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Capitão Romão x Capitão Maziero – Por Osvaldo Oleari

Capa do Livro: Escritos de Vitória - 17 IMPRENSA, 1996

Bem vividos e mal passados a limpo os maus anos de 1968 e seguintes ao AI 5, carece de resgatar alguns sítios históricos da crônica da conservadora, pouco inovadora e ortodoxa imprensa desse período. Sacudida apenas por acontecimentos como o velho O Diário, já cantado em prosa, verso e em fantasias que se acrescentaram, insira-se aí O Debate, injustiçado em seu papel histórico e revelador de um curto período da resistência e da porralouquice esquerdista infanto-juvenil que não chegou a abalar as convicções revolucionário-provincianas dos capitães de Exército Romão e Maziero.

O ano de 1968 sacudiu os mundos, Paris no meio, e nós, ilhados botocudos da imprensa tupiniquim, ainda curtindo aquela capixabice preguiçosa e pachorrenta a nós legada pelos descobridores-invasores como colhedores de milho, babando diariamente nas páginas do Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Última Hora, insatisfeitos com a mesmice da velha mãezona A Gazeta, nos carcomíamos com o que julgávamos a ferrugem mental daqueles que nada faziam para mudar essa terceira-mundice-imundície se arrastando quase três décadas atrás, protestávamos tomando e vomitando vodca nos bancos do Parque Moscoso e mijando escondidos atrás das moitas — isto quando algum mais afoito não escancarava a braguilha, segurava o pau e mijava como se mijasse no símbolo da burguesia bem ali em frente, o Clube Vitória.

Das derivações

— O problema é que eles desenham o Jornal do Brasil à noite e dia seguinte sai mesmo é A Gazeta, — dizia pouco conformado Eleisson de Almeida. De pouco conformados, gênios médios, enganadores ou mesmo gênios como Severino Bezerra — um cronista renitente, dos poucos intelectuais pra valer do grupo, que suportava bem a nós outros, liberais irresponsáveis a conviver com a esquerda, que mais tarde, inescrupulosa, nos chutaria o saco e nos mandaria cagar atrás da bananeira — os bares do momento andavam cheios.

Injustiça. Quem diria — pouca gente se lembra e creio não estar rabiscado em qualquer caderno mais vagabundo de algum memorialista sem memória que circule por aí — A Gazeta teve seu período de revolucionária, segundo a ótica de meia dúzia de paus-mandados do velho partidão, reunidos na rua Duque de Caxias, sede da velha Folha Capixaba. Por sorte, bem próxima do Bar Marrocos, de gratas memórias, pilhas e pilhas de um metro de cartelas de chopes, sorvidos como se fossem os últimos a regar as últimas grandes idéias que brotavam de três da tarde à uma hora da madruga para salvar a pátria amada, idolatrada, salve, salve, e — por que tanta modéstia? — o mundo.

"Revolucionária" entre aspas, achavam eles, que ocupavam porque os esquerdistas jamais perdiam — como não perdem até hoje — qualquer espaço ou qualquer bom emprego que pinte a um palmo dos bons narizes.

Foi num curto período de esquerdismo ainda pouco explicado, e jamais compreendido, de Carlos Lindenberg (o filho), então comandando o jornal do grupo do velho e saudoso senador, essa figura memorável que foi Carlos Lindenberg (o Pai).

Talvez se  explique essa revolucionice de Cariê, um renovador musicalmente autêntico e talentoso, adepto, cantor, compositor e amigo dos ídolos da bossa nova pipocando para todo canto, inclusive num dos seus maiores templos na sede da capitania, a boate do clube Vitória. Quem de se lembrar não há de? — como a escreveria Eloi Nogueira da Silva, o diretor desse período. E lá estavam o inesquecível e doce amigo Darly Santos, Nabor Vidigal Carlota, Janc — voltando de temporada no Rio de Janeiro — Audífax Nascimento, Gutman Mendonça, Edgar Gomes Feitosa, e a nova safra representada por nós, Xerxes Gusmão Neto, Cláudio Lachini, Mário Petrochi, Hélio Dórea.

De 1963 a 1971, este repórter criou, a convite de Cariê, a histórica coluna Diagonal, título-homenagem a uma composição de Johnny Alf, precursor da bossa nova. Ousada, atrevida, moderna, moleque, texto leve, divertido às vezes e quase sempre debochado, abençoada por Cariê e sempre iluminada pelo carinho do general Darcy Pacheco de Queiroz, Diagonal era o escoadouro de porradas, polêmicas, histórias engraçadas. Retratava o dia-a-dia, tinha público numeroso e expressivo nas faculdades da vida — nos, bailes da Odontologia e da Fafi, o colunista era um sucesso — com vários dos seus temas aproveitados e reproduzidos por Stanislaw Ponte Preta na Última Hora. Os polivalentes de plantão que me perdoem, mas fui o único jornalista do Espírito Santo a ser tratado respeitosamente em sua coluna diária de coleguinha jornalista" pelo também inesquecível e imortal Sérgio Porto, que tive o prazer de conhecer, em seu apartamento no Rio de Janeiro, eu e Osvaldo Amorim, logo depois da morte do também famoso jornalista e tio de Sérgio, Lúcio Rangel.

Mas, caríssimos leitores destes Escritos de Vitória, a primeira marcha de Deus, com a Família e a Liberdade, ninguém esquece. Explodiam as ameaças da revolução sindicalista de Janio Goulart, seus pelegos e toda a horda de picaretas que cercavam o ingênuo presidente. A fase "revolucionária" de A Gazeta encerrava-se abruptamente em 1964, após uma visita de Cariê ao  histórico Batalhão de Caçadores. Lá, aconselharam-no a continuar cantando bossa nova — o que ele sempre fez com méritos. O "after day" foi um horror. Pelos cantos, Eloi Nogueira e  todos resmungavam atrás dos armários empoeirados, invariavelmente com aquele ar típico de enterro a que não se queria ir, arrumavam gavetas, guardavam livros e poucas esperanças. E agora, José? — perguntava alguém repetindo Drummond. "Ir para Minas?" Mas em Minas estava o general Mourão, merda.

Nabor Vidigal, um cínico sacana, puta velha, definia seu futuro imediato: "Vou aproveitar a revolução pra ganhar dinheiro, não tem nada melhor do que uma revoluçãozinha pra gente ganhar dinheiro." E foi indo.

Binóculo, notas esportivas de Mickey, como a assinava Darly Santos, sucumbiu e o poeta foi viver temporada no Soído, levado por Hélio Dórea. Diagonal caiu fulminada pela família que marchou com Deus pela liberdade a reboque de nada mais nada menos que Adhemar de Barros, um dos "líderes da revolução". Leitor diário de Paulo Francis na Última Hora, achei um doce o Paulo Francis nomear senhoras das mais famosas do momento, ativas participantes da marcha portando terços, velas, véus de todas as cores e todos os gostos, inclusive os duvidosos, como "as desocupadas senhoras da marcha da família, com Deus pela Liberdade". Sem tirar, mas acrescentando, três dias depois repeti o conceito de Paulo Francis na Diagonal, descaradamente sem as aspas ou a citação de autoria. Foi dosagem explosiva suficiente para despertar a ira das senhoras daqui e, sobretudo dos maridos bem situados das senhoras daqui. Logo, fiquei reconhecido como o mais terrível "comunista", devorador de criancinhas, seguido pelos serviços secretos.

Fui parar na sala do sempre afável e muito querido general Darcy. Com toda a delicadeza, ele expôs a gravidade daquele momento e só então me fez compreender que eles não estavam brincando. "Meu filho" — o general Darcy sempre me tratou assim, paternalmente — "é melhor deixar passar um tempo, mais adiante a gente volta a conversar."

Exatos três meses de exílio das colunas diárias, general Darcy começou a recompor algumas coisas e pessoas. Voltei, Darly Santos também. "Mas, não carrega a mão," recomendava o sábio diretor, administrando um rebelde irresponsável num momento difícil como aquele. Tanto, que nunca tive dúvidas: não tivesse sido o general Darcy e eu teria levado muita porrada a mando do coronel Bandeira no Batalhão de Caçadores. Diagonal sobreviveu ao coronel Bandeira, que vivia pedindo a Darcy para me tirar do jornal, e a outros até 1971, quando me mudei para São Paulo levando minhas dúvidas e perplexidades. Sem jamais ter freqüentado ou participado de qualquer partido na aldeia, comunista ou não.

Do título

Pegos em flagrante pelo Ato Institucional 5 na penumbra de amplos salões do 3° Batalhão de Caçadores, em Piratininga - um paraíso onde eu servira ao Exército, ali em Vila Velha, agora voltava como editor do paupérrimo O Debate. O jornal era do MDB, mas, na verdade, mantido pelo Dr. Carlito — Carlito Von Schilgen, um dos homens mais sérios com quem tive o privilégio de trabalhar, a convite, também como seu  assessor de Imprensa na Prefeitura de Vitória.

Levado por ele, comecei a reformular o jornal e torná-lo mais palatável. Carlito fora para a oposição, acalentava sonhos políticos — pena que tenha sido um homem tão rigorosamente sério e, às vezes, injustiçado pelo jogo político — e queria dinamizar o jornal, apesar de um bando de aproveitadores do MDB. Aos poucos, conseguimos melhorar o padrão de impressão da velha máquina plana, graças ao empenho do velho Cunha, do Gerson e do Davi, astros da história gráfica de A Gazeta. Imprimíamos duas páginas de cada vez.

A redação logo se tornou referência na cidade. Esgrimindo um AI 5, nos serviços secretos — tão secretos que todos sabíamos — apregoava-se que, se fosse necessário prender os jornalistas comunistas, seria muito fácil: era só ir a O Debate e apanhá-los todos de uma vezada só. Pura falta do que fazer: toda revolução tem os malucos que merece.

É certo que ali, na redação mal arrumada do prédio do Mota (João Batista Mota, amicíssimo de Carlito), na avenida Maruípe, já desabrochava a porralouquice do mutante Rubinho Gomes, fazia tabelinha o noviço José Antônio Mansur, já pouco confiável, e se alinhavam astros do calibre de Carmélia de Souza, Milson Henriques, Jeová Barros (Alexandre Biar, outro discípulo de Stanislaw Ponte Preta), Ewerton Guimarães, Xerxes Gusmão Neto, Maura Fraga, Paulo Maia e Paulo Eduardo Torre.

De comum a todos e religiosamente freqüentado, bem ao lado movia-nos a álcool o bar do Seu Ademar. Éramos fiéis cultores do conceito anotado por Millôr Fernandes: “Quem não tem religião se confessa no bar." Toda primeira conversa de quem estava vindo para O Debate era batizada por qualquer coisa no balcão do Ademar. E as seguintes, sempre presididas por um código de redação: "Vamos molhar a palavra."

Foi assim que me inspirei e dei vida a um projeto que tentara fazer anos antes. Nascia o Jornal da Semana, o suplemento livre de O Debate, que logo atraiu as atenções dos dois personagens-título desta crônica histórica. Com o AI 5 debaixo do braço, os capitães Romão — o mesmo que andou fazendo trapalhadas no comando da Polícia Federal — e Maziero eram os censores com expediente diário na nossa redação.

A rigor, nenhum dos dois em qualquer momento da nossa convivência institucional foi autoritário, arrogante ou prepotente. Sempre nos mantivemos na base do diálogo franco, cada qual defendendo suas posições profissionais desassombradamente. Romão sempre foi atencioso e Maziero muito delicado e elegante: era um intelectual e cultivava o gosto pelas discussões freqüentes. Era casado com uma capixaba, Carmem Wanda, filha do velho desportista Gilberto Paixão.

Num dos primeiros embates, matéria do JS embutia a, palavra "merda". "Não é comum," diziam. "Trata-se de um caderno literário", apelávamos, "onde a linguagem é livre." Após um diálogo demorado e francamente inteligente, ficou a merda.

Todos nós, Carmélia, Milson, Ewerton, Maura, Paulo Torres e os demais, creio, saíamos de cada uma dessas refregas certos de que eles cumpriam uma missão imposta pelo momento que eles criaram, enquanto nós defendíamos nossas trincheiras profissionais sem qualquer ranço ideológico, com dignidade. Um dia... Toda crônica, todo relato acaba resvalando para "um dia...", que é mais ou menos o "era uma vez..." das historias da nossa infância. Ou não? Pois aqui temos também o nosso "um dia..."

...O dia em que D. Helder Câmara veio a Vitória para falar ao povo na praça da Catedral, dentro da Catedral, nem dentro nem fora da Catedral. Rezaria apenas uma missa. O jovem repórter Paulo Eduardo Torre — no seu necrológio recente omitiu-se talvez um dos melhores momentos do seu início de carreira — é escalado por mim para entrevistar D. Helder. Cercamos tudo para garantir a Paulo Torre a certeza de que faria a entrevista e, sem qualquer dúvida, uma entrevista histórica. Paulo Torre foi, viu e venceu: arrancou a entrevista do arcebispo do Recife e voltou vitorioso à redação exibindo seu troféu. Pobre da máquina suportando as porradas oriundas do entusiasmo de Paulo Torre por materializar num pobre papel jornal a entrevista exclusiva, uma entrevista histórica.

Foi um orgasmo coletivo na redação de O Debate, aquele dia. Esquecêramos de revolução, de AI 5, de Romão, de Mazziero. E até do que representava aquele personagem diante do que representavam. Só nos lembramos de bebemorar no Seu Ademar. Pouco depois, o velório. Os capelães Romão e Mazziero celebraram os sacramentos e presidiram diante de toda a redação o velório e o enterro da entrevista de Paulo Torre com D. Helder.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Imprensa – Volume 17 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Amarildo
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Oswaldo Oleari
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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