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Cultura em Linhares

Elias Lorenzutti - empalhador

Primeiro momento: os pés descalços tocam o chão, enquanto as mãos batem o tambor. Na mesma vila, pouco mais adiante, um homem e uma mulher vestem-se de Folia de Reis. Segundo momento: na cidade, animais mortos ganham a eternidade em um museu e a primeira artista do município ainda alimenta o sonho antigo de reconhecimento.

Essas cenas fizeram parte da 17ª viagem do Caderno Dois, do Jornal A GAZETA, para a série de reportagens sobre a produção cultural no interior do Estado. Com destino a Linhares, a equipe resolveu parar antes em Povoação. A vila, que fica a 30 km de estrada de terra do centro da cidade, é pequena. Há poucas casas e a noção de tempo é diferente – por lá, parece que o relógio corre mais devagar, talvez no compasso do Rio Doce, que margeia todo o caminho.

Foi ainda bem cedo que encontramos a banda Batuque. São dez jovens, entre 18 e 20 anos, todos nativos da localidade, que ensaiam na antiga sede de um projeto ecológico. Em uma sala pequena, de pouco mais de 2 metros quadrados, 10 meninos se espremem com tambores e instrumentos para ensaiar sua música.

Dantal Rosa (voz e guitarra) é o principal compositor. As músicas próprias “Horizonte” e “Amor Perdido” falam de assuntos de que eles mais gostam: o lugar onde moram e os relacionamentos. A banda ainda conta com Adriano Fernandes (vocal), Ademildo e Zimar (tambor e repique), Anderson (casaca), Wecley (baixo), Richard (percussão), Juliano e Albuíno (tambor de condução).

O som lembra um pouco o da banda Casaca, Mas bebe em referências locais, como as bandas de congo da região, onde os jovens aprendem a tocar.

No mesmo povoamento, seu Arildo Anchieta, 60, e Argentina Barbosa, 68, estão trajados de Folia de Reis. Arildo nasceu em Povoação e aprendeu a “brincar” com os pais e tios. “É uma arte passada de pai para filho. Por isso que agora estamos ensinando os mais novos: para que esse folclore não se perca”, explica Arildo, que é mestre da folia há 30 anos.

Ao lado de Argentina, ele recorda-se das primeiras folias e da alegria de mostrar sua devoção durante a Folia de Reis, que acontece uma vez por ano, sempre em janeiro. “É uma brincadeira gostosa, uma forma da gente expressar a nossa religião”, conta. A origem, eles dizem que vem dos índios, da história dos Três Reis Magos.

Para entrar no clima da folia, eles enfeitam chapéus com flores, fitas e espelhos, usam trajes de festa, como saias, calças e camisas em preto e branco, e mais uma fita vermelha cruzando o peito. Além do visual, a folia tem a parte musical. “A gente ensaia as músicas e todo ano temos canções novas que eu mesmo invento”, explica Arildo.

Ao todo são 20 pessoas que cantam, tocam pandeiro, chocalho e sanfona, divididas em guias, contraguias e marujos, dependendo do grau de conhecimento da brincadeira de cada um. “E também têm os bichos, vaqueiros, macacos. Duvido que alguém fique parado e não tenha medo deles”, brinca.

Já na sede, em Linhares, o Seu Elias Lorenzutti, de 93 anos, é o guardião de um dos maiores acervos da fauna do Estado. São cerca de 3 mil bichos empalhados por ele mesmo, entre 200 espécies de aves e 45 mamíferos, além de peixes e anfíbios. Lá encontram-se representantes únicos de animais do Estado, alguns já extintos, como o cação-espadarte, de 1.300 quilos, encontrado no Rio Doce há 40 anos; a gavião real; a jacutinga; o tatu canastra e o pássaro preto.

O acervo está em um museu, ao lado de sua casa, aberto ao público diariamente, na Rua João Francisco Calmon, 455, no bairro Araçás.

Seu Elias, que trabalha com taxidermia desde os 20 anos, vê em seu trabalho uma forma de preservar o passado para as crianças. “Faço isso por amor à natureza, não ganho nada com isso”, diz.

Defensor da natureza, ele trabalhou durante três anos com o patrono da ecologia brasileira, Augusto Ruschi, empalhando animais para o Museu Melo Leitão. “Ele gostava do meu serviço e era um ativista na luta contra o plantio de eucalipto”, lembra o taxidermista, que fez questão de ensinar sua arte a dois dos seus nove filhos.

Quem mora em Linhares certamente já ouviu falar da Tia Dulce. Considerada uma das primeiras artistas da cidade, ela foi uma das grandes incentivadoras do teatro e da música local, numa época em que o município era uma vila pequena, com apenas uma rua e algumas construções.

Hoje com 90 anos, Dulce Pestana diz que nunca pensou em sair da cidade. “Fui eu quem primeiro fez cultura aqui. Meu sonho, desde os meus oito anos, era ser uma artista igual as que eu ouvia na Rádio Nacional. Mas não tive chance, naquela época era muito longe e eu não tinha condições financeiras”, lamenta.

 

RESUMO DA HISTÓRIA DE LINHARES

A cidade de Linhares fica a 135 km ao norte de Vitória, às margens do Rio Doce. Tem cerca de 200 mil habitantes. A cidade recebeu esse nome como homenagem a D. Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Linhares. Em 1800, surgiu o primeiro povoado que mais tarde originaria a cidade. Ficava num platô em forma de meia-lua, às margens do Rio Doce. Em abril de 1833, em execução a uma Provisão de Paço Imperial, o Povoado foi elevado à condição de vila. Em 1930, começaram a chegar em Linhares os trabalhos de abertura de uma estrada, ligando-a a Vitória, para o sul, e depois, ao norte, até São Mateus. No dia 31 de dezembro de 1943, por decisão do governo do Estado, o município de Linhares foi desligado do município de Colatina. O fato foi muito festejado pelos linharenses, que passaram a contar com seu primeiro prefeito nomeado: Dr. Roberto Calmon. Hoje, além do distrito-sede (Linhares), o município possui os distritos de Bebedouro, Desengano, Regência e São Rafael, Pontal do Ipiranga e Povoação.

 

Fonte: Jornal A GAZETA de 19/08/2007.
Compilado por: Walter de Aguiar Filho em Dez/2010.

 

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