja uma antologia de poetas de diferentes estados brasileiros. Os outros números dos Cadernos publicados pelo CECUN foram.

1. Relatório do 1º Seminário de Cultura Negra, 1983.

2. Coletânea de Poesia "Solano Trindade”, 1984.

3. O Negro e a Sucessão Presidencial, 1984.

4. Apartheid, um crime contra a Humanidade, 1985.

5. Coletânea de Poesia "Solano Trindade”, 1987.

6. Coletânea de Poesia "Solano Trindade", 1988.

7. Voto negro elege, 1989.

8. Caderno Misto de poesias e contos. (Não foi editado).

 

O Prefácio do Caderno 8 revela que as coletâneas de poesia eram encomendadas a seus autores, chamando "a atenção dos poetas e contistas, para que abordem nas poesias, o passado, o presente  e o futuro do negro e nos contos, procurem exemplificar algumas discriminações raciais sofridas pelo negro no dia a dia”. Seu autor, Luiz Carlos de Oliveira, conclui, assim, o prefácio: "Esperamos que estes cadernos continuem penetrando nos meios negros e principalmente nas escolas públicas, onde estamos desenvolvendo trabalhos, para a introdução da história e cultura do negro no currículo escolar".(23)

Maciel de Aguiar (1952), jornalista, ativista político e cultural, publicou, em 1991, coletânea de seus poemas com o título Poemas para a liberdade (2ª ed, Porto Seguro, Brasil-Cultura, 1991, 345 p.). Com o propósito claro de "denunciar as injustiças sociais, o cerceamento da liberdade e o abuso de poder, através da literatura", escreve poemas panfletários, cuja maior preocupação é colocar, em forma de verso, suas mensagens liberacionistas. Isso acaba prejudicando o próprio artesanato poético, visto que o autor não se preocupa com os recursos literários existentes. Seus poemas são, sempre, verborrágicos, dispondo sucessivamente linhas e linhas de inflamado "ardor juvenil". Comprove-se isso, por exemplo em sua “Louvação" a Castro Alves:

 

Oh, poeta dos escravos e dos oprimidos,

lança teu grito heróico

do longe do teu tempo

sobre a nossa tragédia de hoje:

a nossa Pátria aviltada pela tirania.

Lança teu grito abolicionista

sobre a discriminação racial e o preconceito.(p.53)

 

Seus poemas, escritos na época da ditadura militar, e num tempo de censura, delação, tortura, perseguições políticas, denunciam um tempo e sua historia. No entanto, apesar de ter nascido em Conceição da Barra e viver em São Mateus, municípios capixabas de maior concentração de negros, Maciel de Aguiar quase não os menciona em sua obra.

E claro que somente o trabalho de formação para a conscientização a ser desenvolvido principalmente nas escolas é que transformará a visão e o papel do negro na sociedade brasileira, o que irá também refletir no próprio trabalho de criação literária feita por eles ou sobre eles. Em 1992, um grupo de estudo produziu, junto à Secretaria Estadual de Educação e Cultura, o documento intitulado: "Proposta de inclusão da história e Cultura do Negro no Ensino de 1º e 2º graus".

Em 1988, no centenário da abolição, a UFES patrocinou um Seminário Internacional de Escravidão, com o tema: "Escravidão: Aspectos históricos, políticos, econômicos e culturais". Os anais, sob a coordenação de Maria Verônica da Pas, foram publicados em 1992 pela Ed. da FCAA e patrocínio da lei Rubem Braga, da PMV. Neles podemos ler, no texto de José Maria Coutinho, que existem, na sociedade brasileira, quatro formas de racismo "escravidão, segregação, discriminação e preconceito". Mesmo livres da escravidão, os negros sofrem as outras formas que "subsistem nas atitudes e comportamentos"(...) apesar da ascensão social do negro ou do mestiço de cor”.(24) Os estudos dos professores Cleber Maciel(25) e José Maria Coutinho(26), da UFES, têm contribuído, sobremaneira, para a discussão do papel do negro, de sua discriminação na sociedade brasileira, mesmo após a abolição da escravidão.

Em 1989, o Departamento Estadual de Cultura -ES publicou a obra Zumbalu, Balduino El Africano, com os poemas de Balduino de Oliveira, mestre do pandeiro, nascido em 1907, no RS, e falecido recentemente. Balduino de Oliveira, já havia publicado outros livros de poesia antes deste editado pelo DEC e seus poemas revelam sua sensibilidade e inteligência em "versos realistas, dramáticos e fiéis às cores do dia, da noite, deste Brasil que ele conhece com a sola dos pés e como a palma das suas mãos", conforme prefácio de Afonso Abreu.(27)

Sua "Biografia" é um retrato doído da realidade social do negro brasileiro:

 

"Sou o que nunca frequentou escola

Negrinho de rua achado numa sacola

No entanto, meu pai foi grande pregador.

Um talento genial em defesa de nossa cor

Minha mãe, morena bonita por natureza.

Eu sou essa "coisa feia" uma tristeza!...

Nasci bruto, liso, leso, quase louco...

Enfrentando a vida, fazendo de tudo um pouco,

Comendo pedacinhos de inferno ralado!"(p.11)

 

Apesar de tudo isso, seus versos transpiram confiança ("é amigo de Deus", p. 13), alegria, lucidez ("Eles que façam a festa", p.15), conhecimento literário ("O palhaço da dor", p.16) e de sua condição ("O artista negro" p .17) sabe que a "Arte não tem cor"(p.19) e protesta porque "Negro autêntico já bem pouco existe"(p.29). Louva "A insurreição de Queimados", em forma de acróstico e afirma:

 

Recordando "Quilombo dos Palmares"

Revela o negro em toda a sua essência

E o fim sentir zumbi, em toda consciência (p.43).

 

Zumbi, cujos 300 anos de morte se comemoram neste ano, é o "herói dos negros, dos deficientes físicos e dos gays", segundo Luiz Mott(28). Afinal, a questão dos negros, no Brasil, faz parte de um contexto maior de discriminações e segregações em que se inserem todos os que são incapazes de produzir, numa sociedade capitalista (velhos, crianças, loucos, aleijados) e os discriminados social e culturalmente (mulheres, homossexuais, negros, judeus, etc).

Bernadette Lyra, em ensaio esclarecedor, ainda que datado historicamente, 1981, discute a existência de um "espaço literário negro, preenchido pela cultura negra na literatura brasileira". Embora reconheça que "a cultura negra é a predominante do povo brasileiro", afirmação com a qual não concordo inteiramente, o que existe na literatura brasileira é, segundo ela:

 

1 - O homem de cor preta falando do negro com uma fala branca:

2 - o negro falando do negro, tentando uma afirmativa étnica inventando premissas de superioridade próprias dos brancos;

3 - o negro falando do negro.

 

No primeiro caso, cita Silva Alvarenga, Gonçalves Dias, Gonçalves Crespo, Machado de Assis e Cruz e Sousa. No segundo, Lino Guedes, Lima Barreto, Luiz Gama e Solano Trindade. No terceiro caso, cita a oralidade, "profundo elemento da cultura negra brasileira", os provérbios, causos, o dialogo de gerações negras, com suas tradições, mitos e ritos.(29)

A literatura negra no Espírito Santo é, ainda, uma ficção. Sobre negros, há muita coisa; de negros, alguma, embora, esteticamente, de má qualidade. Mas a força da cultura negra existe nas histórias que estão sendo contadas nos terreiros, nas cantigas das bandas de congo, nos cantos populares recolhidos por Hermógenes, nos estudos dos professores Cleber Maciel, José Maria Coutinho, Bernadette Lyra(30) , Maria Stella de Novaes(31) e Nara Saleto. A literatura negra capixaba começa a ser escrita.

Um exemplo dessa nova literatura negra, que começa a ser escrita, no Espírito Santo, está na obra O semelhante, da atriz-poeta Elisa Lucinda (1957). Escritora com três obras poéticas publicadas, Aviso da lua que menstrua, 1990, Sósia dos sonhos, 1994 e O semelhante, 1994. Elisa faz da sua vida um recital de poemas próprios, cantando a vida, a palavra, o amor, com todos seus encontros e dissonâncias. Sua poesia é, sobretudo, marca de consciência de sua condição de mulher, descendente de negros, e artista, num pais subdesenvolvido, machista e racista, preconceituoso como o nosso.

Na obra O semelhante(32), no cap. 4, "Descobrimento de Brasis"(p. 167 a 193), faz uma leitura-análise das diferentes facetas que compõem a situação social do negro, da mulher, do pobre, no Brasil. Em "Ashell, Ashell pra todo mundo, Ashell"(p.167), denuncia, com ironia, a discriminação racial, nas mensagens publicitárias e o papel destinado à modelo negra ("vender bombril", "clip-exportação" de mulatas no carnaval, "vender Henê", "vender omo"). E a constatação dolorosa:

 

Ela viu um anúncio da cônsul pra todas as mulheres do mundo...

Procurou, não se achou ali. Ela era nenhuma. Tinha destino de preto.

Quis mudar de Brasil: ser modelo em Soweto.

Queria ser qualidade. Ficou naquele ou eu morro ou eu luto.

Disseram: Às vezes um negro compromete o produto.

Ficou só. Ligou a tv.

Tentou achar algum ponto em comum entre ela e o free:

Nenhum.

A não ser que amanhecesse loira, cabelos de seda shampoo

mas a sua cor continua a mesma! (p.167-168)

 

A autora sabe que necessita "Ir á luta sem ser mártir”(p.168) e que a pior condição social, no Brasil, é a pobreza, não tanto a cor da pele. Por isso, constata, que "ainda está presa na senzala Bamerindus" ao ver seu saldo na "conta/corrente"(p. 169).

Darcy Ribeiro nos afirma, em uma de suas obras mais recentes", que "a democracia racial é possível, mas só é praticável conjuntamente com a democracia social" e que "... à opressão do negro condenado à dignidade de lutador da liberdade, corresponde o opróbrio do branco posto no papel de opressor dentro de sua própria sociedade."(p.227). E é esse Brasil sem democracia social que Elisa Lucinda denuncia em "Apetite sem esperança"(p.172-173), em que "A fome gera a cilada de uma pátria de não irmãos"(p. I 73).

Como artista orgulhosa de sua raça, Elisa Lucinda chora a morte de Grande Otelo em "Morre um Brasil", em que lamenta: "Foi-se embora minha alegria, meu preto lindo azul anil/meu ouviram do ipiranga mais sutil."(p. 175) No último verso, faz uma associação da imagem de Grande Otelo com o da própria-pátria, símbolo que era do Brasil e de suas contradições. Outra grande artista negra que homenageia é Zezé Motta, em "Um Brasil faz 50 anos". Coincidentemente, é ao Brasil que ela compara estes dois grandes artistas negros.

Em "Mulata exportação"(p.180-181), Elisa-poeta deixa transparecer toda sua indignação pela exploração sexual erótica do corpo da mulher negra e assim conclui seu poema. "Porque deixar de ser racista, meu amor,/não é comer uma mulata"(p. 181). Sua consciência da negritude e de sua liberdade comprada num mercado de escravos é explicitada em "Adoção"(p 184):

 

..há algum tempo sou minha

me adquiri num mercado

onde o escambo era da posse pela liberdade.

 

É a mesma consciência que a faz determinar seu destino futuro, em "Profecia"(193):

 

Um dia meu irmão te direi: Não te disse?:

E serei a negra mais feliz do Brasil

(...) Patroa e empregada

do meu próprio festim!

 

Elisa Lucinda carrega a mesma sina de Benedita Torreão da Sangria Desatada: ser a portadora da bandeira da liberdade, da luta contra as discriminações e as injustiças sociais. Uma, a personagem, usava as "garrafadas" de ervas para extinguir a escravidão. Outra, a atriz-poeta, usa a palavra poética para denunciar o mito da democracia racial brasileira e do perverso racismo que, não explicito, é muito mais difícil de combater.

 

NOTA

*RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.223

 

Referencias Bibliográficas

1. NOVAES, Maria S. de. Escravidão e Abolição no Espírito Santo, Vitória: Assembléia Legislativa do Espírito Santo. 1963, p. 23-26.

2. MACIEL, Cleber. Negros no Espírito Santo.Vitória: DEC/SPDC - UFES, 1994, p.25-26.

3. ALMADA, Vilma P. F. Escravismo e Transição. O Espírito Santo (1850-1888). Rio de Janeiro: Graal. 1984, p. 101 a 174.

4. id.ibid.

5. CLAUDIO, Afonso. Insurreição do Queimado. Episódio de História da Provinda do Espírito Santo. Vitória: FCAA, 1979, p. 86.

6. NEVES. Luiz G. S. Queimados. Documento Cênico. Vitória: 1977, p, 93-94.

7. Prefácio de Reinaldo Santos Neves in: SANTOS, João F. dos. Benedita Torreão da Sangria Desatada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Vitória: FCAA, 1983, 273 p.

8. PACHECO, Renato. Reino não conquistado. Vitória. FCAA, 1984.

9. NEVES. L. G. S. A nau decapitada. Nossolivro. Vitória: A GAZETA. UFES, PMV, 1994, p.24

10. NEVES, L. G. S. As chamas na missa. Rio de Janeiro: Philobiblion. 1986, p. 103.

11. SALETTO, Nara. Trabalhadores nacionais e imigrantes no mercado de trabalho do Espírito Santo. (1888-1930). Tese apresentada ao curso de Pós-Graduação em História, na UFF. 1994, p. 163.

12. Id., ibid.. p 205 a 214.

13. Apud. Elton, Elmo. Poetas do Espírito Santo. Vitória. FCAA/UFES/PMV, 1982. p. 74-77.

14. Apud Elton, Elmo. Op. Cit.

15. Citado em NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro, processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro Paz e Terra, 1978, p. 128.

16. Apud Elton, Elmo.Op. cit. p 174-175.

17. VILAÇA, Adilson. Albergue dos querubins, Vitória: SPDC-UFES, 1995.

18. FONSECA, Hermógenes L. Curubitos. Vitória: IHGES/PMV, 1992, p.18.

19. Poesias. Cad 6 Vitoria: CECUN, 1988. p.05

20. Id., Ibid.. p.06.

21. Id., ibid., p. 08.

22. Id., ibid.. p. 09

23. Informações coligidas no CECUN, Centro de Estudo da Cultura Negra-ES, através de seu representante, Luiz Carlos de Oliveira, ou nos Cadernos de Poesia editados por ele.

24. COUTINHO, José M. "O dinamismo social e o negro brasileiro” In: Seminário Internacional da escravidão (anais). Vitória: FCAA, 1992, p.15.

25. MACIEL, Cleber. Discriminação racial: o negro em Campinas. São Paulo, UNICAMP. 1985 (Dissertação de Mestrado)

_____________. Candomblé e Umbanda no Espírito Santo: Práticas culturais religiosas afro-capixabas. Vitória: DEC, 1992.

_____________. Negros no Espírito Santo. Vitória: DEC/SPDC/UFES, 1994.

26. COUTINHO, José M. Revolta de escravos no Brasil. Los Angeles: UCLA. 1971 (Dissertação de Mestrado)

_____________. Uma história da educação no Espírito Santo. Vitória; DEC/ SPDC/UFES, 1993.

27. OLIVEIRA, Balduino de. ZUMBALU. Balduino, El Africano. Vitória: DEC, 1989. Col. Prata da Casa, vol.2.

28. MOTT, Luiz. "Quilombismo antigay" . In: Folha de São Paulo. 21/05/95.

29. LYRA, Bernadette. "A margem não é o limite. O limite é a margem"

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