Morro do Moreno: Desde 1535
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Colonização, Fontes e Chafarizes - Por Celso Luiz Caus

Igreja do Rosário e Praça da Matriz Chafariz - 1910 - Fonte arquivos de Getrher Lima - Casa da Memória

O histórico 23 de maio de 1535 marcou a chegada de Vasco Fernandes Coutinho e sua tripulação de 60 homens. Do batismo das terras de sua Capitania habitada somente por índios, surgiu o nome Espírito Santo em homenagem ao dia dedicado à terceira pessoa da santíssima Trindade, segundo o historiador José Teixeira de Oliveira. Fundada a Vila do Espírito Santo, hoje, Vila Velha, ainda em 1535, passou de Vila à Capitania. Depois, de Província (1822) a Estado (1889).

À primeira vista, o local parecia ser a foz de um grande rio, mas era uma baía marítima entre os morros Piratininga e Moreno. Ao longe, avistaram as pequenas ilhas que, posteriormente, foram doadas a alguns parceiros. A atual Ilha do Boi a Dom Jorge de Menezes e, a Ilha do Frade, para Valentim Nunes. A do Frade tem esse nome porque, tempos depois, os beneditinos tomaram posse dela. A atual Ilha de Vitória, chamada de Santo Antônio, a maior de todas, coube a Duarte de Lemos, em 15 de julho de 1537, por sua luta vitoriosa contra os indígenas na ocupação do território. Conhecida como Ilha do Mel, Ilha de Santo Antônio, Ilha de Duarte de Lemos e Vila Nova, em 8 de setembro de 1551, batizaram-na de Ilha da Vitória pelo sucesso conseguido numa sangrenta batalha contra os índios.

Duarte de Lemos edificou a Capela de Santa Luzia na sede de sua fazenda e deu início à agricultura. Entre 1537 e 1540 construiu um engenho de açúcar, cujas plantações ocupavam principalmente a parte lateral oeste do Morro de São Francisco. Casas foram erguidas na parte mais alta da ilha, formando o primeiro núcleo habitacional. Como havia muitas "capixabas" — roças de milho, ou roças velhas, na expressão indígena — o termo capixaba passou a denominar os moradores da Ilha. Depois, ampliou-se para toda a população do Espírito Santo.

Ao que parece, Vasco Coutinho e Duarte de Lemos tiveram desavenças. A historiografia registra que os dois se encontraram em Portugal para "passar uma escritura de doação da Ilha de Santo Antônio perante o notário geral da Corte", em 22 de agosto de 1540, conforme José Teixeira de Oliveira. Duarte de Lemos só retornou ao Brasil na comitiva de Tomé de Souza, em 1550, que o nomeou delegado da Capitania de Porto Seguro.

É possível que Vasco Coutinho só tenha retornado ao Espírito Santo, em 1547, ao ser informado sobre as condições deploráveis de suas terras brasileiras. O que houve? A incompatibilidade entre brancos e índios e o desgoverno de Dom Jorge de Menezes, o substituto dos sete anos de ausência do donatário.

Diante dos constantes ataques indígenas, iniciou-se, no Brasil, o movimento de catequização dos índios. D. João III confiou a missão à Companhia de Jesus, fundada pelo espanhol Inácio de Loyola, na França, em 1534. O padre Afonso Brás, possuidor de qualidades de carpinteiro e arquiteto, foi designado para a Capitania do Espírito Santo, chegando à Vila de Vitória em abril dc 1551. Construiu uma casa, depois conhecida como Porto dos Padres, próximo ao atual Porto de Vitória e à Rua General Osório.

A Vila de Vitória, fundada em 1551, está entre as seis mais antigas do Brasil. Como já mencionado, o núcleo urbano originou-se na parte alta. Com topografia montanhosa e rochosa, suas ruas eram sinuosas e estreitas. Circundada pelo mar, a parte mais baixa sempre alagava.

Atesta o historiador Mário Freire: "A preocupação em evitar as baixadas paludosas nesta ilha, [...] e, ao mesmo tempo, o cuidado de melhor defesa contra constantes assaltos de indígenas ou de invasores teriam, provavelmente, determinado a fundação de Vitória no alto da colina."

Os jesuítas também se instalaram na parte alta da ilha e construíram sua igreja e um colégio. Em 1552, quando visitavam Vitória, o governador geral Tomé de Souza e o padre Manoel da Nóbrega encontraram o Colégio Jesuíta e a Igreja São Tiago com fase embrionária. Um ano depois, Afonso Brás foi substituído pelo padre Brás Lourenço, que chegou na mesma expedição de José de Anchieta, em 1553.

Quase uma década depois, em fevereiro de 1561, faleceu Vasco Fernandes Coutinho. Seu corpo foi sepultado na Capela Nossa Senhora do Rosário, perto da Prainha. Seu sucessor, Vasco Coutinho Filho, tomou posse em 1563, ficando no cargo até a sua morte, em 1589. Foi sucedido pela esposa, Luísa Grimaldi, a única mulher que governou o Espírito Santo por quase quatro anos. Ela doou uma área de terra aos recém-chegados frades franciscanos para que construíssem o Convento de São Francisco, no Morro da Fonte Grande.

Na encosta do morro foram erguidas a residência e a capela e, na parte mais alta, o convento, iniciado em 1591, pelo frade franciscano Antônio dos Mártires. O morro foi batizado de Fonte Grande por possuir uma das maiores fontes de água da região. Foi a primeira construção abastecida com água canalizada em domicílio, em Vitória, a partir de 1643. Descreve o historiador Luiz Derenzi: "O guardião frei Paulo de Santo Antônio deve ter sido o primeiro entendido na arte de nivelar, topógrafo, digamos assim, na Vila de Vitória. Foi o construtor do aqueduto que trouxe água da Fonte Grande para a cozinha do convento.”

A gestão de Luísa Grimaldi registrou outro trunfo: a vitória sobre a invasão de Thomas Cavendish, o corsário inglês expulso da Ilha, em 1592. Naquele mesmo ano registrou-se a construção de dois fortins no lugar mais estreito da baía, em frente ao atual Morro do Penedo, então chamado Pão de Açúcar. Noventa anos depois, em 1682, construiu-se, no local, o Forte de São João para defender a entrada da baía.

No início do século XVII, o aspecto da ilha permanecia semelhante ao do início da sua ocupação: casas construídas de taipa, cobertas com sapé ou palha de pindoba formavam o núcleo urbano. O desenvolvimento da ilha ocorria de maneira lenta, fruto de sucessivas administrações mal preparadas, descaso do Governo de Portugal, tributos cobrados para recuperar as finanças portuguesas e constantes invasões.

Em 1674, a Capitania, decadente pelo desinteresse dos herdeiros de Vasco Coutinho, foi vendida ao coronel Francisco Gil de Araújo. Ele reconstruiu os engenhos e o Forte São João, já que este sofrera muitos danos na batalha contra os holandeses.

Na entrada da baía, em Vila Velha, edificou-se o Forte São Francisco Xavier, onde hoje, está a guarnição do Exército. Mesmo com toda disposição, Francisco Gil de Araújo não conseguiu erguer a Capitania. Mudou-se para Salvador, onde faleceu em 1685.

No final do século XVII, a situação ainda era de extrema pobreza. Diante desse cenário, Derenzi traduz: "Fecha-se o século com mais um compasso de espera mortificante. E a vila não se faz cidade, sem ruas, sem escolas, onde as notícias, de longe em longe, chegam com os veleiros arribados e por bandos afixados pelos capitães-mores impertinentes." O único destaque fica para as obras dos jesuítas e dos franciscanos.

A população, em 1751, era de 1.390 habitantes, quase o dobro do quarto do século anterior. Em 3 de setembro de 1758, surgiu, em Lisboa, uma onda de protestos contra o monopólio do vinho, época em que o Rei Dom José sofrera um atentado. A culpa por fomentar tal rebelião foi atribuída aos jesuítas. Um ano depois, em 3 de setembro de 1759, sob a influência do ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, publicou-se o decreto de expulsão dos jesuítas de Portugal e de suas colônias. O decreto tachava aqueles religiosos de traidores, rebeldes e adversários da Coroa portuguesa. Em 1760, os jesuítas foram expulsos do Espírito Santo, a exemplo do que ocorreu no Brasil.

No final do século XVIII, a população da Vila de Vitória contava com 7.225 habitantes, dos quais 4.898 eram escravos.

No início do século XIX, com a queda dos regimes absolutistas e o desejo de países — como a França e a Inglaterra de conquistarem novos mercados — Portugal anunciou nova diretriz: priorizar a ocupação do interior, abrindo estradas e ligando os núcleos povoados na colônia brasileira. Parte dessa missão coube a Francisco Alberto Rubim, nomeado em 12 de junho de 1812, responsável pela abertura de parte da atual BR-262.

Até parte do século XIX, o Espírito Santo pertencia à jurisdição da Bahia. Sua separação foi assinada em 1809. De acordo com Derenzi, "[...] na Vila de Vitória, os mangues, os banhados urbanos, as fontes de água potável, o aspectos das casas, as praças e os cais de atracação de barcos, reclamavam providências, necessárias ao conforto dos pobres moradores, insulanos."

Coube a Rubim aterrar alguns alagadiços, facilitando a locomoção dos pedestres, reparar as fontes de água potável, levantar a planta da zona urbana e realizar um novo censo populacional da Capitania, que contava com 24.587 almas, incluindo 12.100 escravos. Eram 3.729 casas e 75 engenhos. Rubim governou o Espírito Santo durante sete anos.

Proclamada a Independência do Brasil, a Ilha de Vitória passou à categoria de cidade, em 17 de março de 1823. Posteriormente, ficou conhecida como Vitória, Cidade Presépio.

Em 1828, na antiga Rua São João, atual Barão de Monjardim, foi construído o primeiro chafariz do Estado. A água brotava de fontes da mata do Maciço Central, do Morro do Vigia. Foi restaurado em 1938. É o único que restou. A cidade tinha cerca de 900 casas.

Em Vila Velha, mais precisamente na orla da Prainha, a água era obtida da Fonte de Inhoá, considerada de excelente qualidade. Inhoá, em tupi, significa centopeia. Em 1844, preocupado com a saúde pública, o vice-presidente da Província, José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, disse em seu pronunciamento à Assembleia: "Julga a Câmara da Vila do Espírito Santo que as obras mais necessárias àquele município são [...] a pequena ponte que dá passagem para a fonte de Inhoá, e o conserto desta fonte, cujo mau estado faz com que se misture a água potável com as de lavar, o que muito deve prejudicar a saúde pública.”

A Fonte de Inhoá foi tão importante que recebeu a visita do imperador D. Pedro II, em 28 de janeiro de 1860. A agenda imperial incluiu também o Convento da Penha, a Igreja do Rosário e a Câmara.

Pouco a pouco, a pioneira fonte de Vila Velha ampliou seu status e passou a ser canalizada. Primeiro, virou caixa d'água de Inhoá, cuja obra foi sancionada (lei n° 25) pelo presidente da Província, Francisco Ferreira Coelho, em 1871. O custo girou em torno de 1:386$000 réis. Dois anos depois, em contrato firmado com Henrique Gonçalves Laranja, Vila Velha teve água canalizada da Fonte de Inhoá para o chafariz da Praça da Matriz.

Em Vitória, no final do século XIX e início do século XX, o abastecimento de água era feito por meio de chafarizes e por carroças, que transportavam água em barris. Quem necessitava de água enfrentava filas, munido de baldes, panelas, talhas ou latas. Em tempos de estiagem, os moradores buscavam água em canoas no Rio Marinho.

Eram cinco chafarizes: da Fonte Grande, da Capixaba, da Lapa, da Ladeira do Chafariz e de São Francisco, cujas águas foram canalizadas de fontes da encosta que circunda a baía de Vitória. Além da sua função pública, os chafarizes eram também monumentos artísticos e arquitetônicos.

Após a proclamação da República, a nova Constituição Política do Estado foi proclamada em 2 de maio de 1892. No dia seguinte, José de Melo Carvalho Muniz Freire assumiu o Governo. Com a nova Constituição, foi extinta a Intendência e criado o Governo Municipal de Vitória. Cleto Nunes Pereira foi eleito para presidir o Conselho Municipal, em 27 de novembro, tomando posse no dia 19 de dezembro.

Após muitos anos de insucessos, somente em 1891, surgiram os primeiros estudos para o sistema canalizado de abastecimento de água. Foi assinado contrato com a Companhia Brasileira Torrens, que apenas iniciou a construção do alicerce do reservatório de Santa Clara, em Vitória, além de uma pequena represa no Rio Formarth (era assim a grafia na época), em Viana. A Torrens abandonou a obra, rescindiu o contrato e, mais uma vez, frustrou a expectativa da população.

A canalização das águas da Fonte Grande — para a construção do Reservatório de Santa Clara — começou no Governo de Muniz Freire (1892-1896) e chegou a ter até pedra fundamental, datada de 23 de outubro de 1893. Porém, nada prosseguiu. O único imóvel que dispunha de água encanada era a fábrica de cerveja Serrat & Schimidt, construído em 1884. A água era da Fonte dos Cavalos.

Um detalhe que chamava atenção era o apelido dado aos carregadores de dejetos, "Os Tigres", que lançavam os dejetos nas marés durante a noite.

 

Fonte:  Das Fontes e Chafarizes às Águas Limpas – Evolução do Saneamento no Espírito Santo – 1ª edição Cesan, 2012
Autor: Celso Luiz Caus 
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2019

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