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Clubes e Danças – Por Areobaldo Lellis Horta

Instalação da Academia Espírito-santense de Letras, no Clube Boêmio, em 1923

Quando me entendi, duas associações familiares existiam em Vitória. Clube Vinte de Maio e Atlético.

O primeiro era eminentemente dançante e tinha, então, como presidente o advogado Cândido Miranda. O segundo tinha três finalidades: educação física, danças e granfinismo, seleção social, nada de misturas. O "Vinte de Maio" não possuía sede social, realizando as partidas nas residências dos associados. Em nossa casa, por várias vezes, tiveram lugar as soireès dançantes mensais, dada a finalidade do clube, de proporcionar, apenas, reuniões dançantes, todos os meses, aos associados. Nele podiam ingressar todos quanto se recomendassem pelas condições morais, independentemente de pertencerem ao alto comércio, ou terem fortuna. O Atlético possuía sede, a princípio, nos altos do prédio que faz esquina com a atual Rua do Comércio e General Osório, onde por muito tempo funcionou a Drogaria Roubach, transferindo-se mais tarde para o prédio fronteiro ao Jardim Municipal, no qual se estabeleceu, depois, a Repartição dos Correios. Não tiveram grande duração esses clubes, conseguindo maior tempo de existência, o "Vinte de Maio".

Desaparecidas essas associações, tivemos um hiato, fazendo-se dança nos lares, motivadas por um casamento, batizado ou aniversário.

A distância foi de alguns anos antes do desaparecimento daqueles clubes e a fundação de outros.

Porém, o período da infância passam como os demais períodos da existência e, assim, um dia, surgiu um pugilo de jovens, para quebrar a monotonia dos nossos meios sociais, pela falta de um clube ao menos, com que se pudesse dar uma impressão de que, se materialmente vivíamos na estagnação, socialmente havia decidido esforço para evoluirmos. E, com os Victor de Oliveira, os Neves, mais conhecidos por catarinenses, os Prado, os Aleixo, os José Carlos, os Chaves, criaram uma vida nova em Vitória, fazendo aparecer o "Sempre Viva", o "Terpsícore" e o "Elite", que tiveram as suas fases de grande animação e entusiasmo, não pela rivalidade, mas pela emulação entre eles. Não possuíam sede própria, sendo que o "Sempre Viva" dava as soieeès mensais no foier de Melpômene, amplo salão de condições especiais para tal fim. O "Elite" e o "Terpsícore" realizavam, de regra, as reuniões dançantes na residência dos sócios. De uma feita, em que fui a uma das animadas soireès do Terpsícore, leve ela lugar na residência da família Prado, na Rua Duque de Caxias.

A propósito, relato um fato que dá uma ideia de quanto era figura de destaque, naquele tempo, um dos nossos jovens conterrâneos, como elemento preponderante em nossos meios dançantes. Esse nosso conterrâneo se encontra hoje em Montevidéu, em missão do Ministério da Agricultura, do qual é alto funcionário. Pertencente a distinta família capixaba, iniciava ele os preparatórios quando, ao ir prestar exame em português, na prova oral, um dos examinadores mandou-o à pedra. “Escreva aí”, dize-lhe o examinador: “Fazer exame é bom, mas dançar no Terpsícore é melhor”. A gargalhada foi geral, rindo também com a assistência, o próprio examinando.

Além dessas associações, um pugilo de denodados amigos da arte coreográfica, tendo à frente, Manuel Dangremon e outros, fundava o "Clube Recreativo" cuja sede social era um sobrado na rua Pedro Palácios. De todos foi o "Boêmios" o de maior duração, desaparecendo após a fundação do Clube Vitória.

Por toda parte, as danças sofreram os efeitos de uma especial evolução, modificando-se sob influências diversas. Não cheguei a conhecer lanceiros, jardineiras, calastrases e outras danças, que tiveram sua época e seus sucessos em períodos anteriores. Sou do tempo dos bailados franceses: valsa, schottisch, polcas, mazurcas e quadrilhas.

O estilo era francês, possuindo a sua imponência e atrativos, a quadrilha, bailado em quatro partes, cada qual com figuras próprias, dançando por duas filas de pares, que se estendiam no salão de fora a fora.

Há cerca de meio século o bailado francês de salão experimentou os primeiros golpes, vindos da América do Norte e com imediata repercussão e aceitação em nosso meio. A valsa francesa foi substituída em definitivo pela valsa americana e a quadrilha sofreu uma grande concorrente na quadra americana. A valsa francesa foi sempre dança ruidosa por obrigar os que a executavam, a bater com os pés no chão. Quem já assistiu à virada de uma bulandeira, pode fazer uma idéia de como se dançava a valsa francesa, Toda a elegância dos bailarinos morria naquele batido monótono dos pés.

A valsa americana veio corrigir esse mal, porque, ao dançá-la, os pares deslizam, quase sem ruído, como se estivessem patinando, mediante regras coreógrafas nem sempre obedecidas, por falta de conhecimentos teóricos.

Mesmo assim, ela suplantou e substituiu, de uma vez por todas, a valsa francesa nos salões. Já o mesmo não aconteceu com a quadra americana, a qual não conseguiu pôr no canto a quadrilha. A quadra é uma quadrilha de quatro pares. Em um salão, segundo o tamanho, pode caber um número apreciável de quadras, que dançam sobre a orientação de um mesmo marcante. Porém, embora interessante, a quadra não alcançou dominar a quadrilha francesa, pomposa e imponente, quando bem marcada e melhor dançada; divertida até às risadas quando, a certa altura, os enganos a tumultuam, obrigando os pares a voltar à primeira forma.

Entraram, mais tarde, nos salões a rancheira argentina, para substituir a mazurca, da qual possui o mesmo compasso musical, e o tango, com uma expressão sentimental mais forte que a schottich, mas guardando-lhe o compasso sem, entretanto conseguir desbancá-los.

Vale uma referência ao maxixe, música e dança eminentemente brasileira, mas que, pelo tom de voluptuosidade de que se reveste, não conseguiu entrar nos salões. Teve, entretanto, a sua época, por sinal que ruidosa, nos teatros populares, como fecho dos espetáculos.

Tais os bailados de salões, dançados entre nós, há mais de meio século.

 

Antes do mais

 

O presente trabalho, com o qual concorro ao prêmio "Cidade de Vitória", instituído pela Lei Municipal n°. 20, de 8 de setembro de 1946, é um modesto subsídio ao estudo do desenvolvimento da nossa Capital, em suas condições urbanísticas, métodos educacionais de ordem cultural e social, de costumes e tradições ao tempo de minha infância e juventude.

Se valores intelectuais do passado, como padre Antunes de Siqueira, Daemon, Afonso Cláudio e outros de idênticos assuntos se ocuparam para o conhecimento dos vindouros, o fizeram em relação às mesmas épocas de sua juventude. Deixaram, por isto, uma solução de continuidade compreendendo as duas últimas décadas do século dezenove e a primeira do século vinte. É essa lacuna, que pretendo preencher despretensiosamente, com o que a memória me conservou daquela fase de minha vida. Procurando realizá-lo, não posso fugir ao dever de uma homenagem ao berço da nossa evolução - Vila Velha — onde passei parte da minha meninice e à qual a Vitória está presa por uma série de caras circunstâncias, homenagem representada nas crônicas que dão corpo a este trabalho pelo que a seu respeito escrevi.

Vitória, junho de 1951

O AUTOR

 

Fonte: A Vitória do meu tempo – Academia Espírito-Santense de Letras, Secretaria Municipal de Cultura, 2007 – Vitória/ES
Autor: Areobaldo Lellis Horta
Organização e revisão: Francisco Aurelio Ribeiro
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2020

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