Morro do Moreno: Desde 1535
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As maravilhas da Penha – Por Joaquim José Gomes da Silva Neto

A imagem de Nossa Senhora da Penha, encomendada por Frei Pedro Palácios em Portugal e inaugurada em 1570

"Joaquim José Gomes da Silva Neto nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 4 de fevereiro de 1838. Desde 1838 até 1882, residiu no Espírito Santo, onde constituiu família, exercendo no Fôro o mister de advogado provisionado e no funcionalismo público, os de inspetor geral da instrução pública e procurador fiscal da Fazenda Provincial.

Dos cargos de eleição, entre outros exerceu o de deputado provincial, na legislatura de 1874-1875.

De quanto publicou nos jornais que circulavam na antiga província espírito-santense e que mais tarde reproduziu em brochuras, sobreviveram-lhe à memória, os seguintes trabalhos: Chronica da Companhia de Jesus (chegada dos jesuítas à Capitania e seus feitos até a data da expulsão). Rio, 1880, edição de Nicolau Alves. As Maravilhas da Penha ou Lendas e História da Santa e do virtuoso Frei Pedro Palácios, Rio, 1888, edição da Imprensa Nacional.

Gomes Neto faleceu na Capital Federal, em 5 de setembro de 1903" (Tópicos tirados ao livro de Afonso Cláudio — "História da Literatura Espírito-Santense, Porto, Oficinas do "Comércio do Porto", 1912, pgs. 161/62 e 176).

J.J. Gomes da Silva Neto

A seguir reproduzimos alguns capítulos selecionados de "As Maravilhas da Penha" obra impressa em 1888. O autor, na qualidade de síndico dos Franciscanos do Espírito Santo, descreve com muito carinho a atividade apostólica de Frei Pedro Palácios e a história da Penha através de três séculos.

Introdução

Do mar, do litoral, de várias planuras do continente, e de alguns pontos mais altos a margem de uns tantos rios da capital, no perímetro de cinco milhas pouco mais ou menos, no píncaro da rocha deixada ali pela natureza, como de propósito, para servir de peanha sobre a montanha vizinha do Moreno, o navegante, ou viandante vislumbra uma pequena mancha alvacenta, como flocos de neve, destacando-se da imensa cúpula anilada, e semelhando um toucado.

À proporção da distância aproximativa vão delineando-se as formas de um edifício retangular flanqueado por muralhas ou plataformas de castelo da idade média. Perto não se duvida mais do que é: pois o zimbório e o campanário, distintivos dos templos católicos, determinam a espécie do edifício. Em uma palavra é a igreja da Penha da província do Espírito Santo tendo o frontispício ao sul com o competente alpendre envidraçado para deter a ousadia dos ventos. Acima de tudo está o santuário da Virgem Santíssima sob a invocação de Senhora da Penha, consagrado pelos minguados colonos e habitantes da antiga capitania já decadente, e pelos numerosos romeiros das donatarias limítrofes — Paraíba do Sul, Minas Gerais, e Bahia. . . e abaixo o conventinho dos religiosos franciscanos da província da Imaculada Conceição no Brasil. São os atestados vivos da pujança da fé nos tempos da educação religiosa, e do esforço humano...

Naquele cume, ora ocupado pelas construções, nesse pináculo, em que hoje pompea o sacro monumento, em um tempo já apagado da memória dos homens, vicejaram duas palmeiras, únicos specimens da família, expostas de dia e de noite ao ar violentamente agitado pelas asas da ventania, tremendo como o caniço dos brejos; mas, não cedendo o lugar, que só devia pertencer a um altar. Foi debaixo delas que o mais humilde dos frades menores Frei Pedro Palácios plantou a semente, de que teria de nascer a árvore, que havia de viçar, e florescer sob a luz e o calor da devoção...

1. Os Religiosos Franciscanos

Tivera a providência preparado nas costas desconhecidas do Oceano Atlântico dois vastíssimos continentes ignorados por muitos séculos; o do norte habitado em parte por povos civilizados antiqüíssimos, ainda que de incerta procedência; o do sul por gente barbarizada talvez da mesma origem daqueles: terras ubérrimas em grande parte virgens de toda a cultura, convidando a imigração das sobras das populações européias. Os portugueses senhoreavam o Brasil... Era preciso que em um país tão vivaz, rico, e palpitante de encantos, enfim tão luxuosamente realçado pela natureza desde os imensos vales do Amazonas e do Prata até as alterosas serras dos Andes fosse ouvida a voz dos levitas proclamando as sublimes verdades Evangélicas.

Fora Frei Henrique de Coimbra o predestinado a celebrar nesta terra virgem de emoções santas a primeira missa, que deveria ter encantado os indígenas necessitados de espetáculos solenes!

Assim foi ele com seus sete companheiros, religiosos franciscanos menores, que erguera a primeira cruz nas plagas americanas chamadas a terra de Santa Cruz...

Quando em 1558 aportou à capitania do Espírito Santo Frei Pedro Palácios, leigo da mesma religião, já aqui existia desde 1551 o padre Afonso Braz da Companhia de Jesus com outro dos enviados para a Bahia no ano anterior...

Passados 19 anos do falecimento deste primeiro missionário franciscano na capitania de Vasco Fernandes Coutinho, foram para aqui despachados os dois religiosos Frei Antônio dos Mártires e Frei Antônio das Chagas...

Bem considerada em Portugal por causa da fiel observância das regras canônicas, e sobretudo amada pelo povo em consideração dos estudos científicos, que nos seus mosteiros estes frades franqueavam aos filhos dos pobres como colegiais externos, esta ordem pacífica e útil era geralmente acolhida e respeitada, em qualquer parte.

Os seus cenóbios eram como hospícios em que a pobreza desvalida, angustiada e enferma ia receber socorro, consolações e remédio.

Era o tempo das dedicações devotas, das emulações descomunais, em que estes regulares esmeravam-se em sobressair na comunidade já por sua sabedoria, já pela piedade.

Não houve claustro, em que não se apontassem muitas celas gloriando-se de possuírem religiosos de vida exemplaríssima.

Ora, uma classe recomendada por tão justos títulos, necessariamente devia ser quase venerada apesar da vulgaridade dos bons exemplos, e da plenitude dos afamados como santos ou virtuosos (1).

Não houve donatário, exceto o primeiro Vasco Coutinho, que não requisitasse do padre Custódio de Santo Antônio a expedição de frades para as missões, e fundações de igrejas e casas conventuais nas suas capitanias.

As câmaras municipais doavam os terrenos para a fundação das igrejas e recolhimento dos frades, e os devotos os meios para as respectivas construções nas nascentes povoações. Por este apoio geral os religiosos franciscanos menores puderam exibir no Brasil os certificados da sua atividade, economia e experiência, como são os templos, e as casas conventuais edificadas em todos os pontos por onde transitaram.

Parece fabuloso que uma corporação, reconhecidamente pobre, unicamente com as esmolas e donativos dos fiéis em pouco mais de um século, isto é, 123 anos, tivesse conseguido a realização de tantas obras dispendiosas — Treze conventos com as respectivas igrejas além dos fundados ao norte de Porto Seguro, sem contarem-se as capelas e aldeias (2).

Acrescente-se ao custo dos materiais do país o preço elevado de certas matérias-primas mais delicadas de ornamentações, segundo as exigências arquitetônicas, importadas da Europa; a difícil condução para lugares distantes dos portos, e daí para cima para sítios às vezes escabrosos, ou quase inacessíveis, como o da Penha; e confessar-se-á que eles sem outros recursos que os da liberalidade dos devotos tinham o segredo de executar as obras que intentavam, e de sustentar com decência, e às vezes com certa pompa o culto de seu patriarca e da Virgem sob diferentes invocações...

A verdade é que eles apesar da pobreza da sua ordem mostram muitas igrejas, algumas suntuosas, como as da Bahia e do Rio de Janeiro, etc., e vários conventos magníficos, como os desta cidade e de outras, devidos à habilidade, ao esforço e à dedicação dos religiosos franciscanos, principalmente a sacristia da igreja de Santo Antônio da Corte, a mais rica em gosto, primores das obras de arte, e outros objetos dignos de admiração, de todas as conhecidas no Brasil, e talvez mesmo na Europa.

2. A Imagem da Senhora da Penha

O precioso e antigo painel fora colocado no altar daquela ermida até chegar de Lisboa a Imagem, que ainda existe no retábulo da igreja da Penha.

É um primor de escultura!

Tem de altura 76 centímetros. O porte é de uma nobreza, graça e naturalidade inimitáveis. A expressão é de uma doce melancolia.

Em qualquer ponto da capela mor, em que o espectador se coloque, parece atraí-lo o temo olhar da Santa, que assim corre as vistas por todo o recinto, como a mãe afetuosa em busca dos filhos. Por efeito da interpretação ilusória e da sugestão artística, que se impõe ao espírito, como nas pinturas, os olhos da imagem procuram sempre os do espectador.

Passa por certo que todas as vezes que qualquer sacerdote celebra missa no seu altar, encarando esta imagem, sente como uma chispa elétrica incendiar-lhe a alma! Outro caso da interpretação ilusória.

O nome do inspirado escultor nunca pôde ser descoberto!

É um mistério igual ao do oferecimento.

Segundo reza a lenda, Frei Pedro Palácios encomendara a um amigo residente em Lisboa a troca de uma imagem da Senhora da Penha do vulto e adorno indicado na carta, ou representado em rascunho. O amigo esquecera-se de encarregar a um imaginário de fazer a sacra figura a fim de ser remetida no navio procedente desta capitania em 1569, e que brevemente teria de regressar.

De maneira que, quando não havia mais tempo de ser prontificada para ser enviada nessa ocasião, foi que o negociante lisboeta recordou-se do conteúdo da carta, pesaroso de não poder remediar o esquecimento. Na véspera, porém, da viagem do dito navio, apresentou-se-lhe um indivíduo desconhecido com a imagem dizendo-lhe ser a que tivera ordem de fazer, e entregar, a qual correspondia exata e admiravelmente à medida e mais circunstâncias da encomenda!

Não são raros os exemplos destes oferecimentos inesperados. São mistérios, que os devotos não procuram penetrar satisfazendo-se em ir transmitindo à tradição de geração em geração...

3. A Capela da Senhora da Penha

O tosco delineamento daquela ermida, aquele rudimento da melindrosa flor da devoção, que desenvolvendo-se havia de inebriar com o seu perfume as almas piedosas, ia começar a ser realçado nos nobres e delicados traços da capela antecessora da igreja atual.

Enquanto o poder competente não provia, no caso urgente, à guarda e à conservação do sagrado depósito, Nicolau Afonso, um dos mais prestantes devotos acudiu ao desamparo, em que de certo ficaria a capelinha pela ausência eterna do seu fundador.

Por algumas vezes, Frei Pedro Palácios rogara a este amigo que tomasse a administração da ermida certo de que ele a aumentaria; mas Nicolau Afonso sempre recusara-se dizendo que só o faria no caso da falta absoluta do seu instituidor. Tendo compreendido o sentido daquela instância, fazendo às vezes de testamenteiro espiritual, projetou acrescentar o legado.

A lama dos milagres da Senhora da Penha, que a fé fazia circular no mundo católico, e da perfeição da imagem atraíam romeiros e curiosos de muito longe.

Na ocasião da festa, a afluência fora tal, que grande parte dos fiéis tinha ficado sem entrar, por não caberem todos ao mesmo tempo dentro da capelinha. Era pois urgente o melhoramento em ambos os sentidos ampliativo e decorativo correspondentes ao crescimento da romaria, e da ansiedade pública.

Portanto, o novo zelador, casada a vontade com suas posses, imediatamente tratou de engrandecer o santuário da Virgem aproveitando o lado da frente, único que oferecia espaço plano.

De maneira que, dentro em pouco tempo, no lugar da singela ermida uma primorosa capela com seu bem ornado frontispício, e competente, torrinha fazia-se admirar pelos numerosos peregrinos.

Nesta obra foram seus principais coadjutores Amador Gomes, André Gomes e Braz Pires, além dos irmãos da Confraria e dos devotos de fora da capitania, os quais, quando não podiam trazer ofertas avultadas, vinham de propósito trabalhar pelos seus ofícios. Assim, aquele generoso protetor e depositário entregou a seus sucessores, os religiosos franciscanos, o legado consideravelmente melhorado.

Os habitantes não se esqueciam do muito que deviam ao venerável servo de Deus, ao mediador da conversão dos ex-colonos de Coutinho, e, por conseguinte da concórdia e da paz reinantes na capitania; por isso, seriam capazes de maiores demonstrações para perpetuar o dom do seu benfeitor.

Desta prova de gratidão conclui-se quanto tinha mudado de condição o pessoal da extinta colônia do primeiro Vasco Fernandes Coutinho.

4. Os sucessores de Frei Pedro

... O custódio Frei Melchior de Santa Catarina, de quem fizemos menção na nota no. 1 como falecido em santidade, dos poucos frades existentes em Olinda escolheu e enviou Frei Antônio dos Mártires (outro incluído na dita nota) acompanhado por Frei Antônio das Chagas os quais tendo partido em fins de 1589 aqui chegaram em novembro do mesmo ano, ou segundo outro cronista em janeiro do seguinte, quando já tinha falecido o donatário.

Em conseqüência deste fato, e sem dúvida pela necessidade de mais amplas instruções, ou de um novo mandato, este religioso foi obrigado a regressar a Pernambuco.

Voltou em 1591 investido da prelazia do futuro recolhimento...

Governava então a Capitania a viúva de Coutinho D. Luiza Grinaldi assessorada pelo capitão das ordenanças Miguel de Azeredo nomeado seu adjunto.

Não somente estes como também o povo das duas vilas deram as mais significativas provas de afeto e de reverência ao dito comissário.

As câmaras reunidas do Espírito Santo e Vitória desde o princípio tinham a intenção de doar o monte da Penha com sua capelinha aos religiosos menores capuchos, a que pertencera o fundador da primitiva ermida, e só aguardavam o levantamento da casa conventual de S. Francisco para legalizar a doação, por instrumento público...

Frei Antônio dos Mártires, o condigno sucessor de Frei Pedro Palácios, ao mesmo tempo que fazia as vezes deste no monte da Penha, na Vitória não se descuidava da sua comissão.

O que deve admirar é que nesse tempo um frade virtuoso era sempre substituído por outro igual nessa cadeia de santidade, cujos elos alcançaram medida de extensão que só foi interrompida em fins do século dezoito.

5. Trasladação dos ossos de Frei Pedro Palácios

Desde os primeiros tempos do catolicismo é uso transferir-se para lugar seguro e reservado as relíquias dos mártires e dos finados com a fama de santidade, para conservá-las com maior honra e veneração de sua memória.

Segundo o pregão geral Frei Pedro Palácios vivera e morreu com este cheiro.

Os restos mortais jaziam naquela sepultura da Penha, em sítio ermo, expostos aos esgares da necessidade. Era justo que fossem removidos para um recinto recatado, e mais freqüentado, a fim de serem vistos todos os dias, sendo certo que é mais perdurável a lembrança do objeto, que diariamente vemos, do que a da notícia, que nos vem só pelos ouvidos.

As ações do benemérito Servo de Deus tinham sido apreciadas pelos seus contemporâneos: convinha que os seus restos fossem bem conservados para lembrar aos vindouros o nome daquele, cujo exercício quotidiano consistira em louvar a Deus e orar pelos pecadores.

Eis a razão por que depois de 139 anos do seu falecimento o prelado maior Frei Leonardo de Jesus, querendo que ficassem mais patentes na igreja de S. Francisco da Vitória, por ser maior aqui o concurso diário dos homens religiosos, ordenara ao guardião do convento da mesma ordem, Frei Antonio da Estrela, a trasladação destas relíquias para lugar conveniente na dita igreja, recomendando todo o possível aparato e dignidade dos atos da exumação, transferência e encerramento.

Efetivamente aos 18 de fevereiro de 1609 praticou-se o desenterramento.

Foi dito por alguém que a massa cerebral foi achada incorruta e perfeito o esqueleto com um resto do hábito e do cordão.

A verdade é que só uma parte dos ossos pôde ser depositada na capela mor da igreja de S. Francisco do lado da epístola a três metros pouco mais ou menos de altura na parede em um nicho cercado de florões em relevo, tapado por uma tábua de palmo e meio de comprimento e de mais de palmo de largura.

Há tradição de que antigamente a peça, que fechava o nicho, era de mármore preto, tendo uma letras. Pode ser que por estar caiada pareça madeira.

Não a examinamos por ser de pouco interesse para a história.

Não se executou a ordem do prelado sem a oposição dos embargos dos habitantes da Vila Velha. Articularam que estas relíquias lhes pertenciam. Que Frei Pedro Palácios viera de propósito da Espanha para Portugal, e deste reino para a vila do Espírito Santo, então capital da capitania, para introduzir a devoção da Senhora da Penha. Que em vida não tendo-se mudado para a vila nova; e deixando bem patente a sua última vontade de ser sepultado junto daquela ermida pela cova aberta por suas próprias mãos, era injustiça privarem os fiéis da consolação de terem perto de si os restos do amigo e do santo dos seus antepassados. Enfim reforçaram a sua resistência com a alegação do receio de que arrefecesse a devoção da Santa pela ausência das relíquias do seu primeiro zelador.

Todavia, cederam às rogativas e às considerações do referido guardião, o qual cortara as últimas objeções distribuindo por eles alguns ossos por prêmio de tanto afeto e piedade. Se tivessem sido atendidos todos os pedidos, nada teria ficado para ser trasladado!

No conceito destes homens simples não houvera outro meio de manifestarem a sua gratidão pelos benefícios resultantes da vinda de Frei Pedro Palácios.

Não tinha sido pouco o de tornar religiosos os habitantes da vila do Espírito Santo...

No mesmo dia, efetuou-se a trasladação e o recolhimento dos ossos do venerável Servo de Deus.

Estas relíquias tinham sido depositadas em uma urna de madeira posta sobre uma padiola, que foi carregada por quatro religiosos franciscanos. Os levitas entoando o cântico dos mortos precediam às irmandades e confrarias; depois destas, seguiam as pessoas mais notáveis das duas vilas, e no fim de todos a turba dos habitantes sem distinção...

Muitos enfermos saíram à rua para tocar na urna; tal era a fé que tinham, na cura por este meio.

Diz a lenda que bastava pegar-se em um osso de Frei Pedro Palácios para imediatamente sarar-se de qualquer moléstia, e principalmente das febres, contra as quais era tido como advogado (3).

6. Reforma do Santuário

... A progressiva concorrência dos romeiros reclamava um recinto maior; por isso os religiosos franciscanos resolveram elevar o templo à altura da celebridade da Virgem. Começaram por transformar aquela capela em capela mor, enquanto não edificavam-se as outras dependências.

Passados poucos anos, em 1637, por ordem do custódio Frei Sebastião do Espírito Santo, o guardião do convento de S. Francisco, Frei Paulo de Santo Antônio, levantou o corpo da igreja e a sacristia e mandou colocar azulejos na frontaria do templo. Aquela era constava de uma antiga inscrição acima da porta principal...

Com a luz da história temos patenteado os erros de alguns escritores de memórias e de outros impressos sobre a igreja e o convento da Penha, para que de hoje por diante não se diga que estas obras foram de Frei Pedro Palácios ou dos padres da companhia.

7. Convento da Penha

Um templo naquela altura, em lugar ermo, mas visitado quase diariamente, exigia a presença não somente de um zelador, como também de sacerdote, que satisfizesse os votos dos romeiros, que encomendavam missas, e desejavam ouvi-las para regressar a suas habitações em diferentes e remotas paragens, desde Porto Seguro até à capitania de S. Vicente. Alguns peregrinos eram obrigados a demorar-se na Vila Velha esperando o frade, que lá ia dizer missa, uma vez por semana.

Por esta razão, o mencionado prelado maior deliberara a edificação de um pequeno convento junto da igreja. Desconfiando que não pudesse realizar tão grandiosa obra unicamente com as ofertas e esmolas dos fiéis da capitania, enquanto firmavam-se as muralhas sobre as anfractuosidades do rochedo, na capital dos estados do Brasil dirigiu-se pessoalmente ao governador capitão general Salvador Corrêa de Sá e Benevides, e apresentando-lhe a planta do edifício pediu-lhe um auxilio pecuniário. O dito governador além de sua esmola efetiva, e a promessa da ordinária de 25 cabeças de gado vacum para os conventuais, assegurou-lhe o subsídio anual de cem mil réis pagos pelas rendas da capitania (4).

Foi tão manifesta a generosidade, e a piedade deste benfeitor, que por ordem dos antigos prelados da Bahia a comunidade rezava diariamente um responsório pelo defunto governador, além das preces acrescentadas em favor das almas dos seus descendentes, que liberalmente tinham elevado aquela ordinária a 30 rezes. O mesmo benfeitor e seus sucessores legítimos, por patente de 10 de setembro de 1653, tiveram o título de Padroeiros Venturosos deste santo lugar.

Pouco interessará ao leitor a certeza da época, em que foram começadas e concluídas estas duas grandes obras — a igreja e o recolhimento. Algumas pessoas afirmam que a pedra fundamental da primeira foi colocada em 3 de maio de 1644, e a conclusão efetuada em abril do ano seguinte, tendo sido trasladada a Imagem para o altar atual em 25 do mesmo mês. O que não sofre dúvida é que em 1637 a capela foi reformada, e em 1652 já tratava-se das primeiras obras do convento, a julgar-se pela data da escritura de Salvador Corrêa, a qual é desse ano.

Em 1664 o recolhimento estava concluído; porquanto nesse tempo foi visitado por Marfim Corrêa Vasques Armes, filho do precitado governa-dor geral, na viagem que o levava à Bahia, o qual para lembrança da sua passagem por esta capitania à ordinária acrescentou duas rezes por ano.

Examinando-se detidamente cada uma das peças componentes do edifício, sem muito esforço conhece-se que todas as obras não são contemporâneas. Cada prelado ia aumentando os cômodos à proporção que se faziam necessários, de tal sorte ligados à parte principal ou núcleo fundamental — a igreja — que à primeira vista parece uma fábrica inteiriça.

Ainda ficaram sem acabamento alguns alicerces denotando um plano mais vasto, que deixou de ser executado por motivos ignorados.

Não é só a idéia das dificuldades que ressaltará à mente do observador: ali estão patentes aos olhos investigadores frações das resistências físicas, além dos óbices ocasionais com que tiveram de arcar os infatigáveis obreiros; o que tudo pode ser imaginado à vista da parte da rocha não oculta debaixo das construções.

Há de parecer sobrenatural o impulso da vontade dos primeiros frades e dos devotos da Senhora da Penha!

Realmente é extraordinário que nesse tempo de pobreza e de escassez de trabalhadores nunca ali tivessem sido paralisadas ou suspensas as obras por falta de dinheiro e de operários, apesar das excessivas despesas com a aquisição e transporte dos materiais, mormente dos finos importados do estrangeiro.

A efetuação, pois, de uma planta tão gigantesca por uma comunidade carecedora de meios pecuniários pôde, sem hipérbole, ser prenotada como o maior prodígio da vontade e da atividade humana.

Esta glória cabe incontestavelmente aos religiosos franciscanos, e principalmente a Frei Sebastião do Espírito Santo, que primeiro cogitou em ornar o monte da Penha neste canto do Brasil com o mais admirável monumento do século XVII, da América portuguesa...

 

Notas

1. Uns frades faleceram com a reputação de santidade, como Frei Aleixo da Madre de Deus, Frei Antônio do Campo-Maior, Frei Cosme de S. Damião, Frei Francisco da Madre de Deus (vulgo o enfermeiro das contas brancas), Frei Melchior de Santa Catarina, Frei Antônio dos Mártires, e outros excedentes ao número de vinte, dos quais grande parte pertencia ao número dos leigos. Seria longo enumerar todos os religiosos franciscanos, que se elevaram às alturas celestes pelos degraus das virtudes desde a menor da devoção até à maior da caridade; e por isso pelo povo foram tidos como santos; e de outros conhecidos pelas suas excelentes qualidades, e como tais amados e respeitados pelos seus irmãos, e pelos vizinhos dos conventos.

2. O nosso objetivo não é a história de todas as obras dos frades franciscanos; por isso não descreveremos outras fundações ao norte de Porto Seguro as localidades, e a sua importância relativa.

Se o leitor exige mais provas da diligência, da energia, e da perseverança destes obreiros, poderá saciar a sede da sua curiosidade nas copiosas fontes — O Novo Orbe Seráfico Brasílico — de Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, — e no luminoso relatório de 20 de janeiro de 1872 apresentado ao ministro do império pelo prelado maior Frei João do Amor Divino Costa, tratando de todos os conventos, igrejas e capelas da província da Imaculada Conceição, fundados de 1591 por diante.

Entretanto, na falta de coisa mais completa alguns artigos deste volume talvez possam satisfazer os menos difíceis de contentar.

3. Na justificação dada em 1616 para iniciação do processo canônico todas as pessoas juramentadas depuseram contestemente que o corista Frei João dos Anjos sofrendo febres contínuas refratárias aos recursos médicos sarara instantaneamente pela aproximação de um dos ossos do santo Frei Pedro. O mesmo sucedera a Duarte de Albuquerque, João Gonçalves, à mulher de Lourenço Afonso, a uma filha menor deste, a Gomes Fernandes, e a outros.

Destes depoimentos o mais circunstanciado foi o de Frei João da Assunção, jurando de vista sobre estes fatos do tempo da sua prelazia no convento da Vitória e da sua assistência no do Rio de Janeiro. Foi aqui que ele presenciou a cura milagrosa de Gaspar da Cunha residente na dita cidade em casa de Baltasar de Seraz, o qual padecendo gravemente de febres malignas rebeldes à medicina, ficou livre delas, logo que lhe penduraram ao pescoço um fragmento de osso de Frei Pedro Palácios.

4. O bacharel Mizael Ferreira Pena, na sua História da província do Espírito Santo, referindo-se à opinião de um historiador, quis enxergar neste ato o propósito de sufocar-se o clamor da população sublevada nesta capitania pela criação dos primeiros impostos.

Em tudo quer se ver a política!

Pretender-se-á também que a liberdade da fazenda real subsidiando a Igreja da Penha com noventa mil réis anuais para guisamentos tivesse sido medida aconselhada pela diplomacia?

Se o precitado benfeitor, concedendo esse adjutório pela escritura pública de 17 de junho de 1652, não prometesse por sua parte socorrer o convento com a ordinária perpétua de 25 cabeças de gado vacum tiradas das suas fazendas de criação dos Campos Goitacazes, poder-se-ia crer que na ordem para a pensão ser paga da coleta quisera demonstrar a obrigação que o povo tinha de contribuir ainda que indiretamente para as obras da igreja, não para contentar o espírito dos habitantes das capitanias sublevadas contra os impostos. Isto além de absurdo é asneira. Em todos os tempos desde a maior antiguidade, o tributo nunca foi pago voluntariamente; pelo contrário por muitas vezes foi preciso usar-se de meios violentos para  obrigar os contribuintes, dispostos à revolta, à obediência às leis fiscais.

Nunca os governos cogitaram de punir os recalcitrantes comutando-lhes as penas corporais em contribuições para as igrejas ou em pensões para os santos.

Antigamente tanto os fidalgos como os peões animados pelo mais ardente zelo religiosos não se poupavam, nem a sua bolsa, quando era ocasião de erigir uma igreja, ou fundar qualquer estabelecimento pio; do que temos exemplos nos edifícios magníficos e custosos desta capitania, e de outras, algumas ainda existentes.

 

Fonte: Antologia do Convento da Penha, ano 1974
Autor: Frei Venâncio Willeke O. F. M.
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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