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De bonde com Grijó - Deixando o Sagres e adentrando a Rua Duque de Caxias

Rua Duque de Caxias

Mas tenho que voltar até a Rua Jerônimo Monteiro, pois já estou em Cachoeiro de Itapemirim, aliás, terra natal do Dr. Jerônimo Monteiro. Por estar narrando fatos totalmente extraídos de minha memória, às vezes passo por cima de certos assuntos ou fatos do local em que estou comentando. Assim é que deixei de citar o Sr. Argeu Barbieri como morador da Rua Sete de Setembro, que era proprietário de uma alfaiataria na Duque de Caxias (pai de Ione e Meirinha) e o Dr. Argeu Barbieri, excelente oftalmologista. Também já ia me esquecendo de dois pontos de encontro, que eram a Casa Adão Benezhat e a Distribuidora de Jornais e Revistas Alfredo Copolillo. Na primeira, por volta dos horários do noticiário do Repórter Esso, principalmente às 13 horas, os homens do comércio do café se juntavam ali para ouvirem as cotações do mercado e também o andamento da bolsa do cacau. Ali aproveitavam para tomar a água hidrolitol, tida como ótima para ajudar a digestão, e como os proprietários, os irmãos Neném, Izidoro e Mário apontavam jogo de bicho para o Apriginho e Cleto, tudo se resolvia por ali. Mas o forte da casa era a charutaria e tabacaria, que só não vendia cigarros da Souza Cruz, mas também da Lopes Sá. O Dr. Jones dos Santos Neves fumava um cigarro da Lopes Sá, que era o Petit Londrino, que exalava um tipo de aroma e deixava um gosto diferente do da Souza Cruz. Eu mesmo fumei por muito tempo essa marca, bem como o Joel Santos Neves. O inconveniente era que nós no sábado tínhamos que reforçar o estoque devido ao fato de a marca só existir na Adão Benezath. O outro ponto de encontro, onde o assunto dominante era a política seguida do futebol, era a Agência Copolillo. Os jornais do Rio, São Paulo e outros estados chegavam por volta das onze horas. Os fregueses diários eram controlados através de um número que referia-se à assinatura, e o acerto geralmente era no final da semana, ou do mês. Havia também um ponto do jogo do bicho, que era apontado pelo Sr. Eugenilio Ramos, que tinha como atividade principal a secretaria geral da Federação Desportiva do Espírito Santo. Mas às vezes quem desejava encontrar com outra pessoa e tivesse dificuldade de encontrá-la, um recadinho deixado em uma das duas casas geralmente surtia efeito. Ainda com o Sr. Alfredo trabalhava o Sr. Gilberto Coronel, que era seu cunhado e sogro do jornalista Alvino Gatti. No andar superior funcionava um salão de cabeleireiros e o Studio do fotógrafo Jamil Merjane. Antes da Casa Adão Benezath, existia o Banco Cooperativo de Vitória. Agora, já para frente, depois da fruteira, vinha a casa do Sr. Jorge Buery, uma loja de tecidos nos ramos de varejo e atacado, outro ponto de encontro de assuntos do futebol, pois o Sr. Jorge era um riobranquense inveterado e com ele também trabalhava um dos melhores goleiros que já passaram pelo nosso futebol, que era o Brandolini, hoje próspero comerciante em Guarapari. A casa fazia esquina com a Rua da Alfândega, uma rua pequena e que tinha como atrativo o Restaurante Brasil, de propriedade de seu Antenor Tavares, que servia como ponto forte o filé à moda da casa e grandes moquecas. Passar por ali em hora de almoço era fazer o estômago sofrer, tal era o cheiro da comida. Antes de ser chamado Brasil era Restaurante Barão e em sua placa indicatória apresentava a figura de um peixe vermelho, o que significava especialidade em peixe, e era pertencente ao Sr. Álvaro Barão. Depois o Banco de Crédito Real de Minas Gerais comprou a área que pegava do beco dos caldos-de-cana até a relojoaria do Ruschi, na Rua da Alfândega, e ergueu a sua agência em um prédio de 12 andares, denominando-o de Edifício Sarkis. O Bar Balalaika, dos irmãos Delson e Nenéu Brás, que servia lanches, tinha como sócio seu genro Álvaro. Sua especialidade era batida de coco, limão, gengibre, maracujá, limão, cachaça pura e cerveja. Fazia um bolinho de bacalhau que dava o que falar, salaminho e queijo, além de um churrasco grego que era uma beleza. Sua freguesia inicial era de gente bem modesta. No entanto, pessoas que trabalhavam na Duque de Caxias e que faziam cabelo e barba no salão Totinho, como o Dr. Paulo Veloso, seu irmão Gil, o nosso Canguru, o próprio Totinho, José Gonçalves e outras, à tarde e aos sábados aproveitavam para tomar um aperitivo e saborear os bolinhos de bacalhau. Daí a propaganda de boca em boca foi crescendo e a fama se propagando. Outros fregueses foram se chegando, mas só que todos conhecidos um dos outros, um joguinho de sueca e estopa eram feitos, porém só na base da gozação. O Sr. Lázaro ficou tão popular que, juntamente com Gilberto "Ceguinho", foi escolhido rei momo e bobo da corte, formando uma dupla gozadíssima, devido à diferença das compleições físicas. Mais tarde, com a grande frequência, os fregueses antigos foram retirando-se devido a certas inconveniências e confianças ofensivas. Dessa forma foi caindo o nível e diminuindo a frequência, acabando o bar por fechar as portas. Mas que o Bar do Lázaro marcou ponto em diversas classes de nossa sociedade marcou.

Mas, ainda com referência à Rua do Sagres, esqueci-me de citar o dia, ou melhor, a noite em que pela primeira vez o "menino" Altemar Dutra embarcou para o Rio de Janeiro, para uma apresentação no Programa César de Alencar, na Rádio Nacional. O Altemar era um grande notívago e tinha numerosos amigos, entre eles, Heraldo Brasil, Raul de Oliveira, Betinho Paiva. Bebeto de Oliveira, Moacyr Barros, Simão Nader, Jair Lannes, o Jair Coruja, Waldecir Lima e mais um monte de pessoas. Mas normalmente (isso por volta de 1961) ele fazia um ponto final no American Bar Michel, que ficava na Praia Comprida e era de propriedade de Sérgio Sarkis e meu irmão José Cláudio Grijó de Azevedo. Quando se aproximava da meia noite, o Alternar aparecia, às vezes vindo do centro da cidade, no último ônibus da noite da Empresa Marinho. Saltava com seu inseparável violão e começava a dedilhar. Os últimos fregueses do bar geralmente eram Raul Monjardim, José Antônio, Feu Rosa, Regis Bonino, Alberto Barros, Jorge Correa, Marcelo Monjardim Cavalcante, José Luiz Pippa, José Costa e Hélio Fontes (quando estava na ilha). Um dos principais motivos daquela presença diária do Altemar era que ele morava em São Torquato, e condução para lá, em certa hora da noite ou madrugada, era difícil. Como o bar tinha uns funcionários que moravam por aquelas bandas, o Serginho ou Zé Cláudio tinham que levá-los. Aí o Altemar aproveitava a carona, no entanto, como ele morava com sua mãe no famoso "Beco da Laura", quando a caminhonete ia se aproximando do local ele pedia para saltar e terminava o percurso a pé, e os que moravam por aquelas bandas, o Serginho ou Zé Cláudio, tinham que levá-lo. O Altemar era muito pobre e muito humilde, humildade que levou com ele até a hora de sua morte. Mas vamos para o embarque de Altemar em um ônibus da Itapemirim, para o Rio de Janeiro em busca da fama. Numa certa quarta-feira, Altemar chegou no Michel todo contente dizendo que sua inscrição no Programa do César de Alencar fora aprovada e ele teria que se apresentar no próximo sábado. No entanto, ele estava "duro" para viajar. De imediato, fizemos uma "cotinha" entre os membros da turma que se encontrava no bar e conseguimos uns trezentos cruzeiros, que davam para a passagem e alimentação, porém Alberto Barros, que gostava muito dele, deu mais uns quinhentos cruzeiros e lá ia Alternar com cerca de oitocentos cruzeiros para o Rio de Janeiro. Na sexta-feira, por volta das oito horas da noite, o Alternar já estava no Michel, aguardando a turma para o bota-fora. Lembro-me que lhe disse: "Quando você desembarcar na rodoviária (era a da Praça Mauá), você vai avistar um relógio enorme. É o relógio da Rádio Nacional." Na sexta-feira ele embarcou e no domingo retornava com mais grana no bolso, pois conquistara o primeiro lugar. Mais tarde transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ganhou fama. Para falar de Altemar tem-se que escrever um livro. Pena que se foi tão cedo.

Acho que agora posso deixar o velho Sagres em paz. Já que estava na esquina da Rua da Alfândega e Duque de Caxias, vou seguir por esta. Em frente ao Lázaro, ficava a mercearia de Lívio Leite Cunha, que foi muitos anos diretor do Álvares Cabral. Era pai de Marly, uma linda garota que foi Miss Espírito Santo. Depois vinha a pensão Central, e no térreo, a Barbearia do "Totinho", figura estimada na sociedade de Vitória e grande preparador de moquecas, muito amigo do pessoal da "Velha Guarda". Por seu salão passaram muitos barbeiros, dentre eles, Artur, Octávio, Beriles, José do Botafogo, e Jorcel, que por sinal só cortava cabelo com ele. Em seguida vinham os escritórios de Roberto Saleto e Antônio Gil Veloso, que tinha como auxiliar Mário Gurgel. Ali também Michel Sarkis preparava seus negócios. Paulo de Tharso Veloso e José Gonçalves eram despachantes aduaneiros e ali foi onde assumi o meu primeiro emprego, corria o ano 1948. Cito a Tinturaria de Chee Lee, mais tarde o Bar Marrocos, de seu Alfredo Silva e Orlando Ferrari, o Carnera. O seu Alfredo era pai de Pedro, o Pedro Mentirinha, Luís e Alfredo, grande arquiteto em Vitória. Luís é proprietário de uma revenda de automóveis. Mais tarde, ali funcionou a pensão do Sr. Merlo, pai do engenheiro Eward Merlo e Charles, hoje proprietário de um haras, no Estado do Rio, além da linda Zélia, atleta e Miss Vitória. Depois que encerrou suas atividades, a víspora do Apriginho Gomes transferiu-se para o local. Do outro lado da rua, a loja do Hermelindo, mas anteriormente o Antero Braido montou uma camisaria no local, onde, na parte de cima, funcionava a fábrica de camisas Braizer. Ao lado, o fundo da farmácia Neo-Farme; a Casa Flora, do Sr. Armando, e a Alfaiataria do Sr. Argeu Barbieri. Na parte superior, os escritórios de Marcelino Martins, exportador de café, e a Sociedade Cacauicultora Oliveira Santos. Vizinho ao Bar Marrocos, por volta de 1940 até 45, funcionou a representação dos produtos Bayer, já do seu lado o famoso Bar e Restaurante Hamburgo, especializado em produtos e pratos da culinária alemã, além do Shucruts e o chope branco e o preto servidos em canecos. Ali viveu a maior boemia da alta sociedade de Vitória. Devido à selvageria do quebra-quebra de 1944, eles deixaram de existir. No lugar dos produtos Bauer, o Arnaldinho Magalhães, que era representante da Fiat Lux e do Moinho Inglês, instalou-se no local e montou um armazém dos produtos. Só restou o Bar Globo, que transferira-se da praça Oito. O Bar Globo funcionou na Duque de Caxias até o final da década de 60, comandado pelo querido de todos, o saudoso Francisco Velanni. Ao lado do Globo, vinha a residência de Romeu Silva, que está vivo até hoje e sustentou toda a família como apontador avulso do jogo de bicho para Apriginho. É pai de Janeth, Jackson, o popular baterista Frieira, José Carlos, que foi um dos melhores juízes do futebol capixaba e o querido Duda, que foi um grande jogador de futebol de salão, apesar de ser de pouca estatura. Em baixo, a alfaiataria de Carlos Carielo, onde fiz o meu primeiro terno. O tecido chamava-se caroá. No outro lado da esquina, os fundos da Farmácia Aguirre. Seguindo em frente, os fundos de lojas da Jerônimo Monteiro e prédios que tinham suas entradas por aquele pedaço de rua. Ali localizava-se a oficina de fabricação de chaves do "velho" Sampini e parte da gráfica e papelaria Samorini. Ali também existia uma casa suspeita para encontro de casais.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2019

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