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Baixo de Pargos

Atlas de Miller e o Baixo de Pargos

Nos mercados de Vitória é vendido um peixe de espécie a mais abundante, cujo tamanho médio regula a pouco mais de meio metro, alcançando o peso de cinco a oito quilos. De cor vermelha, com reflexos dourados e manchados de azuis, o pargo-olho-de-vidro, conforme é conhecido pelo vulgo, tem a carne branca e firme e constitui prato muito saboroso nas famosas muquecas capixabas, mormente se o cozido com pirão escaldado tem o acompanhamento de cajus.

Criou-se uma lenda, na velha província, que o pargo, encontrado no pesqueiro de quase toda a costa compreendida entre a capital do Estado e a barra do Itapemirim, morre de gula pelos cajus. Os macróbios diziam que, no tempo da safra da fruta, isto é, nos meses de outubro e novembro, os pargos deixam suas águas e procuram o litoral por onde vicejam cajueiros, para comerem os cajus, sendo, então, pescados com a facilidade com que se colhem as frutas maduras. Verdade é que eles se alimentam de crustáceos e moluscos, os quais conseguem arrancar e esmagar com os dentes tenazes. Para pescá-los, os maratimbas usam a pargueira: uma linha preparada com uma dúzia de anzóis.

No documento manuscrito: “Coisas Notáveis do Brasil”, do ano de 1590, informa o autor presumível, Padre Francisco Soares, haver apanhado muitos pargos da Capitania do Espírito Santo para baixo. Diz o jesuíta que em cinco anzóis que botava n’água, trazia logo cinco pargos de palmo e meio a dois palmos e que às vezes os trazia fisgados pela barriga e pelos olhos, tantos que eles eram.

O rico pesqueiro dos baixios espírito-santenses tornou-se muito conhecido desde antanho. Ele é assinalado nos velhos documentos em pergaminho, como ocorreu no mapa do “Atlas de Miller”, pertencente à Biblioteca Nacional de Paris, que o cartógrafo do Rei D. Manoel, de Portugal, deve ter desenhado, por volta do ano de 1519. No belo manuscrito ilustrado a cores, com índios extraindo o pau-brasil; arara; onças e até um dragão verde, na faixa da costa leste, vê-se assinalado o Baixo dos Pargos. Não obstante, sempre constituiu uma dificuldade para os donatários da demarcação desse lugar.

Pela carta de doação da Capitania de S. Tomé (mais tarde, Paraíba do Sul) o feudo de Pero de Góis devia medir trinta léguas de costa, começando onde terminava a de Martim Afonso de Souza, treze léguas do Cabo Frio e estendendo-se até os “Baixos de Pargos”.

Mas, os Baixos de Pargos corriam ao longo da costa – escreve o historiador Alberto Lamego – e não se podia fixar a sua exata extensão. Por tais embaraços, Vasco Fernandes Coutinho e Pero de Góis assentarem a carta de confirmação dos limites das suas donataria a 12 de março de 1543: “... partem ambos por um rio chamado, na língua dos índios, Tapemery, que os mesmos puseram o nome de Santa Catarina, ficando todo dito rio com Pero de Góis para banda do sul e o dito Vasco Fernandes da banda do rio para a parte do norte...”

Registra a história que Pero de Góis não foi muito feliz com a sua donataria, havendo entrado em desavenças com os índios e que os mesmos destruíram as povoações de Vila da Rainha, ao sul do rio Managé (Itabapoana) e a nova, levantada oito léguas acima desta, ao pé da cachoeira do Inferno, cuja força hidráulica ele aproveitou para mover um engenho de açúcar.

Após perder vinte e cinco colonos e ter um olho vazado por uma flexa na luta com os selvagens, Pero de Góis refugiou-se na capitania de Vasco Coutinho, onde a indiada também não se mostrava muito dócil ao lusitano.

Com o falecimento de Pero de Góis, sucedeu-lhe seu filho Gil de Góis, o qual procurou erguer a povoação de Santa Catarina das Mós em frente ao Baixo de Pargos, ao sul do rio Itaperimim. Por falta de recursos, acabou renunciando em favor da Coroa. Antes, porém, que tal ocorresse, já no ano de 1627, os índios tinham destruído a vila de Santa Catarina das Mós. Mandada de novo levantar, não resistiu nem um lustro, pois no ano de 1679 mal existiam vestígios de casas e igreja que ali houve.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2011

 

 

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