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Ano de 1558 ainda – Por Basílio Daemon

Idem. Tendo Vasco Fernandes Coutinho escrito ao governador geral do Brasil a 22 de maio deste ano pedindo-lhe auxílio, por mais não poder lutar nem resistir só aos indígenas e ainda por estar muito cansado e sem forças para sustentar estas guerras contínuas, que o faziam de todo desanimar,(68) Mem de Sá, que já se achava na Bahia, por ter sido nomeado governador geral do Estado do Brasil a 23 de junho de 1556, conforme o registro feito na Bahia em 1558, ano em que o mesmo tomara posse do governo, resolve enviar socorros à capitania do Espírito Santo, visto ainda saber que com efeito se achavam revoltados os índios, tendo causado não poucas mortes e prejuízos e pelo que deliberou mandar seu próprio filho Fernão de Sá com auxílios aos moradores desta capitania, realizando este pensamento na vinda de uma esquadrilha composta de pequenas embarcações com tropa e munições e sob o comando do mesmo Fernão de Sá, o qual desembarcou à margem do rio Cricaré, hoje São Mateus, unindo-se logo às forças que o donatário Vasco Coutinho enviara a auxiliar as de Mem de Sá. Assim preparados caíram de chofre e atacaram os indígenas, matando muitos e até cometendo barbaridades, vencendo-os, pois, neste primeiro encontro, que tinha sido à margem do mesmo rio, mas tendo também perdido muita gente.(69) Descansados um pouco a refazerem-se para novamente atacá-los, é quando os índios, desesperados, unem-se novamente e atacam inesperadamente as forças comandadas por Fernão de Sá e com tal ímpeto que os pôs em debandada derrotando-os completamente, morrendo grande número de combatentes e entre os mortos contando-se o próprio Fernão de Sá, que sucumbira vítima de uma flecha envenenada, que o ferira mortalmente, devido a ter-se afoitado temerariamente indo atacar os índios quando deveria antes contê-los. Sucedeu-lhe no comando Diogo de Moura que ainda lutou e combateu por alguns meses, auxiliado por novos combatentes;(70) podendo vencê-los recolheu-se em seguida a esta hoje capital, onde ficou ao abrigo de novos ataques e mais reforçado para eles, participando ao governador Mem de Sá do que ocorrera não só aqui, como do que se dava no Rio de Janeiro com os franceses.

Idem. Em fins deste ano escreve Mem de Sá à rainha D. Catarina, então regente na minoridade de el-rei D. Sebastião, comunicando terem-se submetido os índios desta capitania, mas tendo perdido um filho e ficado com o comando da tropa Diogo de Moura que acabava de derrotá-los, lembrando a conveniência a que se criasse na capitania do Espírito Santo uma outra cidade real como a da Bahia, do que depois desistiu para fundá-la no Rio de Janeiro.

 

 Notas

68 Carta de Vasco Coutinho ao governador geral do Brasil de Ilhéus, em 22 de maio de 1558, na qual o donatário se diz “doente e aleijado...”, e mais adiante informa “da terra como fica nosso senhor seja louvado despejada dos inimigos e em termos melhores do que nunca esteve [...] para paz e sossego da gente [...] porque dos índios já fica segura louvores Deus e a terra despovoada deles peço a V.S. que me proveja com justiça de algumas desordens que lá há entre nós e que os moradores têm contra mim por onde se tem causado muitos ódios e muitos desmandos...”

69 “Mem de Sá enviou uma expedição chefiada por seu filho, Fernão, com cerca de 200 homens, entre brancos e índios, em 6 navios. Ao invés de se dirigirem a Vitória, entraram pelo rio Cricaré, e atacaram umas fortificações nas quais havia grande quantidade de índios, matando e, sobretudo, aprisionando grande número deles. [Saletto, Donatários, Colonos, p. 88]

70 Freire, Capitania, p. 72 

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autor: Basílio Carvalho Daemon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2019

 

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