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Adeus a Teixeira Leite – Por Elmo Elton

Capa do 1º volume da Revista Vida Capichaba, que teve Teixeira Leite como redator desde sua fundação, em 1922.

Chega-me, logo cedinho, pelo telefone, a notícia da morte de Manoel Teixeira Leite, ocorrida hoje, 29 de outubro, às três horas da madrugada, após um período de prolongada enfermidade. Certamente que, em Vitória, poucos saberão, agora, quem foi esse jornalista e poeta, de vida inteiramente devotada ao exercício das letras, sobretudo durante o tempo em que residiu em nossa cidade, da qual se ausentou em 1941, rumo ao Rio de Janeiro, passando a morar, ali, no subúrbio de Cascadura, à rua Frei Antônio, nº 242, de onde só costumava sair a caminho do trabalho, na Cesmag, embora freqüentando, raramente, aos sábados, as reuniões da Federação das Academias de Letras do Brasil, com sede no antigo edifício do Jornal do Comércio, como representante da Academia Espírito-santense de Letras, de que era membro fundador. Ocupava, na AEL, a cadeira nº 18, patronímica de monsenhor Eurípides Calmon Nogueira da Gama Pedrinha, sendo o poeta, ao falecer, contando quase 95 anos de idade, o decano da mesma Academia.

Nascido em Prado, no sul da Bahia, a 6 de fevereiro de 1891, veio residir, quando tinha apenas dez anos, juntamente com os pais, em Vitória, aqui concluindo o curso primário e complementar na escola do saudoso professor Amâncio Pereira.

Já rapazola, foi trabalhar, como telegrafista, na cidade de Anchieta, cargo que abandonou após exercê-lo por mais de quinze anos. Publicava, a esse tempo, timidamente, crônicas e poemas em jornais do Estado, revelando-se bom autor, daí ter, ainda mocinho, seu nome citado na História da Literatura Espírito-santense de Afonso Cláudio, editada em 1912.

Sua vocação para as letras, diria melhor, para o jornalismo e a poesia, era inata, indiscutível, acentuava-se, de ano para ano, tanto assim que, um dia, sem medir conseqüências, abandona, de uma vez, a profissão que vinha exercendo, retornando a Vitória, onde começa a trabalhar no Diário da Manhã, então órgão líder e oficioso do Estado, tendo por companheiros Sezefredo Garcia de Rezende, Elpídio Pimentel e outros intelectuais de prestígio, inclusive Ciro Vieira da Cunha, aqui chegado mais tarde.

No Diário da Manhã (que deixou de circular, em 1938 em decorrência de incêndio em suas oficinas, totalmente destruídas), eis que logo se impõe, passa a ser assediado por muitos, mormente pelos escritores novos, quase todos poetas, aos quais estimula, deles publicando o que houvesse de melhor, ainda que essas produções carecessem, quase sempre, de reparos, corrigidas, o que não deixava de fazer com benevolência, mediante prévio consentimento desses jovens colaboradores, entre os quais figuravam Alvimar Silva, Abílio de Carvalho, Jair Amorim, Joaquim Ramos, Nilo Aparecida Pinto, Milton Amado e tantos outros. Esses moços literatos estimavam-no, tinham-no como mestre, e disso faziam alarde, nas redações, nos grêmios, nos cafés, onde se reunissem.

Redator da revista Vida Capichaba, desde sua fundação, em 1922, ali fazia de tudo, escrevendo desde o artigo de abertura a matérias secundárias, também versos, crônicas, registros de acontecimentos sociais, recreativos e até religiosos da cidade, textos humorísticos, ilustrando, com quadras facetas, caricaturas e charges assinadas por Paulo Fundão, Ozéas Leão, Quintino Barbosa e outros.

Trabalhava, também, na Imprensa Oficial, em A Gazeta e A Tribuna, destacando-se, sempre, não só pela excelência de suas colaborações, fosse em prosa ou verso, mas, ainda, pelo cavalheirismo, pela sinceridade com que tratava os colegas.

Em 1932 publicou Plenilúnios, em segunda edição, livro de poemas, com 255 páginas, elogiosamente recebido pela imprensa local, amigos e admiradores. Já o Modernismo, a essa época, vinha se impondo, aqui e ali, com nomes de inegável prestígio a comandá-lo, todos alardeando a necessidade de dar-se à poesia nova roupagem, novo colorido nativista, enfim, outro caminho, sendo que, no Espírito Santo, os poetas permaneciam neo-parnasianos por opção, apenas Haydée Nicolussi e Achilles Vivacqua assinando produções de metro livre, sem preocupação de rimas obrigatórias, a linguagem mais solta e comunicativa, assim engajados aos que ora seguiam os postulados da Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo, em 1922.

Teixeira Leite, contudo, não deu qualquer importância ao movimento, a essa nova trilha da poesia, manteve-se passadista, fazendo o que sabia fazer, consciente do mérito de sua arte, apegando-se, ainda mais, aos modelos clássicos, como bem o comprova este soneto, inserido naquele volume:

 

SONHO DE MADALENA

 

A flava coma sobre o alvo seio empinado,

como réstia de sol em um floco de espuma,

na alcova morna e calma onde a mirra perfuma,

dorme a flor de Betânia o sono do pecado.

 

Pálido, frio o olhar, dentre dourada bruma,

surge, vestes de luz, o vulto esquivo e amado.

Madalena palpita e vendo-o triste, ao lado,

rindo, as formas pagãs desnuda de uma em uma...

 

Sobre sedas de Gaza, esplêndida, coleia.

E ao luar que ali penetra ela parece, nua,

uma aranha de neve em luminosa teia.

 

Ergue os braços buscando alguém que foge... Nisto,

os olhos abre e vê que pelo céu flutua,

como um lírio de Israel, a alma branca de Cristo.

 

Amava o Espírito Santo, onde constituiu família, aqui nasceram seus oito filhos, dizia-se baiano apenas para efeitos civis, mas capixaba de coração e espírito.

De que era um ardente apaixonado desta terra di-lo o soneto seguinte, de acabamento lapidar, embora aos leitores de hoje possa parecer até demasiadamente pretencioso, visto a técnica dos versos e o preciosismo da linguagem:

 

EXORTAÇÃO

Musa, da Hélade esquece os deuses brutos,

as sílfides sensuais, os falsos gnomos,

as dríades, os sátiros hirsutos

e as florestas do Pindo, de áureos pomos.

 

Bosques sagrados, plácidos redutos

sob vides em flor e cinamomos,

deixa-os e traça poemas impolutos

para a glória da terra de onde somos.

 

Vive por estes céus, selvas e mares,

tostada assim da tropical soalheira

e vestida do branco-azul dos luares.

 

E no estro com que o amor e a vida gabas,

canta somente a terra brasileira,

no esplendor destas glebas capixabas.

 

Escritor de produção copiosa, fartamente divulgada, ainda que, na velhice, já não fizesse o menor empenho em publicar o que então ia assinando, deixou inéditos os seguintes títulos: Serenatas, versos, Praias e selvas, contos regionais, Ao léu da vida, crônicas, e Plumas & Farpas, versos humorísticos, com o pseudônimo João Boêmio.

Manoel Teixeira Leite teve vida longa, proveitosa, morreu pobre, é verdade, ele que teve oportunidade de até enriquecer, mas morreu feliz, muito feliz, sempre arrodeado da esposa, dos filhos, de netos e bisnetos, que viam nele não apenas o patriarca, o chefe, mas o amigo insuperável de todos os dias, num lar onde a poesia fazia o enlevo das horas e onde o amor humanizava e aquecia tudo.

 

Fonte: Velhos Templos de Vitória & Outros temas capixabas, Conselho Estadual de Cultura – Vitória, 1987

Autor: Elmo Elton

Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2017

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