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Do meio da Noite - Por Mário Gurgel

Cais do Hidro-Avião e a Ilha da Pólvora

Do meio da noite surgiu o rapazinho trêmulo e reticente que vinha trazer a notícia da enfermidade de sua mãe, transmitir o seu apelo por um socorro imediato e decisivo, notificar o caso social de terríveis aspectos e cores inenarráveis.

No meio do quarto sórdido e mal cheiroso entre velas infectas e tresandando miasmas; no triste parede-meia com outros cômodos por onde se penetravam os clarões indiscretos da lamparina, ali, na degradação mais constrangedora, está a infeliz mulher do povo, o ventre e o peito descobertos, numa ânsia dolorosa, agonizante, entre estertores e gemidos. Ao lado, sentados no estreito espaço entre o catre e a parede, sentados em linha os cinco filhos que não sabem o que fazer nem o que dizer. Dois menores entre seis e sete anos, um mais velho, retardado e semi-consciente, dois mais velhos abobalhados de sofrimento e de inexperiência. Fora feito o Raio-X, estava-se à espera do exame de escarro para a confirmação legal da sentença condenatória, que se estampava clara e indesmentível, na tosse, nas contrações, no escarro barrento que ela despejava em uma lata disposta à borda da cama de lona. A mulher começou por fazer uma série de recomendações fúnebres e cheias de funestas previsões. Os meninos compreendiam e choravam baixo, como homens, franzindo a boca, baixando a cabeça, sem soluços espetaculares e sem lágrimas visíveis.

De um barracão próximo gritos incontidos e indecifráveis denunciavam o paroxismo místico de um culto religioso e, na vizinhança mais próxima, um casal se desaviera e o homem, revelando embriaguês e fanfarronada, ameaçava destruir tudo. Depois quando foram lhe dizer que estava alguém ao lado, pessoa que tanto podia ser um médico quanto um policial, ele se pôs a cochichar com a companheira, querendo demonstrar que estava apenas contando um caso.

Perto da janela despregada, numa tábua que fazia as vezes de prateleira, estavam os comprimidos de estreptomicina, pastilhas de hidrazida. Um pacote chegado do Centro de Saúde continha manteiga, leite em pó, gêneros em quantidade tão reduzida, que por certo não chegaria para uma refeição sequer. Mas era um donativo, destinava-se a um doente, não poderia atender a todos, principalmente aos sadios. O chão era úmido e pegajoso como barro amassado. Um fogareiro a carvão aceso dava uma temperatura infernal ao aposento. A porta, algumas pedras dispostas desordenadamente, eram a única saída do quarto para o exterior.

O Secretário de Saúde providenciou o internamento da mulher no Hospital da Ilha da Pólvora. Na falta de outra condução, o plantonista da Rádio Patrulha gentilmente cedeu o carro, um senhor, Francisco Gonçalves das Neves, voluntário e humanista, aplicou injeções, esperou a viatura, conduziu a mulher no bote para a Ilha, depositária das últimas esperanças daqueles que chegam, sabendo que não têm oportunidade de retornar. Os dois meninos menores vieram para a Casa do Menino. O retardado terá que buscar guarida e assistência no hospital de Psicopatas, os dois maiores permanecerão no quarto contaminado até arranjarem um meio de vida, um trabalho qualquer. Nós os deixamos cabisbaixos e desanimados e ficamos recordando, minuto a minuto, as extremadas recomendações da mãe agonizante: "Não desamparem os meus filhos! Não deixem os meus filhos morrerem de fome!"

Cumpre, mulher brasileira desamparada, o fado que te foi imposto e a todas as mulheres sem homem, mulheres pobres sem proteção e sem garantias! Vinda do Norte do Estado, minados todos os teus pela xistosomose, arruinados e envilecidos, começa agora o teu calvário efetivo! Talvez teus filhos não morram de fome. Talvez se suicidem, morram de dor de apreciar a tua desdita, enquanto correm maciamente os automóveis pelas estradas, enquanto nos cassinos o jogo persiste na música surda do tic-tac das fichas, enquanto os pares dançam nas boates, os ociosos descansam, os desonestos enriquecem. És o símbolo de uma classe que não tem o direito de chorar, nem de blasfemar, porque isso incomoda os donos do destino de teus filhos. Outras mulheres ficaram lá no meio da lama daquelas valas, no meio daqueles miasmas, esperando a sua hora, observando os filhos que já começam a sentar-se à beira dos leitos sujos e repletos de cobertores velhos e encardidos. Depois elas darão um grito de desespero, alguém chegará e as conduzirá para qualquer lugar, mesmo no meio da noite que já está tardando para todos nós.

(O Diário de 06/10/64)

 

Nota do Site: 

A Ilha da Pólvora, localizada em frente à orla de Santo Antônio, abrigou o Hospital de Isolamento da Ilha da Pólvora, fundado em 1925 no Governo de Florentino Ávidos e, anos mais tarde, renomeado como Hospital Osvaldo Monteiro, em homenagem a seu primeiro administrador. Funcionou até a década de 90, quando foi desativado pelo Governador Albuíno Cunha de Azeredo.

O Hospital da Ilha da Pólvora era para tratamento de Tuberculose. O embarque para a Ilha era no Cais do Hidro Avião. O Hospital Pedro Fontes em Cariacica sim era para tratamento de leprosos ficava em Itanhenga.

 

Fonte: Crônicas de Vitória - 1991
Autor: Mário Gurgel
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2019

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