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Destino dos Bens dos Jesuítas – Por Serafim Derenzi

Palácio Anchieta sendo reformado na administração de Jerônimo Monteiro, em 1910

As igrejas foram confiadas ao Bispo do Rio de Janeiro ao qual estava subordinado o Espírito Santo eclesiasticamente. (11) Tiveram sorte cruel. Com exceção da igreja de Santiago, a mais rica e de melhor arquitetura da Capitania, honrada, depois da independência do Brasil, com o título de Capela Nacional, (12) as igrejas construídas pelas ordens religiosas, foram severamente castigadas pelo tempo e pelo descuido dos vigários e governos provinciais. O cupim e as chuvas conspiraram livremente para transformá-las em ruínas. As irmandades, sempre desavindas por rivalidades, foram responsáveis pelo abandono das casas de Deus ao azar das intempéries. Os poucos padres seculares sacrificam suas funções eclesiásticas à sedução política, que os arrastavam à luta partidária. Quem pede votos, não pede esmolas para obras paroquianas. A igreja de Nova Almeida, com residência conventual anexa, chegou quase a ruir. O célebre painel dos Santos Reis Magos, pintura do século XVI, escapou milagrosamente da destruição total, graças ao amor de André Carloni, construtor comissionado pelo serviço do Patrimônio Histórico Nacional, instituição dos nossos dias, responsável pela preservação do nosso passado urbano. A Residência de Reritiba, Benevente, hoje Anchieta, com sua magnífica igreja, glorificada pelo halo sagrado do Apóstolo do Brasil, não teve melhor sina. A capela de Araçatiba, formosa e adornada de belíssima imagem de N. S. da Ajuda, também foi esquecida pelos proprietários sucessores da grande gleba rural. Os franciscanos e carmelitas não tiveram melhor sorte com seus conventos, igrejas e capelas, depois de deixarem o Espírito Santo. O convento da Penha foi preservado milagrosamente não sem pré juízo na sua estrutura de madeira, sempre à mercê do cupim e do caruncho.

O Colégio Santiago serviu aos mais variados fins: Câmara Municipal, Cadeia, Hospital, quartel, biblioteca, sede e residência do governo, função que ainda guarda. Era, como ainda é, a maior área coberta da cidade e por isso teve, por anos sucessivos, essas funções simultaneamente. As Residências de Nova Almeida e Anchieta foram utilizadas para o mesmo fim público, mas não mereceram o cuidado da preservação. O Patrimônio Nacional, não obstante o minguado das verbas, as assistem paulatinamente, restaurando-lhes a primitiva beleza.

As propriedades urbanas, casas, chãos e terras de cultura da ilha, leiloadas no Rio de Janeiro, em 17 de julho de 1782, foram arrematadas pelo Alferes Francisco Antônio de Carvalho, por 4.441$500, transferindo-as, dois anos depois, pelo mesmo preço ao Condestável Torquato Martins de Araújo, morador em Vitória.

O Condestável comprou também as terras de Camboapina, Ponta da Fruta, Jucu e Araçatiba, a maior gleba particular jamais havida no Espírito Santo. O príncipe Neuwied, em sua viagem de 1816, acampa em Ponta da Fruta, numa casa do Capitão Falcão, sucessor de Martins de Araújo, e visita Araçatiba, descrevendo-lhes as matas e riquezas com especial interesse. Tudo isso no abandono das taperas. Só agora, quase duzentos anos volvidos, com a abertura das rodovias, reflorescem timidamente.

 

NOTAS

(11) Daemon.

(12) Daemon.

 

Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2017

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