Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Basílio Daemon - Biografia

Basílio Daemon Carvalho, quinto historiador capixaba, na ordem cronológica

Filho de José Maria de Carvalho (funcionário público) e D. Idalina Idália Cordeiro de Carvalho, nasceu na antiga Corte do Império a 8 de fevereiro de 1834, na rua da Saúde; batizado na matriz de Santa Rita a 27 de abril do mesmo ano pelo presbítero Geraldo Ernesto da Silveira Vale; faleceu na cidade da Vitória, capital do estado do Espírito Santo, a 1º de dezembro de 1893.

Além da desventura de ficar órfão muito criança com quatro irmãs menores, passou pelo infortúnio ainda maior de possuir um padrasto ambicioso e mau, que, para melhor locupletar-se com o pequeno pecúlio, que seu pai lhe deixara, teve a cautela de encerrá-lo em um convento, com o fim de desvencilhar-se dele. Todavia nunca tentou tomar contas a seu padrasto, porque, compreende-se, a desgraça desse homem acarretaria também a de sua mãe, que tarde conhecera o passo desacertadíssimo que dera, contraindo segundas núpcias.

Fugindo do convento, onde esteve de coroa aberta, como meio seguro de fugir à perseguição daquele que o considerava um empecilho às suas ambições, assentou praça no Corpo de Permanentes, de onde saiu logo que pôde conseguir baixa, para entregar-se aos trabalhos de revisão em diversos jornais da Corte, em alguns dos quais também colaborou, marcando esta fase de sua vida o início do tirocínio jornalístico.

Era correspondente do antigo Mercantil, que se publicou em Petrópolis, e o assunto que sempre escolheu para tese de seus artigos era o de interesses locais do Estado do Rio, por onde muito viajou.

Da colaboração neste jornal resultou ser conhecido de todos os seus amigos pelo apelido Daemon, pseudônimo com o qual os assinava; e mais tarde, na contingência de mudar de nome pelo fato de haver no local, em que residia, mais de uma pessoa com o mesmo, com que – em geral – se assinava, que era Basílio José de Carvalho, adotou para sobrenome aquele apelido.

Dotado de amor fraternal o mais puro, não se lhe tornava agradável ver em companhia de seu padrasto três irmãs que tinha; e na primeira oportunidade que se lhe ofereceu, retirou-as da mesma companhia, confiando-as a um parente e amigo, João Idálio Cordeiro.

Com os recursos que lhe forneciam os trabalhos de revisão, conseguiu com dificuldade freqüentar os primeiros anos da Faculdade de Medicina, profissão onde muito pudera ter-se distinguido se houvesse chegado ao fim do curso; pois tinha vocação especial para essa carreira, e muito notadamente na cirurgia; sendo além disso extremamente feliz nesse sacerdócio, como amador, a ponto de causar admiração aos próprios médicos, que não raras vezes apelavam para os seus conhecimentos e especialmente – tino médico.

Parece-nos que foi como estudante de Medicina que em 1856 prestou relevantíssimos serviços ao Paty do Alferes (Estado do Rio) por ocasião da epidemia do cholera-morbus que ali grassou, seguindo como ajudante dos facultativos encarregados de debelar aquele flagelo.

Os honorários a que fez jus nessa comissão, avaliados em 500$ mensais, ele os ofereceu em benefício dos indigentes atacados da dita epidemia. Em suas conversas sempre o ouvimos referir-se, com queixas amargas, a essa comissão, por terem sido esquecidos os seus serviços; ao passo que os facultativos, além dos elevados honorários que receberam, ainda foram cumulados de honras e distinções.

Em 1860 contraiu matrimônio no Paty do Alferes (Estado do Rio) com D. Maria Joaquina Leal Daemon e seguiu pouco tempo depois, em 1861, para o sul do estado do Espírito Santo (sertão), onde foi procurar carreira mais futurosa, em vista de suas

novas responsabilidades de família, entregando-se à vida da lavoura e comércio, tendo adquirido por compra umas terras (onde ainda hoje residem sua sogra e cunhados).

Nesse novo itinerário da vida não abandonara os livros, nem os pequenos conhecimentos de Medicina que adquirira; antes, procurando investigar o que era possível, tão longe como então se achava dos recursos, só próprios de centros populosos como o que houvera deixado.

Tendo levado consigo uma pequena ambulância, a todos, sem distinção de classe ou fortuna, prestava os seus serviços, sem nunca aceitar remuneração. Como é natural, nesses sertões falhos de todos os recursos que tenham por objetivo a saúde e higiene local, tornou-se bem depressa conhecido e quantas e quantas vezes teve de abandonar o leito, a desoras, para atender a chamados, fazendo-o sempre com satisfação; sendo que, como compensação aos seus sentimentos de humanidade, era sempre afortunado nas curas.

A sua vida do interior não era, bem a seu pesar, uma vida literária improdutiva, sem esse convívio, que anima a estudar para discutir aquilo que mais agrada, uma vez estando-se habituado a trocar olhares com as letras; pois ali durante muito tempo conviveu com o literato João Zeferino Rangel de S. Paio [Sampaio?], de quem sempre foi íntimo amigo e que faleceu em fevereiro de 1900, não sendo estranho à imprensa da capital federal o passamento desse conhecido – preto na cor da pele, mas diamantino no talento e nas qualidades morais que possuía; que o digam as lágrimas dos órfãos que ele educou, dos discípulos e dos amigos que o estremeciam, e que foram derramadas em sua tumba no dia de seu enterramento em São Francisco Xavier.

Pouco tempo esteve neste retiro, abandonando a carreira que abraçara, incompatível com as suas aspirações, para, na vila do Cachoeiro de Itapemirim, distante quatro léguas e hoje futurosa cidade, assumir, a convite, a redação de O Itabira, jornal político que aí se publicava sob a direção de João Paulo Ferreira Rios. Isto se passou em 1866.

É este, pois, o ponto de partida de sua vida política e agitada, de onde começa a revelar-se a sua inteireza de homem público e particular e muito especialmente como chefe de família, pois que já tinha filhos.

Desfraldando a bandeira do Partido Conservador, a que sempre pertenceu, sustentou nesse jornal e mais tarde no que fundou sob sua exclusiva responsabilidade, O Estandarte, os mais encarniçados combates.

Aí esteve alguns anos em ininterruptas polêmicas políticas e literárias, tendo às vezes como adversários lutadores resistentes pelo saber, sem que, entretanto, capitulasse uma só vez.

Pelos seus méritos e prestígio político foi eleito, em 1872, deputado à Assembléia Provincial.

Esta eleição foi ainda motivo para mais uma vez dar nova orientação aos seus destinos.

Com amigos influentes na capital (Vitória), onde tinha de se achar por ocasião das sessões da Assembléia, por um lado instigado por esses amigos, por outro lado, tendo já filhos a educar, para o quê o lugar de sua residência não lhe fornecia os recursos precisos, em 1874 transportou-se com sua família para aquela capital, onde como deputado continuou a prestar os seus serviços, em prol da terra que já tinha adotado como sua de nascimento, por ser também a de seus filhos.

Não era, porém, a vida de deputado provincial, ou de outro qualquer cargo de influência política que desejara tomar por profissão, era ainda aquela que o meio em que surgiu o fez adotar como única aspiração – a do jornalismo.

Foi assim que uma vez chegado à Vitória comprou a propriedade do jornal que se publicava sob o título de O Espírito-Santense e que se achava sob a redação de Pedro Sant’Ana Lopes.

Este jornal era o que publicava os atos oficiais do governo da província, com o qual tinha contrato.

Eleito ainda para outras legislaturas, lá estão na Assembleia os Anais, que provam os serviços que com dedicação extrema prestou à província.

Considerado bastante pelo presidente da província, que era neste tempo o Dr. Luís Eugênio Horta Barbosa, e contando com numerosos correligionários amigos, com o seu partido no poder, foi esta para bem dizer a melhor fase de sua vida, a idade de ouro que lhe apontava o porvir por todos sonhado na senda da vida.

Este áureo período, porém, teve o seu encerramento em 1877 com a subida do Partido Liberal ao poder. Desta data até 1885, em que novamente subiu o Partido Conservador, é que acentuadamente ficou patente a sua dedicação, a sua firmeza de crenças, sustentando lutas tremendas com os adversários políticos, lutas que por vezes se tornaram desagradáveis pela sua irritabilidade em discussões pela imprensa.

Redigia então com sacrifícios ingentes o seu jornal, que nessa época não tinha mais contrato para publicações oficiais, sendo parcos os proventos auferidos por assinaturas e matérias pagas que em jornais de estados poucas vantagens oferecem.

Os sacrifícios admiráveis que fazia para a sustentação de um tal jornal não se tornaram salientes só pela abnegação em que com afã escreveu sem descanso, mas sim por não auferir esses proventos, de modo a fazer face aos dispêndios necessários a uma empresa tipográfica, de todo inadiáveis.

Acresce que, por outro lado, impunha-se a manutenção com decência de sua família, que já não era pequena. Adversário leal, franco, ele não regateava o que de si dependesse em honra do adversário que lhe retribuísse a superioridade de vistas em lutas políticas.

Caracterizando o que externamos, seja dito de passagem que, às vezes, quando mais implacável era a luta e que mais se acentuavam as discussões de caráter irritante, era digno de ver-se a despreocupação com que mandava atender na oficina tipográfica do seu jornal ao pedido de material que faltava ao adversário, que no dia seguinte com armas por ele mesmo fornecidas vinha empenhar-se de novo na luta incessante. A sustentação desse jornal, que por último se tornara caprichosa, entregou-o por fim a dificuldades bem sérias para a sua manutenção, pois aquele mesmo partido que com tão entranhado amor ele defendia, jamais forneceu-lhe sequer o mais pequeno auxílio, sendo até estranhável que existindo em tal agremiação política homens providos de fortuna, nunca se lembrassem de levar-lhe o contingente necessário.

Já quase nas proximidades de subir o Partido Conservador é que alguns amigos seus, em número assaz diminuto, se coligaram para por meio de uma subscrição lhe proporcionarem meios para a compra de algum material tipográfico, bem a contragosto seu, pois com alguma previsão esperava mais tarde sofrer algum desgosto motivado por essa tardia lembrança.

E de fato, uma tal desconfiança veio justificar os seus escrúpulos, como veremos adiante. Um fato digno de nota na última fase de sua vida [de] jornalista era o amor, abnegação e o respeito de alguns empregados seus antigos, que, também correligionários, sofriam conjuntamente e participavam muito diretamente dos desgostos que aquele [partido] lhes ocasionava.

Esta abnegação era de tal consistência que aqueles mesmos empregados, convidados pelos seus adversários, por diversas vezes, para exercerem com mais vantagens a respectiva profissão em suas oficinas tipográficas (isto com o fim exclusivo de criarem-lhe embaraços), dedicados, fiéis, inabaláveis, recusavam terminantemente tal oferta, entregando-se ao trabalho para eles tão pouco prometedor de bons proventos, com a mais inquebrantável altivez.

Devido à circunstância de ser o jornal o reduto formidável contra os ataques do partido adverso, que contava com a superioridade do partido dominante, a sua residência era também o centro imposto a reuniões de correligionários e amigos.

Ali, como é de prever, resolviam-se questões de maior interesse partidário.

Cônscio de sua influência perante as localidades do estado, aceitou muitas vezes a investidura de missão especial junto aos chefes políticos das mesmas, quase sempre para conciliá-los com o diretório central, em matéria de eleições, em que este poucas vezes procedia com elevação de vistas na escolha de candidatos.

Não tardou, porém, que toda a sua influência, toda a simpatia que a sua correção política e altivez de combatente impunha aos espíritos justiceiros, fosse reconhecida por correligionários pouco cientes de seus deveres, como entrave à marcha progressiva que o partido adquirira, com a impotência sempre crescente, manifestada pelo que se achava no poder.

Abriu-se, pois, a luta, isto nos fins de 1882; e uma desinteligência premeditada por alguns invejosos, que se intitulavam seus amigos, surgiu servindo de fútil pretexto à publicação criteriosamente recusada em sua tipografia, de um jornal, cujo programa sem ser político, todavia os seus desígnios pouco se conformavam com a atitude de todo o jornal que se destina à apreciação dos homens dignos.

Esse jornal, que se intitulava Passagem de Vênus e cujo primeiro número foi impresso em sua tipografia, motivou logo à sua aparição o processo de responsabilidade ao seu redator principal.

A sua casa foi abandonada por esses falsos amigos, que, representando uma pequena fração do partido, em dissidência, fundaram um jornal pouco mais tarde, com a dupla pretensão de representar a opinião do partido e de apeá-lo do prestígio que houvera adquirido tão-somente com o seu trabalho e perseverança.

Desde então a luta era tenaz; mas sem nunca ter recusado dos que lhe ofereciam combate, aceitou calmo e resoluto o desafio que lhe era dirigido.

Dir-se-ia que desta data em diante teria que defender-se mais de correligionários políticos do que de adversários, que aparelhados com esse elemento de discórdia poderiam assediá-lo por completo.

Nutria então o partido adverso uma vaga esperança de contá-lo em seu seio, e, parece, chegou a trabalhar para isso; mas semelhante passo, incompatível com a sua retidão política, jamais se conseguiria fosse dado.

Não contava, é fato, com a confiança absoluta do chefe do partido, que representava nessa emergência papel bem pouco em concordância com a habilidade de quem tem sobre os ombros os encargos da direção de qualquer coletividade que em síntese sempre visa o bem comum, mas os numerosos admiradores esparsos pelas localidades eram testemunhas suficientes da não viabilidade de planos menos sinceros urdidos contra a sua pessoa.

O seu jornal não mudou, pois, de feição e teve só então que rebater acusações filhas do despeito pessoal.

Uma nova era despontou-lhe em 1885, com a ascensão do seu partido ao poder, circunstância que devera concorrer para o gozo de dias mais felizes do que os que em tantos anos de ostracismo houvera passado, com sacrifício de bens, da família e da própria saúde.

Tudo deixava entrever um futuro de prosperidades e a nomeação, pelo ministério Cotegipe, do desembargador Antônio Joaquim Rodrigues, um seu amigo de longa data, para o cargo de presidente da província, ainda mais consubstanciava esse presságio.

Sempre acolhido por aquele honrado administrador, com as mais inequívocas provas de verdadeira afeição, ele sentiu avigorar-se a sua robustez de político dedicado, que antes parecia querer ceder ao cansaço, prestando à sua administração os mais assinalados serviços.

Pouco antes de assumir a presidência da província aquele honrado cidadão, na administração interina do coronel Manoel Ribeiro Coutinho Mascarenhas, chefe do partido, que fora nomeado vice-presidente, um fato digno de menção se deu relativamente à sua pessoa e que evidencia perfeitamente em primeiro lugar o conceito de que gozava perante os políticos mais proeminentes da época e em segundo lugar o seu desprendimento e desinteresse pelas altas posições e ainda mais adquiridas estas por meios que não fossem de natural ascendência, a fim de poder exercê-las com independência.

É o caso de que, nomeado aquele chefe político, e quando achava-se em São João del-Rei, onde fora em busca de melhoras à saúde de um seu filho, de volta e de passagem para a Vitória, animado de desejos contrários a respeito de candidaturas de deputados gerais, passou por esta capital sem ao menos procurar falar ao barão de Cotegipe, que aqui o aguardava para tratar de tal assunto.

Foi então que esse, justamente irritado com tão estranho procedimento, mandou-lhe oferecer, por um emissário que hoje exerce cargo técnico na prefeitura, a candidatura de deputado geral, garantindo-lhe a eleição.

Tal oferta, porém, não teve a sua aceitação e releva notar que, se fosse um espírito vingativo, teria com a aceitação de semelhante candidatura dado a desejada queda naquele chefe político, cujo prestígio no seio do partido era unicamente amparado pela disciplina que caracterizava o mesmo.

Fácil é prever pelo que ficou dito o quanto intimamente não lhe desgostavam as ingratidões de que nos últimos tempos foi vítima daqueles que deveriam manifestar-lhe uma gratidão imorredoura, pela sua tenacidade, com sacrifício de tudo, na sustentação de um jornal, cuja existência naqueles tempos era a existência própria do partido.

Essa face de seu caráter político está magistralmente assinalada no editorial do Estado do Espírito Santo de 2 de dezembro de 1893, jornal político do Dr. Muniz Freire, atual presidente do estado e seu antigo adversário político.

Os desgostos acumulados, a idade já regularmente avançada e a clarividência de que, depois de um passado honroso, nada obtivesse que lhe proporcionasse e à sua família uma subsistência material recompensadora, fizeram-lhe abandonar o jornalismo, suspendendo a publicação de O Espírito-Santense, aceitando um emprego público, função que jamais tencionara exercer na sua vida, sendo, pois, a 18 de dezembro de 1886, nomeado tesoureiro da Alfândega.

Nesse cargo o encontrou a República, que não tendo nele um aderente, todavia nele reconheceu desde logo um dos seus mais convencidos sustentadores.

Mesmo aí a politicagem não o poupou, e vibrou-lhe o golpe traiçoeiro, causa do início da enfermidade que o prostrou.

Com efeito, alguém pretendia o lugar que estava exercendo, e tentou, diversas vezes, pela intriga política, alijá-lo, empenhando-se pela sua remoção da Alfândega para idêntico cargo na Tesouraria de Fazenda, onde teria que prestar maior fiança para receber menores proventos.

E tanto se tramou, que afinal, contra a vontade do então governador do estado o distinto brasileiro Afonso Cláudio de Freitas Rosa, que muito o distinguia, e que nessa ocasião, suponho, estava em gozo de licença tratando-se de cruel enfermidade, conseguiram deslocar o chefe de família, de numerosa prole, toda tendo por berço o estado, que tantos serviços lhe devia, para colocar em seu lugar, quem?!... um português, celibatário, com alguns haveres e conhecido apenas pelo seu voto eleitoral.

Essa remoção, dadas as condições em que se realizou, revestida, como se vê, de dolorosíssima injustiça e amarga ingratidão, causou-lhe desgosto tão profundo que, pode-se dizer, começou daí a sua prolongada agonia, pois pouco tempo sobreviveu a esse duro golpe.

Não tendo aceitado a remoção, ficou sem colocação alguns meses, até que o governo do estado, em primeiro lugar nomeou-o interinamente procurador fiscal e pouco tempo depois, aproveitando melhor os seus talentos, nomeou-o bibliotecário, cargo que assimilava bem a sua índole natural de investigador e colecionador que era.

Embora esse cargo lhe proporcionasse bem limitados proventos, contudo o exerceu até falecer, sendo que nos últimos tempos dificilmente vencia o trajeto de sua residência à repartição, pois bem adiantados já eram os sofrimentos do coração.

A sua família guarda com profunda gratidão e desvanecimento a deferência especial que manifestou nessa emergência o governo do estado, nessa ocasião, nas mãos do Dr. Muniz Freire, que novamente se acha no exercício daquelas funções, para com aquele funcionário, que, já exausto e sem forças, mesmo assim, em casa, impossibilitado por último de sair, ainda no próprio leito, tentando um esforço supremo, ditou a um seu filho para escrever a resposta de um ofício sobre objeto de serviço, que desejava fosse expedido com urgência.

Com este ato de abnegação pelo trabalho terminara o homem público.

A moléstia o minava cruelmente. As forças já haviam-se extinguido por completo; a sua fala amortecia-se, e a família já não lhe abandonava o leito aguardando o desenlace fatal.

Resignado, cônscio de que estava por pouco o seu termo, ele procurava disfarçar o seu estado diante da família e como que reconhecendo um dever a cumprir, num dos momentos em que a moléstia concedia-lhe a alternativa do descanso ele instou para que o levassem, do quarto em que se achava, para a sala de visitas e aí, já com bastante enfraquecimento cerebral, a língua trôpega pela paralisia, ainda num derradeiro esforço, só mesmo ingênito nos espíritos superiores, pôde ditar ao seu filho mais velho, as suas últimas vontades.

Não concluiu mas conseguiu o principal desideratum e era o destino a dar a diversos manuscritos, coleções dos jornais que redigia etc., etc.

Desde esse dia não mais pôde articular uma palavra, se bem que para isso se esforçasse e a 1º de dezembro de 1893, à uma hora da tarde, ainda tentando falar, fazendo também esforço para levantar-se, indicava que o transportassem para a sala, o que não foi difícil de interpretar, porquanto em vida sempre dissera que desejaria morrer em lugar espaçoso.

E, de fato, no fim de poucas horas, era cadáver.

 

Era um espírito filantrópico, altruístico, humanitário; e disso são provas plenas a dispensa que quase sempre fazia de seus honorários em benefício do estado, a iniciativa em movimentos de caridade, como a que teve em 1885 por ocasião do terremoto da Andaluzia, tendo recebido da Legação Espanhola profundos agradecimentos; e os serviços que prestou em 1868, no Cachoeiro de Itapemirim e em 1874, na capital do estado por ocasião da epidemia da varíola que flagelou essas duas localidades conforme se verifica dos agradecimentos da presidência da província.

Em religião era católico, quanto ao princípio básico da doutrina, como despojo, deixado na passagem ligeira de leituras a que também se entregava de obras filosóficas modernas.

Era um espírito ardente, empreendedor, e entusiasta investigador, conforme dão testemunho as inúmeras associações que fundou, que sustentou e as correspondências que manteve com o Instituto Arqueológico Pernambucano e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro no qual ultimamente concentrava todas as suas atenções; tendo, das suas últimas vontades acima ditadas, a de que se fizesse a esse Instituto entrega de sua preciosa coleção de manuscritos, vontade essa que foi religiosamente cumprida, logo após sua morte.

Foi proclamado sócio correspondente desse Instituto em sessão de 12 de setembro de 1890.

Nunca almejou honorários e distinções, tendo sido, entretanto, obrigado a aceitar a patente de capitão da Guarda Nacional e Oficialato da Ordem da Rosa.

Eis aí, em resumo e da minuciosa vista passada nos seus papéis e da lembrança viva dos seus passos observados por quem escreve estas linhas, a vida de quem foi sempre um trabalhador infatigável, um estudioso incansável, um lutador valente e de uma tenacidade de fazer esmorecer o adversário; mas nos intervalos da luta, como se fosse necessária uma compensação ao seu ardor de combatente, era de uma jovialidade extrema, cheia de bondade e alma hospitaleira e generosa, a quem jamais bateram às portas que o seu teto não fosse logo franqueado e jamais se apresentaram à sua mesa, que não encontrasse[m] aí um talher.

Tão bom, tão justo e tão reto, que jamais teve de acusar-se perante a sua consciência de alguma ação que não devesse ser uma lição para seus filhos, e tal foi o esmero com que educou a esses, tal era a confiança resultante dos exemplos que lhes deu, a convicção de que não lançara em terreno estéril a seara do bem, que calmo, sereno, expirou, cônscio de que deixava neste mundo dignos herdeiros de seu nome.

Um só como jornalista, deputado, mais ainda em cargos políticos de magistratura e outros de eleição tornou evidente a sua inteligência e atividade, não só na capital como no Cachoeiro de Itapemirim, que talvez reflita ainda hoje, na prosperidade que apresenta, os labores do seu antigo hóspede.

Apesar de sua vida agitada e trabalhosa, entregava-se nas horas vagas aos estudos de literatura e história e desses estudos surgiram à luz da publicidade Arcanos, romance histórico, Reminiscências, coleção de escritos da juventude, que os fez imprimir para dar de prêmio aos assinantes do seu último jornal, e (em 1879) a História da província do Espírito Santo, trabalho em que consumiu nove anos de labores e despendeu não pouco dinheiro em pesquisas de dados, para esclarecimento de pontos duvidosos ainda na história daquele estado, como o fosse o da data de sua descoberta, que ainda se lhe apresentava em contradição com os demais que tinham tratado do assunto.

Colecionador que era, muito especialmente no que se prendia à História Natural, a instância de um amigo de nacionalidade estrangeira, ele fez figurar na última Exposição de Berlim uma riquíssima coleção de coleópteros, onde, em ordem de maior a menor, achavam-se representados todos estes interessantes animalejos com as respectivas classificações científicas.

Todos foram por ele mesmo apanhados em matas do estado, para o quê até certo tempo tinha natural paixão por este gênero de caça.

Nunca pensou em abandonar o estado onde passou a maior parte da sua vida, tal o amor que ele tinha que mesmo tendo razões de sobra para não desejar terminar nele seus dias, nunca acedeu às instâncias de seus filhos que debalde procuraram convencer-lhe de partir para esta capital [Rio de Janeiro], onde havia toda a probabilidade de passar melhores dias, atendendo a que com os amigos dedicados que também por sua vez lhe lembraram este alvitre, poderia ter fácil colocação e por conseguinte ficar fora do local onde adquiriu a enfermidade que o prostrou.

Toda a sua descendência existe nesta capital, composta de oito filhos sobreviventes, sendo seis varões e duas mulheres, uma solteira e outra viúva, com quatro filhinhas.

Entre os varões dois são oficiais do Exército, dois empregados na Repartição Geral dos Telégrafos e na Estrada de Ferro Central do Brasil, sendo os dois restantes menores, o último apenas com nove anos de idade.

Dos dois oficiais do Exército, um é engenheiro militar e bacharel em Matemática e Ciências Físicas, com o posto de capitão de Artilharia e lente do Colégio Militar; o outro é tenente de Infantaria por estudos e também subsecretário daquele mesmo colégio. Além dos quatro netinhos, de que já falamos acima, tem a viúva, que felizmente ainda está forte, apesar de ter mais de 50 anos, mais 10 netos, que com os filhos fazem hoje a sua principal preocupação e são o alvo de seus bondosos carinhos de mãe e avó.

 

Nota: 1ª edição do livro foi publicada em 1879
Fonte: Província do Espírito Santo - 2ª edição, SECULT/2010
Autores: Dr. Ticiano Corrégio Daemon e Tenente Daemon (filhos)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

História do ES

Contribuição dos negros ao ES

Contribuição dos negros ao ES

Conheça a participação do negro no artesanato, na culinária, nas letras e nas artes, na religião ou na defesa dos seus direitos sociais

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Ano de 1854 – Por Basílio Daemon

Falece no Riacho e é conduzido seu cadáver para a vila de Santa Cruz, onde foi enterrado, o naturalista francês Dr. João Teodoro Descourtilz   

Ver Artigo
Ano de 1853 – Por Basílio Daemon

Brás da Costa Rubim, filho do governador Francisco Alberto Rubim, se propunha à oferecer-lhe quatrocentos volumes em livros e cadernos para a criação de uma biblioteca  

Ver Artigo
Viajantes Estrangeiros ao ES – João Théodore Descourtilz

Existe uma edição em português da "Ornitologia Brasileira ou História Natural das Aves do Brasil", lançada pela Kosmos, em 1944

Ver Artigo
Ano de 1852 – Por Basílio Daemon

São remetidas ao Museu Nacional, pelo naturalista Descourtilz, as coleções de história natural por ele reunidas tanto de pássaros como de insetos

Ver Artigo
Ano de 1850 – Por Basílio Daemon

Antônio Tomás de Godói chefe de Polícia e reconhecendo estar a província infestada de criminosos, dá logo as mais enérgicas providências no município de Itapemirim   

Ver Artigo