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Cais do Avião

Cais do Hidroavião, 1950

Entre as histórias contadas pelos antigos moradores de Santo Antônio, consta a do avião das 14 horas, cuja pontualidade acabou sendo uma referência

Projetado pelo arquiteto Ricardo Antunes foi construído em 1939, no bairro Santo Antônio, o hidroporto que ficou popularmente conhecido em Vitória como "Cais do Avião". Na época governava o Estado o interventor João Punaro Bley, que esteve à frente do Governo de 1930 a 1945. O cais constituía uma das primeiras ligações aéreas de Vitória com outras capitais do País. A edificação dispunha de instalações para embarque e desembarque de passageiros e carga e descarga de mercadorias.

ÁGUAS CALMAS E POSIÇÃO DO VENTO

Santo Antônio foi escolhido para abrigá-lo por causa da calmaria de suas águas e da topografia do bairro, que se localiza contra o vento nordeste e está próximo ao Centro de Vitória.

Além desses fatores, o bairro já contava, desde 1910, com uma linha de bonde que o ligava ao Centro da cidade. No Cais do Avião, em meio a figuras anônimas como cafeicultores de Santa Leopoldina, Santa Teresa e Colatina, desembarcavam grandes personalidades trazidas pelas asas da Panair (empresa americana) e da Condor (alemã).

Ali desembarcaram astros hollywoodianos como Tyrone Power e o boxeador gigante conhecido com Primo Carnera, além do ex-presidente Getúlio Vargas.

Após a Segunda Guerra Mundial e a queda de Getúlio Vargas, na década de 50, a "Cais do avião", já integrado então à rotina dos moradores de Santo Antônio, foi fechado. A empresa alemã Condor, que explorava o local, após a guerra passou para o domínio americano sob o nome de Cruzeiro do Sul. O cais foi desativado com a construção do aeroporto de Vitória, em Goiabeiras, que exigia menor custo de manutenção.

Depois do advento do aeroporto, após tempos de glória, o hidroporto ficou abandonado. Anos depois passou a ser utilizado pela Legião Brasileira de Assistência, foi sede do Caiçaras Clube e, posteriormente, ambulatório médico.

Até o final de 1984, o prédio que abrigava o cais pertencia à Aeronáutica, mas foi doado posteriormente para o Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel), que pretendia instalar no local uma estação de rádio.

O "Cais do Avião" é um exemplar da arquitetura produzida no Brasil no início do século XX, possuindo características funcionais e estéticas de vanguarda arquitetônica internacional.

No Brasil, apenas as cidades de Salvador e Rio de Janeiro possuem cais desse porte, todos tombado: pelo Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O processo de tombamento do Cais do Avião está em estudo desde 1999 e conta com o apoio, da Marinha, da Secretaria de Estado da Cultura e Esportes e da Secretaria Municipal de Cultura de Vitória.

RECUPERAÇÃO

O "Cais do Avião" passou por uma série de reformas realizadas pela Prefeitura de Vitória a partir de 2001 e hoje se encontra totalmente recuperado e remodelado, de acordo com o projeto arquitetônico original. Ele possui um restaurante de comida típica capixaba, além de lojas de artesanato, de produtos de papel reciclado, um posto de informações turísticas e um museu sobre o cais.

A reforma do prédio, situado na Avenida Dário Lourenço de Souza, é uma obra do Projeto Terra, Poligonal 8 e teve investimento de cerca de R$ 450 mil. De acordo com o secretário municipal de Obras da época, José Arthur Bermudes, as instalações elétrica, hidrossanitária, telefônica e de gás foram totalmente refeitas.

Bermudes destacou que o prédio estava deteriorado pela maresia e exigia um trabalho minucioso de recuperação de sua estrutura. Nos ambientes internos foram feitos reparos e pintura.

O cais possui flutuante para atracação de barcos. As esquadrias, janelas, portas e detalhes foram reconstruídos de forma a compor o ambiente arquitetônico da época.

TRAJETÓRIA

O "Cais do Avião" operou por nove anos aproximadamente e foi uma das grandes atrações de Vitória. Durante o tempo de operação, ele mantinha uma movimentação constante. Segundo depoimento de habitantes antigos de Santo Antônio, diariamente hidroaviões aportavam naquele cais, desde simples monomotores a pesados quadrimotores de carga e passageiros.

Cada aeronave tinha capacidade de transportar até 60 passageiros que, devido ao baixo preço das passagens, sempre enchiam os aviões. Na época, três empresas operavam o cais: a Condor Sundikat, de origem alemã, que logo foi transformada em empresa nacional com o nome de Sindicato Condor; a Panair do Brasil e a Cruzeiro do Sul.

A elite da cafeicultura capixaba de Santa Teresa, Santa Leopoldina e Colatina utilizavam as atividades comerciais do cais, além de turistas de outros Estados que chegavam com destino ao balneário de Guarapari.

Relação com a comunidade

Havia uma relação muito forte entre os moradores e as atividades do cais. A pracinha em frente ao prédio ficava movimentada, com pessoas que iam apanhar e levar passageiros, bem como contemplar as manobras das aeronaves.

Havia também o ponto final do bonde em frente ao cais e, mais à direita do prédio, o chamado cais das barcas, que era utilizado para o deslocamento de pessoas que trabalhavam ou iam visitar pacientes no hospital que ficava na Ilha da Pólvora, no meio do canal.

HISTÓRIAS QUE O POVO CONTA

Habitantes antigos do bairro lembram ainda com nostalgia, a época das atividades do "Cais do Avião". O bairro Santo Antônio só não se desenvolveu mais, devido ao curto tempo das operações do hidroporto, cujo edifício era dotado de instalações modernas e luxuosas para a época.

Ainda hoje, a geração mais antiga comenta sobre o hidroavião das 14 horas, muito popular por sua pontualidade permanente, chegando a servir de relógio para os habitantes.

 

Fonte; Jornal A Gazeta, 100 anos do Porto de Vitória, 31/03/2006
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2015

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