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Afonso Cláudio - Por Ciro Vieira da Cunha em 1959

Capa do Livro Patronos e Acadêmicos da ALES, 2014

Afonso Cláudio

Nunca, mais do que nos dia que correm, tivemos tanta necessidade de reviver aos olhos dos moços figuras que, no passado, se fizeram grandes nas tarefas a que se dedicaram e nos exemplos que deixaram. Atravessamos uma época em que os jornais quase que só recebem lições de egoísmo feroz, de inutilidade de qualquer esforço honesto e, sobretudo, do triste e revoltante cinismo. E, melancolicamente, é o que se vê por aí em todos os setores. Uma paisagem de fim de mundo num clima de fim de raça. A probidade passou a ser tida como burrice e a safadeza ganhou o título de golpe de inteligência.

O que exigia cadeia dá direito a manifestações e o que levava o homem a ocultar o rosto e a perder o sono já agora o convida a aparecer na televisão e a dormir tranquilamente como se tivesse assistido um enfermo, evitado um desastre ou enxugado uma lágrima. Fala-se em Vitória da mediocridade. Mas, bem examinadas as coisas, o que se vê é o domínio arrasante da inteligência transviada. E é num mundo assim que os jovens entram a viver. Certo que hão de buscar um modelo para suas atitudes e um roteiro para seus sonhos. E porque ninguém escolhe modelos senão entre os vitoriosos, lá se vão os moços nas trilhas tortuosas dos que recebem todas as homenagens, dos que se encontram montados nos melhores postos, dos que dão as cartas em todos os setores, dos que são ouvidos por todos os repórteres... Tristes modelos para os que ainda de coração puro desejam triunfar. São impressionantes as estátuas. Mas de que são feitos os pedestais? Se são assim, quase na totalidade, os exemplos que por aí se mostram, há de ser tida como alta benemerência, como obra de salvação pública, a iniciativa de oferecer aos nosso rapazes a história de vidas marcadas pelo trabalho honesto e orientadas no sentido de alevantado ideal. Daí a satisfação com que, das mãos amigas de Mário Aristides Freire, recebi o volume que, sobre a figura ilustre de Afonso Cláudio, acaba de publicar a senhora Judith Freitas de Almeida Mello. Livros desse gênero é que precisam ser postos aos olhos de nossa mocidade. Na vida do grande espírito-santense, que andou pela política, pela administração pública, pela magistratura e pelo magistério, existe, em todos os passos, a preocupação de servir com dedicação, bravura e dignidade, no cumprimento constante do dever, numa mensagem de confiança, de entusiasmo e de fé. Diz à biógrafa que Afonso Cláudio "nunca renunciou obter o que legitimamente desejou" e que "sua força de vontade crescia com as dificuldades que se lhe deparavam", para concluir: "E obteve tudo quanto quis. Foi um forte e pode dizer-se que venceu na vida". Não se pense que se fala o amor filial, pois isto é sim o espírito de justiça que do eminente pai herdou a autora do valioso volume. Se vencer na vida é atingir o ideal desejado de distribuir o bem, por estradas retas, através de atitudes, atos e obras, Afonso Cláudio tem que ser incluído entre os que nela venceram com brilho e sobranceria. Ficou, assim, como um exemplo. E o seu exemplo precisa ser apontado à mocidade dos nossos dias, para que ela se aperceba do sentido de beleza e de amor que se deve entregar à vida. Os que, roídos pela ambição e pelo egoísmo, às vezes atingem as alturas, por ensombrados atalhos, da posteridade só terão o silêncio ou a conde-nação. Bem diversa a sorte dos que, como Afonso Cláudio, sabem fazer de todas as horas um motivo de oração ao trabalho, à justiça à bondade. Desses guardará o tempo — juiz sem falsia, na expressão de Rui — eterna e reverenciosa memória. Faz hoje cem anos que nasceu Afonso Cláudio. E sua vida continua sendo uma lição. Luminosa lição que acabo de recordar nas páginas do belo livro da senhora Judith Freitas de Almeida Mello, a quem cumprimento respeitosamente, agradecendo a Mário Aristides Freire as boas horas que me proporcionou, permitindo-me viver num tempo em que os homens pouco se pareciam com os triunfadores de hoje.

(A GAZETA 02/08/1959)

 

Fonte: Sesquicentenário do nascimento de Afonso Cláudio (1859-2009) - Revista da Academia Espírito-Santense de Letras
Autor do Texto: Ciro Vieira da Cunha, cadeira nº 25 da AEL.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

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