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Devaneio

Ou Para desmistificar

Quando descobri que não gostava tanto assim de qualquer tipo de música já era tarde demais. Ao longo de muitos anos fui indevidamente adquirindo, sem que percebesse, fama de músico amador, e de boêmio incondicionalmente fissurado em som. Isso ocorreu porque arranhava o violão, gostava de cantar, fazer serenatas e participar de shows amadores que a turma produzia no efervescente clube Praia Tênis. Por sinal foi neste espaço que Maysa cantou pela primeira vez em público despertando sua veia artística. Do mesmo modo este meu conceito de conhecedor de música se deve ainda à composição de algumas melodias, como Devaneio, que se tornou muito conhecida graças à televisão.

Talvez o fato de ter participado ativamente como ouvinte assíduo e atento observador do movimento da Bossa Nova e me tornado conhecido de seupapas e papisas, tenha também concorrido para essa história. Ainda porque, eu vivia indo e voltando ao Rio quase todas as semanas e, com isso, trazia muitas músicas novas que não raramente tinha o privilégio de aprender com seus próprios autores para repassá-las aos amigos músicos daqui. O palco disso era sempre o sereno da madrugada, na Praça Costa Pereira, as dependências do Hotel Império, do aplicado violonista Evanildo Silva, ou as longas reuniões em casa de alguns dos nossos, como era o caso de Genaro, atualizadíssimo pianista carioca que morava no Horto.

Só agora eu e os que me cercam percebemos o engano desse impróprio entendimento de que conheço música. Fica, infelizmente, ainda para muitos, essa minha falsa imagem da qual pretendo, com minhas desculpas, me redimir. Aproveito esta crônica para curar isso que se tornou um involuntário embuste perseguindo-me implacavelmente como um martelo na consciência. Levei mais de trinta anos para me conscientizar de que não gosto de música. A minha praia mesmo é a MPB e nela, especialmente a Bossa Nova e música melodiosa, seja nacional ou internacional, não importa. Não era outro o repertório do primeiro conjunto do qual participei, ainda no tempo de faculdade, com vários amigos, entre os quais o cantor mais tarde profissional Carlos José, e o acordeonista Paulo Alberto (hoje senador Artur da Távola). Pagode, iêiêiê, forró, xote, rock, heavy metal, e seus estilo, música caipira, etc..., para mim não estão com nada. Embora tenham ritmo, sinto nelas falta de melodia, o que considero o cerne de qualquer composição.

Apesar de originais, nem os mundialmente famosos e aplaudidos Beatles eu conseguia gostar e ouvir. Enquanto todos os adoravam, eu achava aquela música, embora singela e inovadora, chatíssima.

Os músicos não se atrevem a cometer a heresia de reconhecer isto com medo do natural patrulhamento dos fãs. Estes gêneros, desde que os conheci, estiveram brigados com os meus ouvidos. E, é claro, quando alguém não gosta de alguma coisa que a maioria das pessoas gosta, é fácil identificar quem está desafinado, destoando.

Veja aqui o vídeo com a música Devaneio, por Bruno Mangueira:

http://www.youtube.com/watch?v=mm3Vrc1j50E

Por: Carlos Lindenberg Filho (Cariê) – Jornalista e Empresário de Comunicação.
Livro: Vitória de todos os ritmos – 2000.

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