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Cerimônias como rituais de poder - Por Geert Banck

Capa do livro: Dilemas e Símbolos, 2011 - Autor: Geert. A. Banck

Um dos cerimoniais mais importantes em Vitória é um prédio baixo com uma entrada moderna, que remete a um hotel numa telenovela. Trata-se do Cerimonial Itamaraty, nome em que se reflete o prestígio do Ministério das Relações Exteriores com as suas recepções finas, suas cerimônias chiques.

Nesse local, por volta do fim de agosto de 1997, uma revista mensal realizava um almoço comemorativo para eivar o aniversário de sua fundação. É uma revista um tanto glossy, contendo não só materiais sociais e econômicos, mas também entrevistas com políticos. O salão está repleto deles, incluindo os três senadores do Espírito Santo, o vice-governador, vários deputados estaduais e federais e muitos prefeitos e vereadores. A maciça participação deve-se em parte à presença do presidente do Senado, o político baiano Antônio Carlos Magalhães, que é o principal orador. Antes do almoço, ele é cercado por outros políticos, aliados e inimigos políticos. Enquanto eles o "paparicam'' com seus abraços, ele "esbanja simpatia" (A aula de ACM; A Gazeta, 1-9-1997). Durante o almoço, ele demonstra seu carisma com grande habilidade: "O público [está] tão radiante, que mesmo quando, sem entrar em detalhes, ele se mostra a favor do nepotismo, o público sequer franze a testa" (ibid.), e um adversário ferrenho dele admite que Magalhães esteja roubando o show.

Por meio de uma cerimônia que era, por si só, relativamente insignificante, essa revista mensal mostrou que podia contar com políticos extremamente importantes, como Magalhães. E através desse convite, ela conseguiu reunir quase todos os políticos importantes do estado, tanto da direita quanto da esquerda. Naturalmente, nessa cerimônia a presença de Magalhães garantiu que o ritual do "próximo do poder" pudesse ser encenado com sucesso. Além da importância do ritual, sua presença deu a oportunidade de solicitar seu apoio na ajuda federal ao Espírito Santo, cujas finanças estavam com sérios problemas. Por esse motivo, o governador foi criticado por não aparecer.

Num outro caso, uma das várias universidades particulares que estão florescendo no Espírito Santo comemorava seu 21º aniversário. A cerimônia foi presidida por seu fundador, enquanto seu filho, atual presidente universidade, estava sentado à mesa de honra, assim como os principais convidados, dentre eles, os três senadores do estado. Dois deles foram homenageados com o título doctor honoris causa, enquanto o terceiro foi apontado como professor emérito, assim como o prefeito de Vitória, capital do estado. Uma Ordem de Mérito especial também foi criada para o evento. Dentre os nove homenageados estavam a presidente do Tribunal de Contas (mãe do prefeito de Vitória e, por si mesma muito influente politicamente), o presidente da Assembléia Estadual, o prefeito da cidade onde a universidade está localizada, o inspetor do Ministério da Educação, três outros políticos, um renomado e politicamente influente advogado e, por fim, o colunista social do jornal mais influente do estado (A Gazeta, 28-5-1997).

A cerimônia foi devidamente relatada na coluna deste último homenageado com umas fotos do evento. Por que será que algo que parece apenas ser um assunto educacional-familiar consegue reunir tantos políticos? Não tenho uma resposta conclusiva, mas pragmaticamente falando, dá para se pensar em proteção política e, ao mesmo tempo, no desejo de mostrar aos alunos em potencial que a universidade é bem relacionada. Esse tipo de reunião é, de certo modo, um evento de marketing, mas por que tantos políticos resolvem estar presentes? Em parte, isso tem a ver com o papel especial desenvolvido pelas universidades e faculdades particulares, que começaram a pipocar desde o início dos anos 70. Elas atenderam às necessidades de muitos políticos na obtenção de um diploma acadêmico. Ainda em 1964 Anthony Leeds mostrou que o termo autodidata era a auto-referência mais comum entre os políticos (LEEDS, 1 964, p.1324-25). Hoje, o currículo leal de um político é preferencialmente acadêmico. Na busca de suas carreiras, muitos políticos não tiveram e não têm tempo e nem, freqüentemente, capacidade intelectual para passar no vestibular de uma universidade pública. As universidades particulares, principalmente através de seus currículos de direito e economia, são uma solução. Ao mesmo tempo, os políticos podem retribuir dando suporte a essas instituições acadêmicas. Esse interesse mútuo também torna essas universidades atraentes àqueles que aspiram a uma carreira política. Assim, elas formam uma importante base de recrutamento à política, o que parcialmente explica por que tantos políticos querem ser homenageados e estar presentes. Entretanto, é também outra oportunidade de encenar arranjos políticos da hierarquia do poder. Parece que esse tipo de cerimônia, juntamente com os títulos distribuídos (sendo a maioria Ordens de Mérito especialmente inventadas para a ocasião) sugere uma proliferação não somente de "dispositivos cerimoniais", mas também das próprias cerimônias. Essa impressão é evidenciada no caso seguinte.

O dia é 8 de setembro de 1994, aniversário da fundação, da cidade de Vitória. O auditório de um hotel é o local escolhido para uma sessão especial da Câmara Municipal. Serão concedidos títulos de cidadão honorário, o que não é uma questão simples, já que cada um dos vinte e um vereadores pode sugerir três pessoas, o que dá um total de 63. Além disso, medalhas especiais de mérito foram cunhadas para o evento e serão distribuídas a seis cidadãos. O auditório está lotado de políticos e das famílias daqueles a serem homenageados. Há um alvoroço contido de abraços e apertos de mão, enquanto o sistema de som oferece um repertório de músicas semiclássicas. A banda da polícia militar, que vai tocar o hino nacional e o da cidade, está esperando pela cerimônia, assim como o público. Incluindo um atraso de 45 minutos, o evento deve durar mais de três horas. O presidente e a secretária da Câmara Municipal tomam seus lugares à mesa. A sessão especial da Câmara Municipal é aberta. Segue-se então a chamada para a composição da mesa. Primeiro, o convidado de honra, o ex-secretário da Receita Federal é chamado à mesa. Depois, o governador, dois senadores, o prefeito, o comandante da Polícia Militar e uma deputada federal que também é esposa de um dos senadores. Por fim, juntam-se a eles um ex-governador e um ex-prefeito de Vitória, ambos candidatos ao governo do estado — campanha que estava a todo vapor naquele momento. Em seguida, é feita uma chamada para as pessoas de destaque na platéia. Os hinos são tocados pela banda e cantados por todos. Antes de começar a cerimônia, a secretária faz a leitura dos nomes dos políticos importantes que, por meio de telegramas ou cartas, desejam parabenizar a Câmara nesse importante aniversário da cidade. A campanha de 1994 gradualmente aparece na lista. O Senador Fernando Henrique Cardoso, que está em campanha para Presidente do país, enviou uma longa carta, cuja maior parte, na verdade, é mera propaganda eleitoral. A secretária, que é do mesmo partido, lê todo o texto em voz alta.

Finalmente, o ritual começa. Os homenageados com as medalhas são o ex-secretário da Receita, o ex-governador, o ex-prefeito e um deputado estadual e ex-reitor da Universidade Federal. De longe, a maior categoria de cidadãos honorários é formada por políticos, incluindo o irmão de um vereador e o tio de outro. Líderes comunitários e pastores evangélicos — grupos altamente capazes de angariar votos — figuram de forma destacada. O processo é o seguinte: o vereador que propôs alguém é chamado à frente da mesa, a secretária lê a proposta e uma breve biografia do homenageado com o título ou medalha. Uma suave valsa é tocada enquanto, no caso da medalha, o vereador em questão se concentra em colocar a elaborada fita da medalha ao redor do pescoço do homenageado e então entregar um diploma emoldurado. Os cidadãos honorários recebem somente o diploma, e cada vereador entrega seus três diplomas sucessivamente. Naturalmente, abraços são dados e registrados pelas câmeras. A parte mais importante do ritual, mas ainda assim mais informal, é sempre ao final da entrega. O volume da música aumenta, e a sessão de fotos/vídeos começa: os homenageados pousam com seus diplomas exibidos na sua frente. Para os homenageados com as medalhas, há um abraço e uma pose formal com o vereador envolvido, enquanto que no caso de títulos, o vereador fica no meio dos seus três protegés. O volume da música aumenta novamente e é acompanhado por uma salva de palmas. A cerimônia é um tanto entediante e só há procedimento incomum, logo no começo, mas trata-se de algo extremamente relevante. É durante a entrega da medalha ao ex-secretário da Receita Federal. Ele é considerado um herói nacional naquele momento e após os elogios iniciais, o vereador encarregado repentinamente sugere que o ex-governador, em campanha pela re-eleição, entregue a medalha e o diploma ao ex-secretário. Há várias trocas de abraços e enquanto se ouve o ruído das câmeras, o candidato sorri exaltadamente, lado a lado com o homenageado, enquanto do outro lado do ex-secretário, o vereador tem a oportunidade de compartilhar esse moment suprême. Duas coisas se tornam aparentes. Primeiro, é clara a impressão de que aquela lista quase interminável de personalidades homenageadas soa como uma "democratização" de privilégio. Se um vereador tem o direito de submeter uma proposta, todos também devem tê-lo. Ao mesmo tempo, a lógica do personalismo põe pressão sobre cada vereador já que ele tem muitos amigos. Ele não pode favorecer muito um deles, à custa dos outros. Isso poderia lhe trazer problemas, principalmente porque quase todos os cidadãos honorários são eles próprios políticos ou, no caso dos líderes comunitários e ministros protestantes, importantes cabos eleitorais. Terceiro, a importância da maneira como o ritual é encenado — quem está próximo de quem na frente das câmeras — é mais uma vez demonstrada. Embora os títulos honorários sejam parte integrante da política municipal, a entrega da medalha de honra ao ex-secretário da Receita transcende esses limites. O protocolo é quebrado, o vereador em questão convida seu amigo e poderoso aliado — o ex-governador em campanha — para roubar o show. Eles ficam em ambos os lados do convidado homenageado, cuja aura aqueles dois políticos esperam absorver na frente das câmeras. Outra significativa quebra de protocolo ocorrida na cerimônia também está relacionada ao poder pessoal. Trata-se do momento em que a secretária, usando sua prerrogativa, faz a leitura de uma mensagem de parabenização. Ela lê uma longa carta do candidato à presidência Fernando Henrique Cardoso por extenso. Como é esperado que ele vença a eleição, essas são palavras do homem que quase certamente se tornará o próximo presidente da república. A salva de palmas ao final da leitura não é partidária: aquelas são palavras do poder. E se o "homem" resolvesse aparecer?

 

Fonte: Dilemas e Símbolos – Estudos Sobre a Cultura Política do Espírito Santo, 2011
Autor: Geert. A. Banck
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2014

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