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De bonde com Grijó - Voltando a Praça do Trabalho

Av. Capixaba e a Prainha de Grijó, anos 30/40

Mas, voltando à Praça do Trabalho e à Capitania dos Portos, em certa ocasião foi nomeado capitão de mar e guerra o Capitão Barata (assim era conhecido) para dirigir os portos do Estado. O capitão era do tipo de homem sisudo e de linha dura. Chegou botando pra quebrar. Determinou logo o aprisionamento de todas as embarcações que não tivessem o registro na Capitania. Até o nosso barco, o "Tamaru", entrou em cana e só foi liberado após meu pai matriculá-lo. "Tamaru", para quem não sabe, é um crustáceo que vive debaixo da lama onde entra através de furo que ele abre. Quando a maré baixa, ouve-se o som que ele produz. Esse nosso barco "Tamaru" era famoso, devido às "misérias" que aprontávamos dentro da baía de Vitória e adjacências. Mas, ainda sobre o Capitão Barata, ele baixou uma portaria que proibia o banho de mar em toda orla tanto de um lado como do outro da baía. Quem fosse apanhado tomando banho era conduzido para as dependências da Capitania. Mas a medida não surtiu muito efeito, pois, por ser insuficiente o número de marinheiros existentes na Capitania e serem, em sua maioria, já idosos, jamais conseguiram pegar um garoto na base dos 13 e 15 anos. (Éramos garotos mesmo, só pensávamos em folguedos saudáveis.) Lembro-me os nomes desses marinheiros (e que o Bom Deus os proteja por onde eles estiverem): Ramício, Amarolino, Demétrio, Alcides, seu Balbino, velho amigo de meu pai e que era encarregado da conservação do balizamento e faróis do Estado. Uma passagem que guardo até hoje foi o que fiz com o Ramício. Ele dirigira-se à lancha da Capitania que ficava em frente a uma prainha construída por nós, garotos da Capixaba (ficava nas proximidades do Edifício Março), O Ramício estava fazendo a limpeza na lancha. Como dias antes ele havia aprisionado uma camisa minha, que com a interferência do Sr. Balbino foi recuperada (pois estava tomando banho de mar e a ordem era pegar o banhista ou os pertences), como vingança, mais de gozação, ao vê-lo entretido na limpeza, caí n'água nadei até a lancha (coisa que fazia muito bem) e, aproximando-me do barco que estava amarrado na popa da lancha, retirei os dois remos e os trouxe para a terra. O pobre Ramício ficou sem ter como retornar a terra, o que só aconteceu quando alguém levou-lhe de volta os remos. A minha façanha custou-me alguns dias de castigo, pois o fato chegou ao conhecimento de meus pais.

Mas, para felicidade da nossa turma, que era composta por mim, César Mendonça Saul, Délio Fraga, Aron Afomado, José Luís Mendonça, Oswald e Edinho Daumas, Zequinha, o filho adotivo do Sr. Amadeo Marques, Amintas Freitas, Aluísio Monjardim Calazans Marinho e Raul Monjardim Castelo Branco, Edson Tavares, Humberto e Jorge (Juriba) Diaz, João Ramiro da Fonseca, Armando Bortoluzzi, Tuquinha e Tutuia e outros de lugares do centro, como Zezinho, o Zé da Bola, que não saía da Capixaba, Mané Diabo, Raul Oliveira e muitos outros cujos nomes me fogem (mas ia esquecendo-me de Rômulo e Ralph Cardoso, Renato Vieira Bastos e José Carlos, o Gabiru), foi nomeado para substituir o Capitão Barata o capitão de mar e guerra Paulo Mário Cunha, que agia de forma completamente diversa da do seu antecessor. Liberal, amigo da garotada, comunicativo, modificou todo sistema de vida da capitania. Era um indivíduo nota MIL. Era já um senhor passando dos sessenta e poucos anos, baixinho, de cabelos ralos e grisalhos e de fala mansa. Veio acompanhado de um casal de filhos e uma amiga da família, todos na casa dos vinte e poucos anos. Consigo também veio um filho adotivo de nome Octávio. Tinha uns 15 anos. Nós, que estávamos acostumados a sermos escorraçados pelos marinheiros do Capitão Barata, fomos obrigados ao recuo, quando um belo dia, por volta das 9h30min, o comandante atravessou a Praça do Trabalho e a avenida Capixaba e rumou em direção a nossa prainha vestido com um roupão. Minutos após, surgiam sua filha Anita, uma morena de fechar o trânsito, acompanhada de nada menos que a Mirian, uma loura no mesmo quilate de Anita, chegou o Mário, seu filho, junto com o Otávio, ambos com ótima comunicação e que logo tornaram-se amigos da turma e o mesmo acontecendo com o capitão e as moças. Todos os dias marcavam presença na prainha, que passou a melhorar a afluência, não só para apreciarem o belo, como também despertados pela curiosidade de ver um homem de tamanha importância batendo papo com os jovens sem discriminação. Alguns rapazes, que se julgavam irresistíveis em Vitória, rondavam as cercanias da Capitania, de carro ou mesmo a pé, na tentativa de futuras conquistas. Na época não existia colunismo social, caso existisse eles seriam motivos de grandes noticiários. A Mirian era uma excelente acordeonista e, juntamente com a Anita e o Mário, travaram uma grande amizade com os manos Reginaldo (Indó já falecido) e o Fernando. Com isso, toda tardinha debaixo de uma grande mangueira que havia no quintal da Capitania, após o expediente, a galera (não era esse termo, era mesmo turma) se reunia e ficava a ouvir os acordes do acordeão da Mirian. Daí, novos amigos dos manos foram aparecendo, como Newton Pandolpho, Henrique Pretti e José Lacourt, e passaram a frequentar, aumentando a turma. No entanto, nós, mais novos, continuamos a frequentar os eventos na Capitania, e os banhos na prainha prosseguiam diariamente, com a presença ilustre dos novos habitantes da Ilha, cuja conduta alguns puritanos da Ilha criticavam. Mas com o tempo os ilhéus foram se adaptando aos seus costumes tipo carioca. Isso ocorria em plena década de 40, ou melhor, em 1945. Depois Anita e Mirian passaram a jogar vôlei no Saldanha da Gama e frequentarem os aperitivos dançantes domingueiras e bailes, integrando-se totalmente à vida capixaba. A prainha da Capixaba, que era um local perigoso, era formada pelas águas que desciam do morro de mesmo nome e traziam muita areia, principalmente em época de chuvas fortes. Aliás, as águas escoavam através de manilhas de até um metro de diâmetro. Depois que saíam da biquinha infiltravam-se por debaixo da pedra onde está a "Gruta da Onça" (por sinal, uma invencionice do ex-prefeito Solon Borges, pois jamais se ouviu falar em tal onça). Mas deixemos isso para lá. Depois de passar por esta canalização escoava no mar. Certa ocasião, eu, junto com César Mendonça, mais uns outros dois garotos, adentramos as manilhas e fomos sair no mar. Passamos por debaixo dos seguintes logradouros: rua Barão de Monjardim, Praça do Trabalho e rua Henrique de Novais. Verdadeira loucura de garoto, pois poderíamos ficar engasgados dentro das manilhas, uma vez que fazer manobra para retorno era impossível; além disso, existiam cacos de vidros e outros elementos que poderiam causar-nos danos físicos. Mas garoto é bicho doido e nós éramos garotos. Devido às correntes marinhas da baía, principalmente na parte mais larga, que ficava entre a prainha da Capixaba e a enseada de Capuaba, próximo à fazenda da família Netto, que compreendia toda aquela área onde hoje fica o Cais de Capuaba, as águas, principalmente nas marés de vazante, corriam com muita força em razão da garganta que se formava entre o Penedo e a ilha. Com isso, formava-se um fenômeno chamado "gibura", que consiste em um retorno da água em sentido contrário ao da força maior, neste caso as águas do canal. A "gibura" corria em direção do cais do porto e geralmente por onde ela passava deixava um "peral", que é uma queda brusca e profunda causada por correntezas fortes. Com isso, muitos banhistas atrevidos e que não sabiam nadar bem eram acometidos de afogamentos. Modéstia à parte, umas cinco pessoas que vivem até hoje foram salvas por mim e outros colegas. Para que pudéssemos tomar banho de sol sem termos que usar as pedras, resolvemos apanhar areia de praia em Bento Ferreira, que existia uma praia ali onde está o ginásio poliesportivo do Álvares Cabral. Para tal usávamos o nosso "Tamaru", que lotávamos de areia e depois a espalhávamos na Prainha. Havia dias que dávamos duas viagens. Mas o Capitão Paulo Mário, notando a nossa raça para fazermos a praia, resolveu colocar dois marinheiros à disposição da turma, além de um barco maior e uma lancha da Capitania para o reboque. Aí conseguimos, com o apoio do velho "Tamaru, alcançarmos o nosso objetivo. Aos domingos a prainha lotava, mesmo que as pessoas que frequentavam corressem vários perigos, como: cortes provocados por ostra e cacos de vidros, afogamentos, quedas nas pedras e outros menos significativos. O gostoso era curtir as águas da baía de Vitória, que não era poluídas, e ainda dava para um banho de mar. Quanto ao capitão dos portos Paulo Mário Cunha, após passar três anos entre os capixabas, retornou com a família para o Rio de Janeiro, onde mais tarde reformou-se no cargo de contra-almirante e depois, no governo de João Belchior Goulart, foi ministro da Marinha, por sinal o último a ocupar tal cargo, no referido governo. Mas a prainha oferecia um outro espetáculo, pela parte da tarde. Era o desfile de cardumes de botos que adentravam à baía de Vitória e encostavam próximo a terra em busca de cardumes de tainhas, que eles pegavam fora da água, quando estas pulavam tentando fugir dos assédios deles, mas mesmo assim eles as pegavam direto na boca. Com referência ainda à Capitania, esta transferiu-se, em dezembro de 1998, para novas e modernas instalações na Enseada do Suá. Assim os ciclos da rua Henrique de Novais, Praça do Trabalho, hoje Manoel Monjadim, e rua Barão de Monjardim foram dissecados, em suas curiosidades e fatos.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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