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Bons tempos – Por Oscar Rocha Jr. - Boquinha

Capa do Livro: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1998 - Capa: Anderson Marques

Pra mim, O DIÁRIO foi a maior escola de jornalismo que o Espírito Santo já teve. Não tem Universidade, não tem o que se compare. A gente aprendia com a dificuldade. Não tinha essa moleza de hoje em dia, de repórter ter carro, dinheiro de passagem. Era realmente necessário se virar.

Eu nunca tinha trabalhado em jornal. Entrei nO DIÁRIO em 1970, como revisor, levado por um amigo meu, Acyr Monteiro Filho, mais conhecido como Iô-iô. O pai dele tinha sido dono do jornal uns anos antes e ele foi trabalhar lá. Como era muito meu amigo, uma semana depois me chamou e eu fui.

Havia só O DIÁRIO, A Gazeta e o Jornal da CidadeA Tribuna estava parada. A grana era curta mas a gente fazia um jornalismo sem pressão, de total liberdade com as fontes. NO DIÁRIO não tinha essa cobrança de querer "furar" o concorrente. Mesmo assim, eu dava muito mais "furo" nA Gazeta do que tomava, apesar da baita estrutura que A Gazeta tinha e O DIÁRIO não tinha. Saí de lá em 1979. Pedi demissão, porque na época tinha cinco empregos: trabalhava nO DIÁRIO, já estava nA Tribuna, era correspondente da revista Placar e dO Globo, e ainda trabalhava na Rádio Espírito Santo desde 1976.

Quem trabalhou nO DIÁRIO, na minha época, tinha com quem aprender. Eu, que era novo, aprendia com Rogério Medeiros, Cláudio Bueno Rocha, Pedro e Paulo Maia, Paulo Eduardo Torre, Hesio Pessali, o grande Tinoco dos Anjos, Erildo, enfim, jornalistas que realmente conseguiram marcar seus nomes na imprensa capixaba. Embora houvesse dificuldades e a gente recebesse o salário em quatro parcelas semanais a título de vale, uma coisa era certa: ninguém ficava duro no final de semana. A gente amava aquilo tudo. Não havia aquela situação de um colega querer derrubar o outro, ser melhor que o outro, no próprio grupo. Todo mundo era amigo, uma família.

Teve uma época em que Marien Calixte, Luiz Eduardo Nascimento e Walter Moreno, que era dono de uma floricultura, chegaram a escrever sobre futebol na primeira página. Os três iam ver o jogo da Desportiva, que estava no Campeonato Brasileiro, pegavam a primeira página dO DIÁRIO — era a única que ficava aberta até tarde da noite — e metiam o pau, gozando a Desportiva... Dia de sexta-feira, na oficina, se acendessem um fósforo explodia tudo. A turma bebia um garrafão de cachaça. O Dequinha, que montava a primeira página na oficina, cortava as matérias pelo pé, e às vezes só saía a metade de uma frase. O texto terminava assim, suspenso no ar...

O jornal era desse jeito. Mas teve seus grandes momentos. Nos tempos do Esquadrão da Morte, vendia igual a água. Era um jornal simpático, todo mundo gostava. E a gente ia trabalhar com disposição. Eu entrei como revisor, depois de seis meses fui ser editor. Editor e repórter ao mesmo tempo. Quando A Tribuna foi reaberta, o Paulo Torre — com quem sempre tive uma grande amizade — levou todo mundo dO DIÁRIO. E me chamou também, mas eu disse que não porque estava nA Gazeta. Ele insistiu e eu acabei vindo.

NO DIÁRIO, assim que deixei de ser revisor, me deram uma página: "Você, a partir de agora, vai fechar uma página de futebol amador." Não era vôlei, basquete ou futebol de salão, nem cobertura de clubes como Álvares Cabral, Saldanha da Gama. Era futebol suburbano.

"Seu" Américo Rosa - que vivia com a mão sempre no queixo, porque se tirasse a mão o queixo caía - passava na Lojas Cannes, na Praça Costa Pereira, onde Ademar Cunha trabalhava. Ademar mandava um "mapa", em papel de presente com mais ou menos um metro, dois metros de papel, com todos os jogos que iam acontecer, a escalação, resultados dos jogos já acontecidos. O jornal arrasava no subúrbio. Houve uma época em que O DIÁRIO funcionava no domingo e não se trabalhava no sábado. Saía na segunda-feira com cobertura do esporte profissional e do esporte amador.

Depois que o Renato Dias Ribeiro foi para A Tribuna, eu fiquei fazendo duas páginas dO DIÁRIO sozinho. Não tinha repórter. Tinha o Zé da Bola, um grande jogador de futebol que no auge da carreira dera guarida a muita gente, tendo inclusive levado Rogério Medeiros para o Botafogo do Rio. Pois bem. Zé da Bola estava numa situação meio difícil e Rogério sugeriu: "Vamos botar o Zé da Bola para ser o seu repórter cobrindo o Rio Branco". Zé da Bola não sabia bater a máquina, mas tinha uma letra redondinha, de professor. Ele nem ia ver o treino. Ficava no bar do Jorcel Garcia, na Praça Costa Pereira, esperando os jogadores voltarem do treino no Estádio Governador Bley, em Jucutuquara, todo mundo lá, quase todos os jogadores, bater papo até meio dia. Ele já ficava esperando: "E aí, como é que foi o treino?" Pegava uma folha de caderno, caneta, e escrevia sobre o treino. E escrevia mais duas folhas elogiando Lauro Maranhão, que era o homem-forte e diretor de futebol do Rio Branco.

Mas ele não ia levar as folhas do caderno pra mim. Esperava o contínuo, "seu" Américo Rosa, porque sabia o horário que Américo passava cantando "os peixinhos do mar", meio-dia e quinze, por aí: "Entrega ao Boca" (que era meu apelido). Mandava três folhas de caderno escritas: uma sobre o treino, o time, entrevista com jogadores, e as outras duas folhas elogiando Lauro Maranhão. E um recado: "Ó, se estourar a matéria, joga a do treino fora, mas não joga as duas do Maranhão não, porque eu quero pegar uma camisa lá". Era o meu repórter, gente finíssima.

Numa outra época, quando eu já estava trabalhando nA Tribuna e nO DIÁRIO, eu batia as matérias de manhã cedo porque tinha que trabalhar à tarde nA Tribuna. Ia nos treinos primeiro. Via a página, fazia os títulos, botava as fotos, mas deixava tudo em cima da mesa do Tião, o diagramador — que trabalha até hoje nA Gazeta e foi outro que começou nO DIÁRIO, tendo trabalhado nA Tribuna também. Sabia que ele chegava a uma da tarde e ligava dA Tribuna pra ele: "Tião, a primeira matéria é esta. Se estourar, você corta esta última frase, a penúltima". Fechava a página pelo telefone porque, com cinco empregos, eu não tinha mais tempo de voltar aO DIÁRIO.

Era uma coisa incrível, realmente. O que não vemos hoje em dia mais é o clima de amizade que havia na redação. Hoje é essa disputa de um repórter querer ser melhor do que o outro, de querer matéria assinada — "Ó, não esquece de botar meu nome na matéria, não". Muitas vezes, o editor sugere as perguntas e o redator acerta a matéria toda. O repórter só vai entrevistar a pessoa fazendo aquelas perguntas que o editor fez - portanto sem criar nada, praticamente só batendo o texto. O redator ainda cria em cima daquilo que o repórter escreveu. E mesmo assim o repórter pede que lhe seja dado o crédito na matéria. Essa vaidade não acontecia nO DIÁRIO.

Mas não estava dando mais para acumular cinco empregos, e acabei tendo que sair de lá — o que foi muito triste. Quando encontro colegas que estiveram nO DIÁRIO naquela época, a gente passa a noite conversando, contando histórias, histórias engraçadas. O tiroteio entre Pedro e Paulo Maia foi negócio de irmão — por causa de um isqueiro. E as histórias de Paulo Makoto? Ele era casado com dona Maria, mãe de Romero. Makoto, cheio de menininhas, transava com Deus e o mundo. Quando Makoto cansava e ia para Carapeba — Carapebus estava no auge - ficava uma semana lá e dizia pra dona Maria que ia viajar, fazer uma pauta especial prO DIÁRIO no Amazonas. Passava uma semana, 15 dias, e dona Maria vinha nO DIÁRIO: "Meu Makotinho já voltou?" E a gente respondia: "Ó, ele mandou dizer que até agora ainda não entrevistou o jacaré". Só ela acreditava...

Uma vez, atrás de uma boa manchete, pegaram uma calota de carro, foram em cima do Penedo, lançaram no espaço, Makoto fotografou. Fizeram uma montagem com a calota e publicaram como fosse um disco voador sobre-voando Vitória. O DIÁRIO botou na primeira página em letra grande, A Gazeta embarcou no outro dia e botou também. Muita gente ligando para o jornal, inclusive da Aeronáutica. Repercutiu na imprensa carioca, saiu nO Globo, no JB. Algumas pessoas ligaram dizendo que também tinham visto... Depois disso, muita gente começou a olhar para o céu, fazendo plantão à noite...0 DIÁRIO agüentou a sacanagem durante três dias. Sabe o que aconteceu? Depois de três dias, O DIÁRIO mostrou a calota debaixo do braço do seu Américo Rosa... Na primeira página...

Era desse jeito O DIÁRIO. Havia um rapaz, o Didinho, halterofilista, fortão, dois metros de altura. Era revisor. Eu e o Iô-iô à tarde, ele e Edvan, um rapaz magrinho, à noite. Um lia a matéria original do repórter, corrigida a caneta; o outro acompanhando a leitura na prova impressa. Quando havia um erro, paravam a leitura para conferir. O aviso de erro uma batida na mesa. Didinho não era muito bom de português, e tropeçou num nome:

- Asdrubal.

Edvan bateu na mesa:

- Asdrúbal.

- Didinho insistiu:

- Asdrubal.

Edvan corrigiu outra vez, já não muito certo se devia.

Didinho perdeu a paciência, deu uma porrada na mesa e gritou:

- As-dru-bal!

E ficou por isso mesmo.

Uma vez mandaram o Quincas — Joaquim Silva, hoje advogado — fazer uma entrevista com a rainha do Carnaval. Ele foi e não encontrou a rainha, mas mesmo assim fez a matéria, como se a tivesse entrevistado. E por conta própria, meteu o pau no Rei Momo, que era o Walmor Miranda, que trabalhava nA Gazeta. Deu o maior rebu.

Quincas teve que desmentir a matéria que inventou...

O DIÁRIO é uma enciclopédia de boas histórias.

 

Fonte: O Diário da Rua Sete – 40 versões de uma paixão, 1ª edição, Vitória – 1998.
Projeto, coordenação e edição: Antonio de Padua Gurgel
Autor: Oscar Rocha Jr. - Boquinha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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