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Do pouso do Riacho a Linhares

Imperador D. Pedro II

Muito embora as estradas estivessem reparadas recentemente, elas achavam-se em péssimo estado, devido às chuvas, e até completamente alagadas em alguns trechos.

Assim, decidiu-se mandar os cavalos por terra, enquanto D. Pedro II e o seu pequeno séquito, aproveitando o fluxo da maré, partiam aos primeiros minutos do dia 3 (sexta feira), subindo em canoas o caudaloso Riacho.

A grande canoa de voga chamava-se Triunfo e fora luxuosamente preparada para essa viagem. 

Se S. M. houvesse partidoo com a luz do dia, teria visto, à direita, o desaguadouro do rio dos Comboios, que corre paralelo à extensa praia, vindo do norte, e veria outros tributários de maior ou menor importância. Notaria, na margem esquerda, as matas que cobriam o solo arenoso e observaria areais, brejos, charnecas e a vegetação menos desenvolvida, de palmeiras e juncos.

A grande canoa varava silenciosamente o entrelaçado das frondosas árvores das margens, ligadas pelas lianas onde se prendiam os mais lindos espécimes de orquídeas. Seriam bem vistas as ilhas e ilhotas de areia e uma vasta campina, verdadeira pastagem nativa.

Ao alcançar duas léguas acima do ponto de embarque, S. M. teria visto o aldeamento de índios, a futura vila do Riacho, povoação humilde, onde havia uma capelinha de São Benedito e uma escola pública de instrução primária criada em 1853.

Mas nem a orquestração dos sapos ferreiros nem mesmo as picadas dos pernilongos puderam interromper o sono do imperador, bem acomodado na popa da grande canoa, recostado em macios travesseiros.

De manhãzinha, a canoa já transpunha o estreito canal, aberto no extenso alagadiço que estabelecia ligação com a lagoa de Aguiar.

A viagem tornava-se mais pitoresca e eis as impressões de S. M.:

Meia noite e mais alguns minutos largaram as canoas. Acordei às 5 ½. Antes brejo que rio. Bonita florzinha amarela de plantas de folha à tona da água; planta aquática de folha larga cuja fruta parece um ananás; ninho de jacarés; monte de fragmentos de plantas, no meio do qual se acham 10 ovos como de galinha um pouco amarelados; alguns já tinham sinal bem visível da fecundação. Disseram-me os índios canoeiros que um ninho serve a mais de um jacaré.

Esteve coberto e fresco até perto de 11; depois o sol abrasava.

Belas flores cor de rosa assemelhando rosa.

Quase 3 h passam os cavalos a nado o rio; vieram pela picada que está muito má, sobretudo por causa do mato e mandou-se limpar; saíram do lugar de onde parti às 5 da manhã. Pouco mais de 3 h; talvez 10 m; lagoa de baixo d’Aguiar pouco vasta, cercada de capoeira alta, e, atravessando uma pequena corda dela, entrava novamente no Riacho às 3 e 18. O Riacho é muito tortuoso e estreito, custando muito a navegá-lo com canoa grande como a em que vou.

A respeito do Riacho até Comboios, e deste rio vide memórias do D’Alincourt, Revista trimestral do Instituto tomo 7º 1845, que também são muito curiosas a respeito do rio Doce e de um junto à vila da Serra.

As margens do Riacho só de certa altura para cima é que apresentam plantas altas e árvores.

Preocupava-se S. M. com um tipo de cegonha da América Meridional caracterizado pela cor branca, rêmiges e cauda preta e pernas avermelhadas, conhecido pelos selvagens como tapucaia, tabuiaia ou cauanã.

Ainda não vi nenhum tabuiaiá que é espécie de [jaburu; apenas voou um baguari espécie de] socó, que também não pude ver.

Referia-se ao mesmo desconfiado e não encontradiço baguari, o jaburu-moleque (euxenura galeata), também chamado maguari, que ele viu voando, na manhã do dia seguinte, à margem esquerda do canal que liga o rio Doce à lagoa Juparanã.

E prosseguem suas notas:

As mutucas têm-me perseguido e mordido desde que aqueceu o dia; fiz mal de não trazer luvas de camurça.

4 ¼ lagoa do Meio, será do tamanho da de Baixo, tem mato de todos os lados menos do da costa para onde se estende [em] brejal; pegaram nos remos; atravessamo-la do lado do brejo em 5 m, e o Riacho conserva-se largo.

4 ½ lagoa de Cima, 5 menos 10 m alarga bastante, mato nas margens, e duas casinhas ao longe. Vão aparecendo outras casinhas pela margem.

5 ½ começa a estreitar – 5 e 40 m acabou a lagoa. Vejo mato bonito do lado esquerdo. O sol escondendo-se por detrás das árvores do lado esquerdo dava ao vento um tom de saudade [que] muito se harmoniza com o meu sentir;

6 h. Já se descobre do lado direito pouco longe o quartel de Aguiar.

6 e 25 quartel d’Aguiar; o Riacho continua porém muito estreito, aqui ainda é largo.

Fora transposta a lagoa do Aguiar, que Antunes de Sequeira assim cantou, depois, em poemeto:

 

Poética lagoa e fertilíssima

Adiante em ameno deslizar,

Põe imaginação exaltadíssima,

Aquela que lhe chamam d’Aguiar;

Em vários peixes abundantíssima,

Seus cardumes se vêem nela saltar:

Enormes jacarés aí têm ninhos,

E cantam pelo junco os passarinhos.

 

Num dos extremos da lagoa, no lugarejo denominado Quartel do Aguiar – nome do seu primitivo comandante, um sargento, que com o seu destacamento tivera a tarefa de proteger os colonos das incursões dos botocudos –, D. Pedro II desembarcou e recolheu-se a uma choupana.

O seu diário continua:

A casa que é da índia Maria é num alto; chamam Quartel porque havia aí, antigamente um quartel cujas praças traziam o rio sempre limpo.

A água que já bebi é de fonte e guardada; acho-a boa.

Interroguei um mineiro, que tem estado no [Cuieté] e é língua de nome João Roiz da Cunha, sabendo segundo dizem perfeitamente a língua dos botocudos sobre o vocabulário de [Marcus Porte] e escrevi as diferenças notadas por mim. Disse-me o língua que a diferença entre os botocudos do norte e os do sul, Nakenenuks – e Naknekês é a palavra diferente que significa 1; que são polígamos, muito ciosos, marcando ainda com golpes a mulher adúltera, ainda que nem sempre a deixe; que não se casam com parentes até certo grau [não] muito próximo, e que as principais guerras provêm de rapto de mulheres, quando lhes faltam. Têm muitos filhos, nenhuma cerimônia de casamento [senão] o pedido à mulher; de cuja casa já sai esposa. Saem nos princípios do casamento às ocultas como envergonhados, e vivem com as raparigas ainda impúberes como se fossem suas esposas não o sendo aliás realmente senão quando púberes.

Duas horas se deteve D. Pedro no quartel do Aguiar, tempo bastante para o jantar, e de sobra para a conversa que manteve com o intérprete oficial ou língua, dos índios do rio Doce, João Rodrigues da Cunha.

A viagem teve prosseguimento em plena noite, pela estrada do Quartel, aberta outrora e tornada intransitável, mas que fora há pouco mais de três meses mandada melhorar pelo presidente Veloso, em estado de ser transitada por carros.

“Foi um serviço prestado aos habitantes da vila de Linhares”  - informou o correspondente do Jornal do Comércio – “que naquela estrada e navegação encontram por muito tempo um substituto à barra do Rio Doce, de perigoso acesso, porque junto à barra do Riacho há uma enseada abrigada que dá seguro desembarque, seguindo daí os produtos, transportados em canoas até o quartel de Aguiar, e daí em carros até o Rio Doce, em frente a Linhares.”

Eis as impressões do monarca sobre essa estrada, ou caminho, conforme ele escreveu, com mais propriedade:

Às 8 e 25 m segui a cavalo. Caminho de floresta com lua e archote.

Ponte onde os bugres mataram viajantes anteriormente a 1822,como me [informei] depois em Linhares a respeito da data; há aí uma ponte de pau acabada de construir muito recentemente. O caminho tem [sua] lama, tendo chovido para esse lado bastante, e no Riacho apenas chuviscado algum tanto grosso; mas é plano e pode ser bom em relação aos caminhos [no] Brasil.

Às 11 e 5 cheguei ao porto [no] rio Doce e às 11 ¾ desembarquei em Linhares, pouco para dentro da foz do Juparanã que deságua na margem esquerda do rio Doce subindo por uma ladeira um pouco áspera até a chapada que forma a praça da vila se não toda esta.

 

 

Fonte: Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, Vitória, 2008
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2011

 

 

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