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Convento da Penha – Turismo de fé e História

Convento da Penha, capela Foto: Edson Quintaes

Vítima de invasores holandeses, ladrões contemporâneos, raios perdidos e poluição, o convento se mantém firme, dominando a baía de Vitória nesses quatro séculos de sua história.

Há quatrocentos anos, um frade franciscano leigo — sem ordens sacras —, natural de Medina do Rio Seco, reino de Castela, Espanha, desembarcou no Brasil seguindo ideais missionários de catequese e conversão religiosa dos então selvagens habitantes, os índios. Tendo como primeira parada Salvador, Bahia, onde parece ter estado tempo suficiente para a construção de um santuário, Frei Pedro Palácios dirigiu-se ao Espírito Santo, aportando na Vila Velha em 1558.

Se estabeleceu sua primeira morada numa cabana no sopé da montanha — atual campinho — ou na gruta ao pé do morro — Prainha —ainda é motivo de discussão entre pesquisadores. O fato é que no campinho, e com ajuda dos moradores, construiu uma pequena capela, a qual dedicou a São Francisco de Assis, colocando nela, sobre o altar, um painel de Nossa Senhora das Alegrias, que trouxera de Portugal, e uma imagem do padroeiro: era lá onde dormia e recuperava suas forças depois de cumprir sua Santa Missão. Nessa capela, Frei Pedro Palácios veio a falecer, a 2 de Maio de 1570.

A capela, reedificada em 1958 numa iniciativa do Frei Alfredo Setaro, ainda possui uma imagem contemporânea de São Francisco em madeira, ladeada por dois candelabros; atrás da estátua, um sacrário, e, na lateral da capela, duas lápides: a do Frei Gilberto Hilebrand (1910 - 1989) e do Frei Aurélio Stulzer (1908 - 1994). Na década de 40 existiram ainda dois cruzeiros, onde, à noite, penduravam lanternas que serviam de guia aos navegantes.

Uma lenda muito difundida diz que frei Pedro decidiu edificar uma ermida a Nossa Senhora no alto dos 154 metros da pedra e no meio de duas palmeiras na época existentes, devido ao desaparecimento por três vezes do painel da Virgem da capela de São Francisco, tendo sido encontrado sempre no alto da rocha e no meio das palmeiras.

Conta-se ainda a respeito de um sonho em que o missionário, ainda em Portugal, viu um rochedo coroado por duas palmeiras, o qual identificou com a penha de Vila Velha, quando chegou ao Brasil.

Uma hipótese mais racional sobre a escolha do alto da rocha para a construção da primitiva ermida nos é fornecida pelo Frei Agostinho da Cruz quando este relata ter Frei Pedro Palácios vivido num ermitério na Serra da Arrábida, em Portugal, antes de aqui chegar. Este ermitério parece ser construído sobre rocha com as mesmas características do morro da Penha, tendo o frei se identificado com o local assim que o avistou.

A primitiva ermida, que era de abóboda pequena, onde chegava-se subindo 55 degraus lavrados na pedra, achava-se realmente colocada entre duas palmeiras, foi batizada, por isso, de "Ermida das Palmeiras".

Senhora das Alegrias — As palmeiras existentes hoje nada têm a ver com aquelas primitivas, visto que as palmeiras imperiais só seriam trazidas para o Brasil em 1808.

Nicolau Afonso, administrador do convento após a morte de frei Pedro Palácios, aumentou a então fundada ermida para uma primorosa capela com bem ornado frontispício e torrinha.

Depois disso, várias reformas foram executadas, ampliando, restaurando ou modificando a edificação. Em 1639, já havia um muro de resguardo até o peito para se fazer em procissões na capela e, em 1888, Joaquim José Silva Neto descreve o convento como "edifício retangular flanqueado por muralhas ou plataformas de castelo da Idade Média, com zimbório, campanário e frontispício sul com alpendre envidraçado". Hoje, este alpendre, que é a ante-sala do Santuário, encontra-se fechado com paredes de tijolo rebocado, aberto por janelas. A forma que o convento tem hoje, data aproximadamente de 1777.

O nome "Penha" refere-se ao rochedo onde está colocado o convento, não devendo ser confundido com a Nossa Senhora da Penha "importada" da Europa, cujos atributos são diferentes e cuja festa é celebrada entre setembro e outubro.

A Virgem cultuada no convento de Vila Velha é, na verdade, a Nossa Senhora das Alegrias ou dos Prazeres mantendo-se a tradição de sua festa celebrada anualmente na segunda-feira depois da páscoa.

O painel original de Nossa Senhora trazido de Portugal por Frei Pedro Palácios é de autor desconhecido tendo sido restaurado em 1945 pela SPHAN — Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional — que o atribuiu à escola Castelhana do sec. XV. A Empresa de Correios e Telégrafos até transformou-a em selo comemorativo no início da década de 70. Localiza-se hoje na capela-mor do Santuário, na parede à direita do púlpito e é considerada a tela a óleo mais antiga do Brasil. Uma cópia pode ser apreciada no corredor maior do convento e outra num nicho no Portão Velho da Penha — primitivo caminho para o Santuário — imitando a suposta primeira habitação do frei missionário.

Em 1569, Frei Pedro Palácios decidiu substituir o painel por uma imagem sacra, encomendando-a em Portugal. Tendo 76 cm de altura, de madeira, menino Jesus nos braços, ambos coroados por coroas de ouro doadas por senhoras capixabas, escultor desconhecido, esta já possuiu muitos ricos atributos estando hoje mais modestamente vestida. A imagem original — restaurada várias vezes, uma delas pelas mãos dos próprios franciscanos— encontra-se no altar-mor do Santuário. Três cópias fac-símiles da Virgem já foram executadas: uma encontra-se na atual secretaria do convento, sendo esta a que peregrina pelas paróquias e em festas religiosas. Uma outra encontra-se no Paraná e a terceira em Monza, na Itália.

O Convento da Penha já funcionou como centro de estudos de língua indígena e tinha escravos que serviam como músicos, construtores, esmoleres, cozinheiros, lavadeiras, trabalhadores de lavoura ou até mesmo como fonte de renda. As ruínas das senzalas podem ainda ser vistas ao pé da escada que desce do patamar em frente à atual secretaria.

Existiam antigamente ainda casas de romeiros para aqueles que vinham homenagear a Virgem da Penha. Parece que ficavam na planura — campinho — e ainda no atual edifício onde funcionava a lanchonete.

No alpendre — ante-sala para o Santuário — admira-se uma Pietá em madeira do escultor Carlo Crepaz e uma pia batismal de cedro e jacarandá encimada pela figura de São João Batista. O convento já foi muito procurado para casamentos e batizados não celebrando mais estes cultos atualmente, por motivos pastorais e teológicos.

O convento, hoje — O Santuário também oferece um rico acervo artístico, como um crucifixo barroco do século XVII; imagem do Senhor Bom Jesus — altar, lado esquerdo —, que se presume seja do século XIX; altar de Sant'Ana, existente desde 1865; altar-mor em mármore, com imagens de São Francisco de Assis e Santo Antônio, além de retábulos pintados por Vítor Meireles representando cenas relativas à história do convento, e, mais abaixo, pinturas que representam o Sagrado Coração de Jesus e Maria, ladeados por anjos. Estas últimas pinturas são de autoria de uma filha de Benedito Calixto, paulista, nascido em 1853, estudioso da história e tradições capixabas e que tem algumas produções expostas no corredor maior do convento. As quatro obras expostas do pintor Benedito Calixto são belos exemplos de admiração ao convento contando cada uma delas uma parte da história do mesmo. Infelizmente, placas informativas que antes existiam explicando seus significados foram substituídas por simples títulos. Existem anacronismos em alguns quadros (como em "A Visão dos Holandeses", que retrata um fato ocorrido em 1643, mostrando o convento na sua fase final de construção, o que não condiz com a época), mas que em nada ofuscam a beleza e o valor artístico das obras.

Vítima de invasores holandeses, raios perdidos e poluição e ladrões contemporâneos, o convento mantém-se firme, dominando a baía de Vitória durante os quatro séculos de sua história.

Mesmo tombado como patrimônio arquitetônico cultural pelo SPHAN em 1943; mesmo sendo um símbolo do estado do Espírito Santo, alguns problemas ainda devem ser solucionados para que o conjunto de edificações continue mantendo suas características históricas e religiosas e torne-se também um atrativo turístico de relevância nacional.

Consta em documentos que, no último ângulo da ladeira das Sete Voltas, existiu uma capela do Bom Jesus que acabou tombando no decorrer dos tempos. Ao construir-se o atual palanque no campinho, encontraram algumas pedras que, presume-se, foram da capela, estando agora sepultadas pela construção moderna. A atual lanchonete, com seu estilo moderno destoa completamente do conjunto arquitetônico secular do convento e um projeto para um teleférico no local é algo que torna-se absurdo cogitar.

O que deve ser observado é que o monumento, além de religioso, é também histórico e artístico, como descreve o tombamento. Existe a necessidade de uma separação destes aspectos, em nível administrativo e religioso. O convento tem um potencial turístico inegável, já tendo servido até mesmo como locação para filmes nacionais.

Um museu sacro e a reativação da Sala dos Milagres, onde colocavam-se os ex-votos, já faz parte dos planos futuros dos proprietários, ordem franciscana, que conta ainda como apoio da Associação de Amigos do Convento da Penha. Uma sugestão seria ainda uma "Sala do Tesouro", funcionando junto com o museu, onde estariam abertos à visitação pública relicários, resplendores ou vestuário, que contam a história do convento. A cobrança de uma quantia simbólica para visitação em nada afetaria o ideal religioso da administração e estaria ainda auxiliando em pequenas reformas e manutenção do convento. Uma pessoa encarregada de receber visitantes, orientar romeiros em relação às atitudes a serem tomadas no Santuário e devidamente preparada para fornecer informações sobre o convento é outra atitude que caracterizaria uma estrutura turística de primeiro mundo. Poder-se-ia ainda pensar em horários de cultos separados dos horários de visitação e stand de divulgação turística em local apropriado (talvez na moderna lanchonete).

Algumas beiradas da estrada de veículos devem ser reformadas com urgência para que não caiam em breve e o cuidado para a não "modernização" excessiva do patrimônio deve estar sempre em primeiro plano.

Algumas entidades particulares, governo do estado e órgãos estaduais colaboram para o bom andamento e conservação do local e são também indicados para as melhorias no convento.

Interesses à parte, e que sejam voltados para um bem comum, a residência da padroeira do Espírito Santo — declaração aprovada pelo Papa São Pio X — pode tornar-se ainda mais bonita e bem cuidada, atraindo cada vez mais fiéis, turistas e ajudando no desenvolvimento de nosso Estado.

 

Fonte: Você – Revista da Secretaria de Produção e Difusão Cultural/UFES – ano V – nº 42 – set/1996
Autor: Luiz Mees
Nota: Este artigo é parte do projeto de graduação do autor em Publicidade e Propaganda
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2015

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