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Cruzeiro Esporte Clube - Por Sérgio Figueira Sarkis

Imagem retirada do Livro

Havia um terreno de grandes dimensões, com frentes para duas ruas: 7 de Setembro e Graciano Neves. No início do século XX, ele abrigou uma casa de prostituição, cuja proprietária chamava-se Dona Josefá. À época, foi a pensão mais frequentada de Vitória.

Ao lado da pensão, uma padaria, cujo proprietário era Manoel Gomes Moreira. Além de servir pão para a população, preparava banana de terra cozida, aproveitando o calor do forno, já sem lenha, para assar os frutos, consumidos pelos irmãos Cézar Abaurre e Gilberto Abaurre, então duas crianças.

O dinheiro para comprar os quitutes vinha da venda de rodas de madeira para carrinhos de ladeira, produzidas pelos dois na marcenaria do pai, Celestino. Ela ficava em frente à padaria. Com o passar dos tempos, as edificações vazias entraram em decomposição.

E isto obrigou meu pai, Michel, a determinar a demolição das mesmas, para evitar o desmoronamento, com danos a vizinhos e transeuntes. Durante alguns anos, o terreno ficou encoberto com os entulhos oriundos das velhas construções.

Até que, por ideia e iniciativa minha, ali foi instalado um grêmio com a denominação de Cruzeiro Esporte Clube, tendo a participação de vários amigos na faixa dos 15 anos de idade, dispostos a assumir os encargos para dar efetivo funcionamento à agremiação.

Inicialmente, fizemos reuniões para levantamento das ferramentas que podíamos angariar em nossas casas, tais como, pás, picaretas, enxadas, ancinhos, carrinhos de mão etc. Todos os sócios, de modo geral, estudavam pela manhã. Isto nos permitia desenvolver as obras de nivelamento do terreno na parte da tarde, após concluídos os deveres de casa.

Meu avô, Jayme Fernandes Figueira, arquiteto dos mais exigidos para projetos na Capital, tendo inclusive projetado o primeiro edifício de Vitória, o Antenor Guimarães, até hoje existente na Praça Costa Pereira, preparou uma planta da futura praça de esportes.

Ela seria constituída de uma cancha, hoje quadra, de basquete e vôlei, obedecendo rigorosamente as dimensões oficiais, além de uma caixa de areia para o desenvolvimento de salto em distância, salto em altura e salto com vara.

Pusemos mãos à obra e passamos todos os dias a distribuir o entulho existente de forma a proporcionar uma área plana, para uso esportivo. Como era muito entulho, e não dispúnhamos de recursos financeiros, resolvemos fazer a praça esportiva um metro e meio acima do nível do piso antigo.

Deixamos um espaço lateral, circundando o campo, no nível normal, para instalação das arquibancadas. Usamos os tijolos da demolição, ainda inteiros, para o muro de arrimo. Eles foram empilhados de modo entrelaçado, sem uso de massa de alvenaria.

À medida em que eram colocados um sobre o outro, o entrelace dos mesmos gerava a firmeza necessária. Diga-se de passagem, eles eram de tamanho bem maior que os de agora.

Após vários meses de trabalho constante, conseguimos nivelar as quadras e passamos à parte final, de alisar a área para a pratica dos esportes pretendidos. Como, no início da ladeira da Rua Graciano Neves, havia um terreno com uma curva de nível bem acentuada, dispúnhamos de barro mais do que suficiente para nossa utilização.

Passamos de pronto a explorá-lo, retirando a terra e carregando com carrinhos de mão para a quadra em obra. Finda esta etapa, faltavam os equipamentos para uso nos esportes pretendidos.

Papai nos presenteou com bola e rede de vôlei e bola para basquete. O senhor Laurentino Proença, um dos sócios da concessionária Ford local, aproveitando a madeira que embalava os carros importados, mandou de presente as tabelas de basquete com os devidos aros.

Tudo pronto, passamos a praticar as atividades, realizando também alguns torneios entre clubes amadores. Foi uma época inesquecível, e vale a pena nomear a seguir os que tiveram o mérito da sua execução:

• Ariosto Pagani

• Edmar Bustamante

• Gil Proença

• Ivo Proença

• José Maria Silva

• José Martins Cunha

• Leorne Feitosa Dantas

• Lineu Carneiro

• Luiz Augusto Aguiar Salles

• Luiz Pagani

• Marcelo Monjardim Cavalcante

• Moacyr Barros Cabral

• Ney Bustamante Modenese

• Paulo Monjardim Cavalcante

• Reginaldo Silva

• Régis Bonino Moreira

• Roberto Amaral Carneiro

• Uriel Barcellos

Me perdoem aqueles que, por ventura, tenha esquecido de nominar. Para finalizar, é necessário confessar um fato ocorrido na oportunidade, fazendo com que desistíssemos de continuar nossas brincadeiras.

Era 1947 e o presidente da República, Eurico de Gaspar Dutra, estava programado para visitar Vitória num determinado período do ano. Papai foi procurado pelo cerimonial do Palácio do Governo, para cessão do terreno, com a finalidade de construírem um palanque para as autoridades quando da vinda do mesmo.

Sem consultar a gente, de pronto, papai cedeu a área. Mas acertou o compromisso do empreiteiro de usá-la apenas por 30 dias e entregá-la limpa, com instalação de água funcionando. Só depois entrou em contato conosco, explicando o compromisso assumido.

Mas nos deu o alento de que seria por apenas um mês, e que receberíamos a área totalmente arrumada, com água e ainda com alguma madeira e resto de tintas que poderiam nos servir para futuro.

Todos concordaram e passamos a ficar em stand by, aguardando o prazo se esgotar. Vencido o período acertado, os operários continuavam trabalhando, dando demonstração de precisar de mais tempo para finalizar a tarefa.

Falei com papai. Ele procurou o encarregado e transmitiu para nós ser necessário mais dias para a conclusão do palanque. Àquela altura, enlouquecidos com o problema, resolvemos descarregar nossa insatisfação.

Numa noite, quando não havia mais operários trabalhando, fomos ao canteiro de obras e, coisas de crianças, sabotamos o palanque. Escrevemos palavrões no seu frontispício e frases como “Dutra, cara de bunda", "Dutra, cara de.....". E assim por diante.

No outro dia, ao abrir o portão para reinicio do serviço, o encarregado, vendo o ato de vandalismo, correu para a Polícia, relatando o fato. Após as investigações de praxe, concluíram ter sido coisa de comunistas e passaram a caçar os autores daquela barbaridade.

É claro que, a partir dai, o medo tomou posse do grupo e o glorioso Cruzeiro Esporte Clube encerrou suas atividades para sempre. Hoje, aquela área é ocupada pelo Edifício Jeanne d'Arc, do qual falaremos a seguir.

 

Fonte: No tempo do Hidrolitrol – 2014
Autor: Sérgio Figueira Sarkis
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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