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Ainda há sol, ainda há mar - Por Rubem Braga

Rubem Braga - Foto Gildo Loyola, arquivo de A GAZETA (modificada)

Soube, neste fim de ano, com tristeza, que você está doente. E, nesta manhã de sol claro e ondas fortes, tenho quase remorso em me sentir sólido e sadio diante do mar azul e pensar em você, em um escuro apartamento dessa Paris friorenta.

Não me lembro dessa rua em que você agora está morando, mas imagino uma ruazinha estreita do Quartier Latin, com um ou dois bistrôs, um açougue em que a carne de vaca é enfeitada com rosas de papel, uma loja de antiguidades, uma pequena livraria, uma venda de vinho e carvão, um hotel povoado de bolsistas africanos e estudantes suecos.

Imagino uma entrada escura, uma “concierge” de cabelos brancos presos no alto da cabeça, um pequeno elevador de duas portas oscilante que sobre, com um gemido quase humano, até um corredor triste e, dentro do apartamento, você com um capote preto, meio pálida, uma descuidada mecha de cabelos caindo pela testa. E quase ouço a sua voz grave me convidando a sentar, tomar um copo de vinho, “bouffer” alguma coisa. Nevou pela manhã. Agora, neste começo de tarde, a rua é nervosa e triste, com gente apressada nas calçadas estreitas e um ou outro táxi roncando e fazendo espirrar a lama. O dia é curto, já se faz escuro, está um pouco menos frio, mas tudo muito úmido. E você estará triste, desanimada, na cama, olhando o papel de parede como se nele quisesse descobrir as linhas de seu futuro, neste dezembro vazio e ruim de sua vida.

Não sei que lembrança você terá deste vago brasileiro, mas tenho a ilusão de pensar que lhe fará bem saber que muito, muito longe, além do mar, há um homem que esta manhã, na praia de espumas brilhantes, pensou em você, e pensou com ternura, e lembrou com saudade o seu riso claro e sua mecha de cabelos castanhos. Este homem é inútil e não pode lhe mandar nem um pouco deste sol para aquecer seu corpo nem um pouco deste vento sadio e limpo do mar para lavar o seu pulmão que respira esse ar confinado que o “chauffage” resseca, e a fumaça do cigarro vicia.

Mas guarde esta notícia, minha amiga: o mundo não é tão escuro e frio como lhe parece nesse momento; fique bem quieta e paciente, num canto da cama, vendo televisão ou ouvindo música e sabendo que logo haverá, também para você, dias de sol, cálidos e alegres, com espuma brilhando.

Foi este ano centenário de tantas coisas, cheio de peripécias no jogo das nações deste mundo. Em todas as lutas e episódios do Ocidente e Oriente soprou um espírito tão antigo, quanto novo, de liberdade. Ele muitas vezes terá feito balançar também algo no íntimo das pessoas. Agora fique quieta aí, agasalhada no seu canto. Mas, se você se erguer da cama e chegar lentamente até a janela para ver lá fora, pela vidraça embaçada, a rua escura e suja, e voltar ainda mais triste para a cama, pensa nesta notícia à toa que eu lhe mando, e é tudo que eu lhe posso mandar: ainda há sol, ainda há mar e o vento do mar.

 

Dezembro, 1999 (um ano antes da morte do cronista). Publicado no livro “Um Cartão de Paris”
Republicação: Jornal A GAZETA, Caderno Pensar de 05/01/2013
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 

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