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BR-101 (de Vitória à Linhares)

A abertura da estrada até a Serra teve início em 1921; daí para Linhares em 1930. Foi portanto, um processo longo e demorado.

Por volta de 1934, era chefe da Estação experimental do Estado (Goitacases), Henrique Rímulo. Este homem surge como um verdadeiro entusiasta, contagia o povo e inicia a abertura da cabeça da ponte para o sul, fornecendo alimentação a quem viesse trabalhar.

Animados, Talma Pestana, Coronel Lastênio e ainda Agnelo Guimarães iam de canoa, com motorzinho de popa, na beira das lagoas, povoadas pelos caboclos, para buscarem quem quisesse trabalhar naquelas condições. Muitos de Linhares também se prontificaram. Era uma nova esperança que surgia.

E com que trabalho tudo foi feito! Enxadas, machado, picaretas! Estes eram os instrumentos de tão árdua tarefa! Para alisar a terra tinham uma patrol, puxada a bois.

Rímulo deixou a estrada aberta até o Quartel de baixo e o povo motivado para o empreendimento.

Foi substituído na chefia da Estação Experimental pelo Dr. Alexis Doroffef. Este, conseguindo com a secretaria da Agricultura uma “basculante”, mais ferramentas e um pagamento para os operários, deu continuidade aos trabalhos. E ainda iniciou a abertura para o norte, pois, em São Mateus, o povo se havia predisposto ao que faziam em Linhares e “começaram a abrir, por sua própria conta, até o rio Caximbau”.

Os trechos Linhares-Barra Seca, norte e Linhares – Santa Cruz, ao sul, ficaram sob a supervisão de Doroffef, pois em 1936, a estrada que se abria no outro extremo estava em Santa Cruz. Este traçado era todo feito próximo ao litoral. De lá (Santa Cruz), surge outro líder, na pessoa do prefeito Edísio Cirne. E assim, atacada em todos os pontos, a estrada foi sendo traçada e aberta.

No trecho de Linhares até o norte da lagoa Juparanã, Doroffef foi auxiliado por Inimar Rabello e Darcy Bom, que faziam os serviços topográficos. Da lagoa para o norte, só o Inimar.

Em 1937, foi concluído o trecho desta velha rodovia que ligava Linhares a Vitória, e mais tarde, todo o trecho até São Mateus foi inaugurado solenemente pelo governador Punaro Bley.

Com a estrada pronta, a travessia do rio, que era feita de canoas, passa a contar com as famosas balsas. Segundo informações, inicialmente estas balsas foram improvisadas, unindo-se algumas canoas com cordas; contudo, a primeira, grande e bem feita, foi a do Paco (Francisco de Paula Arnal Fabre), que transportou o Bley na inauguração da estrada. Com o tempo, outros foram fazendo o mesmo.

As canoas sempre foram uma constante no rio Doce, Em Linhares, uma família destacou-se nos chamados serviços auxiliares.

Era constituída de hábeis canoeiros – também peritos no “desencalhe” de barcos e canoas. De tanto apoiarem os grossos remos, na altura do peito, próximo aos ombros para dar o impulso inicial às canoas, a pele destes homens transformou-se em verdadeiros “cascos” ou numa grande e uniforme calosidade.

Estamos nos referindo aos membros da família Porto – alguns deles vivos, atestando este trabalho hercúleo. Seus descendentes continuam nesta região, agora na labuta do cacau. Como nostálgica lembrança do vaporzinho que tanto encantou Casais ou, talvez, como testemunho de um trabalho heróico, solitárias canoas ainda balançam nos ancoradouros de suas roças.

Na estrada, carros de velhos tempos começaram a transitar. Maurício Fernandes e Paco tiveram os primeiros automóveis e Maurício tinha ainda um caminhão. Até uma linha de ônibus foi corajosamente inaugurada por Moacir Soeiro!

E explicamos por quê.

Imagine-se o tal percurso por volta de 1939/40, do norte para o sul. Saía-se de São Mateus e começava-se a atravessar os primeiros riachos. As pontes eram de madeira e, sem exagero, podemos afirmar que algumas tinham 4 paus, dois de cada lado, tendo-se que ser não apenas corajoso, mas dono de uma boa “mira de olhos” para não sair do rumo certo.

Nessas condições, vinha-se descendo. Chegando ao rio Doce, no porto, embarcava-se nas balsas para atravessar o rio e pegar a estrada novamente. E daí para frente, pelo que muitos contaram, haja combustível, disposição e paciência! Por perto de bebedouro, havia um lugar famoso: o “sangue-suga”. Além da existência destes bichos nos alagados próximos, nos tempos de chuva, este local atolava e de tal maneira “sugava” as rodas dos carros, que tomou aquele nome. Às vezes, passava-se a noite ali. E assim continuavam no dia seguinte. Novos atoleiros. Muita gente ganhou bons trocados colocando hospedagem nesses pontos ou alugando animais para puxar ônibus, caminhões e automóveis. Gastavam-se uns três dias ou mais até Vitória.

Na seca, a viagem era feita mais rapidamente, embora todos chegassem cobertos de poeira. Havia um lugar, antes de Guaraná, que apelidaram de “assombro”. Era uma descida, cheia de curvas, que deixava a todos de respiração suspensa. Com chuvas e lama, devia ser mesmo algo de assombrar. Achamos melhor deixar as aflições de tal percurso por conta da imaginação de cada um. Seriam necessários muitos pontos de exclamação para narrar tal peripécia e, se alguém dizia “vá com Deus”, nunca, em nossa opinião, tais palavras foram empregadas com tamanho certo!

 

Fonte: Panorama Histórico de Linhares, 1982
Autora: Maria Lúcia Grossi Zunti
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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