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De bonde com Grijó - volto para a Rua Jerônimo Monteiro para citar a Baratex

Praça Oito, 1946 - Nos tempo de Grijó

Como o meu comprometimento é percorrer o itinerário do bonde, volto para a Rua Jerônimo Monteiro, onde ia esquecendo-me de citar a Baratex, que era uma grande loja no ramos de tecidos. Ao lado do prédio do Hotel Sagres, ficava o prédio da Cia. Vale do Rio Doce. Mas, antes de ser construído, no local funcionou a entrada para o cais das barcas, que ligava Vitória a Paul. Mais tarde, com uma parte de aterro da Avenida Governador Bley e a melhoria da Praça Oito de Setembro, construiu-se um cais de acostamento para as barcas e escadas para o embarque nos botes dos catraieiros. Depois as lanchas passaram a atracar no cais do porto fronteiriço ao Palácio Anchieta, porém, com o crescimento do movimento, principalmente naquela área que transformou-se em depósito de minério de ferro, vindo das jazidas de Itabira em Minas Gerais e dali exportado para o resto do mundo, as lanchas voltaram ao lugar antigo. Antes de chegar ao cais de embarque, existiam uns quatro botecos, onde se tomavam aperitivos e refrigerantes ou caldo-de-cana. Havia também uma estridente campainha que anunciava a partida: após espera de três minutos, uma das lanchas dava a partida e após vinte minutos, outra. Observavam horários rígidos, devido a sincronização com os bondes do continente. Ao seu lado, o prédio do Banco de Crédito Agrícola do Espírito Santo e na parte superior, os escritórios da Companhia Espírito Santo e Minas de Armazém Gerais (CESMAG). Um detalhe é que a entrada do banco era pela Praça Oito de Setembro e a entrada da CESMAG, pela Jerônimo Monteiro, sendo que este prédio foi o primeiro de Vitória a ter portas de elevador em madeira, com indicador externo do percurso e a porta fechada automática. Enquanto as demais funcionavam manualmente e eram do tipo sanfona. Era o progresso chegando. Por volta das décadas de 50/60 deu-se início a construção do novo e atual prédio do Banestes, projetado pelo arquiteto capixaba Dirceu Carneiro, e daí nasceu uma nova era para o banco. Mas os seus melhores momentos foram durante a gestão do saudoso Mário Nicolleti, um ex-funcionário do Banco do Brasil, que, seguindo as mesmas normas adotadas pelo governo do Sr. Jânio Quadro, fez com que todas as estatais e autarquias procedessem a seus movimentos bancários, principalmente as contas correntes no Banco do Brasil. O Sr. Nicolleti adotou o mesmo sistema em nosso estado. Assim, dirigentes de diversos órgãos aproveitavam-se de juros por fora das contas correntes que eram feitas em estabelecimentos bancários particulares. Com esse procedimento, o número de depósitos subiu assustadoramente e em seguida o Banestes tomava a liderança na rede bancária do Estado. No outro lado da avenida, o Banco de Londres, mais tarde Banco da Lavoura de Minas Gerais S.A., que era gerido por José Soares e mais tarde passou a chamar-se Banco Real, mas sempre no mesmo local. A primeira casa comercial de Vitória no ramo de camisaria a funcionar com sistema de ar refrigerado foi uma loja de camisaria Braizer, que funcionava onde foi o Bar Petrópolis e hoje é a Sapataria Atômica, que já beira meio centenário ou acho que já tem mais. Seu proprietário era o saudoso Salim Aarão, que era gente finíssima, e se não me engano a sapataria pertence à família. Quanto à loja, o povo da ilha ainda não conhecia o sistema de ar condicionado. Por isso, muitas pessoas, ao virem as portas fechadas por causa do ar condicionado, não entravam. Resultado: o Antero Braido foi obrigado a tirar o ar e abrir as portas. A antiga agência do Banco de Crédito Real do Estado de Minas Gerais ficava ao lado da Farmácia Neo-Farme e tinha como gerente o Sr. Lauro Torres, que também foi um grande presidente do Clube de Regatas Saldanha da Gama. Depois da construção do Edifício Sarkis, construído pelo banco, este transferiu-se para o local. Ao lado da antiga loja do Crédito Real, a loja mais antiga do comércio de Vitória e sempre no mesmo ramo. Refiro-me à Casa Flor de Maio, que iniciou suas atividades em 1935, no mesmo local em que se encontra hoje. Antigamente, além do ramo carro-chefe, que é o comércio de artefatos de couro, ela vendia ainda artigos têxteis para homens. Porém a concorrência no ramo acabou, e ela o preteriu, ficando só com malas, bolsas, chapéus, cintos, carteiras, maletas executivas e famosas marcas de sapatos, como: Scatamachia, Polar, Fox, Bordalo e DNB, muitos deles em cromo e verniz. Seu proprietário é o Sr. César Naime, que até os dias de hoje comparece diariamente ao local de trabalho. Há até poucos anos o Sr. César, que é um saldanhista, possuía uma baleeira onde fazia os exercícios. Depois vinha a entrada do edifício do mesmo nome onde existiam consultórios médicos e dentários, entre eles o do Dr. Afonso Del'Caro e o de Moacir Lofego, que tratava dos dentes de minha família. Quem também tinha uma sala no local era o Sr. Lauro Laperrieli e era do ramo de café. Sua filha Glorinha, que foi Miss UAGES, era conhecidíssima em nossa sociedade devido a sua alegria, simpatia e beleza. Seu filho Lauro é proprietário da Lavanderia Vitória, que é a mais antiga da cidade. É da década de 40. Encostada ao prédio vinha a maior joalheria de Vitória. Seu proprietário era o Sr. Mário Petrochi, que tinha como auxiliares diretos o filho Fiorino e o genro Alberto Busatto, que era exímio conhecedor de jóias e grande técnico em relojoaria. Era uma loja rica. Possuía diversos tipos de relógios para ambos os sexos, tipos comerciais e residenciais e outros tipos de joias. Por ocasião do quebra-quebra que houve na cidade, conforme descrevi anteriormente, os vândalos partiram em direção à relojoaria. Devida à presença de Orlando Ferrari, José Gonçalves e Darcy Grijó, o Garrafa, e a chegada das tropas do Exército, que tentava tomar posse da situação, a invasão foi contida. O café Expresso do Almeidinha, como disse anteriormente, era ponto de encontro de diversas classes. Políticos, estudantes, comerciantes, desportistas e vadios, todos conviviam no maior respeito. Mas o seu Almeidinha era um grande negociante e importador de bebidas estrangeiras e de um bom humor fora de série e sem distinções. Seus grandes amigos: Dr. Paulo de Tharso Veloso, José Gonçalves, Jackes Chaves, Rubens Costa, Edgard Feitosa, Sr. Petróchi, Teobaldo Trancoso de Oliveira (o saudoso Téo). pai do atual secretário de Turismo Mário Petróchi de Oliveira, e Dr. Rebouças. O café ainda prestava um serviço à sociedade, pois naquela região havia, como até hoje, carência de mictórios, e o pessoal usava as dependências do café. Outro detalhe é que um corredor cortava internamente o prédio e por ele atravessava-se da Praça Oito para a Duque de Caxias. A Farmácia Aguirre vinha logo a seguir. Era de uma família tradicional, cujo patriarca era o Dr. Mário Couto Aguirre, Gildo, João Luiz, Laura, Helena, o falecido juiz da Justiça Federal, Oswaldo e José formavam a sua prole. Em sua farmácia trabalhavam duas figuras popularíssimas de Vitória — Alonso e Jayme —, ambos, além de entenderem alguma coisa de manipulação dos remédios mais corriqueiros, aplicavam injeções. Certa ocasião fui obrigado a fazer um tratamento com Penicilina Bismuto Bago. A receita constava de 90 aplicações intramusculares com aplicação de uma ampola diária durante 15 dias e descanso de 15 dias e repetiam-se as dosagens até o encerramento. Mas acontece que na época eu fazia Escola de Educação Física e remava pelo Saldanha. Portanto, gozava de boa musculatura. Assim, por instinto, ao receber as fisgadas, endurecia a musculatura do braço, dificultando a penetração da agulha, às vezes, até a envergando, devido a calosidade formada pelas perfurações das agulhas e a rigidez do músculo. Isto fazia com que o Jayme "corresse de meus braços". O Jayme era um saldanhista de sete costados e muita gente dizia que era torcedor devido ao fato de a camisa ser vermelha e ele ser um comunista incorrigível. Outra faceta do Alonso foi quando ele imitou o rugido de um leão, na peça "Átila e a Druidesa da Gália": ele tinha que enfiar o rosto dentro de uma lata de querosene vazia e imitar o urro do leão. Tudo isso deveu-se ao fato dele ter uma voz gravíssima. Depois que descobriram que ele é que imitara o leão, a gozação, ou "enxova", como se dizia aqui na ilha, foi grande, principalmente na área dos aperitivos. Era só chamá-lo de homem-leão, que ele virava fera. Na parte superior funcionavam escritórios e consultórios dentário e médico. Os mais conhecidos eram os escritórios do empresário José Maria Vivacqua dos Santos, que trabalhava com madeira e atualmente trabalha com imóveis e terrenos: dos Tamanini, da mesma família da escritora Virgínia Tamanini e sua filha Norca Tamanini. Aliás, por causa de Dona Norca Tamanini, que era casada com o engenheiro civil Agliberto Moreira, a garotada que frequentava a Praia do Barracão passava raiva: quando ela ia para o banho de mar e curtir o sol com suas filhas ainda bem pequenas e nós passávamos a fazer nossos bate-bolas próximos a ela, tínhamos que tomar muito cuidado para que a bola não tocasse nela ou em uma das filhas Zana e Kátia, pois, caso isso ocorresse, simplesmente ela aprisionava a bola e a carregava, só devolvendo no dia seguinte. As meninas da época são muito bem casadas com Aldezir Bachour e Ronaldo Conde.

Mas, voltando ao Ed. Aguirre, dando frente para a Praça Oito, existia o consultório médico do Dr. Delmiro Coimbra. Mais tarde, com o fechamento da farmácia, o local foi ocupado por uma grande loja de calçados. Era a Sapataria Indígena, de propriedade do Sr. Aníbal Motinho, que revolucionou o comércio de Vitória nesse tipo de negócio. Abriu uma loja moderna e muito bem decorada, que fez com que as demais do ramo melhorassem suas aparências. Ela ia quase de ponta a ponta da Rua Antônio Aguirre e só havia duas lojas além dela: a Óticas Leal, de Valdir Leal, e o salão de cabelo, ou melhor, a Barbearia do Conselso. Este salão, além de ser um dos mais velhos da cidade, foi o primeiro a transformar-se em unissex. Mais tarde, com a morte do Sr. Conselso, seus filhos o transformaram em lanchonete. Hoje ainda funciona um bar. Do outro lado da rua, o Pan-Americano, loja especializada em ferragens, louças, material de construção civil, eletrodomésticos, prataria e cristais. Era uma firma tão importante que, se na Mestre Blagé, hoje Mesbla, quando sua matriz ficava no Rio de Janeiro, faltasse certa mercadoria, ela a adquiria através do Pan-Americano. Essa loja foi fundada pelo meu avô Rufino Antônio Azevedo, que como disse anteriormente, era o maior construtor da ilha. Data de fundação: 1902. Funcionou até a década de 50, quando, dada a inflação imposta pela II Guerra Mundial e a diminuição de seus estoques, cujos produtos eram todos importados, sem poder repô-los, os irmãos Rau e Rujino jr. (meu pai), pressionados por três cunhados moradores no Rio de Janeiro, que não concordavam com os pequenos lucros, resolveram acabar com a firma, evitando assim dar prejuízos na praça. Assim, eles colocaram o resto do estoque em liquidação e venderam os dois andares e loja para os Irmãos Helal, que instalaram no local o Magazim Lojas Unidas. As suas duas vitrines eram atrações nas noites de sábados, domingos e feriados, quando ficavam abertas até as 22 horas. Na parte superior funcionava o Hotel Central, que ocupava dois andares. Na parte superior, um relógio importado da Inglaterra mostrava as horas para o centro da cidade. O relógio da Praça Oito foi implantado no local em que ficava o obelisco comemorativo ao quarto centenário de Vitória e mandado construir por ocasião em que era interventor federal em nossa capital o Dr. Jones Santos Neves e como prefeito o Dr. Américo Poli Monjardim e sendo Shoring seu fabricante. O detalhe especial era que as badaladas eram de 15 em 15 minutos, porém os moradores mais próximos começaram a reclamar contra o barulho dos sinos e o prefeito mandou prolongar o intervalo das batidas para meia hora. Na hora em que marcava a mudança do tempo, eram entoados os primeiros acordes do Hino do Estado. Pena que hoje ele permaneça mudo e sem utilidade, servindo até de gozação. Parou no tempo... Ali era o ponto dos bondes, que mudavam a posição dos bancos para o retorno à zona norte, enquanto o que vinha da linha sul tomava a linha do lado direito da avenida em direção à Rua Henrique de Novais e fazia um desvio para entrar na linha simples. O percurso de linha dupla era só nas avenidas Capixaba e Jerônimo Monteiro. Na praça em frente ao relógio ficava o prédio da Alfândega, onde recolhiam-se impostos federais e vendiam-se selos, pois estes eram os antecessores do famoso ICM. O pagamento desse imposto era feito através da colagem de selos, que correspondiam ao valor cobrado. Em duplicatas e notas promissórias estes eram colados e carimbados. Em outros tipos de mercadorias, como móveis, os selos eram aplicados em local protegido de forma que a fiscalização estadual ou federal pudesse constatar o pagamento dos impostos. Lembro-me de diversos funcionários daquela repartição, como: Manoel Velloso, avô do prefeito Luiz Paulo, Dr. Heliomar Carneiro da Cunha. Sr. Arnaldo Barcelos, Ana Maria, sua filha, uma das mulheres mais elegantes de Vitória, Mimina Velloso, filha de seu Maninho Velloso, César Loureiro, Jorge Castainho, Demóstenes Rodrigues e Alexandrino Santos, o Dino, que entrou no setor público federal como marinheiro de proa na lancha que fazia as inspeções aduaneiras e acabou se aposentando como diretor da Receita Federal em Vitória, depois de ter ocupado o mesmo cargo em Nova Iguaçu, no Estado do Rio de Janeiro. Seu pai, o velho Alexandrino, juntamente com José Madureira, também fazia parte da embarcação. Gente humilde mas que merece destaque. Do outro lado da praça, no dia 15 de maio de 1969, irrompeu um incêndio na lixeira do Banco Crédito Agrícola do Espírito Santo, de que resultou a morte do Sr. Wanick, representante que possuía uma sala no 7° andar do prédio. Ele era pai dos meus amigos Wlamir e Walci. Foi uma morte lamentada em nossa sociedade, devido às inúmeras amizades que a vítima desfrutava, principalmente na área da Comunidade Batista. Pegado ao prédio da Receita Federal, domínio da União, que funcionava no mesmo local, no primeiro andar, existia um beco que servia de via de acesso à Alfândega e à Agência da Caixa Econômica de Vitória, tempo em que a Caixa não possuía, talvez, nem 500 correntistas. Depois do prédio do Pan-americano, a loja de tecidos dos irmãos Jorge, Neném, e Tuffi "Tufão" Saade. Era A Queimadeira, talvez a loja que mais vendesse em tecidos. No andar superior, a pensão de dona Peinha Medina, mãe de Otacílio, José e Herculano. A entrada para a pensão era pela parte da Duque de Caxias. Outra loja famosa de Vitória era a Singer, que existe até os dias de hoje. Aliás, a maior parte do comércio ali existente era constituída do ramo de tecidos. Quando A Queimadeira encerrou suas atividades, outra grande loja no ramo têxtil ali surgiu. Foi a Casas Udersfield, que por sinal tinha um slogan, baseado na pronúncia do seu nome. e era assim: "Casas Udersfield, difícil de se pronunciar mais fácil de se encontrar". Ali localizava-se também Casas Santa Terezinha, do saudoso desportista e presidente eterno do Rio Branco Atlético Clube, Sr. Kléber Andrade, que iniciou a obra do estádio que leva o seu nome. Na entrada do Ed. Silva, de propriedade do Sr. José Silva, pai de Beraldo, Norberto e José, também funcionava o consultório dentário do Dr. Dário Derenzzi, sendo que Beraldo e Norberto tinham seus locais de trabalho no prédio. Perto da escada que dava saída para a Rua Duque de Caxias, a alfaiataria do Sr. Júlio Lima, especializada em roupas para militares. Mais tarde essa alfaiataria transferiu-se para a antiga Avenida Capixaba, próximo da firma Espíndula e Cia e hoje funciona numa das lojas do Edifício Joana D'Arc, construído por dona Selika Filgueira Sarkis.

Continuando pela Jerônimo Monteiro, encontra-se a Loja de Calçados Carone, de propriedade de Nagib, que era casado com Dona Julieta Nemer. Eram pais de Willian e José. Este é um grande cardiologista e o Willian, dono da rede de Supermercados Carone, juntamente com seus filhos. Em sua sapataria, a exemplo da Flor de Maio, só trabalhava com sapatos finos do tipo Scatamechia, Fox, Bordalo e sapatos femininos, sempre atualizado com a moda. Mais tarde, o Sr. Carone abandonou o ramo, indo atuar no ramo de comércio atacadista de secos e molhados, na rua do Comércio. Por falar em sapatos, não poderia deixar de abordar a oficina de consertos "A Jato", na Rua Sete de Setembro, que realizava pequenos reparos na hora em que o freguês aparecia. Estes serviços são executados há mais de 30 anos, e seu proprietário é o Sr. Julião. Ainda com respeito a sapatos, na sapataria do Sr. Carone trabalhava um funcionário que se chamava Renato, mais conhecido nas rodas boêmias como Renato Peixe Frito, muito querido na ilha. Atravessando a rua via-se o Banco do Comércio e Indústria de Minas Gerais S.A., que era dirigido por um potiguar que se chamava Cláudio e que, devido à aparência física com o grande cantor de emboladas Manezinho Araújo, por este nome o chamavam os mais íntimos. Seu maior amigo era o Erix Guimarães, empresário de Vitória, juntamente com Dr. Heliomar Carneiro da Cunha, Paulo de Tharso Velloso, Maninho Velloso, Guaracy Carneiro, que era gerente do Banco do Brasil em Guarapari, na época, uma cidade onde todos se conheciam e desfrutavam de tranquilidade, onde se curtia a Praia das Castanheiras, ali justamente onde a maioria morava. O Cláudio, como bom nordestino, cortava pedaços de carne-de-sol, colocava-os dentro de um bornalzinho, misturados com farinha e, entre um gole de caju amigo e outro, lá ia um punhado da mistura do bornalzinho. Geralmente, aliados a esse grupo, dois nordestinos, que eram os irmãos Cavalcante, que tocavam um violão arretado à noite no Siribeira, até o corpo aguentar. Tempo bom. Décadas de 40/50. Falar destas épocas é reviver. No entanto, o meu compromisso é com minha querida Vitória. Mais tarde no banco outros gerentes, subgerentes e funcionários por ali passaram. Seu Tardim, Geraldo Varela, Robson, Loyola muito fizeram pelo desenvolvimento da agência de Vitória. No local onde funcionava o banco era uma antiga cancha de basquete do Vitória FC. Ao lado, uma das maiores casas do comércio da cidade, a Casa Morgado Horta, dos irmãos Alfredo, José, o Costinha, e Manuel, o Manduca, especializada em artigos esportivos. Era uma loja com dimensões até exageradas para a época (décadas de 20/40). No final da década de 40, o Álvares Cabral importou da Inglaterra o primeiro "out-rigger a oito", batizado de Monte Castello. Embora os proprietários da loja fossem saldanhistas, o barco permaneceu exposto ali por vários dias.

Como disse anteriormente, os fatos aqui narrados são todos de minha memória. Nesse caso, ocorrem às vezes vacilos. Assim, mais tarde, ao rever o que escrevi, noto ausência de alguns. No trecho da antiga Av. Capixaba, por exemplo, omiti o Tiro de Guerra 105, cujo responsável era o sargento do Exército Walter Alcântara, que mais tarde serviu na Força Expedicionária Brasileira na Itália, tendo recebido condecoração pela bravura na tomada do Monte Castello, na Itália. No Tiro de Guerra ainda era responsável da Banda Marcial o cabo da Polícia Militar Cícero. Já no Tiro de Guerra 277, que já citei anteriormente, a preparação da banda era feita também por um cabo, mas só que este era do Exército, o que resultava em uma rivalidade tremenda entre os dois toques diferentes de uma para a outra. O responsável pelo Tiro de Guerra 277 era o primeiro-sargento Nodge Ulisses de Oliveira. Para aumentar ainda mais a rivalidade entre os dois cabos, o Cabo Cícero treinava a Banda Marcial do Colégio São Vicente de Paulo, que tinha como diretor o respeitável professor e "Mestre" Dr. Aristóbulo Leão, que desfilava com o inseparável chapéu de feltro cinza em uma das mãos, acompanhando o percurso do desfile. Ele costumava tratar seus alunos de "minhas ovelhas". Já o Cabo Lídio treinava a Banda do Colégio Estadual do Espírito Santo, que era na época o maior estabelecimento de ensino do Estado. A outra omissão foi a respeito da 3ª CR — Circunscrição de Reservista. Ela ficava próximo ao Bar Avenida, mas só que do lado oposto. Os reservistas e futuros reservistas que iam tratar de assuntos concernentes à vida militar tinham que passar por lá. Aproveitando o assunto militar, há até pouco tempo tínhamos apenas três generais capixabas no Exército Nacional: Romildo Cahim, que foi ministro da Administração no governo do presidente José Arimatéia Sarney, generais Ricardo Gianordolli e Hélio Pacheco. O primeiro é de Cachoeiro de Itapemirim e os outros dois de Vitória. Também esqueci de comentar sobre o quebra-quebra ocorrido em Vitória: já narrei algumas passagens dos "vândalos". A Confeitaria e Padaria Colombo pertencia ao Sr. João Balbi, que depois a passou para os filhos João, Vicente, Antônio e Moreno. No dia da revolta popular os promotores do vandalismo invadiram o estabelecimento (que era lindo) e destruíram parcialmente o ambiente. Os irmãos Neném, Isidoro e Mário, que eram proprietários de uma charutaria no interior da casa, tiveram o seu pequeno ramo de trabalho destruído. No entanto, aqueles que destruíam tudo, ignoravam que a charutaria era de propriedade dos irmãos Benezath, sendo o pivô da revolta a morte de Adão Benezath, que viajava a bordo de um dos navios torpedeados nas costas de Pernambuco. Para reparar o erro, pessoas de Vitória cotizaram-se e deram uma charutaria nova para os irmãos e que funcionou no local onde a citei, até o final de década de 60. Com respeito ao quebra-quebra, na Rua Sete de Setembro, em frente à casa dos Grijó, a oficina de rádio do Sr. Fritz, pai do Ramissey, também sofreu danos. No outro dia, indivíduos que participaram também da destruição lembraram que havia rádios ali. Mas já era tarde e ficaram no prejuízo.

 

Fonte: A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi, vol. 6 – Coleção José Costa PMV, 2001
Autor: Délio Grijó de Azevedo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2019

A Ilha de Vitória que Conheci e com que Convivi - Por Délio Grijó

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