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Depoimento de Adelpho Poli Monjardim

Adelpho Poli Monjardim - Acervo de Eugênio Herkenhoff

A 5 de março de 1986, chegou-me às mãos a Circular nº 1/86, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. O conteúdo, interessante proposta do consócio Hermógenes Lima Fonseca, renomado folclorista. Em comemoração dos setenta anos do Instituto, sugere a criação do projeto: “Testemunho de Nosso Tempo”, uma visão do Brasil, do Espírito Santo e do mundo, neste primeiro semestre de 1986. Este testemunho, como o dos demais membros, será solenemente arquivado, em invólucro lacrado, encerrado em uma urna, e só será conhecido a 12 de junho de 2001, quando o Instituto completará oitenta e cinco anos.

Quando este depoimento voltar à luz do dia, estarei do outro lado da vida e por certo outros membros deste sodalício que o lerão. Serei, então, um desconhecido. A minha memória se extinguirá comigo. Cumpre-me identificar-me, como recomenda o “testemunho”: Filho de Alpheu Adelpho de Andrade e Almeida Monjardim (Barão de Monjardim) e de D. Beatrice Poli Monjardim, nasci a 16 de setembro de 1903, nesta heróica Cidade da Vitória, no tradicional Bairro da Capixaba, em bela e pitoresca Chácara. Ali vivi até os seis meses de idade, quando acometido de tifo, fui levado para a Fazenda de Jucutuquara, no Solar Monjardim, hoje museu do Estado. Aos seis anos de idade fui para o Rio de Janeiro, pois fora o meu pai eleito Deputado Federal. Em Jucutuquara passei os melhores anos de minha infância.

Alfabetizei-me no Rio de Janeiro, onde completei o curso primário, no Ginásio Cruzeiro. Em 1915 voltei para Vitória. Esta, apesar da obra revolucionária de Jerônimo Monteiro, não passava de um burgo com menos de vinte mil habitantes. No Ginásio Espírito-Santense completei o curso secundário. Quis seguir a carreira bancária e ingressei no Bank of London & River-Plate Ltd., onde trabalhei cinco anos. Aventurei-me no comércio com dois sócios. Carlos Cunha & Cia, e razão social. Foi em desastre. Dispensei os sócios e arquei com o passivo da firma para não ir à falência, quando sacrifiquei o meu patrimônio e tive de sacrificar o curso de Direito, para o qual tinha feito o vestibular, no Rio de Janeiro.

Fui Corretor Oficial de Café finalmente Tesoureiro da Prefeitura Municipal de Vitória, onde ingressei em 1937. Na Municipalidade ocupei todas as Diretorias, exceto a de Engenharia e Procuradoria. Não fui apenas burocrata. Representei-a em quase todos os Congressos de Municípios do Brasil, quando tive a oportunidade de apresentar uma tese sobre o Êxodo Rural, aprovada pelo Presidente da República, General Eurico Dutra. No Quarto Congresso de Municípios, no Rio de Janeiro, fui o Orador Oficial, e em nome de todos os Municípios do Brasil, falei perante o Congresso Nacional, Senado e Câmara dos Deputados, reunidos.

Por duas vezes fui Prefeito de Vitória. A primeira de nomeação, no Governo de Francisco Lacerda de Aguiar, cargo que exerci de 1955 a 1957, quando exonerei-me por enojar-me da baixa política de intrigas e mesquinharias, infenso que sempre fui à bajulação e ao servilismo. O meu prestígio popular, por várias vezes demonstrado, tornou-se o temor dos profissionais da política. Tornando-se o cargo de Prefeito por eleição, candidatei-me, disputei com cinco candidatos. Venci as eleições de ponta a ponta, sem perder em uma só urna. Tive quase os votos dos outros reunidos.

Digo, sem jactância: Vitória tornou-se Cidade comigo. Não obstante a Prefeitura paupérrima que administrei, modifiquei o panorama da cidade. O arranha-céu, a iluminação moderna, o calçamento asfáltico e de cimento armado, realizações minhas. Quase todas as avenidas foram abertas na minha administração. Calcei mais de uma centena de ruas e abri outras. Numerosas e importantes escadarias foram construídas no meu tempo; assim como galerias pluviais. Quando ainda prefeito nomeado, em 1956, assinei um Decreto de grande importância, a equiparação de vencimentos dos aposentados aos dos funcionários da ativa. Vitória foi a pioneira no Brasil. Saí da Prefeitura de mãos limpas e bolsos vazios, porém, estimado e respeitado pelo funcionalismo e pelo povo. Fui deputado Estadual, quando encerrei a carreira política, incompatível com o meu feitio e personalidade.

Nasci para as letras, vocação demonstrada desde a infância. No Ginásio Espírito-Santense, o Professor de Português, Dr. Jonas Meira Bezerra Montenegro, renomado literato e um dos Patronos da Academia Espírito-Santense de Letras costumava passar descrições, que feitas em casa, seriam lidas em classe. Tomei muitos zeros, porque o Professor julgava não serem feitas por mim, o que não deixava de ser um elogio.

Até o momento em que deponho, 21 de abril de 1986, tenho dezesseis livros publicados e sete Prêmios Literários, sendo o quarto de âmbito nacional. Entretanto fui muito boicotado. As minhas atividades literárias causavam mossa a determinados escribas que postulavam o domínio das nossas letras. Para mim tanto fazia ser o primeiro ou o último no “rank”. Escrever era o meu “hobby”. A modéstia, a minha companheira de sempre. A vaidade é negação da inteligência, isola os indivíduos.

O Brasil e o Espírito Santo vão bem neste primeiro semestre de 1986. O Presidente da república, José Sarney, declarou guerra à inflação que sufocava o país. O quadro mundial não é melhor. Apenas poucas nações ricas passam bem às custas do Terceiro Mundo, do qual participa o Brasil. Juros escorchantes alimentam a nossa dívida, que assim jamais poderá ser resgatada, como sucede aos trabalhadores dos seringais do Norte.

O Brasil deu o grito de liberdade, o segundo 7 de Setembro. Para tanto necessitou combater a corrupção e as mordomias que o debilitavam. Luta árdua, quadro deplorável e estarrecedor. Os ladrões de “colarinho branco”, como apelidou o povo, conjugava o verbo “rapio” em todos os tempos.

Felizmente o gigante tirou o pé do lodo e caminha para ridente futuro. Ainda neste 2000, será maior nação do mundo.

O nosso Espírito Santo também, vai bem. Tudo tem colaborado para o seu desenvolvimento, mesmo a Natureza! As secas e enchentes que assolaram Minas, São Paulo e Paraná, tornaram o Espírito Santo, este ano, o maior produtor e exportador de café. Gerson Camata, o nosso Governador, é jovem e bem intencionado, mas pouco enérgico para se impor aos Partidos e ao próprio “staff”. Deixou-se levar pelas facções situacionistas, que acima de todos os interesses colocam os seus.

Quando prefeito, senti de perto o problema. Não obstante o Estado atravessa fase promissora. Fatores outros têm contribuído para que assim seja. Se acreditarmos em estrela, a do Governador é grande. Ele é excelente pessoa, honesto e esforçado, entretanto carente de pulso para impor a vontade aos Partidos, tornando-se reticente em momentos que a sua autoridade deveria prevalecer.

O Cometa Halley pregou-nos uma peça. Não surgiu com o esplendor que o contemplei em 1910. Praticamente não apareceu. Apenas apresentou o núcleo, nebuloso, esvaecente e à grande distância. A sua presença é sempre temida pelos supersticiosos, como portador de funestos sucessos. Considerado, desde a Antiguidade, como matador de reis. Por acaso o seu aparecimento, em 1910, coincidiu com a morte de Eduardo VII, da Inglaterra. Naquela época os suicídios se multiplicaram na Europa, tal o pavor que causava. Aqui em Vitória, sucedeu interessante caso. Pacato cidadão, temendo que o Cometa destruísse a Terra, mudou-se para a Serra.

Que o Brasil e o Espírito Santo continuem crescendo, que aqui de cima estou olhando.

Pertenço a Academia Espírito-Santense de Letras e a várias outras do Brasil e do estrangeiro. Possuo diversas condecorações, ente as quais a do Pacificador (Exército), do Mérito Tamandaré (Marinha) e da Estrela da Solidariedade (Governo da Itália).

 

Adeus e até cá...

 

Livro: Testemunho de nosso tempo – 28 depoimentos sobre o mundo, o Brasil e o Espírito Santo no primeiro semestre de 1986. Coleção Cadernos de História, nº 38. Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Vitória (ES), 2001
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2012 

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