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Complexo cultural da panela de barro

Índio Guarani

A panela de barro é um artesanato confeccionado a partir de diversas técnicas da cerâmica. No Brasil existem várias tradições de cerâmicas populares, principalmente no litoral de Santa Catarina, Bahia, Pernambuco e Ceará, cuja cerâmica é confeccionada geralmente em torno, engobada com tintas industriais e queimadas em fornos. No Espírito Santo, a cerâmica de Goiabeiras se destaca em função da persistência de sua técnica de confecção, por ser utilitária e pelo uso de matérias primas naturais, além de estar associada à outras tradições da cultura popular.

A cerâmica é uma das tecnologias básicas desenvolvidas a partir das mudanças culturais ocorridas após a domesticação das plantas e dos animais, a chamada Revolução Agrícola. Constitui-se num dos primeiros elementos da cultura material do homem, que a partir daí teve o domínio completo de uma matéria prima e a transformou de acordo com sua vontade. A cerâmica, juntamente com a metalurgia (as duas grandes “artes” produzidas com o auxílio do fogo),... “está presente em todos os lares, humildes ou aristocráticos...” (Levi Strauss, 1986. 37) de quase todas as culturas do mundo moderno.

Ao longo da história várias culturas têm a definição de sua identidade baseada na maneira de confecção e nos estilos de decoração da cerâmica. As técnicas arqueológicas, além da descrição dessa tecnologia, permitem determinar e definir a cronologia dessas culturas a partir dos estilos de decoração.

A cerâmica chegou em tempos pré-históricos no Brasil. Os ceramistas, na grande maioria, viveram em florestas ou savanas, fato que tornou a metalurgia culturalmente desnecessária, consequentemente, foram culturas que não utilizaram o metal.

No Espírito Santo, um registro de cerâmica no Sítio Arqueológico do Areal, localizado nas proximidades do morro Mestre Álvaro, na divisa dos municípios de Vitória e Serra, comprova que populações pré-históricas ceramistas estiveram na região litorânea há cerca de 2.500 anos. Com a cerâmica chegou também a mandioca, que se constituiu num dos principais alimentos dessas populações e de outras que vieram a seguir.

A cerâmica arqueológica encontrada no Estado do Espírito Santo está classificada em três tradições, cada uma representativa de uma cultura indígena distinta:

a)  A Tradição Uma tem sua área geográfica de ocupação desde Vitória até o sul do Estado e a data mais antiga de seus vestígios chega aos 2.500 anos AP. Devido à dispersão geográfica e às características da cerâmica, as populações pré-históricas podem ser filiadas à família linguística Puri-Coroado.

b)  B) A Tradição Tupiguarani tem os sítios arqueológicos localizados em todo o litoral do Estado e nas margens dos principais rios do Estado. No litoral sul, município de Piúma, foi encontrado o sítio mais antigo dessa tradição: tem mais de 1.200 anos. É uma cerâmica bem descrita etnograficamente, sendo atribuída aos índios falantes da língua tupi-guarani, cujos representantes no Espírito Santo são os índios Temimino, Tupinambá e Tupinikim.

c)  A Tradição Aratu, cujos dados arqueológicos são encontrados entre Vitória e o norte do Estado e no interior ao longo de todos os rios daquela região. Uma datação feita em um sítio arqueológico encontrado no município de Linhares revela que a 1.300 anos AP., essa população já vivia em grandes aldeias. Essa cerâmica é a mesma produzida pelos índios Pataxó, Malali, Cumanacho, Machacali, dos quais os Malali viviam no norte do Estado do Espírito Santo.

 

Com a presença portuguesa no Espírito Santo, essas tradições ceramistas foram sendo aculturadas, mas a base de sua tecnologia foi preservada e teve continuidade na feitura da cerâmica que originou o complexo que foi denominado de “panelas de barro”.

A persistência de inúmeros elementos da cultura popular que se concentraram na região litorânea do Espírito Santo e as panelas na região de Goiabeira, Vitória, deve-se, principalmente, ao sistema de colonização imposto pela Coroa Portuguesa a partir do início do Século XVIII devido à proteção do litoral e, principalmente, pelos empecilhos colocados pelo Governo da Bahia à penetração de populações para o interior do Estado. Essa medida visou à proteção das “... minas de São Paulo...” (Oliveira, 1975) e o retorno de todas as pessoas que se encontravam trabalhando nas lavras de ouro, principalmente na área do rio Casca (rio da bacia do rio Doce), no atual Estado de Minas Gerais. O Espírito Santo serviu de “... trincheira para a defesa das minas gerais...” (Novais, 1976) e seu território passou a ser citado nos documentos oficiais sob a denominação de “áreas proibidas”.

Com esse isolamento e a consequente estagnação econômica, as etnias se miscigenaram, especialmente as indígenas e africanas, criando uma cultura popular peculiar que se fortaleceu principalmente na expressão folclórica e no artesanato. Mas, o denominado complexo cultural das panelas de barro não tem seu início registrado na história. A sua sobrevivência é fruto de uma persistência de técnicas indígenas que, ao longo do tempo, sofreram poucas alterações.

A produção artesanal da cerâmica popular de Goiabeiras foi contínua porque sempre foi utilitária. Algumas alterações de caráter funcional, como as alças nas proximidades dos lábios das bordas, detalhe raramente encontrado na cerâmica indígena, deve ter sido uma adaptação para uso das panelas em fogões e, posteriormente, para uso em mesas.

Pela análise técnica da atual cerâmica produzida na região de Goiabeiras, podemos afirmar que essa é uma mistura de técnicas das tradições pré-históricas Tupiguarani e Uma, sobressaindo-se as usadas pela Tradição Uma.

A filiação cultural da técnica de cerâmica da panela de barro foi uma questão controversa. Nas décadas de 50 e 60, alguns estudiosos do folclore regional definiram-na como uma técnica herdada de populações africanas, enquanto outros atribuíram-na à influência lusitana. Com a análise dessas hipóteses do ponto de vista arqueológico e etnográfico e sua comparação com a cerâmica popular que ainda é produzida nos municípios de São Mateus e Conceição da Barra, esta sim caracteristicamente de filiação africana, é possível afirmar que na cerâmica de Goiabeiras encontram-se poucos traços africanos. A cerâmica popular de filiação africana, como encontrada no norte do Estado, utiliza o chamado pseudo-torno e a queima em forno. Essa ainda apresenta traços como a cor e o tratamento de superfície, totalmente diferentes daquela confeccionada em Goiabeiras. Já a hipótese de uma origem lusitana não pode ser considerada uma vez que, desde o início da colonização, a cerâmica portuguesa já utilizava o torno e técnicas de engobagem ao estilo dos vasilhames europeus da época.

São raros os registros históricos que citam outros locais de confecção de panelas de barro. O caráter utilitário das panelas, que continuam a ser usadas pela maioria da população e em todos os restaurantes de comida típica capixaba, e a continuidade da confecção na mesma área geográfica, podem explicar a ausência de outros registros históricos.

Assim, os registros etnográficos da produção de cerâmica no Espírito Santo no Séc. XIX Maximiliano de Wied registra sobre Nova Almeida o seguinte: “... Os índios tiram a sobrevivência das plantações de mandioca e milho, exportando, igualmente, um pouco de lenha e de artigos de cerâmica, e mantém uma pesca nada desprezível...”. Portanto, naquela época, a cerâmica de tradição indígena ainda era uma prática comum encontrada no litoral.

Pesquisas arqueológicas identificaram dois antigos locais de fabricação de panelas de barro. Um, localizado em Goiabeiras velha, totalmente descaracterizado pela urbanização e por aterros artificiais; outro, que está preservado, localizado em terrenos do Aeroporto das Goiabeiras.

Na década de 50, a produção tinha característica artesanal familiar, tanto na obtenção das matérias-primas quanto na sua confecção e venda. As matérias-primas (argila, tanino e madeira para queima) eram obtidas com relativa facilidade e com o transporte através de canoas, já que as fontes desses recursos sempre foram localizadas nas proximidades de canais navegáveis.

A partir da década de 60, quando registra-se o aumento populacional da região da Grande Vitória, a invasão de mangues e a construção de casas populares em Goiabeiras, a produção artesanal começou a sofrer algumas alterações. Um exemplo foi a especulação imobiliária, com a construção de conjuntos residências nas proximidades das áreas tradicionais de produção de cerâmica. Por outro lado, o aumento do fluxo turístico, com a abertura da rodovia BR 101, incrementou o uso de panelas de barro em bares e restaurantes, expandindo a sua venda. Esses fatos levaram à primeira “quebra” na produção artesanal das panelas de barro porque surge um núcleo de produção sem as característica familiar mas preservando suas técnicas.

O primeiro “paneleiro” a criar esse novo sistema foi Arnaldo Goes Ribeiro, que passou a utilizar algumas artesãs como empregadas ou sub-empregadas na produção e, inclusive, colocando homens na modelagem das panelas, alterando algumas formas tradicionais e criando outras de acordo com a necessidade do mercado como por exemplo, a fabricação de peças pequenas para servir de cinzeiros, molheiras, etc.

Segundo trabalhos publicados por folcloristas nas décadas de 50 e 60, as artesãs produziam uma série de vasilhas de diversas formas para uma variedade de usos como jarras, panelas, panelas com alça, chaleiras, assadeiras, vasos, castiçais e bules.

Uma artesã já falecida, Ana Ferreira da Conceição, mais conhecida como Mãe Ana, confeccionava, além das panelas de barro, figuras de bichos em cerâmica (aratus, caranguejos, bois, etc.) de caráter lúdico e santos de barro, Essa artesã teve projeção nacional, depois de descoberta pelos jornalistas Marien Calixte e Nabor Vidigal e pelo escultor Maurício Salgueiro. Coleções de seus bichos e santos foram expostas no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Atualmente, o Centro Cultural Carmélia Maria de Souza possui uma dessas coleções.

O Atlas Folclórico do Espírito Santo, publicado em 1981, apresentou um levantamento do artesanato do Estado, no qual não aparece uma categoria específica para as panelas de barro de Goiabeiras. O artesanato de barro foi pesquisado segundo uma categoria genérica de “Artesanato em cerâmica”. Esse diagnóstico mostrou que na região da Grande Vitória se concentrava o maior número de artesãos. A matéria-prima, principalmente a argila, era obtida gratuitamente ou pela compra. A grande maioria das artesãs aprendeu a fazer panelas de barro com membros da família, ajudando outras pessoas ou simplesmente olhando a maneira de fazer. A maioria das artesãs era mulheres situadas em uma faixa etária entre 40 e 59 anos Para algumas famílias, essa produção artesanal era a principal atividade econômica, sendo feita normalmente no próprio local de fabricação.

O diagnóstico apresentado no Atlas Folclórico, relativo às características sociais, notadamente quanto ao artesanato em cerâmica, foi confirmado em pesquisas realizadas pelos autores e, principalmente, pelos depoimentos das paneleiras:

“... Aprendi a fazer panelas com minha mãe, só com ela que eu aprendi, Ah, fiquei olhando ela fazendo, aí eu aprendi. Comecei fazê panela, porque tem tipo de panela, tem frigideira, né? E tem panela...” (Gilda Gomes Campos).

É indispensável assinalar as ligações das paneleiras com outras manifestações da cultura popular, a exemplo do congo e jongo. O congo e jongo são folguedos de origem africana que se impuseram como tradição popular, inclusive com as populações indígenas. Essa influência está presente em quase todo o Estado e o exemplo mais significativo está entre os remanescentes dos índios Tupinikin de Caieiras Velhas, que têm no congo o seu principal folguedo, ligado algumas vezes a rituais religiosos.

O congo, como manifestação folclórica, juntamente com a Folia de Reis, cuja ritualização ocorre no dia 6 de janeiro, dia dos Reis Magos, também é um dos elementos do complexo cultural das paneleiras.

O canto de entrada e a apresentação do Congo de Goiabeiras louva os santos de devoção, identifica o bairro de Goiabeiras e enaltece as panelas de barro.

 

“Congo de Goiabeiras

Congo de devoção

Congo da União, ê, a

Valha-me São Benedito

E a virgem da Conceição

 

Samba criolo

Deixa sambá

Panela de Barro

Acabou de chegar”

 

A ligação do congo com as paneleiras revigorou ainda mais os traços da cultura popular. Essa ligação é reivindicada por Arnaldo Gomes Ribeiro, dono de um dos galpões onde se rearticulou um grupo de congo e hoje são realizados ensaios e algumas apresentações.

“... Antes tinha uma banda de congo aqui em Goiabeiras que foi feita por um sergipano, que comprou algumas barricas de vinho e fez os tambores. Daí, em 1973, a banda quase acabou, os instrumentos estavam todos estragados aí eu trouxe essa banda de congo aqui para o galpão...” (Arnaldo Gomes Ribeiro).

Sobre a importância do congo para as paneleiras, a artesã Valdinéia da Vitória se reportou da seguinte maneira:

“... Tem tudo a ver, eu acho que tudo faz parte da cultura do Estado, alguns que tocam hoje, a mãe, os avós, até mesmo os esposos fazem panelas. Eu não sou do congo, acho muito bunito...”

E o depoimento de Ivanilda Correia mostra o significado do congo a partir da institucionalização e comemoração do “dia das paneleiras”:

“... O congo das paneleiras é quando faz a festa das paneleiras... ele é o primeiro pra subi no palco... primeiro é a presidente, depois vem ele, pra dá as entrevista, e fazê congo e cantá. Ele é muito importante. Sem ele ali nas paneleiras não é assim uma atividade de fazê panela. Eu acho que ele é muito importante...”.

Para a população do Estado do Espírito Santo, a panela de barro funciona na culinária de forma contínua e natural, na qual há uma identidade muito forte, principalmente quanto ao fazer a muqueca, cuja receita centenária não se altera.

As panela de barro têm nos restaurantes de culinária regional um local tradicional de divulgação. Ao ver o conjunto (panela e prato típico), o turista se sente incentivado a comprá-las. Alguns restaurantes as vendem ou indicam locais de venda. As panelas de barro, assim, têm uma função primordial no marketing da cultura popular.

As panelas de barro de Goiabeiras, principalmente pela sua funcionalidade, acabaram sendo utilizadas de diversas maneiras nos restaurantes especializados em comidas típicas de países como Portugal, Japão e China, especialmente aqueles em que há necessidade de manter a comida aquecida por mais tempo.

Além disso, algumas panelas de barro são utilizadas de outras maneiras, principalmente com fins ornamentais ou decorativos, como vasos para plantas, decoração de armários, conjunto de tecelagem com macramê e até para depósito de revistas.

Para diferenciar as panelas de barro de Goiabeiras com as de outros centros de produção, principalmente o de Guarapari, sem compromisso com a tradição e utilizando outras técnicas, a Prefeitura Municipal de Vitória criou um selo de autenticidade, permitindo aos turistas distinguir a panela de barro tradicional das demais.

 

Fonte: Memória Viva – As paneleiras de Goiabeiras, 1997
Texto e Pesquisa: Celso Pereira, Jaime Roy Doxsey e Roberto A. Beling Neto
Fotos do livro: Edson Ghagas
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2012 

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