Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Carvoarias estão destruindo a reserva de Comboios

A Gazeta, Vitória - ES, 17/08/1986

Está em vigor desde o último dia sete de julho lei sancionada pelo presidente José Sarney que proíbe o desmatamento. Ela admite apenas o 'manejo sustentado’, técnica que combina a exploração da madeira com a reposição das florestas em que há interferência do homem. Uma maneira de preservar as espécies nativas e tornar permanentes os rendimentos que a natureza pode oferecer.

No Espírito Santo, porém, a destruição das matas remanescentes persiste, embora elas representem hoje somente 3% da cobertura florestal primitiva do Estado. Um dos locais preferidos dos depredadores é a ilha de Comboios, a mais antiga reserva capixaba e tida pelos especialistas como a mais importante área de preservação de restinga do litoral brasileiro.

A ilha vem sofrendo, sobretudo a partir do inicio da década de 1970, um processo de devastação de consequências desastrosas. De acordo com pesquisas realizadas para o Museu Nacional pelo cientista Augusto Ruschi, mais da metade da fauna da região foi dizimada entre os anos de 1972 e 1978. O número de árvores derrubadas é incalculável.

Os reflexos da barbárie ecológica estão nos rios assoreados, na menor ocorrência de peixes e na diminuição da área mantida sob preservação.

Ao ser criado em 1951 pelo Governo do Estado, o Parque Biológico de Comboios contava com 9.960 hectares constituídos de terras devolutas. Anualmente, a reserva biológica possui 833,23 hectares: 8% da sua área original. O pior é que o pouco que resta está ameaçado pelas carvoarias ilegais e pelo uso irracional do solo por posseiros lá instalados.

Sobreviver as motosserras, aos caçadores e à agricultura predatória é o grande drama de Comboio. Uma ilha localizada nos municípios de Linhares e Aracruz, cercada pelo mar, por lagoas, (Encantada, São João e Redonda) e pelos rios Doce, Preto, Comboios e Riacho. Um lugar cujo patrimônio zoobotânico desde 1557 atrai a curiosidade e o interesse de estudiosos de todo o mundo. Uma área ainda bela, onde se abrigam diversos animais em extinção e espécies vegetais desconhecidas e que pode se transformar num deserto se não for imediatamente interrompida a absurda escalada dos desmates.

A ilha

A ação dos depredadores é notada principalmente em Regência. Trata-se de uma antiga vila, cuja história fala de dois fatos importantes: a visita do imperador D. Pedro II (um apaixonado pela natureza e pela cultura indígena) e o episódio em que um modesto morador — o herói capixaba Caboclo Bernardo — se imortalizou ao salvar toda a tripulação de um navio estrangeiro que por ali naufragou.

A 120 quilômetros ao Norte de Vitória, Regência tem uma população de aproximadamente 600 pessoas. É um povo pobre que não dispõe de um médico sequer e vive quase todo ele da pesca. Entre as casinhas construídas uma perto da outra, três ou quatro casas comerciais, uma única escola, o altíssimo farol erguido pela Marinha, galinhas e cachorros passeando pelas ruas e a alegria das crianças que brincam na foz do rio Doce.

A maioria dos carvoeiros em atividade na ilha de Comboios fica nas proximidades da vila e do lugar em que a Petrobrás mantém um terminal portuário e vários poços de prospecção de petróleo e gás natural. Ao Sul, em Aracruz, o perigo maior não é a produção de carvão, mas principalmente as plantações de mandioca feitas por índios Tupiniquins e posseiros em terras pertencentes à Funai. Cultura essencialmente predatória, a mandioca é plantada depois de queimadas e lesa em pouco tempo o solo exaustão.

Administrados desde setembro de 1984 pelo IBDF, os 833 hectares de reserva biológicos estão cercados e — pelo menos agora — estão sendo realmente protegidos. Só não escapam de eventuais investidas de caçadores. O corte indiscriminado de madeira em sua volta se constitui, no entanto, em uma ameaça concreta para a reserva.

O último levantamento que o Instituto de Terras e Cartografias (ITC) tem sobre Comboios data de 1982. Na época existiam 160 posseiros na ilha dos quais apenas 12 possuíam escrituras. Hoje, permanece o mesmo o numero de propriedades tituladas. Mas o número de posseiros diminuiu em função da concentração fundiária. Em fazendas de até mil hectares o desmate é diário e tem ritmo industrial.

O IBDF já multou vários Carvoeiros, mas não o bastante para deter a indústria da destruição. Dezenas e dezenas de trabalhadores dedicam-se, em mais de 10 carvoarias, à dura tarefa de derrubar as árvores, transformá-las em carvão e de providenciar o embarque nos caminhões-gaiolas. Derrubar a mata é a parte mais fácil do serviço, do qual dão conta velozes motosserras. Difícil mesmo é produzir o carvão, cujo cozimento nunca demora menos de 24 horas. Embora, nos altos-fornos, seja consumido em questão de minutos..

A lei

O engenheiro florestal Gilberto Freire de Matos, responsável pela reserva de Comboios, explica o significado da lei recentemente sancionada pelo presidente Sarney (Lei 7.511, que alterou o artigo 19 do Código Florestal): "O chamado corte raso está proibido no Brasil. Ninguém pode desmatar. A não ser através de um plano de manejo, autorizado pelo IBDF, que permita a exploração da floreira sem destruí-la. Seria não acabar com uma mata de uma vez. Mas tirar a madeira hoje fazendo a reposição e adotando providências que permitam sustentar a produção para que daqui a 15 anos, por exemplo, você ainda possa tirar madeira sem ter destruído a flora e a fauna".

Antes mesmo dessa lei, entretanto, a área florestada de Comboios estava resguardada legalmente. A legislação anterior proibia o desmate sem prévia autorização do IBDF. Além disso, de 1951 a 1984, Comboios foi objeto de quatro leis específicas. A primeira criou o parque biológico. Depois, em 1982, um decreto do governador Eurico Rezende reduziu a sua dimensão de 9.960 para 414,39 hectares. Em 1983, decreto de Gérson Cantata aumentaria a área para 833,23 hectares. Finalmente, no dia 25 de setembro de 1984, era criada a reserva sob a responsabilidade da União (cuja transferência para o Governo Federal era reivindicada desde 1971).

A legislação, contudo, não parece interessar aos carvoeiros. "Quando tá bom, a gente enche umas oito gaiolas por mês", conta o empregado de uma pequena carvoaria da região. A remuneração é de Cr$ 15 por metro de carvão e, em geral, a atividade é vista como uma forma de devastar de modo rentável as terras que depois servirão à criação de gado.

Às vezes, o posseiro arrenda a propriedade para a produção de carvão. É o caso de Márcio Luiz Silva, que tem como arrendatários os carvoeiros José Bomzon e Badé Correia. Localizada próxima a ponte sobre o rio Comboios, essa é uma das maiores carvoarias da região. E é também uma das maiores propriedades (em torno de 200 alqueires, ou mil hectares).

Márcio Silva foi multado dia 29 de julho pelo IBDF.

Na última quarta-feira, apesar disso, lá estava funcionando a pleno vapor a carvoaria tocada pelos arrendatários. Isso é o que tem acontecido. Geralmente, o desmate só cessa e as carvoarias são abandonadas quando não existe mais madeira nenhuma na propriedade. Que passa então a ser do gado bovino. Assim tem sido nas terras de Luiz Carlos Gaburro, Alicio Galavotti, José dos Santos, Almir da Silva Reis, Joaquim Demécio da Silva e vários outros posseiros que estão desmatando a área ilegalmente.

Os perigos

Não são poucos os que buscam ironizar ou desdenhar toda iniciativa em defesa da fauna e da flora. No caso de Comboios, porém há uma infinidade de argumentos que podem ser esgrimidos em favor da preservação. Não bastasse o fato de se tratar de uma área em que a depredação é vedada por diversos documentos legais, lá existiam, até 1978, 20 espécies oficialmente consideradas "em vias de extinção".

Eram elas, segundo Ruschi: ariranha, tatu-canastra, preguiça-de-coleira, macuco, zabelê, gavião-de-penacho, gavião-real, gavião-de-topete, gavião-pega-macaco, jacutinga, tiriba fura-mato, papagaio-do-peito-roxo, papa-fomigas, jacu-verde, bicudo, tartaruga gigante, tartaruga-de-pente, tartaruga-de-gancho, tartaruga comum e jacaré-de-papo-amarelo.

Algumas delas, com certeza, não serão mais encontradas nos dias de hoje. De qualquer maneira, o valor científico da região é atestado por incontáveis pesquisadores. Desde 1557, quando visitada pelo francês Jean de Lery, a ilha de Comboios foi estudada por naturalistas como Saint-Hilaire, Maximilian Alexander Philipp, Prinz von Wied-Neuwied, Albérico Freire do Prado, Frederico Sellow, Lauro Travasso e, claro, Augusto Ruschi.

Este, em 1972, observou no local 448 diferentes espécies de mamíferos, aves e répteis. Apenas seis anos depois, encontraria somente 220. Há muito, aliás, os técnicos advertem para os perigos da devastação de Comboios. Em 1950, ao fazer um estudo para o Governo do Estado, Albérico do Prado dizia que a sua destruição poderia levar formação de um deserto.

Constituída por sedimentação, inclusive por solos de dunas, a ilha tinha e tem na vegetação a sua "proteção natural". O desmate das margens do rio Comboios, por exemplo, produziu tal assoreamento que o transformou em pouco mais do que uma vala. A devastação total, segundo previu em 1945 Lauro Travasso, faria da região "um novo Nordeste, com as calamidades das secas e das enchentes".

Os seus efeitos não terminam ai. O assoreamento dos rios e lagoas, obviamente, provoca prejuízo à reprodução das espécies subaquáticas afetando a procriação numa região que é, por ficar entre a barra de dois rios e numa praia semideserta, um dos trechos de maior abundancia do pescado de todo o litoral capixaba. Impediria, finalmente, a eventual identificação de espécies animais e vegetais desconhecidas.

A vegetação de restinga — toda aquela que se desenvolve em terreno arenoso ao redor do mar ou de cursos d'água — normalmente não cresce muito. Mesmo quando milenar, apresenta pouca altura. Uma das marcas de Comboios é o fato de ali terem sido encontrados gigantescos exemplares espécies típicas da mata atlântica e que de modo geral não existem nas restingas: jacarandás, cedros, jequitibás, caixetas, peroba, sucupira, etc.

Essas árvores, já tombadas e vendidas a bom preço pelos depredadores de plantão, não existem mais, para salvar o que restou, o IBDF, o ITC, a UFES, a Emater e outros órgãos formaram uma comissão. "Não adianta nada cuidar das tartarugas se está havendo desmatamento", aplicou o coordenador do projeto Tartarugas Marinhas. João Carlos Alciati Thomé.

"Com essa comissão, poderemos levantar toda a situação da área de Comboios e inclusive da comunidade que vive aqui. A ideia é dar assistência técnica aos proprietários, regularizar sua situação, fornecer assistência social aos moradores da vila, enfim, examinar toda a realidade local para fazer um plano amplo".

Essas discussões possibilitariam até mesmo o entendimento entre os posseiros de predadores e os órgãos encarregados da preservação da ilha. A situação atual, reconheçamos, é confusa. As terras são devolutas, mas estão ocupadas. O desmate, proibido, continua em escala acelerada. E até o gado, que não deveria ter nada a ver com a história, é prejudicado. Jogado num solo totalmente impróprio à agropecuária — porque arenoso e sem fertilidade para quase todas as culturas agrícolas — o gado magro visto entre Barra do Riacho e a foz do rio Doce é em si um retrato desse panorama.

Da mesma forma que há décadas a região aguarda medidas de proteção, o gado criado sem nenhum critério em Comboios prossegue vagando em inadequados pastos em busca de uma solução que só autoridades e posseiros poderão encontrar.

 

Fonte: A Gazeta, Vitória - ES, 17/08/1986
Texto: Sylvio Costa
Arquivo: Instituto Jones dos Santos Neves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2018

Ecologia

Sacolas (ou Ecobags)

Sacolas (ou Ecobags)

Porque optar pelas duráveis, como faziam nossas avós.

O mundo produz sacolas plásticas desde a década de 1950. Como não se degradam facilmente na natureza, grande parte delas ainda vai continuar por mais de 300 anos em algum lugar do planeta.

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Medidas para ajudar a salvar o Rio Doce

Especialistas sugeriram em encontro o reflorestamento das margens e recuperação de nascentes para preservar o rio

Ver Artigo
Regência é eleita a 6ª melhor praia do Brasil para surfar

O portal analisou os melhores picos para a prática do esporte, com a supervisão do surfista profissional Bino Lopes, campeão brasileiro de 2015. Fernando de Noronha, em Pernambuco, lidera o ranking

Ver Artigo
Espírito Santo assina convênio para Comboios

A reserva foi criada em 1953. A legislação que está sendo utilizada é a do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)

Ver Artigo
Farol centenário vai ser restaurado em Regência

Obras de restauração do monumento histórico, no litoral de Linhares, devem ser concluídas até o final do mês

Ver Artigo
Marinha desmonta o farol de Regência - 1998

Foi iniciado ontem, em Regência, o processo de desmontagem do farol que foi instalado no local em 1888

Ver Artigo